Carta Aberta a um Velho Amigo.

May 16, 2013 § 9 Comments

Meu Velho Irmão, minhas saudações.

Sei que soa anacrônico chamar-lhe irmão, mas impossível outra designação. O chamaria de par, mas isso presumiria igualdade, e ambos sabemos que a igualdade é uma ilusão: pressupomos tal equilíbrio como se nossos defeitos conscientes e percebidos estivessem compensados por inconscientes defeitos alheios ou inconscientes qualidades próprias. Trata-se de mera pressuposição, que nos faz dormir melhor à noite, quando gatos choram como crianças e as sirenes correm atrasadas para salvar atropelados que viveram depressa demais.

Igualmente não me parece conveniente chamar-lhe companheiro, posto que companheiro é aquele que faz companhia. No entanto, muito para minha tristeza, há tempos não faço qualquer companhia, muito menos boa, algo que outrora me insuflou de felicidades.

Chamo-lhe irmão, sim, incorrendo no pecado da pieguice.

Pecado esse verdadeiramente repulsivo. Tivesse eu subido à montanha, traria novas tábuas de mandamentos. Não serás piegas. Guardarás a sutileza como seu maior tesouro. Respeitarás a arte alheia. Não se desvirtuará de si mesmo. Tantos novos mandamentos, tão poucas montanhas.

Mas chamo-lhe irmão, principalmente, pois este é um vínculo que a ninguém cabe romper. O sangue sabe por onde corre, e os laços de fraternidade não são facilmente rompidos. Caim e Abel ainda são irmãos. Também o são Rômulo e Remo. E meus pecados são infinitamente menores que estes.

Sim, o laço de fraternidade dança, estica e puxa (e viva a festa da Xuxa). Suporta ausências e silêncios. Supera até mesmo uma referência a uma música da Xuxa. Apenas não supera Crocs. Nada supera Crocs.

Deixo do lado as digressões a respeito de sandálias e apresentadoras infantis e passo às razões apenas indiretas (e não ocultas) dessa missiva. Nada vem do nada. Quanto mais cedo assumirmos tal fato, tanto menos tempo perderemos, destilando segundas intenções no fogo fraco da educação.

Novidades, trago poucas. Mas sabemos que todo barulho é relativo ao silêncio de o precede e, dessa forma, há o risco de que tais notícias lhe alcancem com ensurdecedora clareza.

Após poucos meses com muitas horas vagas e muitos anos com poucas horas vagas, as perspectivas de mudança ganharam clareza e manifestação. Estou trabalhando em um colégio como professor substituto de português.

Sim, eu sei, é apenas meia novidade, uma vez que já fui professor há mais de uma década… aqueles tempos, no entanto, eram fundamentalmente diferentes.

Primordialmente porque eu era fundamentalmente diferente. Na época eu possuía o benefício da imaturidade. Meu trabalho era dar aulas para pessoas mais velhas que eu. Isso, paradoxalmente, era um grande tranquilizador. Isso e o fato de que eu tinha apenas que me aventurar pelas hard classes. Matemática, Física e Química. Quem diria que eu olharia para português e redação e me assustaria.Sim, me assustaria, pois não se passa pela Faculdade de Direito sem chegar à conclusão de que é tudo arbitrário.

Um arbítrio internamente coerente, claro, mas ainda assim arbitrário. A Ciência é a Crença na Indução. Mas a Indução é uma crença Irracional. Nada é Verdadeiro. Tudo é Permitido.

Nada garante que o banco vá devolver o dinheiro que você depositou ou que o estacionamento vá devolver o seu carro. Como num conto de Borges, nada garante que não acordaremos amanhã como nossos entes queridos pretendendo internar aquele louco que apareceu em casa, falando que era filho deles.

No entanto, nós continuamos depositando dinheiro nos bancos, eles continuam abrindo linhas de crédito e nós continuamos pagando impostos.

Fake it ’till you make it.

Não se engane: não abracei o nihilismo como minha última paixão. Ao contrário.

Nada vem do nada.

Continuo em minha insana busca incessante pelo Algoritmo da Alma Humana.

No entanto, vem sendo cada vez mais difícil adequar a Vida ao Mundo.

Talvez o proverbial abismo ao qual Nietzsche tenha se referido esteja apenas cobrando a fatura. Talvez a Vida simplesmente não caiba no Mundo.

O fato, no entanto, é que além de tentar entender a alma humana, venho tentado (até mesmo por necessidade profissional) entender a linguagem humana. O Algoritmo das Línguas. Meu sucesso, até o presente momento, vem sendo vexatório. Consolo-me, no entanto, com o mérito do processo, deixando de lado o processo do mérito. Até lá, se minha sorte me deixa, estou perdido.

Por sorte, a fortuna nunca me faltou.

Talvez seja esse o mérito dos navegadores bem sucedidos. Fortuna. Ambos os navegadores, bem e mal sucedidos, perseveraram. Os bem sucedidos encontraram seus portos. Os maus, seus túmulos.

Diante da molhada e tétrica metáfora, questiono-te tua opinião. É mais nobre sofrer com as flechas e setas da sorte ultrajante ou erguer mãos contra um mar de problemas e dar-lhes fim?

Ou, sendo mais preciso, Navegar realmente é preciso? É possível desvencilhar mérito de resultado?

E se não for, qual a saída para abandonar a navegação de cabotagem? Estaremos condenados a viver a incerteza? Almejar sempre um mal desconhecido? Mexer em todos os times, quer estejam ganhando ou perdendo?

Será essa a benção dos infelizes? Não ter nada a perder para tudo ganhar? Ter uma zona de conforto meio desconfortável, com uma quina incomodando a bunda? Não ter gaiola de ouro à qual se apegar?

E, ainda assim, essa é a perspectiva de felicidade que podemos ter? Sair de uma metafórica cadeira de picas em busca de uma poltrona mais confortável? Sinto muito, caro irmão, mas ninguém em sã consciência se proporia a enfrentar o desconhecido por mero dissabor. Corro o risco de me repetir parcialmente, posto que se antes afirmei que o monstro de monotônica pelagem é o maior responsável pela criatividade, ora me complemento: o Tédio é um amar que não se conhece.

Não pense que quem primeiro cruzou o Atlântico o fez por tédio, por riquezas ou por fama. Não há fama para o cozinheiro de Colombo. São apenas pessoas que queriam saber para onde o sol ia depois de nascer dourado. Pessoas que não esperavam livros ou canções, mas que em um breve momento devem ter se sentido os maiores do mundo, aqueles que cruzaram o grande rio de água salgada.

Por isso é deveras importante não tomar por virtude a mera natureza. Não há virtude no cordeiro ou no lobo, posto que estes apenas seguem suas naturezas. Não há virtude, por igual, em contrariar a própria natureza. Qual o caminho da Virtude? Não há. Desista da Virtude, Abandone a Santidade e tudo será centenas de vezes melhor para todos.

Vivemos em um mundo de certezas, meu Amigo. No qual tudo parece previsto. O Sol nascerá e você acordará depois de dormir. Talvez precisemos introduzir uma pequena Anarquia. Chatear a Ordem estabelecida. E deixar tudo virar Caos.

Porque o Caos é justo, embora assustador.

BeChaos I Can.

Abraços de Guerra,
Anarco.

Manifesto LosGatos

April 18, 2013 § 5 Comments

Manifesto

 

Los Gatos é um projeto coletivo de publicidade e propaganda. Esse foi o meu primeiro texto por encomenda para eles.

Eu Sempre Tive um Pouco de Medo das Noites sem Lua.

April 9, 2013 § 14 Comments

Eu sempre tive um pouco de medo das noites sem lua, sabe? Não sei dizer porque. É desde criança.

A primeira coisa que eu me lembro foi quando eu ouvi um gato chorando como um bebê. Já ouviu um gato chorando como bebê? É horrível. Começa como uma porta rangendo ou uma dobradiça muito enferrujada. E segue crescendo, como uma sinfonia, uma sinfonia de choro, tocada num violino, num violino de cordas vocais.

Era numa noite sem lua.

Conforme fui crescendo, o medo foi crescendo, como um buraco, sabe? Um buraco de escuro, um buraco num tecido, um tecido que se estica e se deforma e se alarga muito esticado e que você sabe, você sabe, simplesmente sabe, okey?, que nunca vai voltar pro tamanho certo.

Obviamente eu nunca perdi o controle. Não, isso nunca, isso nunca. O mais estranho que podia acontecer eram recusas a bons convites. “Tô passando meio mal.” “Já tenho um encontro.” “Acordo cedo amanhã.” Sabe essas desculpas? Essas desculpas que todo mundo usa? Então, eu usava pra me esconder, pra me esconder das noites sem lua.

Era uma alergia. Uma alergia mental. Uma alergia mensal. Se sou alérgico a abelhas, fujo de abelhas. Se sou alérgico a gatos, me escondo de gatos. Eu me escondia das noites sem lua.

Sim, é verdade: noites sem lua nunca me deixaram com o nariz escorrendo. Mas eu sabia, entende?, EU SABIA que alguma coisa ruim ia acontecer se eu não me escondesse, se eu não me escondesse das noites sem lua.

E eu me escondia.

Mas aí ela aconteceu.

Era inverno e eu estava correndo para chegar em casa. No inverno fica tarde mais cedo. É desesperador. Eu passei na padaria. Para comprar leite e pão e queijo e, meu deus, e mais alguma coisa, mais alguma comida, mais qualquer coisa para ficar em casa na noite sem lua.

E ela apareceu. No início da noite sem lua. Toda de branco. Linda. Eu a vi e ela viu que eu a vi. E nos vimos. E ela sorriu. Um sorriso de pequenas luas brancas, simétricas e úmidas, protegidas por lábios. Não um sorriso de falsa tímida. Nem um sorriso de sedutora pretensiosa. Sorriu. Me deu um sorriso crescente e eu, com pressa, respondi com um aceno minguado.

Tenta entender, tenta entender: eu não sou tímido. E nem inseguro. Era culpa da noite. Da noite sem lua. Eu tinha que correr. Tinha que voltar pra casa. E eu corri. E esqueci o celular no caixa.

Quando cheguei em casa, liguei pro meu celular. Ela atendeu. E ela tinha a voz. A voz da lua que faltava. A voz da lua que ME faltava naquela noite. Toda de branco. Linda. E me disse que estava na padaria me esperando. Me devolveria o celular. Se eu tomasse um café com ela. Ela me convidou. ELA!

Eu nunca me perdoaria se eu não fosse. Eu tinha que ir. Não haveria noite sem lua naquela noite. Não haveria noite sem lua nunca mais! NUNCA MAIS, entende? Ela seria minha lua. Se eu conseguisse fazer isso, eu não teria mais que fugir.

E eu voltei. Não correndo. Não fugindo. Caminhando. Caminhando numa estrada de estrelas que me levaria pra lua. Pra minha lua.

Mas quando eu cheguei lá. Quando eu cheguei, meu deus, quando eu cheguei. Eu não entendi direito. Era uma mistura de vermelho e azul, girando e girando. Me falaram alguma coisa sobre um trombadinha, sobre um celular e sobre uma faca e sobre um não, um me dá, um não, um quer morrer, um socorro e um tarde demais. Um tarde demais.

E eu fugi, eu fugi, eu fugi da noite sem lua e da lua caída no chão, toda de branco, linda, escorrendo vermelho e me convidando para um café. Corri para as minhas portas e trancas e chaves e fechaduras e pra me proteger da noite sem lua.

A noite sem lua que fez isso. Que me fez esquecer o celular. E fez ela me esperar. E me desafiou a andar devagar. Eu não podia saber. Foi sem querer. Eu juro que foi sem querer. Não foi minha culpa esquecer o celular. Não foi minha culpa andar devagar. Foi culpa da noite. Da noite sem lua.

Texto a Oito Mãos.

March 11, 2013 § 2 Comments

Como dito antes, moramos em um castelo. E quando decidimos morar em um castelo, decidimos que o objetivo era fazer dessa convivência algo criativo. E, em meio aos debates e conversas, nasceu esse texto-oração. Um desejo declamado de que produzíssemos mais, criássemos mais, fizéssemos boa arte.

Abaixo, nosso texto-oração. Convidamos quem se identificar a compartilhá-lo. A Autoria está propositalmente em branco. Não é sobre autoria. É sobre mandar uma mensagem.

***

- Qual é o seu maior sonho?
- Uma Ferrari Roxa.
- Como assim uma Ferrari roxa? Não existem Ferraris roxas.
- Viu? O mundo te moldou de tal forma que até mesmo seus sonhos estão industrializados, formatados, pré-moldados, em módulos prontos e de fácil digestão. Quando foi que viramos consumidores até de Sonhos? Por que sonhamos como quem vai ao supermercado ao invés de sonhar como uma criança com uma lata de tinta?

Criar é o mais belo atributo humano. Sua mais elevada capacidade. O ato de criar desperta nossa consciência Divina, quase sempre dormente soterrada por uma vida em piloto automático.

É difícil dizer se a criatividade vem de cima para baixo, ou de baixo para cima. Imagino que no final das contas talvez ela seja como um raio. Um relâmpago, ora de uma ponta, ora de outra, mas que quando corre, tem proporções colossais, unindo Céu e Terra, trazendo lampejos de luz na escuridão

O mundo carece de pessoas criativas.

E não estamos falando de reinventar a roda. Falamos, sim, da decisão consciente de buscar, não a solução mais fácil, simples ou encontrada na primeira página de resultados do Google.

Falamos de soluções criativas, de atitudes criativas.

E o que é uma solução criativa ?

A solução criativa é além do óbvio. É uma solução inteligente e ecológica. É ir além do que se apresenta e saber conceder e exigir na medida certa para encontrar uma síntese entre a tese e a antítese. Inteligente é se valer de forma diligente de todo o conhecimento e experiência adquirido, lendo e reescrevendo o que possa ser útil, criando e recriando. Ecológica é a solução que é energeticamente benéfica para todos.

A solução criativa é ativa e reativa. É um estado de espirito que existe para responder um problema existente, mas também busca transformar o meio antes que uma crise se instale. Propõe soluções para problemas que nem sabíamos que existiam.

É a integração entre inspiração, reflexão, sentir e manifestar.

Quando criamos, mudamos o mundo e a nós mesmos. Não existe mão única, sentido obrigatório ou contra-mão.

A Criatividade pode ser treinada e desenvolvida. Tal qual um músculo, precisa de estímulo e repouso adequados e, quando deixada por si mesma, vai sempre regredir a um estado natural.

Sejamos criativos, loucos e novos. Transformemos o mundo, ouçamos a musa e moldemos nosso mundo. É trabalhoso. Estamos desacostumados. Pode até ser difícil no começo, mas nada do que realmente vale à pena é fácil no início.

Se pudéssemos escolher viver em um mundo mais criativo ou menos criativo o que escolheríamos? Não é uma decisão difícil.

Mas nós podemos escolher. Basta escolher criar. O mundo tem críticos demais, analistas demais, estudiosos demais.

Precisamos de mais artistas, música, desenhos, textos, projetos, poemas, filmes, romances e soluções.

A criatividade às vezes bate à nossa porta, e por isso devemos deixar nossas portas abertas.

Às vezes devemos ir até ela e encontrar sua porta já aberta. Mas se estiver fechada, devemos bater, chamar e insistir.

Insista. Seja criativo até diante de sua falta de criatividade. Nada é permanente. Se permita escrever um texto mediano, leia-o novamente e encontre novas palavras. Encontre novas idéias. Encontre outras respostas. Novas notas, melodias e rimas. Permita-se questionar e melhorar, transforme e recrie o mundo. Seja mais, queira mais, ouse mais.

Arrisque-se. Saia do coro da platéia e suba no palco da vida.

A criatividade é mágica, e a Magia é a suprema criatividade. Por inspiração ou treino, exige do praticante que repense todo o seu universo de acordo com uma nova visão e a manifeste.

Não se acomode em sua passividade. Não se contente em ser leitor. Não passe o resto da sua vida, apertando F5, atualizando a página do facebook e dando refresh na sua caixa de entrada de emails.

Agora esqueça esse texto.

E escreva o seu.

Harley Davidson.

February 20, 2013 § 16 Comments

Kajeesh Rajal estava em seu laboratório trabalhando até mais tarde novamente.

Não que “mais tarde” fosse algo relevante naquela noite ou em qualquer outra. “Mais tarde”, na verdade, seria apenas uma exceção se comparado aos demais professores do departamento. Kajeesh não era uma exceção em hábito, apenas uma exceção em intensidade. Muitos trabalhavam até muito mais tarde. Muitos trabalhavam até mais tarde com frequência. Poucos trabalhavam até muito mais tarde com frequência.

Kajeesh estava entretido em seu estudo, adiantando o trabalho do dia seguinte. Não que mais esforço pudesse fazer com que sua pesquisa terminasse mais cedo. Isso não ocorreria: precisava que os dados fossem coletados em um intervalo de tempo preciso. Por isso não tinha pressa. Sabia que  Murtington ganharia o Nobel daquele ano, se não tivesse mais uma crise de solidão e procurasse a ex-esposa novamente. Se isso ocorresse sua pesquisa se atrasaria em 17 semanas e ele só ganharia o Nobel no próximo ano, o que era o plano de Kajeesh.

Se Murtington se desesperasse, Kajeesh esperaria mais um ano. O pobre diabo precisa de algum sonho se realizando na vida dele, afinal.

Enquanto aguardava que seu computador vetorizasse todos os dados coletados Kajeesh aproveitava para reavaliar seus apontamentos teóricos na parede pintada de quadro negro de seu laboratório, uma pequena excentricidade feita sete anos atrás que reduziria suas promoções dentro do departamento em cerca de 20%. Valera cada centavo.

Sem se desconcentrar, Kajeesh ouvia passos de salto alto feminino no corredor, algo que lhe causara uma curiosidade saudável. Ninguém usando um salto que fazia aquele barulho ficaria até aquela hora. Ninguém a não ser alguém muito desesperado para ser notado e demonstrar trabalho. Deveria ser a menina nova, assistente de Murtington.

À medida em que os passos se aproximavam de sua porta a curiosidade a respeito da dona dos passos foi substituída pela curiosidade a respeito das razões de sua aproximação. Era praticamente óbvio que ela iria até aquele setor do laboratório. Batidas soaram à porta. “Entre”, disse Kajeesh.

- Com licença. – disse a jovem assistente à medida que entrava, um salto vermelho maior do que o recomendado para a função de assistente de um professor de renome, mas que talvez fizesse o pobre Murtington esquecer a ex-esposa e se dedicar à sua pesquisa, pensou Kajeesh.

- Por favor, tenha a bondade. – respondeu Kajeesh à medida em que se virava e reconhecia uma das velhas caixas do arquivo morto – Em que posso ajudá-la Senhora…?

- Mariana. E por favor, sem o Senhora, Professor Rajal.

- Então pode me chamar de Kajeesh – disse enquanto largava o giz sobre a mesa e limpava os óculos redondos e de armação fina – posso ajudá-la em algo?

- Sim, pode… quer dizer, eu acho. Dr. Murtington pediu que eu localizasse no arquivo morto suas pastas sobre suas velhas pesquisas a respeito de pseudo-cristais e…

- Ah sim, assunto fascinante. Achei mesmo que ele procuraria reativar tal pesquisa após a descoberta dos cristais não isomórficos. Se me permite uma indiscrição, acredito que ele deveria manter o foco em sua pesquisa de cristalização de isótopos radioativos. Me parece mais inovador e promissor que uma velha e despicienda teoria adolescente, ainda que muito curiosa. Você deverá encontrar tais pastas no balcão 17.

- Sim, sim… Balcão 17, armário 23. Deus sabe como aquilo está velho e empoeirado.

- Presumo que já as localizou, portanto. Há mais alguma coisa na qual eu deveria ajudá-la?

- Sim, há… Quer dizer, acho. Não sei bem ao certo.

- Perdão?

- É que… Bem, eu tive que passar por muitos armários antes de localizar a caixa correta. E antes de localizar a caixa correta eu passeei por diversas caixas, balcões e estantes… A Arquivista naquela época era um pouco desleixada e…

- Sim, sim, me lembro muito bem da Senhora Esteves. E?

- E eu encontrei encontrei uma pasta com um nome curioso. Projeto “Harley Davidson”.

- Ah. – Kajeesh levantou um pouco as sombrancelha, num breve franzir de cenho  - Imagino que você ficou horas lendo minhas velhas anotações, se atrasou com suas responsabilidades e veio aqui discutir comigo algum ponto que considerou revolucionário ou por demais complexo?

- Ambos. Não entendi, ao certo, nem metade das demonstrações teóricas. As aplicações práticas, então, me pareceram ininteligíveis. Mas…

- Mas?

- Eu vi referências… Ou sugestões, não sei… A um… um…

- Moto-Perpétuo? – Perguntou Rajeesh com certo enfado.

- Então é verdade? – Mariana dilatou o olhar, incrédula.

- Heh. Mais ou menos. Para todos os fins teóricos, não. Harley Davidson foi uma brincadeira adolescente sobre a “Motocicleta Eterna”.

- Mas para fins práticos…

- Para fins práticos seria um Moto-Perpétuo. Pelo menos no sentido de que não haveria nenhuma fonte de energia auxiliar material.

- Mas o Moto-Perpétuo é impossível! Precisaríamos de uma saída de calor que estivesse em Zero Kelvin! Zero absoluto!

- Sim, sim, sim… eu sei. Perceba, eu não disse que era efetivamente um moto-perpétuo. Não para fins teóricos. Na verdade, eu nunca procurei o Moto-Perpétuo. Isso é o equivalente moderno científico de buscar a Pedra Filosofal. Isso foi apenas uma aplicação prática de uma descoberta teórica acidental. Imagino que você tenha estudado sobre as derivações matemáticas das infinitas dimensões possíveis, não?

- Claro.

- Pois bem. Na época, empolgado com a Teoria das Supercordas, estava derivando dimensões distintas. E encontrei diversas. Qualquer um poderia fazer o mesmo. Diversas pessoas fizeram. Salvo engano, é matéria de graduação. Perfumaria para a maioria das pessoas.

- Mas?

- Mas, primeiramente me perdoe se eu a poupar da explicação, mas se você passou horas lendo meus apontamentos e não os entendeu, não os entenderá agora. O resumo de tudo é: descobri uma forma de acessar tais dimensões. Acessar e fazer medições.

- Isso é Formidável! O Senhor deveria ter ganho um Nobel por isso! Por quê não publicou?

- Porque no curso da pesquisa, descobri algo ainda mais interessante: a medição emn dois pontos diferentes gerava uma certa diferença de potencial. E aparentemente as leis da natureza se aplicam à essa outra dimensão também. Heh. Eu quase explodi um laboratório com os experimentos.

- Então… Se tem diferença de potencial…

- Exato: você pode criar dois pontos de acesso e utilizando a diferença de potencial criar movimento. Criando movimento, cria-se energia. Muita energia, por sinal. É o mesmo princípio da utilização de imãs para gerar corrente elétrica, só que ao invés de acessar a dimensão magnética, que será descoberta provavelmente por um pesquisador alemão da Universidade de Bonn, que está no caminho certo mas você nunca deve ter ouvido falar, acessamos o que chamei posteriormente de dimensão Alpha.

- Então além de descobrir uma forma de acesso às dimensões o Senhor ainda descobriu como utilizar isso como forma de energia? Não entendo! Por que você não publicou, Professor? Poderíamos acaber definitivamente com nossa dependência de petróleo ou energia nuclear ou… ou… Qualquer coisa!

- Sim, sim, sim… Eu sei… Sabe… eu sinto saudades dessa emoção que você está sentindo agora…

- Mas se o Senhor sabia utilizar e se sabia as aplicações disso, por que não publicou? Ou patenteou? Isso seria equivalente à descoberta do Fogo!

- Não a culpo por pensar assim. Foi resumidamente o que eu pensei quando percebi as aplicações práticas da descoberta. Ao contrário de você, no entanto, e para o nosso bem, eu fui um pouco mais cauteloso e decidi fazer alguns experimentos. Comecei montanto em casa um gerador simples de energia. Pelos meus cálculos, seria suficiente para manter uma cidade pequena funcionando por alguns anos. Também fiz uma pequena adaptação no carro de minha falecida esposa. queria saber quanto tempo demoraria para que a energia se esgotasse. Para que a diferença de potencial virasse zero. Ou para que houvesse uma flutuação de corrente.

- E…?

- E muito para minha surpresa, a diferença de potencial não variava. O fluxo de energia Alpha era constante em minha casa. E no carro de minha esposa também. Era perfeito.

- Então por que o Senhor não Publicou?!

- Veja bem… a caixa que você trouxe era os arquivos que seriam remetidos à publicação. E eu os teria enviado não fosse pela doença de minha finada esposa. Você deve ter ouvido falar, não?

- Sim… Ela se matou, não? Estava deprimida, correto?

- Sim, sim, correto. Perceba, à medida em que se aproximava da época da publicação, sua condição se agravava. Aos poucos seu quadro depressivo se aprofundava. Fisicamente, estava perfeita. Nem sinal de qualquer alteração. Nem mesmo cerebral, o que fazia com que as drogas ministradas tivessem efeito pífio. Pedi afastamento por seis meses para cuidar dela. Tinha esperança de que poderia salvá-la. A dor… a dor de vê-la daquele jeito. Nada justificaria que eu deixasse ela morrer para colher um Nobel. Na pior das hipóteses, alguém poderia publicar meus trabalhos, caso fossem capazes de encontrar essa caixa e vissem em minha casa que a aplicação prática era possível. Em 7 anos uma equipe dessa Universidade entenderia os cálculos.

- Mas?

- Mas o estado de minha esposa se agravava. Ela não desejava comer. Não desejava beber. Se não fosse por mim, nosso cachorro teria morrido de fome… ou fugido. Eu a levava de médico a médico. “Está tudo ótimo” diziam. “É um problema psicológico” diziam. Mas nada resolvia. Primeiro tiveram que a alimentar. Depois ela se negou a comer de todas as formas. Precisamos colocar fraldas geriátricas nela. Ela não se importava de evacuar em si mesma. Passamos a alimentá-la por sondas. Ela estava quase catatônica.

- E o que aconteceu?

- Um dia eu entrei em seu quarto e ela havia furado repetidamente a própria jugular com a agulha do soro.

- O quê?!

- Sim, chocante. Fico pensando quanta dor ela deve ter sentido antes de morrer. Na prática ela descosturou a própria jugular, rasgando com as unhas a carne após perfurá-la. Mas acho que nem a dor mais importava para ela.

- Sinto muito…

- Sim, eu sei. Eu diria que “eu também”, mas eu não sentia. Estranho, não? Inicialmente eu achei que era uma estratégia de Luto. Pelo menos foi o que meu psicanalista dizia. Mas um dia eu encontrei uma carta dela. Dobrada em uma gaveta. Datada de poucas semanas antes de seu suicídio.

- E o que dizia essa carta?

- Leia você mesma – Disse Kajeesh enquanto abria a carteira e entregava uma folha amarelada cuidadosamente dobrada.

Mariana pegou a carta e abriu, com cuidado para não machucar o papel envelhecido. Dentro, escrito com batom vermelho, em letras quase analfabetas de tão descuidadas estava escrito “Eu não sonho mais”.

- “Eu não sonho mais”? O que isso quer dizer?

- Aparentemente quer dizer exatamente o que diz. Ela parou de sonhar. Dizem que todos sonham e minha esposa, especialmente, tinha sonhos muito claros. Imediatamente entendi que tal fato estava associado à sua doença, talvez como causa, talvez como consequência. Mas minha maior surpresa foi verificar as leituras do “Moto-Perpétuo”. Na noite de sua morte houve uma significante flutuação de corrente. Como se o gerador tivesse se desligado dela e depois tivesse se ligado a outra pessoa. Se ligado a mim.

- Como assim?

- Aparentemente a Dimensão Alpha, e esse nome foi intendional e posterior ao falecimento de minha esposa, é a dimensão onde existem os sonhos. Poucos sonhos são criados. A maioria deles são re-sonhados todas as noites. Quando montei em minha casa o reator, ele se harmonizou com uma pessoa aleatória e próxima. Minha esposa. à medida que gerava energia, ia equilibrando a diferença de potencial na dimensão dos sonhos de minha ex-esposa. O que era preto ia se tornando cinza. O que era branco ia se tornando cinza. Todos os opostos iam se equiparando até que a diferença de potencial cessasse. E quando se ligou a mim… meus sonhos também estavam perdendo o contraste.

- Isso… isso é loucura!

- Loucura? Teorizam hoje sobre a dimensão na qual as frequêncais eletromagnéticas atuam. Teorizam que a Gravidade é uma distorção do Espaço-Tempo. Nós utilizamos diariamente ambas as dimensões para criar energia elétrica. Eu só usei uma dimensão desconhecida. A Dimensão dos Sonhos. Por deus… Ptolomeu já usava uma teoria semelhante para explicar a Astrologia.

- E o que… O que o Senhor fez?

- Desliguei a máquina. Desliguei a máquina usando uma marreta de dois quilos e meio. Se tivesse uma maior, teria usado.

- E depois?

- Depois eu voltei a sonhar? Depois eu decidi publicar os resultados? Não e não. Eu diria que “para meu desespero, a pasteurização da Dimensão Alpha é passageira”, mas seriam duas mentiras: não é passageira e eu perdi a capacidade de me desesperar. Também sou incapaz de odiar, amar, sofrer, me jactar, desejar e ojerizar. O mundo é uma grande xerox de xerox de xerox de uma identidade velha para mim.

Mariana permanecia em silêncio. Estaria de queixo caído, não mantivesse os lábios fechados.

- Depois eu queimei os documentos? – Prosseguiu Kajeesh – Como você pode perceber, não. Não tive vontade. Por sorte fui capaz de criar uma programação pessoal para viver. Me apeguei a valores morais arbitrários. Acho que se minha falecida esposa não tivesse ficado tanto tempo ligada à máquina, teria sido capaz de fazer a mesma coisa.

- Então… o que você pretende fazer?

- Nada. Perceba, decidi permanecer um indivíduo útil e mudei minha linha de pesquisa. Essa descoberta… esse invento, releguei à lata do lixo. É inútil. De que adianta um carro se você não deseja sair de casa? Um avião se ninguém deseja viajar? Para que serve o tempero para quem não deseja comida? De que adianta a pornografia para quem não deseja sexo? Para que serve toda a energia potencial do mundo a alguém que não tem sonhos? Por mim, incapaz de ter qualquer desejo sobre o que fazer com essa descoberta, levantei essa matriz no fundo da caixa.

Kajeesh se dirigiu à caixa e retirou um velho gráfico.

- Veja, pelas minhas contas, se esse produto fosse colocado no mercado, obviamente sem o conhecimento dessa externalidade onírico-destrutiva, em cerca de seis meses todos os usuários primários estariam mortos. Mais seis meses os secundários. Acredito que a maior parte das pessoas não se importaria ou não perceberia que estava sacrificando seus sonhos para não ter que gastar mais com gasolina. Em uma perspectiva pessimista, a civilização estaria destruída em 3 anos. Em uma otimista, eu entraria para a história como o pior ser humano já existente. Embora eu não ligasse para a perspectiva otimista, a pessimista seria um risco grande demais. Arquivei o projeto. O mundo não precisa de mais pessoas moendo os sonhos para andar num carro novo.

Mariana permaneceu em um frio e incrédulo silêncio. Era tudo por demais inacreditável… mas batia perfeitamente com toda a história da vida do Dr. Rajal.

- E agora, Senhora Mariana? O que a Senhora pretende fazer depois de saber que pode, com cerca de onze anos de estudo sozinha, ganhar um Nobel e condenar a raça humana?

- Queimar, – disse Mariana mecanicamente – queimar tudo, se o Senhor permitir, Professor.

- Permitir? Eu não me importo.

O alarme do celular de Kajeesh toco, fazendo com que ele o tirasse do bolso.

- Onze e meia – prosseguiu o professor enquanto recolocava o alarme no bolso – preciso ir comer algo e dormir. Senão meu rendimento vai cair vinte e três por cento amanhã. Peço que queime longe daqui esse arquivo, Senhora Mariana. E se me der licença, por favor, vá agora enquanto fecho minha sala.

-  Claro – disse Mariana enquanto pegava a caixa e se dirigia à saída.

- Ah, e Senhora Mariana?

- Sim? – disse Mariana se virando brevemente.

- Tenha bons sonhos.

“Faça um Pedido.”

February 4, 2013 § 6 Comments

Me mandaram fazer um pedido em uma noite de dezembro de 2011.

Tenha em mente que não foi uma noite comum. Foi a noite mais curta do ano. O Solstício de Verão.

Litha.

Litha é o ápice do Poder do Sol. O Grande Doador da Vida (ei… tudo precisa de energia pra acontecer… e ela basicamente vem daquela bola de gás incandescente no centro do nosso Sisteminha Planetário – até petróleo é sol engarrafado). E dizem que o que for pedido em Litha acontecerá.

Sim, tipo um papai noel, mas sem barriga de gelatina balançando quando gargalha “HO HO HO”.

Bom, sempre que eu faço um pedido, eu procuro focar em alguma coisa grande. Fora do escopo normal do que eu conseguiria. Senão seria um desperdício de desejo. Pedir pra emagrecer 5 kilos? Porra, faça uma dieta! Não temos que ter medo de sonhar alto.

E eu pedi um Castelo.

Tá, admito que eu pedi um Castelo metafórico. Todo mundo sabe que no Brasil não existem castelos (exceto um possuído por um deputado ou senador).

Eu pedi uma casa. Uma casa com quintal, churrasqueira, um lugar onde montar uma forja (é sério) com uma mangueira (a árvore, não o objeto de limpeza). E pedi que essa casa fosse nosso Castelo e Reinado.

Pois bem, por caminhos tortuosos e estranhos… Até mesmo surpreendentes… Meu desejo se realizou. Literalmente.

Eu, Nina e mais três amigos decidimos montar uma pentarquia (sim, uma monarquia de 5 reis). E encontramos uma casa que desde o início (sem eu revelar a literalidade do meu pedido) foi apelidade de Castelinho. Segundo a corretora, castelinho é o apelido da casa na região.

Obviamente, alguns pontos não bateram com o pedido: não existe uma mangueira na casa. Mas pretendemos plantar uma.

Por outro lado, o mais impressionante da casa… deixo a imagem falar por si só:

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Isso é o sótão da casa. Aparentemente quem projetou a casa decidiu manter o sótão como um espaço aberto. Espaço que um dia foi uma área de balé. Outra vez foi uma área de Yoga. E vai ser uma área de treino de Artes Marciais.

Sim, porque eu voltei a dar treinos de artes marciais.

Acho que de tudo o que eu poderia aprender com essa história toda é que ninguém vira Rei se comportando como Mendigo. Ninguém se torna livre vivendo como escravo.

And all of a sudden… minha vida vai melhorando. Aos poucos.

Não sei o que vai ser do amanhã, não sei o que vai virar a minha carreira de professor, astrólogo, escritor, Sensei, ou o que mais eu desejar ser (astronauta, lutador de vale-tudo, bombeiro…)

Eu sei que hoje eu vivo em um castelo.

Espelhos.

January 3, 2013 § Leave a Comment

Todo mundo sabe que ao tentar ler uma palavra posta diante do espelho, essa palavra se inverte. Por isso ambulâncias têm a palavra “ambulância” escrita invertida na sua frente: para que possamos lê-la tranquilamente pelo retrovisor.

No entanto, gostaria de saber, por que não nos perguntamos a razão de não haver uma inversão no eixo vertical, isso é, de ponta cabeça?

Por que os espelhos gostam tanto do eixo horizontal?

Longe de ser uma pergunta tosca, ela foi debatida por Platão, e algum físico do começo do século passado usava essa questão para zoar seus alunos na faculdade.

Confesso que a resposta não é tão complicada. No entanto, não é sobre respostas, é sobre perguntas.

Percebam: não estou falando de algo teórico e abstrato. Não é sobre a constante de Planck nem a Teoria das Supercordas. É um fato que você vivencia uma dezena de vezes por dia e que, provavelmente, nunca se questionou.

Pelo menos eu nunca tinha me questionado.

Obviamente, o motivo pelo qual nunca nos questionamos a esse respeito pode ser a mesma explicação pela qual nosso polegar consegue encobrir a lua cheia. Perspectiva: o Polegar é MEU, se ele for cortado vai me fazer muito mais falta que um pedaço de rocha no céu.

Mas também é possível que a gente não se questione muito a respeito do mundo ao nosso redor.

É o problema de se contentar com as respostas mais próximas e as mais confortáveis. Sob certos aspectos, somos maquininhas de otimização. Criamos padrões para evitarmos desgaste de energia.

A Lei da Gravidade diz que massa atrai massa na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias. Questão resolvida. Move on.

Move on até precisar mudar a explicação: a Gravidade distorce o Espaço-Tempo. Muito mais complicado. Mas explica melhor.

Tem gente que fala que o magnetismo é uma força que atua em uma das 12 dimensões que não conhecemos.

Uma vez me disseram que um pouco de conhecimento é pior que nenhum. Queria que tivessem me ensinado a medir conhecimento.

Dizem que a gente encontra as coisas no último lugar em que procura porque quando encontramos, paramos de procurar. Vale o mesmo para as respostas.

Sim, é loucura continuar procurando os óculos depois de encontrar. Talvez seja loucura procurar mais de uma forma de resolver uma equação de segundo grau. Mas não se contentar com a primeira resposta é uma ótima política pra vida e uma resolução de ano novo extremamente interessante.

Talvez nem a segunda resposta seja boa o suficiente.

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