A Milésima Corda do Banjo.

March 28, 2014 § Leave a comment

Lembro-me de uma vez, quando eu era criança, durante as férias, que, ao procurar no jornal da casa da minha avó se havia algum filme interessante na televisão, eu passei por cima de uma sinopse interessantíssima.

Era um filme sobre um garoto que havia nascido paralítico, em um vilarejo mexicano, e que, desde a mais tenra idade, tocava banjo. Um dia, um andarilho cego chegou em sua vila e, ao ouvir o garoto tocar banjo, disse-lhe que o dia em que o rapaz estourasse a corda de seu banjo pela milésima vez, ele estaria curado de sua paraplegia e conseguiria andar.

Para falar bem a verdade, eu não vi esse filme, apenas li sua sinopse. Acho que ele passava de madrugada e, na época, eu não podia ou não estava disposto a ir dormir de madrugada para assistir um filme.

De qualquer forma, esse filme entrou para a minha história como um filme que nunca vi e, consequentemente, é idealizado. É como a música dos Engenheiros do Hawaii que não existe e eu passei anos procurando, “Acontece toda vez que me apaixono”. Não sei como o filme termina. Não sei como o garoto reagiu à notícia. Se se entregou de corpo e alma à prática do banjo para tentar estourar, o quanto antes, sua milésima corda, se desistiu de tal empreitada, se contou desesperadamente cada corda estourada ou se deixou que as cordas estourassem por si.

Nem sei se a milésima corda estourou, se o garoto voltou a andar, se ele morreu antes da última corda estourar, ou, ainda, se em algum momento teve alguma epifania de que voltar a andar era algo pequeno comparado à música que tocou (lição de moral que partiu de alguém que, obviamente, tem as duas pernas funcionando muito bem).

Mas eu acho que a milésima corda do banjo é uma ótima metáfora.

Fato é que a prática é essencial ao aperfeiçoamento. Músicos praticam. Dançarinos praticam. Artistas marciais praticam. Médicos praticam. Não consigo pensar em nada na vida que não esteja sujeito à prática. Até sexo. Especialmente sexo. Os/as virgens que me perdoem.

Por outro lado, o problema da prática é que ela é sempre a promessa de um andarilho cego. “Se você praticar, você vai conseguir.” Quem disse? Quantos nunca chegam lá?

Falam muito das histórias de superação dos lutadores e campeões mundiais, mas nunca falam das centenas de fraturas por estresse, dos esportistas que lesionam os olhos e nunca mais entram em campo ou dos que foram derrotados na primeira rodada, perdendo pro campeão. Se tivessem perdido para o Campeão na última, seriam medalha de prata. Perdendo na primeira, não são nada.

Repetem à exaustão a história de náufragos salvos por golfinhos que os carregaram até a praia. E a história dos náufragos levados pro outro lado?

Ninguém repete a história dos afogados unicamente porque os afogados não têm história pra contar.

A prática ajuda, sim, sem dúvida.

Mas será que mil chutes por dia te levam ao chute perfeito?

Será que mil acordes te levam ao acorde perfeito?

Mil piscinas? Mil voltas na quadra? Mil desenhos? Mil pinturas? Mil textos?

Ninguém sabe. Mas mesmo assim se dedica a algo.

(Até porque, não se dedicar a nada é muito perto de já estar morto.)

Toda prática é uma questão de fé. Fé de que um dia o chute perfeito surja.

Novamente, você está diante do muro de espelhos. Você vê o passado e seus padrões, e tenta projetar um futuro. Se houve melhorias, você acredita que elas vão continuar ocorrendo. Se você não vê melhorias, bem vindo ao deserto. A paisagem nunca muda, mas parar de andar não te leva a lugar nenhum.

José caminha sem saber pra onde. Depois da luz apagada, do povo sumido, da noite esfriada, sem verso e sem protesto. Mas caminha.

Para os Gregos o Universo se criou sozinho. O Caos se rasgou, se dividindo entre Céu e Terra, Amor e Morte. Para os Gregos, Eros, o Amor, era a suprema potência cosmogônica de união. Esquece o bebê com arco e flecha: Amor é o que mantém seus átomos unidos. Thânatos, por sua vez, é a potência de desagregação, desintegração.

Basicamente, uma bomba atômica é um amor morrendo. Faz muito sentido se pensarmos na destruição, na morte e na contaminação e envenenamento que perdura por séculos.

Para perseguir um objetivo, a força primordial é o Amor. Desejamos nos unir àquela situação imaginada. Seja ela um campeonato de Taekwondo, um diploma, um carro novo ou a Ana Hickmann.

O que nos permite perseguir, dia após dia, um determinado objetivo é o Amor àquele objetivo. Ainda que seu objetivo seja ganhar dinheiro, você ama os benefícios que o dinheiro lhe trás. Simples assim.

Precisamos de amor para perseguir os objetivos dos quais acreditamos sermos capazes de atingir. Precisamos de ainda mais amor para perseguir os objetivos dos quais não acreditamos sermos capazes de atingir. Precisamos de amor para uma prática pois é eles que nos mantém andando e nos dá esperança. Mesmos sabendo que a esperança é o que nos mata.

***

Hoje terminei minha primeira caneta de correção de redações.

O Nascimento de uma Alma é Coisa Demorada.

March 10, 2014 § Leave a comment

O mito cosmogônico de um povo fala muito sobre como ele enxerga o mundo e, consequentemente, sua postura perante a vida.

Nossa cultura é dominada pela cultura judaico-cristã, na qual um deus externo e independente do universo criou este por meio da organização (separou céu e terra, dia e noite, sol e lua, águas superiores e águas inferiore, and so on).

Depois disso ele pegou barro dos quatro cantos da Terra e criou o homem, soprando vida em suas narinas e dando pra ele o poder de nomear a criação.

E dar nomes é conhecer o íntimo da coisa nomeada.

Até onde se sabe, Adão não teve infância e Eva não passou pela puberdade.

Para o nosso mito ocidental, o ser humano nasceu pronto e encontrou tudo preparado. Sim, é verdade, ele cagou no pau, foi bicudado pra fora do Éden e, desde então, foi obrigado a comer o pão com o suor do próprio rosto e por aí vai. (O que é nojento pra caralho, se você pensar que tá passando o pão na testa suada antes de comer e tals.)

Mas, independentemente disso, o ser humano tem que trabalhar para comer.

Nunca falaram nada em trabalhar para Viver.

Humanity is taken for granted. Se você nasceu, você é humano. O máximo que tem que fazer é esperar fazer 18 anos (ou 21) e magicamente você tem todas as competências necessárias para viver.

Para o ocidente, a maturidade é uma data de aniversário.

Não precisamos ir pro meio da floresta trazer uma pena de águia ou uma garra de urso. Não precisamos trazer a cabeça de um inimigo morto em batalha e nem ser atravessado por anzóis ou escarificado para ganhar o direito de ser tratado como um adulto.

No máximo temos que terminar os estudos. Mas aí também, eles assopram um diploma em nossas narinas e mandam a gente sair por aí dando nomes pras coisas.

Falaram que a gente precisa trabalhar pra comer, mas não mencionaram em nenhum lugar d’O Livro que precisamos trabalhar para Viver.

E Viver é uma coisa muito perigosa, seu moço. A gente nasce, encontra o mundo do jeito que tava, procura o cantinho mais cômodo e repete os dias num looping incessante, dando refresh na caixa de emails, mendigando like no Facebook e assistindo comerciais para escolher o próximo consumo.

Depois a gente estranha que merda acontece. Claro que acontece. O mundo roda, e, se você deixar, roda por cima de você.

“A dona Aranha subiu pela parede, mas veio a chuva forte e a derrubou.”

Tempo não resolve nada. Trabalho resolve. E trabalho é uma Força atuando em um corpo por um determinado deslocamento no espaço (multiplicado pelo cosseno de Theta). Prefiro pensar queTrasbalho  é Força por um determinado deslocamento no espaço-tempo.

Irônico que anos atrás eu falei que a vida só faz sentido quando você a FORÇA a fazer. Você faz força. Durante um tempo. E multiplica pelo cosseno de Theta. Aí faz sentido.

Dude, Where’s my Hate?

March 9, 2014 § 8 Comments

Um dos conceitos que eu achei mais brilhante é a ideia de Túnel de Realidade.

Por esse conceito, o mundo é um universo extremamente amplo e grande, do qual nós conseguimos apreender apenas uma parcela.

Segundo as pessoas que acreditam nessa teoria, o que somos capazes de apreender é dado pelo que somos capazes de perceber (nossa percepção objetiva) e interpretar (nossa percepção subjetiva).

Portanto, se você nasceu, cresceu e viveu sua vida toda em higienópolis, chances são de que a sua realidade percebida seja bem homogênea no que tange ao mundo. Se você nasceu no Tocantins e mudou para São Paulo, você percebeu duas realidades diversas. Logo, você conhece mais mundo que boa parte das pessoas.

Por outro lado, não se trata apenas da percepção, ams também da intrpretação. A Sheherazade (a jornalista, não a mina das mil e uma noites) olha pra um trombadinha interpretando o mundo com outros olhos que, por exemplo, um filósofo de esquerda. Eles possuem paradigmas de interpretação do mundo diferentes, portanto, o mundo em que eles vivem são diferentes.

***

Para alguns pensadores, o (ou um dos) objetivos da vida, é a ampliação do seu túnel de realidade. Ou seja, a ampliação da sua percepção e interpretação do mundo para entender que, a despeito do livro ser uma bosta, a vida é feita de mais de cinquenta tons de cinza, não de preto e branco.

A capacidade de olhar para uma determinada situação compreendendo mais de uma interpretação da realidade seria, portanto, um aspecto da so overated “expansão de consciência”. Não estamos falando aqui de ver anjos ou de enxergar os fios das tramas do destino, mas apenas e tão somente flexibilidade cognitiva.

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Nos mitos gregos alguns deuses eram considerados belos e bondosos enquanto outros maldosos e atrapalhadores. Um dos casos mais clássicos disso (e expostos na Ilíada) é o conflito entre Marte e Athena.

Marte, o Senhor de todas as Batalhas, aquele que se apraz com o sabor do sangue de seus inimigos, por inúmeros motivos, se opunha a Atena, a descendente direta da cabeça de Zeus.

Ser descendente da Cabeça de Zeus significa ser filha da sabedoria de Zeus-Júpiter. Zeus, no caso, o dono de toda a sabedoria e astúcia. Aquele que conhece o todo. Athena, portanto, seria a Senhora de Todo o Conhecimento vestida com roupas de Batalha.

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Na astrologia, Marte é o Pequeno Maléfico. O Senhor de todos os rompimentos, discórdias e brigas. Porque Marte é de temperamento Colérico, quente e seco. O que é certo é certo e o que é errado é errado. Period. Não existe mais ou menos ou veja bem.

Júpiter, por outro lado, é o grande benéfico. O Senhor da expansão de área. Aquele que tudo sabe, tudo vê. O senhor da calma e da avaliação. Veja bem, dependendo do lado que se olha, tudo está certo.

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Marte e Júpiter são planetas quase opostos. Ambos se expandem, claro, mas cada um a seu modo. Marte é a expansão em foco, em seta, em penetração. Júpiter se expande em área, como um lençol ou colchão. Mole macio e confortável. Tudo que Marte não é.

Marte Rompe, porque Marte não tem Veja Bem. Marte não admite opinião contrária. Marte não admite outra hipótese. Para Marte, o objetivo é um. E estratégia é covardia. Period. Ele é o Senhor do Ódio, da Ira, do Rancor, da Fúria e da destruição. Se não é do jeito certo, é do jeito errado. Que se queime e se reinicie.

***

Em algum lugar do passado eu perdi meu Marte.

Houve um tempo em que a vida era deveras mais fácil. Existe a minha opinião e existe a opinião errada. E a opinião errada é errada porque perdeu. Foi derrotada. Não resistiu à verdade. Justiça é tirar aquilo daquele que não merece. E sabe como você descobre se ele merece? Vai e tira. Se ele perder, é porque não merece.

Era uma época em que a vida não gostava de pessoas boas, mas sim de pessoas melhores.

Era uma época de ódio e rancor.

E se amor é a potência cosmogônica de união, o ódio (ou morte) é a potência cosmogônica de separação. Corte. Queime. Desintegre. Separe e espalhe. Só existe uma verdade e uma opinião. Os discordantes que morram e sumam. Relegados a uma darwinística lata de lixo da história. Existe um objetivo: Vencer. E uma das estratégias pra isso é destruir os demais competidores.

Destrua tudo que, no fim, sobra só o indestrutível.

***

Às vezes eu queria que o Todo Poderoso, definitivamente, me esmagasse com um dedo flamejante por todos os “pecados” que eu já cometi. Queria que minha carne e (irritante) gordura fosse distribuída entre 8 etíopes para, quem sabe, fazer do mundo um lugar melhor.

Mas isso não acontece. Eu amaria ser condenado a um inferno se esse inferno fosse outra coisa que não essa perda de mono-perspectiva associada a uma ausência de altruísmo.

Reconheço que o outro tem direito à felicidade, mas não me comprazo com a felicidade alheia. 

Não me importo com a vida alheia, mas não tenho amoralidade suficiente para atravessar o caminho do outro.

Falei anos atrás que era uma merda ser um canalha incompetente ou um romântico frustrado.

Hoje eu só queria encontrar meu ódio.

Vi Veri Veniversvm Vivvs Vici.

February 19, 2014 § 7 Comments

Eu sou, por definição, um pessimista.

Mais do que isso, sou o pior tipo de pessimista que existe: me considero um realista.

Não conto vantagem antes do tempo, não canto vitória antes da hora, duvido até que o sol vá nascer amanhã e não conto com a foda até tirar a camisinha (não pra colocar, pra dar o nózinho e jogar fora).

Isso dificulta muito a minha vida, uma vez que eu vivo o paradoxo de Zenão: a flecha sempre precisa percorrer metade do caminho até chegar ao alvo. E como o espaço pode ser infinitamente dividido, sempre falta metade do caminho. Portanto, a flecha nunca chega.

No entanto, a teoria dos limites destruiu o paradoxo de Zenão. As dízimas periódicas, ao atingir o que se chama de limite, estão tão próximas desse número que se tornam esse número. 3,9999… não é MUITO próximo de 4. 3,9999… É quatro.

E, exercitando meu otimismo, preciso reconhecer que rompi um limite.

Em dezembro de 2012 eu saí do último escritório de advocacia em que eu trabalhei. Um dos maiores da América Latina (e consequentemente do mundo). O maior de sua área no Brasil. Saí desse escritório para arriscar a carreira de professor.

Parece estranho falar em arriscar. Afinal, o magistério é visto como carreira de tia. Carreira “falta de opção”. Que não dá dinheiro. E por aí vai.

Mas meu desafio não era uma carreira mais bem remunerada. Era uma carreira que eu gostasse de percorrer. Esse era meu desafio. Eu aceitaria ganhar menos, contanto que eu não tivesse que levantar da cama sofrendo, enfiar uma gravata no bolso (pra retardar seu uso), colocar um sapato (“Eu odeio gente chique eu não uso sapato, mas que se foda!“) e ir vender horas da minha vida pra um organismo maior responsável por secretar a munição, as armas, o desfolhante, o veneno usado para destruir a vida.

Me dê um tatame para deitar, meio tatame para sentar e duas tigelas e meia de arroz e eu sou mais feliz como professor do que comendo com talheres de prata como advogado.

Então esse era o desafio. E eu foquei nele. E meu objetivo era alcançá-lo.

Pois bem, hoje, um ano depois, eu não alcancei esse objetivo. Continuo não sendo professor. Nem me formei ainda. E acho que vai um tempinho, hein?

Mas estou ganhando mais que como advogado.

Sim, eu também não esperava por isso, mas aconteceu. Hoje a minha hora como monitor e corretor de redações bate a minha hora de advogado. Não é muito mais. Cerca de 20% mais. Mas é mais. Ah, e eu não ganho, líquido, tanto quanto eu ganhava, porque no último escritório no qual eu trabalhei (o maior da América Latina, o padrão atual) eu trabalhava 40 horas por semana. Hoje trabalho 30.

Sim, eu sei, eu trabalho mais de 30 horas por semana no colégio. Mas na advocacia eu trabalhava mais de 50 horas por semana.

Não vou entrar em detalhes. Basta saber que ganho um pouco menos e trabalho MUITO menos.

Venci.

Não significa que eu não tenho mais problemas. Tenho sim. A maior parte deles são os mesmos da época em que eu advogava. Porque eu me mudei, mas, ainda, não tanto. Falta muito.

Mas esse problema eu resolvi. Esse pequeno problema eu superei. Essa dízima periódica eu transcendi. Esse limite eu rompi. Essa montanha eu escalei.

Que venham as próximas, mas essa montanha eu escalei. Esse Everest eu subi, como em um sonho estranho recente no qual eu subia ao Topo do Mundo. Ao chegar lá, e olhar ao redor, vi uma nova montanha se apresentando (afinal, o Everest é um dobramento moderno, ainda está crescendo – e sim, eu pensei isso no sonho!). E eu estou olhando pra ele. Afinal, enquanto eu estiver crescendo, novas montanhas estarão crescendo.

Mas essa montanha eu venci.

As mil e uma noites.

February 13, 2014 § Leave a comment

As mil e uma noites é um compilado de fábulas e contos árabes, hindus e persas (acredita-se) datado de um pouco antes do século IX.

Conta a história de Sheherazade, a mais nova esposa de Shariar, rei da Pérsia que, após descobrir que sua esposa o havia traído, decide que nenhuma mulher é digna de confiança, e mata todas as suas esposas após a noite de núpcias.

Sheherazade, sabendo da história, e decidindo impedir que o rei continuasse cometendo tais atos, começa a contar uma história por noite para o Rei, tomando o cuidado de deixar o Rei em suspense até a noite seguinte, quando, então, terminaria de contar a história anterior e iniciaria a próxima.

Hoje sabe-se que as histórias contadas por Sheherazade são contos anônimos existentes há muito tempo no Oriente Médio. Como sói ocorrer, os mesmos não eram invenções de Sheherazade, nem mesmo do autor do livro.

As mil e uma noites acabou entrando para a história não como uma coletânea de contos, mas apenas como a história de Sheherazade, que, espertamente, conseguiu manter o Rei distraído e ocupado com suas histórias para que o mesmo esquecesse de seus planos. Trata-se de um aspecto muito comum na mitologia do Oriente Médio, que valoriza o herói astuto ao herói forte. Imortalizou-se, assim, a figura da mulher astuta que distrai seu interlocutor com histórias e contos que lhe foram contados para enganá-lo.

***

Telejornais são uma coletânea de histórias e notícias com pretensa imparcialidade e que pretende (acredita-se) informar a população. Sua criação é datada da segunda metade do século XX, apesar de a ideia ser muito anterior.

Eles contam histórias para seus telespectadores que tentam tomar com base nas notícias suas decisões sobre como se comportar, o que fazer e quais os maiores problemas a serem evitados.

Sheherazade, sabendo da história, e decidindo que é interessante fixar o foco da realidade em uma questão específica, começa a contar suas histórias para o Povo, tomando o cuidado de tomar um partido e abordagem extremado, fazendo, assim, que o Povo fique discutindo apaixonadamente as opiniões dadas até que a próxima opinião polêmica.

Hoje sabe-se que as opiniões dadas por Sheherazade não foram escritas por ela, nem mesmo pelo editor do telejornal, mas provavelmente são uma coletânea de velhas opiniões anônimas existentes há muito tempo no ocidente (e oriente, e nesse bananão chamado Brasil).

Os Telejornais acabaram entrando para a história não pelas notícias que deram, mas como a história de Sheherazade/Sakamoto/Chico Sá/Arnaldo Jabor/Etc. que, espertamente, conseguiram levantar grandes polêmicas que mantém as pessoas distraídas e lhes dá notoriedade. Trata-se de um aspecto muito comum na mitologia do Ocidente Mérdio, que valoriza as grandes entidades sociais ao indivíduo, que permanece discutindo as opiniões alheias ao invés de fazer alguma coisa de útil.

Tudo junto, ao mesmo tempo, AGORA!

February 7, 2014 § 1 Comment

Um dos maiores prejuízos causados pelo platonismo foi a separação entre o mundo físico e o “mundo das ideias”.

Essa doutrina dualista (chamada de dualismo – duh) separa a vida em duas realidades: uma física, material e tangível, e uma imaterial. Dependendo do local do planeta e do período histórico, essa divisão ganhou subdivisões. O mundo físico, o mundo dos sentimentos, das ideias e o espiritual. Ou outras mil com nomes diferentes ou não.

O fato é que a ânsia (ocidental, especialmente) é a de retalhar a realidade. Dividi-la em órgaos para melhor entendê-la.

Grosseiramente, esse é o movimento de todo o ocidente: Filosofia se divide em física, química, matemática, biologia, religião, magia, ética, política, retórica e, óbvio, filosofia.

Com o passar do tempo, até as divisões foram tendo divisões, matemática prática e teórica, física quantica, newtoniana e relativística, etc, etc, etc.

Isso está tão entranhado na nossa vida que nem cogitamos que possa existir uma outra realidade.

Os hindus, por exemplo, são monistas. Eles acreditam que a realidade é uma e que a alma, os pensamentos, as emoções, etc, têm existência física. Quando você morrer, se você não for um cara foda, sua alma vai ser dissipada no universo e você vai deixar de existir. Da mesma forma que seu suor gruda no corpo, seus sentimentos também. E seus pensamentos podem ficar acumulados embaixo da cama.

É… hinduísmo é uma religião meio sangue ruim.

Todas essas discussões (e distinções) sempre me vêm à cabeça quando surgem aqueles conselhos simples e “jeniais” dos livros de auto-ajuda sobre “as áreas da vida”. Você têm a área profissional, a área afetiva, a área profissional e a área familiar. Ou você tem oito áreas. Ou nove. Ou sei lá quantas inteligências, ou divide a sua vida em quatro elementos. Whatever. Aí, vêm conselhos sobre manter um equilíbrio médio entre as áreas porque se uma ruir, você não cai.

Okey, a vida não funciona muito bem assim.

A pretensão de organizar as coisas não funciona com a biologia, e acho que não vai dar muito certo com outras coisas também. Se alguém tem insuficiência cardíaca, os rins filtram mal, consequentemente o fígado fica comprometido e todo o resto morre.

As doenças psicossomáticas jogam por terra também a separação entre corpo e alma.

Pensamentos e sentimentos também se retroalimentam.

Agora você está pensando no momento mais feliz da sua vida. De nada.

A vida não é equilibrada. A realidade não usa um critério de justiça. Uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco. Você é tão forte quanto seu equilíbrio mais instável.

Seria muito bom que excesso de amor pagasse contas ou que dinheiro no banco curasse depressão. Não paga. Não cura.

Você precisa de uma porrada só pra que a euforia da promoção vá por água abaixo. E não adianta nada trocar de carro pra tentar salvar aquele namoro disfuncional.

Então, ao invés de procurar a felicidade média (soma tudo e divide pelo número de áreas). Take a deep breath e encara a pior merda primeiro. Isso deixa a vida muito mais difícil. Mas funciona muito melhor.

O rei está morto.

February 4, 2014 § Leave a comment

Há mais ou menos exatamente um ano (e mais ou menos exatamente diz muito mais do que está escrito) tivemos uma ideia: e se ao invés de morar em um apartamento minúsculo todos fôssemos morar em um castelo? Uma casa na qual convivêssemos e, convivendo, tivéssemos a possibilidade de desenvolver nosso melhor?

A ideia era ótima… mas deu mais ou menos certo. E dar mais ou menos certo diz muito a respeito do desfecho.

Tivéssemos, apenas, nos isolado em nossas individualidades o resultado não teria sido tão negativo. De um reinado de cinco reis nos reduzimos à Mansão Monstro. E ao final de um ano, fechamos as portas da casa, deixando lá dentro suas três lareiras, todos os seus fantasmas e saindo, quando muito, com histórias.

Ah, e deixamos uma bromélia, com seu cetro rosa e azul e seus espinhos.

Acho que parte do problema é que as pessoas repetem ad nauseam que toda rosa tem espinhos, mas ignoram que a Rosa (também) é os espinhos. Não se trata de um anexo nauseabundo inserido para estragar a pura e perfeita beleza da Rosa. A Rosa não tem espinhos. Ela é os espinhos. O caminho não tem percalços. Ele é (também) os percalços.

O grande problema é que ao olhar para frente vemos um muro de espelhos, e vemos apenas a projeção do caminho já percorrido. Se vivemos espinhos, vemos espinhos. Se vivemos algodão, vemos algodão. E em ambos os casos temos o problema de não viver o caminho, mas a projeção que fazemos do caminho. Quando menos esperamos somos surpreendidos pela rosa. Ou pela tesoura de poda do segurança da balada.

O “Fim da História” é um dos conceitos mais nocivos já criados e que, felizmente, já foi relegado à lata de lixo da história. Posto em seu lugar de propaganda disfarçada de constatação. A história nunca acaba. Trocam-se os personagens, o narrador se cansa, mas a história permanece. E história é mudança diacrônica. Variação do estado das coisas dentro de uma variação de tempo.

O Tempo é filho da mudança percebida. Cronos é o Senhor das extremidades dos tempos. Aquele que observa o início e aquele que observará o fim. O Grande Rei Saturno, que na Babilônia reinava nos céus enquanto seu filho, Júpiter, ora o auxiliava, ora atentava contra seu Reinado.

Os gregos, viadinhos, com sua paixão pelo vinho, música e coisas macias fizeram de ZeusPater o Senhor dos Deuses. Mas deixaram Saturno no limite dos mundos. Ostracizado. Tomando conta dos portões. Afinal, não importa as histórias que se contem. As estrelas continuam no céu.

E Saturno continua em seu trono, mesmo que seus templos tenham sido queimados há séculos e que não se queimem mais ossos em sua homenagem. No fim ele triunfa, pois tem paciência e sabe esperar.

O Rei está morto. Longa vida ao Rei!

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