Desce.

August 16, 2014 § 5 Comments

- Desce!

A porta do elevador parou quase fechando e se abriu novamente. Ele pensou que era um milagre que ainda existissem pessoas educadas. Ao entrar no elevador o milagre se explicou: quem segurara a porta fora uma velhinha muito mais idosa que ele, recém-chegado aos seus quarenta e cinco anos de vida e se sentia na típica meia idade.

- Obrigado! Eu ia me atrasar ainda mais se tivesse que esperar o elevador voltar.

- Não tem de quê, meu filho, eu sei como você andam apressados hoje em dia. – A velhinha sorriu por trás de seus óculos de armação amarelada que mal permitiam ver o escuro dos olhos, e o homem percebeu que um dos olhos dela estava tapado com um curativo, talvez resultado de uma cirurgia. Suas roupas discretas lhe caíam bem. Eram muito bem cuidadas, embora parecessem antigas. Um perfume mal-lembrado cutucava seu cérebro. Uma mistura de talco ou sabonete com móveis antigos. Se algum dia quisesse desenhar uma vivó, com certeza teria uma modelo perfeita à sua frente.

Apertou o botão para descer para a garagem e viu a porta se fechar. Após o movimento do elevador quebrou o breve silêncio constrangedor:

- A senhora é mãe de algum morador? Nunca te vi no prédio antes…

- Sou sim… Ou melhor, era… Era mãe do morator do 303. Vim arrumar as coisas que eram dele para doação.

- Eram? – perguntou apreensivo.

- Sim, ele faleceu há duas semanas.

- Ah. Sinto muito. – disse arrependido por ter substituído o silêncio constrangedor pelo diálogo constrangedor.

- Não sinta. Foi melhor assim. Ele estava muito velho e muito cansado.

Involuntariamente seus lábios se contraíram. Não estivesse constrangido por já ter cometido um faux pas, riria abertamente.

- É engraçado, não?

- Não, é que…

- Não se justifique, sim, eu sei que é engraçado. Uma velha falando que seu filho estava muito velho e cansado. Não é algo que se vê todos os dias.

- Me desculpe, é que…

- Também não se desculpe… Você não tem culpa de nada. Vocês que estão acostumados a associar cansaço à velhice… Se isso fosse verdade, não teria tantos de vocês se arrastando por aí.

Tentou falar algo, mas o peso dos ossos o fez concordar. Quantas vezes não desejara que o dia não amanhecesse apenas para não ter que se levantar? Mas o sol insistia em amanhecer.

- Sabe, ele nunca mais se recuperou do falecimento da esposa. Quando eles se casaram eu sabia que ela era a razão dele viver. Quando ela morreu, eu sabia que ele não duraria muito tempo.

- Ela morreu faz muito tempo?

- Trinta e cinco anos.

Mais uma vez sua expressão o traiu. Talvez tenha sido o virar de face para a encarar, talvez o olhar surpreso, ou até as narinas, que sempre se dilatavam quando era surpreendido, mas novamente a senhora percebeu.

- O que foi? Surpreso por eu chamar trinta e poucos anos de pouco tempo?

- Não, surpreso por ele nunca ter superado a morte da esposa em trinta e cinco anos. É o tipo de história de viuvez que eu pensei que não existia mais. Sei lá… ele nunca se interessou por mais ninguém?

- Sim, se interessou. Teve outras namoradas e até se casou novamente. Mas isso não é superar. É fingir. Poucas pessoas superam alguma coisa hoje em dia. Saudades é um gás fedorento. Você se acostuma com o cheiro, mas, se deixar, ele rouba o espaço do oxigênio. Então as pessoas andam, correm, conhecem outras pessoas, ficam em movimento como tubarões, porque sabem que se afogam em saudades se parar. E assim sobrevivem. Mas se pararem, morrem. E todo mundo cansa um dia. Só existem dois tipos de morte: assassinato e saudades.

- Nossa… isso não é um pouco exagerado?

- Saudades da Tina?

Não tentou disfarçar. Suas pálbebras se fecharam como se quisessem cortar suas retinas, lágrimas se precipitaram e ao mesmo tempo que seu joelhos fraquejaram suas unhas cortaram suas mãos. Suas mandíbulas contraíram e talvez ele tenha trincado dois dentes. Um nó na garganta amarrou o ar nos pulmões e um soluço escapou ranhento.

- Quem é você? Como você sabe?

- Eu sou uma velha que veio empacotar as coisas do filho. E eu sei porque não dá pra não saber. Você respira o nome dela, o rosto dela está queimado nas suas retinas e na sua mão direita ainda tem um resto da pintinha que ela tem no colo. Ela é o amor da sua vida e você não é o dela. Você acha mesmo que eu saber dela é tão mais estranho que esse elevador não ter chegado ainda ao sub-solo?

- Mas… Por que?

- Não sei. Desisti de saber faz muito tempo. Vocês têm essa mania de procurar causa pra tudo. Nem sempre foi assim, sabia? Teve um tempo em que as coisas aconteciam “porque deus quis”. Acho que eu não consegui me livrar dos velhos hábitos.

- Quantos anos você tem?

- Não sei. Todas essas mudanças de calendário bagunçam a cabeça de uma velha. Até hoje eu não entendo por que criar esse tal de ano bissexto.

- Isso é impossível!

- Não, não é. Já te falei: só existem dois tipos de morte: saudades e assassinato. Alguns têm sorte e morrem rápido. Os que têm azar morrem de saudades. Perdem um amor aqui, um amigo ali, o cachorro acolá, se arrependem de não ter ido falar com alguém, de não terem aprendido a dançar… e quando menos esperam, morrem de saudades. Sim, uns vão falar que foi um acidente de carro, outros que foi doença, outros que ele se alimentava mal. Mas em quê você acha que o motorista estava pensando? Por quê alguém fumaria tanto? É tão difícil assim comer a salada? Vocês são muito orgulhosos. Preferem passar por viciados, maus motoristas, bêbados e descuidados a simplesmente admitir que sentem saudades.

- SIM, É VERDADE, EU AMO A TINA! E DAÍ?!

-E daí nada. Ela ama alguém que não a ama, e assim vocês humanos vão vivendo. Sabia que ninguém vai ficar com o amor da própria vida? Deu tudo errado no comecinho. Por isso o crime de Caim foi tão grande. Abel, aquele paspalho, passava os dias vendo plantinhas crescerem. Um desperdício de vida na face da Terra. Mas era o amor de Irruá. Caim o matou e dali em diante nada mais deu certo. E aqueles velhos excluíram Irruá da história. Nunca confie em quem tem o poder de censurar.

- Espera… Você quer me dizer que você conheceu Caim? aquele Caim? O que foi condenado por Deus por assassinato?

Uma gargalhada gostosa, que mostrou todos os dentes da senhora o surpreendeu.

- Assassinato? Desde quando assassinato é crime? Assassinato é como colocar laxante na comida de alguém. Você só está antecipando um evento natural. Matar alguém não é um pecado contra Deus, é um pecado contra as pessoas. Por isso Deus puniu Caim com a vida eterna: não pela morte de Abel, mas por estragar a Terra. Você nunca se perguntou por quê alguém seria punido com a vida eterna? E sim… conheci Caim. Jantamos de vez em quando.

-…

- Você quer saber como viver pra sempre, não? Todos querem. Quer saber o segredo? Eu vou te dizer: Não tenha saudades. Não deseje voltar praquela tarde no parque em que seus dedos massagearam as curvas dela enquanto você sentia o perfume de seu cabelo. Esqueça.

- É impossível…

-Eu sei. Por isso vocês se chamam “mortais”.

DING!

A porta do elevador interna se abriu e ele saiu empurrando a porta externa. Parou abrindo a saída para a velhinha, retribuindo aqilo que ele confundira com uma gentileza pouco antes, enquanto se esforçava para sustentar o olhar em seu rosto.

- Não, obrigado – ela disse – já cheguei onde queria chegar.

Tempos Interessantes.

August 7, 2014 § 3 Comments

“Quando nasci, uma velha bruxa, cega de um olho e muito enrugada, colocou seu polegar sobre minha fronte e disse: Eu lhe amaldiçoo a viver em tempos interessantes.” – Vergonhosamente chupinhado de um RPG.

Um dos problemas da Internet é a proporção de Pareto. Por essa “Lei”, 20% de algo é responsável por 80% do impacto: 20% dos cruzamentos respondem por 80% dos acidentes, 20% das pessoas respondem por 80% dos crimes (ou da riqueza), 20% dos livros respondem por 80% do mercado editorial, e por aí vai.

Os leitores um pouco mais críticos podem questionar a validade dessa “Lei”, e confesso que eu mesmo nunca efetuei nenhuma pesquisa ou cálculo matemático para comprová-la. No entanto, confiando nas palavras dos que o fizeram, tal Lei está errada em sua proporção, mas não em seu princípio: Menos de 20% dos eventos são responsáveis por mais de 80% das consequências.

Isso é algo a ser avaliado, notavelmente, quando nos damos ao trabalho de tomar a internet como universo amostral. 80% do barulho é feito pelos 20% mais barulhentos. São eles que vão fazer comentários odiosos e odientos nos blogs e sites de política e notícias. É esse tipo de cara que vai falar que a queda do avião na Malásia é culpa do PT.

Embora isso gere uma distorção, essa distorção não é nova, mas histórica. 20% dos autores são responsáveis por 80% dos movimentos literários e artísticos. J.K. Rowling vendeu (em alguns dos anos nos quais lançou livros do Harry Potter) mais livros que todos os demais autores da Europa. Juntos.

A história não é feita pelas massas. A história é feita pelos estandartes.

E essa é a função da Poesia.

A poesia não entretém, não vende, não dá lucro, não ensina alguma coisa clara nem pretende dar erudição. Ensaios dão erudição. Tratados dão erudição. Poesia dá desejo. E por isso é tão difícil traduzir poesia: é uma projeção do símbolo sobre o som: “Tiger, tiger, burning bright/ in the forests of the night/ what immortal hand or guide/ could frame thy fearful symmetry.”

Agora, para conseguir amealhar seguidores, para cativar as massas, a relação do Poeta com seus leitores não pode ser vertical. Ele capta o que os demais já sentem, e dá então a forma “como foi que eu não pensei nisso antes”. A tentativa de uma relação verticalizada é pretensão orgulhosa. São os fracassados que dizem que “as massas não estão à altura de sua arte”.

Bullshit. O problema não são as massas, é a sua incapacidade de olhar pra outra coisa que não seja a merda do seu umbigo. Babaca.

O artista compõe o estandarte que as pessoas reconhecem como belo e o carrega por um tempo. O Artista Imortal inspira outros a carregar seu estandarte também. Por isso Álvares de Azevedo influencia até hoje.

Agora, reconhecida a função da poesia, torna-se cada vez mais insuportável viver em uma época tão materialista e mesquinha, sem ideais ou ideologias, nos quais a medida da felicidade é consumir e postar fotos das viagens no instagram para ganhar likes anônimos.

O caralho.

Vivemos, provavelmente, em uma das épocas mais idealistas e sentimentais de todos os tempos.

Todos almejam uma vida bela, emocionante, cheia de sentido e realização. As pessoas dão risada das tirinhas e piadas do Dahmer não porque o mundo é frio e egoísta, mas sim porque elas reconhecem como valor um mundo que não seja frio e egoísta. Se não fosse um ideal, dariam de ombros com um resignado e indiferente “e daí?”.

Todos querem ser diferentes, todos querem ser admirados, todos querem um emprego que lhes dê felicidade (ou ao menos dinheiro para serem felizes). Como dito antes de mim: Vivemos num tempo em que alguém compra uma calça de quinhentos dólares e a rasga para dar um visual cuidadosamente descuidado. E para quê? Para impressionar Jennifer.

Todos se empenham em alguma coisa. Querem salvar os cachorros de rua, querem salvar o planeta, querem acabar com o sofrimento animal, querem acabar com o sofrimento humano, querem acabar com a escravização promovida pelo sistema financeiro internacional, querem conhecer mais pessoas, aprender algo novo, mudar de status civil, mudar de status social, mudar de status, se mudar. Todos querem uma outra vida, melhor, mais ampla, mais rica e mais confortável.

A insatisfação é a nossa marca de Caim: Queremos um mundo melhor o tempo todo. E isso é idealismo. Ainda que esse melhor seja um conceito muito arbitrário. Ainda que esse melhor seja muito individualista.

Pra falar a verdade, ainda bem que esse melhor é muito individualista. Querer melhorar o mundo, até hoje, deu merda. A guerra para acabar com todas as guerras deu origem ao nazi-fascismo. A revolução para acabar com os privilégios de nascimento descambou em um período meigamente chamado de “Terror”. A Revolução para acabar com a exploração do homem pelo homem deu na Rússia comunista.

Na atual conjuntura, prefiro um filho-da-puta egoísta a um self-righteous idealista.

E nossa Arte, hoje, reflete exatamente isso: a busca pela liberdade individual a todo custo. Depois do pós-modernismo vem o neo-romantismo e seu idealismo (graças a deus) egocêntrico, no qual todos querem ser mais do que realmente são.

(Tomara que isso vire logo boa literatura.)

O ser humano é um animal que cozinha.

August 4, 2014 § 10 Comments

Nas últimas semanas tirei da gaveta um projeto antigo: Aprender as velhas receitas de família.

Falar em termos de “Receita de Família” é um exagero, mas é um exagero perdoável, posto que bonito. E é um exagero porque, em primeiro lugar, uma das receitas que eu quero aprender é a de um xarope pra bronquite, e isso não é exatamente culinária. Outra é de um doce de abóbora, cuja técnica eu queria aprender e outra é uma receita de esfiha com dezenas de truques e macetes secretos. Mas como essa receita minha avó recebeu de uma amiga, dificilmente posso falar que é uma receita da minha família. No máximo é uma receita de uma família que a minha família recebeu e agora eu só preciso caçar os descendentes daquela família e decapitá-los pra ser o detentor do segredo e viver pra sempre. THERE CAN BE ONLY ONE!

Ahem. Tergiverso.

O fato é que, mais importante do que aprender as receitas da família, vem um aspecto ainda mais importante: cada vez mais eu vejo pessoas perdendo contato com a cozinha.

Comer bem, um bom jantar, ter uma experiência gastronômica, tudo isso vem se tornando equivalente a ir a um restaurante. Para falar a verdade, em geral e na média, utilizamos a cozinha para esquentar a comida que compramos pré-prontas, pré-cozidas, pré-processadas, etc, etc, etc. Sequer nos damos ao trabalho de repetir o que foi feito pelos outros: meramente requentamos isso.

Isso não é muito surpreendente, se pensarmos que, grosseiramente falando, toda nossa vida é um mero requentar: repetimos opiniões, repetimos sonhos, repetimos declarações de amor, repetimos poses de fotografias, repetimos textos, etc. Nossa vida é um gigantesco F5 e não nos damos ao trabalho sequer de reinterpretarmos.

dreams

Obviamente “aprender” a cozinhar é um passo pequeno, mas pelo menos é um passo real.

Mas novamente tergiverso.

O cozinhar apresenta algumas questões interessantes. Primeiramente, é quase bruxaria. Você pega um monte de coisas, corta, pica, rala, separa, mistura, purifica, coze, frita, esfria, tempera e serve uma coisa completamente diferente da que você originalmente tinha nas mãos. Daí vem a questão do que, pra mim, é culinária elaborada ou não. Uma coisa é fritar um bife. Outra é fazer um bolo. Eu considero o bolo mais complexo, uma vez que existem muito mais variáveis. E essas variáveis dependem do conhecimento. Da Receita.

Mas a culinária não é só receita. Fritar um bife é fácil. Mas fritar um bom bife é outra história. Espessura, tempo, panelas, selagem, tempero… Tudo isso influi. E isso depende de técnica. E técnica se treina. Se aperfeiçoa. Se pratica. Com a vantagem de que a cozinha tem um resultado e oferece uma vantagem: preparar a própria comida permite você escolher melhor o que quer comer. Isso para não se mencionar o quão mais barato é do que ir a um restaurante (especialmente em São Paulo).

E cozinhar para os outros retoma a ideia de transitoriedade humana: meu jantar não é tão bom quanto o Bife de Ojo do 348. Mas é meu. E uma vez terminado, nunca mais comerei algo igual novamente, uma vez que eu incorporei o aprendizado daquela receita tanto quanto aquela receita leva parte de mim. Como eu não sou o mesmo, o prato nunca mais será o mesmo. (Com certa frequência, ainda bem.)

Isso me faz pensar que a culinária é a única arte realmente humana. O ser humano é um animal que cozinha. E até alguém me provar que existe qualquer outra atividade que só os seres humanos fazem, é a melhor definição que eu já encontrei.

Soneto do Pedido de Vingança.

August 1, 2014 § 5 Comments

Da presença resta o amargo em minha taça
Do passado eu não quero mais a dor
Não abro mão de nenhuma outra lembrança
Beberei até o fim deste licor.

A bebida que no fundo se acumula
É o resto que deixei para o final
As promessas que me destes pra que engula
Me enojam, mas as bebo pra teu mal.

Minhas lágrimas perdi sem as contar,
Dos soluços eu sorvi o amargor
Os seus berros eu gravei para lembrar

Te privarei até mesmo do rancor.
A vingança eu entrego pra Saturno,
E que o tempo lhe devolva minha dor.

Escrever é como sexo…

July 27, 2014 § 6 Comments

Escrever é como sexo: Via de regra você começa novo e sem muita ideia do que está fazendo e demora muito tempo pra começar a fazer algo que preste.

Escrever é como sexo: Você vira e mexe fica com vergonha de algumas coisas que você fez na adolescência.

Escrever é como sexo: Você pode fazer escondido e sozinho, mas é mais legal compartilhar com alguém.

Escrever é como sexo: É difícil ter certeza do ritmo que você quer seguir, e com frequência o ritmo que agrada a uns não agrada a outros.

Escrever é como sexo: É mais fácil à noite.

Escrever é como sexo: Você fica chateado pra caralho quando a outra pessoa acha o que você fez uma merda.

Escrever é como sexo: Se te forçam quando criança vai ser muito difícil você gostar quando adulto.

Escrever é como sexo: Um pouco de álcool ajuda. Muito álcool atrapalha.

Escrever é como sexo: Sempre vai ter alguém pra achar maravilhoso o que você acha ridículo e raramente todo mundo vai achar maravilhoso qualquer coisa.

Escrever é como sexo: Tem gente que adoraria o que você faz, mas você não vai conseguir convencê-la a tentar.

Escrever é como sexo: Se você começa mal, dificilmente vai conseguir salvar.

Escrever é como sexo: não tem que ser bom, tem que ser sempre.

Criatividade Burguesa.

July 23, 2014 § Leave a comment

“Canta, ó musa, a ira de Aquiles, o Pelida.” Ilíada, Verso I.

“Eu não preciso treinar mais nada porque já treino a Espada que os Deuses ensinaram ao meu Mestre.” Trecho da entrevista de um aluno ao autor do livro “O Caminho do Guerreiro”.

Uma das coisas que mais chamava a atenção dos antigos era a natureza do pensamento.

De fato, pensamentos existem. Sabemos porque pensamos. Além disso, sabemos que temos memórias, e tais memórias podem ser acessadas com razoável facilidade.

Pense agora no seu primeiro beijo. De nada.

No entanto, a natureza do pensamento sempre foi críptica (e ainda hoje é). Tão críptica que uma das soluções dadas a esse mistério era o entendimento de que as ideias e pensamentos não eram produtos humanos, mas sim divinos. Se fossem dignos, os seres humanos poderiam receber tais benesses. Daí vem a ideia de inspiração, algo que não está em você mas que se torna parte de você.

As obras de Homero (e todas as demais da Antiguidade Clássica) começam invocando as musas para que estas permitam ao rapsodo o acesso à música de forma clara e perfeita.

Ainda hoje no Japão há uma escola de kenjutsu que perpetua a tradição de um estilo, segundo o fundador, recebido dos deuses por ele em um período de meditação nas montanhas.

Para nós, hoje, afirmar que recebeu alguma coisa “de Deus” (ou do diabo, como o cantor de Blues mítico) é uma tremenda prepotência. Para eles, no entanto, era exatamente o contrário: atribuir aos Deuses uma determinada obra significava tirar sua pessoa do aspecto de maior relevância. O rapsodo não era criador, era meio pelo qual os deuses se manifestavam. Verdadeiro médium.

Ainda quando não atribuíam as obras aos Deuses, frequentemente atribuíam as obras a uma instância superior distinta de si: acredita-se que Homero sequer existiu e que alguns capítulos da Odisséia sequer são originais (aquele que Ulisses mata uma ovelha preta pra invocar os espíritos dos mortos, por exemplo).

Essa filosofia da composição é, quando muito, coerente com a visão de mundo da Antiguidade Clássica, onde o indivíduo, a bem da verdade, não tem vez. A família era condenada pelos crimes do indivíduo e não são poucas as referência a punições de cidades inteiras pelos atos de um indivíduo (Édipo Tirano de Sófocles é um exemplo).

À medida em que o tempo ia passando e a vida melhorando, o ser humano foi deixando de lado a posição passiva e assumindo o protagonismo da história. Com o Renascimento se iniciou um movimento de individuação do ser humano: a criação não é fruto de Deus, mas trabalho ativo do ser humano. O “homem renascentista” é aquele que aprende sobre o mundo e com o conhecimento adquirido, cria. Esse processo de individuação é que permitiu a criação de obras como Romeu e Julieta, afinal, só quando o indivíduo tem valor é possível criar o conflito entre vontade própria e vontade dos outros.

Essa individuação vem de uma ideia muito simples e, como dito em Inception, muito resiliente: minha vida pode ser diferente das demais. E essa ideia não veio de deus (pelo menos não como os antigos acreditavam), mas dos homens. Mais precisamente, da burguesia. O caráter histórico do ser humano é uma ambição: queremos morrer melhor do que nossos antepassados viveram. E para alcançar tal fim precisamos de meios. Esses meios podem ser 2.500 calorias por dia, penicilina ou um Ipad. Mas o fato é que esses meios são fornecidos por alguém que lucra (e bastante) com isso. E para que a vida deles fosse melhor que a dos pais deles, a vida de todo mundo tinha que ser um pouco melhor.

Autodeterminação, livre-arbítrio, história, individualidade… O Autor só pode vender um livro porque foi ele que escreveu (não deus). Só se suporta um incômodo pois há a esperança de que esse incômodo um dia deixe de existir. Ainda hoje comemos dos frutos do Renascimento Comercial e nem sabemos direito. Até o Direito Penal Moderno descende daí (Saudações, Beccaria!).

Óbvio que nem tudo são flores. O atual estado do ecossistema é fruto disso. E hoje assistimos o individualismo chegar aos pontos mais extremos, como o direito à autodeterminação do gênero sexual. Mas por mais estranho que isso possa parecer, parece melhor do que responder pelos crimes da família e não poder, sequer, escolher a que servir.

(E eu dou um pouquinho de risada quando penso que toda a questão GLS e de liberdades individuais é uma discussão burguesa.)

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