A hora de partir.

October 21, 2014 § 2 Comments

Uma das cenas de filme que me chamam mais a atenção se dá em “O Retorno do Rei”.

Put aside the ranger. Become who you were born to be.

Uma das coisas interessantes da Linguística é quando línguas distintas possuem expressões semelhantes.

Em 1977 o Professor Goffredo leu no páteo da Faculdade de Direito, no Jardim de  Pedra das Arcadas, a Carta aos Brasileiros, um manifesto pelo Regime Democrático de Direito, que praticamente se inicia com um pedido: “Deixemos de lado o que não é essencial”.

“Ditadura é o regime que governa para nós mas sem nós. Fiquemos apenas com o essencial.”

O maior problema da Vida é de natureza econômico: temos recursos escassos e necessidades infinitas. Ou pelo menos o meu problema é escassez de tempo e desejos infinitos. Quero ensinar a escrever, ouvir estrelas, pentear salgueiros, tocar gaita de fole, atirar com arco e flecha, aprender os 108 bastões de Kali, escrever um livro de poesias e um de realismo fantástico, ler todos os livros do mundo e aprender todas as lutas, ter milhões de amigos, pintar quadros e esculpir em mármore negro. Plantar uma árvore pra cada dia de vida e viver mais que as estrelas do céu.

I want more life, father.

However, death is the problem.

Nessa estrada escura que é a vida (não pela falta de luz, mas pela impossibilidade de se saber sua extensão ou acidentes) o maior problema é investir o tempo que você, francamente, não sabe se tem.

Acho que daí que advém a importância do dinheiro. Dinheiro é tempo. Pelo menos o tempo que alguém gastou para ganhar aquele dinheiro. Dizem que quando temos tempo não temos dinheiro e vice-versa. Sim, é verdade. Resumidamente porque você vende o tempo que lhe foi dado viver sobre a Terra em troca de um salário.

(E é por isso que impostos me incomodam. Mas tergiverso.)

O fato é que vivendo é necessário organizar seus recursos. Dentre eles o tempo. E isso envolve deixar de lado tudo o que não é essencial. Deixar de lado a roupa de ranger e me tornar quem eu nasci pra ser.

Obviamente seria muito mais fácil se eu soubesse o que diabos eu nasci pra ser. Mas essa é a pergunta errada: ser humano não é se completar, é se construir.

Por isso ora digo: É hora de partir.

Não me mudar, ou sair, ou largar. Não, por favor. Hora de partir como hora de quebrar. Quebrar tudo aquilo que, talvez, não seja essencial.

O primeiro passo foi apagar o facebook do celular. O messenger também. Talvez eu me torne mais produtivo. Talvez não. Mas isso eu quebrei.

Agora vem o segundo: partir do Ask. O Ask é piada. É engraçado, é divertido. Mas a diversão é uma ilusão. Espero que isso gere um efeito colateral: Que o blog ganhe mais atenção. O Ask é o meio de encontrar no caos da internet a inspiração pra uma piada. Hora de encontrar inspiração em outro lugar.

A faculdade? Foi partida. Em pedaços menores. Alguns eu manterei. Outros não.

E tantos outros pedaços pequenos… Twitter, livros que não lerei, trabalhos que não farei, disciplinas que não estudarei.

Temos mania de pensar que gordura é reserva para momentos de necessidade. Gordura é peso. E seu corpo fica mais bonito se só tiver o essencial para viver.

Sua vida também.

 

Virando Vidraça.

October 2, 2014 § 2 Comments

Em 2000 e 2002 eu votei no PT nas eleições.

Na época eu acreditava que o modelo de sobriedade PSDBista não era o melhor e que havia a necessidade de sair do momento de corte de gastos para o início de investimentos. Algo bem keynesianista mesmo: Se eu pago para alguém abrir um buraco e para outra pessoa fechar um buraco, eu estou injetando dinheiro na economia. Se for para fazer qualquer outra coisa mais produtiva (construir um porto, por exemplo) melhor ainda. Ou, citando um ministro PTista, se eu crio o bolsa cachaça, eu estou movimentando, no mínimo, o mercado de bares e cachaça.

O Governo não tem que dar lucro, tem que investir. A República não distribui dividendos, não tem fim lucrativo. O Estado tem função, e todo o poder emana do povo e em nome dele deve ser exercido.

***

No entanto, uma das falácias mais estúpidas da face da terra é “em time que está ganhando não se mexe”. Se mexe sim. As coisas mudam e nossa postura diante das coisas também precisa mudar. Até século passado o sistema de abastecimento hídrico de São Paulo dava conta. Hoje não dá mais. Uma política econômica pode dar resultado por um determinado período e depois deixar de dar.

Em geral, na vida, o equilíbrio é dinâmico: é necessário equilibrar cheio e vazio com ritmo e consciência. Passado o período de regime do FHC (estabilização da economia, privatização, reforma da previdência), era justo que dividissem o bolo que (graças à China e ao Agronegócio) tinha crescido bastantinho.

Essa era a promessa do PT. Me pareceu inteligente na época.

***

Posteriormente eu me arrependi de ter votado no PT.

Não por causa dos programas de Renda Mínima, criança dos olhos do Suplicy e implantado no governo FHC. Isso é perfeito. O problema é que o Lula causou os maiores desserviços que qualquer político poderia causar ao País.

O Mensalão. O Mensalão não é o maior escândalo de corrupção do País. O Trensalão PSDBista foi pior em termos financeiros. Foi um desvio de verba maior. Foi um roubo mais descarado. O problema do Mensalão é que o Mensalão foi uma tentativa de golpe de estado econômico. Foi a oficialização da corrupção. Ele não foi feito para encher o bolso. E o dinheiro usado provavelmente nem era público. O Mensalão foi uma tentativa (bem sucedida em vários pontos) de comprar deputados. O Mensalão foi o Executivo colocando o Legislativo no bolso. Foi uma ofensa aos princípios democráticos que, desde o iluminismo, são considerados sagrados. Atacar isso é algo muito mais sério que roubar muito dinheiro: é atacar aquilo que nós chamamos de país. O PT que se vendia como moralizador perdeu a moral.

A Decepção. Quando o PT se sujou acabou levando para o lixo muito da esperança em uma República moralizada. Foi a partir daí que a discussão deixou de ser “o Partido X não rouba!” e passou a ser “O PArtido Não-X rouba muito mais!”.

A Dialética. De longe o mais danoso. TODOS os discursos do Lula retomam (de forma mais ou menos evidente) uma dialética de luta de classes. Não é que não existem investimentos em aeroportos e o Governo não aplica o mínimo possível a legislação aérea. “É que rico não gosta de ver pobre andando de avião”. Não é que não existem investimentos em transporte. “É que rico não gosta de ver pobre andando de carro”. Não é que as ciclofaixas são uma pintura barata sem planejamento. “É que você é um coxinha que não admite não ter a prioridade no transporte”. Até na hora de criticar a falta de investimentos hídricos o Lula solta um “eles não sabem que nós nordestinos vimos para São Paulo e tomamos água?”. É sempre o mesmo discurso.

E as pessoas acreditam. Não apenas acreditam como têm certeza. Não é que talvez, de certa forma, em algum nível, seja possível que, eventualmente, haja um erro na política econômica utilizada. Você que é um cozinha nojento reacionário que deseja viver intocado nas suas bolhas de privilégio. As pessoas repetem isso de verdade. Hoje eu fui acusado de defender o PSDB por ser da elite e não gostar de ver pobre tendo Ipad. Eu tento me assustar menos ao lembrar que o ser humano que disse isso não tem o mínimo de domínio da mais elementar gramática, mas esse não é o ponto.

***

Não vivemos mais em um momento no qual as opiniões de alguém se justificam pela falta de acesso à informação.

Não cabe mais falar que alguém é contra o casamento homossexual porque “não estudou”. Que é liberal porque “não conhece outra realidade”. É racista porque “é ignorante”. É contra o aborto porque “é machista”.

Vivemos em uma época na qual desfilam partidos políticos socialistas, temos uma bancada evangélica, policiais brasileiros se aliam ao movimento separatista ucraniano e jovens ingleses criados a leite com pêra e ovomaltino decapitam jornalistas em nome de Allah e queimam homossexuais em Minas Gerais.

E está na hora de aceitarmos que essas coisas não acontecem por “ignorância”.

***

O maior desserviço de Hitler não foi a quantidade de pessoas que ele matou. Foi como. Os Campos de Extermínio eram máquinas da engenharia da morte.

A mesma coisa com a bomba atômica.

A Segunda Grande Guerra foi o evento que acabou com a crença humana de que a ciência resolveria nossos problemas. Todos os avanços da ciência não erradicaram a fome na áfrica, calcinaram duas cidades japonesas, mataram alguns milhões de pessoas em função da religião, orientação sexual e política e não foram capazes de impedir a mutilação genital nos países islâmicos e tribais da África.

Tudo isso não aconteceu por falta de estudo. Muito pelo contrário. Os carrascos nazistas eram (em sua maioria) médicos.

Isso aconteceu porque a ciência perdeu. Falhou. Não conseguiu. Deu errado. Cagou no pau. Prometeu e não cumpriu.

E diante desse fracasso brilhante, cada vez mais pessoas se voltam e se voltarão para as ideologias irracionais. Não porque sejam burros, mas porque inteligência não resolveu.

Aceite: não discordam de você por serem burros. Discordam de você por terem um ideal de mundo diferente.

***

O Renascimento Comercial foi o responsável pelo início do racionalismo e, com ele, do conceito de indivíduo.

Nós vivemos desde então em um processo de crescente racionalização e individualização. Não apenas apostamos nossas fichas na ciência como garantimos os direitos do indivíduo. Os Direitos Humanos são, basicamente, isso: a garantia de que o Estado não tem o direito de sacrificar o indivíduo em prol do interesse coletivo.

Demoramos uma história para conseguir isso.

E agora vivemos um momento delicado.

Um momento no qual o meu pipi no seu popô justifica uma execução no oriente médio. No qual um abraço entre irmãos gera uma tentativa de linchamento porque pode ser que seja uma demonstração homoafetiva. Uma época na qual se considera válido enfiar um criminoso numa cadeia sub-humana “pra ele aprender”. Uma época na qual, apesar do nazi-fascismo, apesar da União Soviética, apesar de Lênin apesar do partido comunista do Khmer Vermelho, ainda assim tem gente defendendo uma abordagem social baseada na luta de classes onde “azelite não gosta de ver pobre de Ipad”.

É um momento no qual a progressão óbvia do conhecimento não é tão óbvia assim: Estudar mais não vai ter tornar marxista. Nem liberal. Estudar mais vai te dar mais argumentos para sustentar uma opinião que é, em raiz, emocional: individualismo ou coletivismo? História Humana ou Luta de Classes?

A maior parte das grandes questões do mundo decorrem dessa dialética indivíduo x grupo. E cada vez mais é necessário escolher um lado.

E as pessoas do lado oposto não são ignorantes.

São adversários.

The Torch.

September 2, 2014 § 2 Comments

http://www.youtube.com/watch?v=tbxAPxtjhjs

Wash away all the lines on your face that show how you’ve aged. 

Uma das coisas “interessantes” em corrigir redação de crianças são as eventuais surpresas que elas lhe pregam. Recentemente, por exemplo, li uma redação na qual uma criança recém saída do Ensino Fundamental I mencionava que, qiando ela estava no Fund. I ela gostava de prestar atenção, quando estava indo para a escola, nas pessoas que andavam na rua, e imaginar quem elas eram, o que faziam, de onde vinham e para onde iam. No entanto, quando ela entrou no Fund. II, ela estava tão cansada com a quantidade de tarefas que nem olhava para as pessoas na rua a caminho da escola.

It’s a long way down, your back’s been broken you can’t make the rounds. 

Num primeiro momento, ler isso pode ser engraçado, afinal, oras, é o Fund. II. Que espécies de preocupações uma criança pode ter? Mas efetivamente ela tem essas preocupações. E tudo o que eu tive vontade de fazer foi cantar uma Canção de Ninar e falar que, basicamente, ela entendeu o resumão da vida. Basicamente você vai ter cada vez mais responsabilidades, vai ficar cada vez mais cansada, mais exausta, mais esgotada para pensar nos outros cada vez menos. É, meu amigo… você é um jovem monolito, e a vida é pedrada.

The tables are turned as the litany goes… You’re a rotten old man who’ll be covered in dirt 

As expectativas tendem a se afunilar. Intercalar finais de semana de alegria com semanas de estresse, meses na Europa com anos no escritório, jantares no Fasano com almoços apressados no McDonalds, prostitutas de luxo com a esposa de bom gosto e, se a crise bater forte, uma dose bem forte de religião a cada 6 dias de desespero. De preferência uma religião oriental, dessas que estão na moda.

On your knees and pray to the maker that caused you to bleed

Talvez você sonhe com o passado, quando a vida era mais simples.

Turn back the hands of the clock

Talvez você se abnegue e aceite a vida como “o melhor que deu pra fazer”.

You’re a bitter old man who’s done nothing but work

Talvez você meça o sucesso pela capacidade de resolver problemas e se envergonhe um pouco dos cadáveres na fundação.

Your hands are deformed by the assembly lines

Talvez você se preocupe apenas em fazer o melhor pelos que ama.

You’ve grown cold to the touch of the ones that you love

E talvez você tente ensinar seus filhos a viver.

Ignorance is something you can’t overcome but you’ve passed it on down and that’s something much worse.

E talvez você olhe para os mais jovens e se questione como eles já estão “desse” jeito.

For a bitter young man is now taking the torch.

Resumidamente: Eles tiveram bons mestres.

Silent scorn – you’ve taken it out on the ones you adore inside rage

Aceite que, talvez, se você deixar o mundo, você vai causar menos estrago.

They’ve left you before but they’ll come back again

E talvez as pessoas se lembrem de você bem, afinal, “ele nunca fez mal pra ninguém”.

They’ll pray for you with all their love but this time your indifference just can’t be excused

E, bem, dadas as circunstâncias, não cheirar é melhor que feder.

forced amends, well it’s something you’ll die with but it goes on for them…

***

Hoje eu completo 32 anos.

Toda data simbólica tem algum valor, não em si, mas em símbolo. Afinal, um símbolo é um significante que aponta para um significado. Para se avaliar, portanto, um símbolo, vale uma análise em ambos esses aspectos.

Primeiramente, o aniversário é uma data que se repete anualmente pois é quando o sol volta mais-ou-menos-de-certa-forma para a posição relativa na qual ele estava no momento do seu nascimento. “Mais-ou-menos-de-certa-forma” porque resolveram se preocupar mais com o calendário que com o sol. Nada contra, é só mais um símbolo. Estamos diante do encerramento de um ciclo.

Como em todo encerramento, é hora de passar a régua e fechar o caixa. Olhar para o passado e lembrar como era o tampo antigo.

Obviamente, tal qual a autora da redação lida, é muito sedutor imaginar que o passado era um tempo de felicidade e leveza.

Não era.

Qualquer um que tem a chance de manter um registro da própria vida (quer na forma de diário, quer na forma de blog, como o Anarcoblog e o Malandricus) tem chance de voltar no tempo e ver como o passado era visto quando presente. E quando eu faço isso, tudo o que eu posso dizer é que a Anarcoblogagem está em crise (assim como a Malandricagem), que essa crise é perene, constante, e foi causa e consequência do processo reflexivo que surgiu e se prolongou com esse(s) blog(s).

A Crise era nossa impressão digital e a única coisa que mudou foram as proporções. Pessoas menores, crises menores. Pessoas maiores, crises maiores. E há uma proporção entre as crises (o Fund II é uma crise de verdade para a autora da Redação).

(Infelizmente) não existe um momento de massa crítica no qual as crises, subitamente, parem de surgir. Um grande Nirvana de felicidade pura, sem dor ou sofrimento. Bullshit. Como dito por Mário de Andrade, a vida não tem recompensa, a Vida tem Rendimento.

Tolice idolatrar o passado. Tolice a esperança no futuro. Tanto lá quanto acolá haverá crises.

***

No entanto, aos meus olhos, as crianças têm um benefício gigantesco. Eu chamo de “Memory Span de Peixinho Dourado”. Ralar um joelho é a maior dor do mundo, mas quando passa, acabou. Fazer a lição de matemática é um saco, mas quando acaba, acabou.

Nesse sentido, rancor e ansiedade são as externalidades negativas de nossa maravilhosa capacidade cerebral: lembramos o passado e imaginamos o futuro. E com uma frequência muito grande isso fode a nossa vida mais que um Deputado Federal.

Talvez por isso que tantos mundos dos mortos possuem fontes e cálices e águas e manjares que nos dão as bençãos do esquecimento.

***

Além disso, todo fim é, também, um novo começo. E, como tal, é um ovo de pandora. Pode libertar bens e males (as lendas divergem) mas, indubitavelmente, traze esperança.

E a esperança… Ah, a esperança… A esperança é o que nos salva. E a esperança é o que nos mata.

***

Assim, me aproximo de um momento delicado. Por um lado, é um tremendo desperdício ignorar a gravidez do instante (gravidez, sim, não gravidade, pois é um instante prenhe), mas, ao mesmo tempo, desejar o futuro com base no presente é ignorar que aquele tem o constante costume de surpreender este, de forma que cabe, para o momento, apenas aquilo que parece eterno.

Assim, para os meus 32 anos de idade, desejo transmitir minhas certezas belas, e que minhas convicções sem beleza caminhem comigo em silêncio.

Desejo que minha ignorância seja superada, mas, caso ela não seja, que ao menos não seja ensinada.

Desejo ser capaz de me surpreender com o mundo, pois a surpresa indica falta de preconceitos.

Desejo o amargo, sim, pois tudo o que nasce deve morrer, mas desejo, também, o doce, pois a vida é doce.

Desejo a calma dos monges, não dos que rezam, mas dos que lutam.

Desejo a sorte dos irlandeses, não porque eles não sofreram, mas porque eles sobreviveram.

Desejo a ira dos Anarquistas, pois a vida exige cuidado, mas a ira contra a baixeza não é vício, é virtude.

Por achar tudo isso algo pelo qual vale a pena viver, desejo tudo isso a mim e a todos vocês.

E, por fim, desejo que cada um de nós dê ao demônio aquilo o que ele merece.

Completando velhas frases

August 25, 2014 § Leave a comment

Ciência é uma forma de falar sobre o mundo de uma forma que todos sejam obrigados a concordar.

Magia é uma forma de falar com o mundo de uma forma que ele seja obrigado a concordar.

Arte é uma forma de falar sobre o mundo de forma que todos sejam obrigados a sentir.

Desce.

August 16, 2014 § 5 Comments

- Desce!

A porta do elevador parou quase fechando e se abriu novamente. Ele pensou que era um milagre que ainda existissem pessoas educadas. Ao entrar no elevador o milagre se explicou: quem segurara a porta fora uma velhinha muito mais idosa que ele, recém-chegado aos seus quarenta e cinco anos de vida e se sentia na típica meia idade.

- Obrigado! Eu ia me atrasar ainda mais se tivesse que esperar o elevador voltar.

- Não tem de quê, meu filho, eu sei como você andam apressados hoje em dia. – A velhinha sorriu por trás de seus óculos de armação amarelada que mal permitiam ver o escuro dos olhos, e o homem percebeu que um dos olhos dela estava tapado com um curativo, talvez resultado de uma cirurgia. Suas roupas discretas lhe caíam bem. Eram muito bem cuidadas, embora parecessem antigas. Um perfume mal-lembrado cutucava seu cérebro. Uma mistura de talco ou sabonete com móveis antigos. Se algum dia quisesse desenhar uma vivó, com certeza teria uma modelo perfeita à sua frente.

Apertou o botão para descer para a garagem e viu a porta se fechar. Após o movimento do elevador quebrou o breve silêncio constrangedor:

- A senhora é mãe de algum morador? Nunca te vi no prédio antes…

- Sou sim… Ou melhor, era… Era mãe do morator do 303. Vim arrumar as coisas que eram dele para doação.

- Eram? – perguntou apreensivo.

- Sim, ele faleceu há duas semanas.

- Ah. Sinto muito. – disse arrependido por ter substituído o silêncio constrangedor pelo diálogo constrangedor.

- Não sinta. Foi melhor assim. Ele estava muito velho e muito cansado.

Involuntariamente seus lábios se contraíram. Não estivesse constrangido por já ter cometido um faux pas, riria abertamente.

- É engraçado, não?

- Não, é que…

- Não se justifique, sim, eu sei que é engraçado. Uma velha falando que seu filho estava muito velho e cansado. Não é algo que se vê todos os dias.

- Me desculpe, é que…

- Também não se desculpe… Você não tem culpa de nada. Vocês que estão acostumados a associar cansaço à velhice… Se isso fosse verdade, não teria tantos de vocês se arrastando por aí.

Tentou falar algo, mas o peso dos ossos o fez concordar. Quantas vezes não desejara que o dia não amanhecesse apenas para não ter que se levantar? Mas o sol insistia em amanhecer.

- Sabe, ele nunca mais se recuperou do falecimento da esposa. Quando eles se casaram eu sabia que ela era a razão dele viver. Quando ela morreu, eu sabia que ele não duraria muito tempo.

- Ela morreu faz muito tempo?

- Trinta e cinco anos.

Mais uma vez sua expressão o traiu. Talvez tenha sido o virar de face para a encarar, talvez o olhar surpreso, ou até as narinas, que sempre se dilatavam quando era surpreendido, mas novamente a senhora percebeu.

- O que foi? Surpreso por eu chamar trinta e poucos anos de pouco tempo?

- Não, surpreso por ele nunca ter superado a morte da esposa em trinta e cinco anos. É o tipo de história de viuvez que eu pensei que não existia mais. Sei lá… ele nunca se interessou por mais ninguém?

- Sim, se interessou. Teve outras namoradas e até se casou novamente. Mas isso não é superar. É fingir. Poucas pessoas superam alguma coisa hoje em dia. Saudades é um gás fedorento. Você se acostuma com o cheiro, mas, se deixar, ele rouba o espaço do oxigênio. Então as pessoas andam, correm, conhecem outras pessoas, ficam em movimento como tubarões, porque sabem que se afogam em saudades se parar. E assim sobrevivem. Mas se pararem, morrem. E todo mundo cansa um dia. Só existem dois tipos de morte: assassinato e saudades.

- Nossa… isso não é um pouco exagerado?

- Saudades da Tina?

Não tentou disfarçar. Suas pálbebras se fecharam como se quisessem cortar suas retinas, lágrimas se precipitaram e ao mesmo tempo que seu joelhos fraquejaram suas unhas cortaram suas mãos. Suas mandíbulas contraíram e talvez ele tenha trincado dois dentes. Um nó na garganta amarrou o ar nos pulmões e um soluço escapou ranhento.

- Quem é você? Como você sabe?

- Eu sou uma velha que veio empacotar as coisas do filho. E eu sei porque não dá pra não saber. Você respira o nome dela, o rosto dela está queimado nas suas retinas e na sua mão direita ainda tem um resto da pintinha que ela tem no colo. Ela é o amor da sua vida e você não é o dela. Você acha mesmo que eu saber dela é tão mais estranho que esse elevador não ter chegado ainda ao sub-solo?

- Mas… Por que?

- Não sei. Desisti de saber faz muito tempo. Vocês têm essa mania de procurar causa pra tudo. Nem sempre foi assim, sabia? Teve um tempo em que as coisas aconteciam “porque deus quis”. Acho que eu não consegui me livrar dos velhos hábitos.

- Quantos anos você tem?

- Não sei. Todas essas mudanças de calendário bagunçam a cabeça de uma velha. Até hoje eu não entendo por que criar esse tal de ano bissexto.

- Isso é impossível!

- Não, não é. Já te falei: só existem dois tipos de morte: saudades e assassinato. Alguns têm sorte e morrem rápido. Os que têm azar morrem de saudades. Perdem um amor aqui, um amigo ali, o cachorro acolá, se arrependem de não ter ido falar com alguém, de não terem aprendido a dançar… e quando menos esperam, morrem de saudades. Sim, uns vão falar que foi um acidente de carro, outros que foi doença, outros que ele se alimentava mal. Mas em quê você acha que o motorista estava pensando? Por quê alguém fumaria tanto? É tão difícil assim comer a salada? Vocês são muito orgulhosos. Preferem passar por viciados, maus motoristas, bêbados e descuidados a simplesmente admitir que sentem saudades.

- SIM, É VERDADE, EU AMO A TINA! E DAÍ?!

-E daí nada. Ela ama alguém que não a ama, e assim vocês humanos vão vivendo. Sabia que ninguém vai ficar com o amor da própria vida? Deu tudo errado no comecinho. Por isso o crime de Caim foi tão grande. Abel, aquele paspalho, passava os dias vendo plantinhas crescerem. Um desperdício de vida na face da Terra. Mas era o amor de Irruá. Caim o matou e dali em diante nada mais deu certo. E aqueles velhos excluíram Irruá da história. Nunca confie em quem tem o poder de censurar.

- Espera… Você quer me dizer que você conheceu Caim? aquele Caim? O que foi condenado por Deus por assassinato?

Uma gargalhada gostosa, que mostrou todos os dentes da senhora o surpreendeu.

- Assassinato? Desde quando assassinato é crime? Assassinato é como colocar laxante na comida de alguém. Você só está antecipando um evento natural. Matar alguém não é um pecado contra Deus, é um pecado contra as pessoas. Por isso Deus puniu Caim com a vida eterna: não pela morte de Abel, mas por estragar a Terra. Você nunca se perguntou por quê alguém seria punido com a vida eterna? E sim… conheci Caim. Jantamos de vez em quando.

-…

- Você quer saber como viver pra sempre, não? Todos querem. Quer saber o segredo? Eu vou te dizer: Não tenha saudades. Não deseje voltar praquela tarde no parque em que seus dedos massagearam as curvas dela enquanto você sentia o perfume de seu cabelo. Esqueça.

- É impossível…

-Eu sei. Por isso vocês se chamam “mortais”.

DING!

A porta do elevador interna se abriu e ele saiu empurrando a porta externa. Parou abrindo a saída para a velhinha, retribuindo aqilo que ele confundira com uma gentileza pouco antes, enquanto se esforçava para sustentar o olhar em seu rosto.

- Não, obrigado – ela disse – já cheguei onde queria chegar.

Tempos Interessantes.

August 7, 2014 § 3 Comments

“Quando nasci, uma velha bruxa, cega de um olho e muito enrugada, colocou seu polegar sobre minha fronte e disse: Eu lhe amaldiçoo a viver em tempos interessantes.” – Vergonhosamente chupinhado de um RPG.

Um dos problemas da Internet é a proporção de Pareto. Por essa “Lei”, 20% de algo é responsável por 80% do impacto: 20% dos cruzamentos respondem por 80% dos acidentes, 20% das pessoas respondem por 80% dos crimes (ou da riqueza), 20% dos livros respondem por 80% do mercado editorial, e por aí vai.

Os leitores um pouco mais críticos podem questionar a validade dessa “Lei”, e confesso que eu mesmo nunca efetuei nenhuma pesquisa ou cálculo matemático para comprová-la. No entanto, confiando nas palavras dos que o fizeram, tal Lei está errada em sua proporção, mas não em seu princípio: Menos de 20% dos eventos são responsáveis por mais de 80% das consequências.

Isso é algo a ser avaliado, notavelmente, quando nos damos ao trabalho de tomar a internet como universo amostral. 80% do barulho é feito pelos 20% mais barulhentos. São eles que vão fazer comentários odiosos e odientos nos blogs e sites de política e notícias. É esse tipo de cara que vai falar que a queda do avião na Malásia é culpa do PT.

Embora isso gere uma distorção, essa distorção não é nova, mas histórica. 20% dos autores são responsáveis por 80% dos movimentos literários e artísticos. J.K. Rowling vendeu (em alguns dos anos nos quais lançou livros do Harry Potter) mais livros que todos os demais autores da Europa. Juntos.

A história não é feita pelas massas. A história é feita pelos estandartes.

E essa é a função da Poesia.

A poesia não entretém, não vende, não dá lucro, não ensina alguma coisa clara nem pretende dar erudição. Ensaios dão erudição. Tratados dão erudição. Poesia dá desejo. E por isso é tão difícil traduzir poesia: é uma projeção do símbolo sobre o som: “Tiger, tiger, burning bright/ in the forests of the night/ what immortal hand or guide/ could frame thy fearful symmetry.”

Agora, para conseguir amealhar seguidores, para cativar as massas, a relação do Poeta com seus leitores não pode ser vertical. Ele capta o que os demais já sentem, e dá então a forma “como foi que eu não pensei nisso antes”. A tentativa de uma relação verticalizada é pretensão orgulhosa. São os fracassados que dizem que “as massas não estão à altura de sua arte”.

Bullshit. O problema não são as massas, é a sua incapacidade de olhar pra outra coisa que não seja a merda do seu umbigo. Babaca.

O artista compõe o estandarte que as pessoas reconhecem como belo e o carrega por um tempo. O Artista Imortal inspira outros a carregar seu estandarte também. Por isso Álvares de Azevedo influencia até hoje.

Agora, reconhecida a função da poesia, torna-se cada vez mais insuportável viver em uma época tão materialista e mesquinha, sem ideais ou ideologias, nos quais a medida da felicidade é consumir e postar fotos das viagens no instagram para ganhar likes anônimos.

O caralho.

Vivemos, provavelmente, em uma das épocas mais idealistas e sentimentais de todos os tempos.

Todos almejam uma vida bela, emocionante, cheia de sentido e realização. As pessoas dão risada das tirinhas e piadas do Dahmer não porque o mundo é frio e egoísta, mas sim porque elas reconhecem como valor um mundo que não seja frio e egoísta. Se não fosse um ideal, dariam de ombros com um resignado e indiferente “e daí?”.

Todos querem ser diferentes, todos querem ser admirados, todos querem um emprego que lhes dê felicidade (ou ao menos dinheiro para serem felizes). Como dito antes de mim: Vivemos num tempo em que alguém compra uma calça de quinhentos dólares e a rasga para dar um visual cuidadosamente descuidado. E para quê? Para impressionar Jennifer.

Todos se empenham em alguma coisa. Querem salvar os cachorros de rua, querem salvar o planeta, querem acabar com o sofrimento animal, querem acabar com o sofrimento humano, querem acabar com a escravização promovida pelo sistema financeiro internacional, querem conhecer mais pessoas, aprender algo novo, mudar de status civil, mudar de status social, mudar de status, se mudar. Todos querem uma outra vida, melhor, mais ampla, mais rica e mais confortável.

A insatisfação é a nossa marca de Caim: Queremos um mundo melhor o tempo todo. E isso é idealismo. Ainda que esse melhor seja um conceito muito arbitrário. Ainda que esse melhor seja muito individualista.

Pra falar a verdade, ainda bem que esse melhor é muito individualista. Querer melhorar o mundo, até hoje, deu merda. A guerra para acabar com todas as guerras deu origem ao nazi-fascismo. A revolução para acabar com os privilégios de nascimento descambou em um período meigamente chamado de “Terror”. A Revolução para acabar com a exploração do homem pelo homem deu na Rússia comunista.

Na atual conjuntura, prefiro um filho-da-puta egoísta a um self-righteous idealista.

E nossa Arte, hoje, reflete exatamente isso: a busca pela liberdade individual a todo custo. Depois do pós-modernismo vem o neo-romantismo e seu idealismo (graças a deus) egocêntrico, no qual todos querem ser mais do que realmente são.

(Tomara que isso vire logo boa literatura.)

O ser humano é um animal que cozinha.

August 4, 2014 § 10 Comments

Nas últimas semanas tirei da gaveta um projeto antigo: Aprender as velhas receitas de família.

Falar em termos de “Receita de Família” é um exagero, mas é um exagero perdoável, posto que bonito. E é um exagero porque, em primeiro lugar, uma das receitas que eu quero aprender é a de um xarope pra bronquite, e isso não é exatamente culinária. Outra é de um doce de abóbora, cuja técnica eu queria aprender e outra é uma receita de esfiha com dezenas de truques e macetes secretos. Mas como essa receita minha avó recebeu de uma amiga, dificilmente posso falar que é uma receita da minha família. No máximo é uma receita de uma família que a minha família recebeu e agora eu só preciso caçar os descendentes daquela família e decapitá-los pra ser o detentor do segredo e viver pra sempre. THERE CAN BE ONLY ONE!

Ahem. Tergiverso.

O fato é que, mais importante do que aprender as receitas da família, vem um aspecto ainda mais importante: cada vez mais eu vejo pessoas perdendo contato com a cozinha.

Comer bem, um bom jantar, ter uma experiência gastronômica, tudo isso vem se tornando equivalente a ir a um restaurante. Para falar a verdade, em geral e na média, utilizamos a cozinha para esquentar a comida que compramos pré-prontas, pré-cozidas, pré-processadas, etc, etc, etc. Sequer nos damos ao trabalho de repetir o que foi feito pelos outros: meramente requentamos isso.

Isso não é muito surpreendente, se pensarmos que, grosseiramente falando, toda nossa vida é um mero requentar: repetimos opiniões, repetimos sonhos, repetimos declarações de amor, repetimos poses de fotografias, repetimos textos, etc. Nossa vida é um gigantesco F5 e não nos damos ao trabalho sequer de reinterpretarmos.

dreams

Obviamente “aprender” a cozinhar é um passo pequeno, mas pelo menos é um passo real.

Mas novamente tergiverso.

O cozinhar apresenta algumas questões interessantes. Primeiramente, é quase bruxaria. Você pega um monte de coisas, corta, pica, rala, separa, mistura, purifica, coze, frita, esfria, tempera e serve uma coisa completamente diferente da que você originalmente tinha nas mãos. Daí vem a questão do que, pra mim, é culinária elaborada ou não. Uma coisa é fritar um bife. Outra é fazer um bolo. Eu considero o bolo mais complexo, uma vez que existem muito mais variáveis. E essas variáveis dependem do conhecimento. Da Receita.

Mas a culinária não é só receita. Fritar um bife é fácil. Mas fritar um bom bife é outra história. Espessura, tempo, panelas, selagem, tempero… Tudo isso influi. E isso depende de técnica. E técnica se treina. Se aperfeiçoa. Se pratica. Com a vantagem de que a cozinha tem um resultado e oferece uma vantagem: preparar a própria comida permite você escolher melhor o que quer comer. Isso para não se mencionar o quão mais barato é do que ir a um restaurante (especialmente em São Paulo).

E cozinhar para os outros retoma a ideia de transitoriedade humana: meu jantar não é tão bom quanto o Bife de Ojo do 348. Mas é meu. E uma vez terminado, nunca mais comerei algo igual novamente, uma vez que eu incorporei o aprendizado daquela receita tanto quanto aquela receita leva parte de mim. Como eu não sou o mesmo, o prato nunca mais será o mesmo. (Com certa frequência, ainda bem.)

Isso me faz pensar que a culinária é a única arte realmente humana. O ser humano é um animal que cozinha. E até alguém me provar que existe qualquer outra atividade que só os seres humanos fazem, é a melhor definição que eu já encontrei.

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