Criatividade Burguesa.

July 23, 2014 § Leave a comment

“Canta, ó musa, a ira de Aquiles, o Pelida.” Ilíada, Verso I.

“Eu não preciso treinar mais nada porque já treino a Espada que os Deuses ensinaram ao meu Mestre.” Trecho da entrevista de um aluno ao autor do livro “O Caminho do Guerreiro”.

Uma das coisas que mais chamava a atenção dos antigos era a natureza do pensamento.

De fato, pensamentos existem. Sabemos porque pensamos. Além disso, sabemos que temos memórias, e tais memórias podem ser acessadas com razoável facilidade.

Pense agora no seu primeiro beijo. De nada.

No entanto, a natureza do pensamento sempre foi críptica (e ainda hoje é). Tão críptica que uma das soluções dadas a esse mistério era o entendimento de que as ideias e pensamentos não eram produtos humanos, mas sim divinos. Se fossem dignos, os seres humanos poderiam receber tais benesses. Daí vem a ideia de inspiração, algo que não está em você mas que se torna parte de você.

As obras de Homero (e todas as demais da Antiguidade Clássica) começam invocando as musas para que estas permitam ao rapsodo o acesso à música de forma clara e perfeita.

Ainda hoje no Japão há uma escola de kenjutsu que perpetua a tradição de um estilo, segundo o fundador, recebido dos deuses por ele em um período de meditação nas montanhas.

Para nós, hoje, afirmar que recebeu alguma coisa “de Deus” (ou do diabo, como o cantor de Blues mítico) é uma tremenda prepotência. Para eles, no entanto, era exatamente o contrário: atribuir aos Deuses uma determinada obra significava tirar sua pessoa do aspecto de maior relevância. O rapsodo não era criador, era meio pelo qual os deuses se manifestavam. Verdadeiro médium.

Ainda quando não atribuíam as obras aos Deuses, frequentemente atribuíam as obras a uma instância superior distinta de si: acredita-se que Homero sequer existiu e que alguns capítulos da Odisséia sequer são originais (aquele que Ulisses mata uma ovelha preta pra invocar os espíritos dos mortos, por exemplo).

Essa filosofia da composição é, quando muito, coerente com a visão de mundo da Antiguidade Clássica, onde o indivíduo, a bem da verdade, não tem vez. A família era condenada pelos crimes do indivíduo e não são poucas as referência a punições de cidades inteiras pelos atos de um indivíduo (Édipo Tirano de Sófocles é um exemplo).

À medida em que o tempo ia passando e a vida melhorando, o ser humano foi deixando de lado a posição passiva e assumindo o protagonismo da história. Com o Renascimento se iniciou um movimento de individuação do ser humano: a criação não é fruto de Deus, mas trabalho ativo do ser humano. O “homem renascentista” é aquele que aprende sobre o mundo e com o conhecimento adquirido, cria. Esse processo de individuação é que permitiu a criação de obras como Romeu e Julieta, afinal, só quando o indivíduo tem valor é possível criar o conflito entre vontade própria e vontade dos outros.

Essa individuação vem de uma ideia muito simples e, como dito em Inception, muito resiliente: minha vida pode ser diferente das demais. E essa ideia não veio de deus (pelo menos não como os antigos acreditavam), mas dos homens. Mais precisamente, da burguesia. O caráter histórico do ser humano é uma ambição: queremos morrer melhor do que nossos antepassados viveram. E para alcançar tal fim precisamos de meios. Esses meios podem ser 2.500 calorias por dia, penicilina ou um Ipad. Mas o fato é que esses meios são fornecidos por alguém que lucra (e bastante) com isso. E para que a vida deles fosse melhor que a dos pais deles, a vida de todo mundo tinha que ser um pouco melhor.

Autodeterminação, livre-arbítrio, história, individualidade… O Autor só pode vender um livro porque foi ele que escreveu (não deus). Só se suporta um incômodo pois há a esperança de que esse incômodo um dia deixe de existir. Ainda hoje comemos dos frutos do Renascimento Comercial e nem sabemos direito. Até o Direito Penal Moderno descende daí (Saudações, Beccaria!).

Óbvio que nem tudo são flores. O atual estado do ecossistema é fruto disso. E hoje assistimos o individualismo chegar aos pontos mais extremos, como o direito à autodeterminação do gênero sexual. Mas por mais estranho que isso possa parecer, parece melhor do que responder pelos crimes da família e não poder, sequer, escolher a que servir.

(E eu dou um pouquinho de risada quando penso que toda a questão GLS e de liberdades individuais é uma discussão burguesa.)

Soneto da Hemorragia

June 6, 2014 § 5 Comments

Há quem diga que o traído sente dor
E que tal dor lhe advém da punhalada
Quem o diz com certeza não pensou
Que a dor é da adaga retirada.

A adaga que penetra e tanto corta
Com surpresa tanto mais espanta
Mas passado o momento inicial
A dor até que um pouco encanta.

O que mata não é tanto a punhalada
Mas tão mais o vazio que se planta
Pois a adaga com a carne abraçada.

Logo parte e caminha pra distância.
O que dói não é lâmina nem faca
Mas apenas o vazio que me sangra.

F(arte).

June 2, 2014 § 5 Comments

Nas aulas de Literatura do colégio somos expostos aos movimentos literários como uma sequência clara e indistinta de movimentos artísticos. Essa metodologia configura, em verdade, um curso de história da literatura que, tal qual a maioria das disciplinas escolares, acaba sendo um amontalhado (se essa palavra não existe, deveria) de retalhos organizados de acordo com uma falsa obviedade.

O resultado disso é que nós estudamos a literatura como um evento passado e a ignoramos em seu caráter presente. Simplificamos: Drummond é Drummond porque é Drummond. O literato é um literato porque é um literato. Não estudamos o processo de composição dos escritores. Não avaliamos a pretensão dos mesmos. Tomamos a obra como se fosse óbvia e sequer imaginamos como o escritor a compôs.

Mario de Andrade dedicou seu primeiro livro ao mestre Mario de Andrade. Drumond dedicou seu primeiro livro ao mestre Mario de Andrade e seu segundo livro ao amigo Mario de Andrade. João Cabral de Melo Neto dedicou seu primeiro livro ao amigo Carlos Drummond de Andrade.

Apresenta-se, pois, uma declarada e intencional continuidade entre os autores, oriunda de uma visão global da Arte, ou da Função da Arte, ora chamada de F(arte) ou “Efe de arte”. Essa visão global está correlacionada a um ideal de mundo e arte e ao compromisso do artista para com esse ideal de arte.

O Realismo-Naturalismo é o resultado global do compromisso assumido pelos autores diante de um ideal de compreensão de mundo no qual as “Leis” da natureza moldam o mundo e o homem. O Modernismo é o resultado global do compromisso dos autores de romper com a Velha Arte e integrar em suas obras as mais novas descobertas filosóficas.

Os Autores que não se prestam a servir a um ideal de mundo acabam relegados ao segundo plano da história. Autores menores.

O problema de se enxergar as obras como causa e não consequência de um movimento literário é que isso abertamente nos joga em confronto com nossa mediocridade. Baudelaire é um clássico pois reconheceu (ainda que inconscientemente) um espírito de uma época, um zeitgeist, e se comprometeu com ele em uma relação simbiótica.

De tal constatação advém o questionamento: se a arte transcendente está de acordo com a F(arte) de um determinado momento, qual a arte transcendente de hoje? Quem serão os literatos estudados daqui a 100 anos? Quem organizará a Semana de Arte Moderna de 2022?

***

Ontem (01/06/2014) fui assistir à peça “São Paulo Surrealista“, em cartaz no Teatro Incêndio.

A peça se propõe a, por meio de uma linguagem surrealista (duh) e iconoclasta repisar e repassar o território artístico da cidade de São Paulo, emprestando a Mário de Andrade, Pagu, Frida Kahlo e outros o status de mitos fundadores e patronos de uma cidade que se caracteriza pela desunidade linguística e artística.

Aproveitando o mito de Orpheu, reposicionando-o na Consolação (e não na Conceição, tal qual Vinícius), o herói ascende nos círculos do inferno da cidade, ou de seus inferninhos, do limbo da cracolândia, no qual corpos sem alma perambulam, aos altos círculos dos Jardins Paulistas, onde banqueiros e diplomatas se regojizam em sua gula, passando, como não deveria deixar de ser, pela Luxúria do Baixo Augusta.

São Paulo se vê retratada não como a esquina da Ipiranga com a São João, ornada de dura poesia concreta, mas como um inferno, um inferno que são os outros, vez que cada um escolhe os círculos que mais lhe aprazem. Acaso é mais nobre pagar por sexo com cartão de crédito do que com pensão alimentícia?

Ironicamente, o desafio da peça é uma proposta quase intransponível: como dar continuidade a um movimento cujo objetivo é romper com a continuidade? Como romper com a estética do rompimento? A solução para esse dilema acaba por ser uma abordagem dadaísto-surrealista que encontra no choque aos sentidos seu meio de impressão sensorial e que possui no lugar o eco que lhe torna possível: os sons, cheiros e texturas do centro de São Paulo constroem o Teatro do Incêndio e permitem que a plateia se torne o palco onde a peça é encenada.

Se o desafio da trupe era dar continuidade a um movimento que se propôs ao rompimento pelo choque, inegavelmente foram bem sucedidos: saindo da confissão do papa condenado à cadeira elétrica ou da exposição da exploração do corpo feminino, a peça encontra seus pontos altos na encenação de um Mário de Andrade enrustido e da tortura com a intenção de fazer da loucura sanidade. Afinal, após tantos anos de rompimento, apenas a simplicidade da nudez masculina e o escárnio do maior ideólogo modernista podem se propor a carregar a tocha do modernismo.

A peça permanecerá em cartaz até setembro, com espetáculos aos sábados e domingos, respectivamente às 21:00 e 19:00 horas, no Teatro do Incêndio, na Avenida da Consolação, 1219.

A Milésima Corda do Banjo.

March 28, 2014 § 4 Comments

Lembro-me de uma vez, quando eu era criança, durante as férias, que, ao procurar no jornal da casa da minha avó se havia algum filme interessante na televisão, eu passei por cima de uma sinopse interessantíssima.

Era um filme sobre um garoto que havia nascido paralítico, em um vilarejo mexicano, e que, desde a mais tenra idade, tocava banjo. Um dia, um andarilho cego chegou em sua vila e, ao ouvir o garoto tocar banjo, disse-lhe que o dia em que o rapaz estourasse a corda de seu banjo pela milésima vez, ele estaria curado de sua paraplegia e conseguiria andar.

Para falar bem a verdade, eu não vi esse filme, apenas li sua sinopse. Acho que ele passava de madrugada e, na época, eu não podia ou não estava disposto a ir dormir de madrugada para assistir um filme.

De qualquer forma, esse filme entrou para a minha história como um filme que nunca vi e, consequentemente, é idealizado. É como a música dos Engenheiros do Hawaii que não existe e eu passei anos procurando, “Acontece toda vez que me apaixono”. Não sei como o filme termina. Não sei como o garoto reagiu à notícia. Se se entregou de corpo e alma à prática do banjo para tentar estourar, o quanto antes, sua milésima corda, se desistiu de tal empreitada, se contou desesperadamente cada corda estourada ou se deixou que as cordas estourassem por si.

Nem sei se a milésima corda estourou, se o garoto voltou a andar, se ele morreu antes da última corda estourar, ou, ainda, se em algum momento teve alguma epifania de que voltar a andar era algo pequeno comparado à música que tocou (lição de moral que partiu de alguém que, obviamente, tem as duas pernas funcionando muito bem).

Mas eu acho que a milésima corda do banjo é uma ótima metáfora.

Fato é que a prática é essencial ao aperfeiçoamento. Músicos praticam. Dançarinos praticam. Artistas marciais praticam. Médicos praticam. Não consigo pensar em nada na vida que não esteja sujeito à prática. Até sexo. Especialmente sexo. Os/as virgens que me perdoem.

Por outro lado, o problema da prática é que ela é sempre a promessa de um andarilho cego. “Se você praticar, você vai conseguir.” Quem disse? Quantos nunca chegam lá?

Falam muito das histórias de superação dos lutadores e campeões mundiais, mas nunca falam das centenas de fraturas por estresse, dos esportistas que lesionam os olhos e nunca mais entram em campo ou dos que foram derrotados na primeira rodada, perdendo pro campeão. Se tivessem perdido para o Campeão na última, seriam medalha de prata. Perdendo na primeira, não são nada.

Repetem à exaustão a história de náufragos salvos por golfinhos que os carregaram até a praia. E a história dos náufragos levados pro outro lado?

Ninguém repete a história dos afogados unicamente porque os afogados não têm história pra contar.

A prática ajuda, sim, sem dúvida.

Mas será que mil chutes por dia te levam ao chute perfeito?

Será que mil acordes te levam ao acorde perfeito?

Mil piscinas? Mil voltas na quadra? Mil desenhos? Mil pinturas? Mil textos?

Ninguém sabe. Mas mesmo assim se dedica a algo.

(Até porque, não se dedicar a nada é muito perto de já estar morto.)

Toda prática é uma questão de fé. Fé de que um dia o chute perfeito surja.

Novamente, você está diante do muro de espelhos. Você vê o passado e seus padrões, e tenta projetar um futuro. Se houve melhorias, você acredita que elas vão continuar ocorrendo. Se você não vê melhorias, bem vindo ao deserto. A paisagem nunca muda, mas parar de andar não te leva a lugar nenhum.

José caminha sem saber pra onde. Depois da luz apagada, do povo sumido, da noite esfriada, sem verso e sem protesto. Mas caminha.

Para os Gregos o Universo se criou sozinho. O Caos se rasgou, se dividindo entre Céu e Terra, Amor e Morte. Para os Gregos, Eros, o Amor, era a suprema potência cosmogônica de união. Esquece o bebê com arco e flecha: Amor é o que mantém seus átomos unidos. Thânatos, por sua vez, é a potência de desagregação, desintegração.

Basicamente, uma bomba atômica é um amor morrendo. Faz muito sentido se pensarmos na destruição, na morte e na contaminação e envenenamento que perdura por séculos.

Para perseguir um objetivo, a força primordial é o Amor. Desejamos nos unir àquela situação imaginada. Seja ela um campeonato de Taekwondo, um diploma, um carro novo ou a Ana Hickmann.

O que nos permite perseguir, dia após dia, um determinado objetivo é o Amor àquele objetivo. Ainda que seu objetivo seja ganhar dinheiro, você ama os benefícios que o dinheiro lhe trás. Simples assim.

Precisamos de amor para perseguir os objetivos dos quais acreditamos sermos capazes de atingir. Precisamos de ainda mais amor para perseguir os objetivos dos quais não acreditamos sermos capazes de atingir. Precisamos de amor para uma prática pois é eles que nos mantém andando e nos dá esperança. Mesmos sabendo que a esperança é o que nos mata.

***

Hoje terminei minha primeira caneta de correção de redações.

O Nascimento de uma Alma é Coisa Demorada.

March 10, 2014 § Leave a comment

O mito cosmogônico de um povo fala muito sobre como ele enxerga o mundo e, consequentemente, sua postura perante a vida.

Nossa cultura é dominada pela cultura judaico-cristã, na qual um deus externo e independente do universo criou este por meio da organização (separou céu e terra, dia e noite, sol e lua, águas superiores e águas inferiore, and so on).

Depois disso ele pegou barro dos quatro cantos da Terra e criou o homem, soprando vida em suas narinas e dando pra ele o poder de nomear a criação.

E dar nomes é conhecer o íntimo da coisa nomeada.

Até onde se sabe, Adão não teve infância e Eva não passou pela puberdade.

Para o nosso mito ocidental, o ser humano nasceu pronto e encontrou tudo preparado. Sim, é verdade, ele cagou no pau, foi bicudado pra fora do Éden e, desde então, foi obrigado a comer o pão com o suor do próprio rosto e por aí vai. (O que é nojento pra caralho, se você pensar que tá passando o pão na testa suada antes de comer e tals.)

Mas, independentemente disso, o ser humano tem que trabalhar para comer.

Nunca falaram nada em trabalhar para Viver.

Humanity is taken for granted. Se você nasceu, você é humano. O máximo que tem que fazer é esperar fazer 18 anos (ou 21) e magicamente você tem todas as competências necessárias para viver.

Para o ocidente, a maturidade é uma data de aniversário.

Não precisamos ir pro meio da floresta trazer uma pena de águia ou uma garra de urso. Não precisamos trazer a cabeça de um inimigo morto em batalha e nem ser atravessado por anzóis ou escarificado para ganhar o direito de ser tratado como um adulto.

No máximo temos que terminar os estudos. Mas aí também, eles assopram um diploma em nossas narinas e mandam a gente sair por aí dando nomes pras coisas.

Falaram que a gente precisa trabalhar pra comer, mas não mencionaram em nenhum lugar d’O Livro que precisamos trabalhar para Viver.

E Viver é uma coisa muito perigosa, seu moço. A gente nasce, encontra o mundo do jeito que tava, procura o cantinho mais cômodo e repete os dias num looping incessante, dando refresh na caixa de emails, mendigando like no Facebook e assistindo comerciais para escolher o próximo consumo.

Depois a gente estranha que merda acontece. Claro que acontece. O mundo roda, e, se você deixar, roda por cima de você.

“A dona Aranha subiu pela parede, mas veio a chuva forte e a derrubou.”

Tempo não resolve nada. Trabalho resolve. E trabalho é uma Força atuando em um corpo por um determinado deslocamento no espaço (multiplicado pelo cosseno de Theta). Prefiro pensar queTrasbalho  é Força por um determinado deslocamento no espaço-tempo.

Irônico que anos atrás eu falei que a vida só faz sentido quando você a FORÇA a fazer. Você faz força. Durante um tempo. E multiplica pelo cosseno de Theta. Aí faz sentido.

Dude, Where’s my Hate?

March 9, 2014 § 8 Comments

Um dos conceitos que eu achei mais brilhante é a ideia de Túnel de Realidade.

Por esse conceito, o mundo é um universo extremamente amplo e grande, do qual nós conseguimos apreender apenas uma parcela.

Segundo as pessoas que acreditam nessa teoria, o que somos capazes de apreender é dado pelo que somos capazes de perceber (nossa percepção objetiva) e interpretar (nossa percepção subjetiva).

Portanto, se você nasceu, cresceu e viveu sua vida toda em higienópolis, chances são de que a sua realidade percebida seja bem homogênea no que tange ao mundo. Se você nasceu no Tocantins e mudou para São Paulo, você percebeu duas realidades diversas. Logo, você conhece mais mundo que boa parte das pessoas.

Por outro lado, não se trata apenas da percepção, ams também da intrpretação. A Sheherazade (a jornalista, não a mina das mil e uma noites) olha pra um trombadinha interpretando o mundo com outros olhos que, por exemplo, um filósofo de esquerda. Eles possuem paradigmas de interpretação do mundo diferentes, portanto, o mundo em que eles vivem são diferentes.

***

Para alguns pensadores, o (ou um dos) objetivos da vida, é a ampliação do seu túnel de realidade. Ou seja, a ampliação da sua percepção e interpretação do mundo para entender que, a despeito do livro ser uma bosta, a vida é feita de mais de cinquenta tons de cinza, não de preto e branco.

A capacidade de olhar para uma determinada situação compreendendo mais de uma interpretação da realidade seria, portanto, um aspecto da so overated “expansão de consciência”. Não estamos falando aqui de ver anjos ou de enxergar os fios das tramas do destino, mas apenas e tão somente flexibilidade cognitiva.

***

Nos mitos gregos alguns deuses eram considerados belos e bondosos enquanto outros maldosos e atrapalhadores. Um dos casos mais clássicos disso (e expostos na Ilíada) é o conflito entre Marte e Athena.

Marte, o Senhor de todas as Batalhas, aquele que se apraz com o sabor do sangue de seus inimigos, por inúmeros motivos, se opunha a Atena, a descendente direta da cabeça de Zeus.

Ser descendente da Cabeça de Zeus significa ser filha da sabedoria de Zeus-Júpiter. Zeus, no caso, o dono de toda a sabedoria e astúcia. Aquele que conhece o todo. Athena, portanto, seria a Senhora de Todo o Conhecimento vestida com roupas de Batalha.

***

Na astrologia, Marte é o Pequeno Maléfico. O Senhor de todos os rompimentos, discórdias e brigas. Porque Marte é de temperamento Colérico, quente e seco. O que é certo é certo e o que é errado é errado. Period. Não existe mais ou menos ou veja bem.

Júpiter, por outro lado, é o grande benéfico. O Senhor da expansão de área. Aquele que tudo sabe, tudo vê. O senhor da calma e da avaliação. Veja bem, dependendo do lado que se olha, tudo está certo.

***

Marte e Júpiter são planetas quase opostos. Ambos se expandem, claro, mas cada um a seu modo. Marte é a expansão em foco, em seta, em penetração. Júpiter se expande em área, como um lençol ou colchão. Mole macio e confortável. Tudo que Marte não é.

Marte Rompe, porque Marte não tem Veja Bem. Marte não admite opinião contrária. Marte não admite outra hipótese. Para Marte, o objetivo é um. E estratégia é covardia. Period. Ele é o Senhor do Ódio, da Ira, do Rancor, da Fúria e da destruição. Se não é do jeito certo, é do jeito errado. Que se queime e se reinicie.

***

Em algum lugar do passado eu perdi meu Marte.

Houve um tempo em que a vida era deveras mais fácil. Existe a minha opinião e existe a opinião errada. E a opinião errada é errada porque perdeu. Foi derrotada. Não resistiu à verdade. Justiça é tirar aquilo daquele que não merece. E sabe como você descobre se ele merece? Vai e tira. Se ele perder, é porque não merece.

Era uma época em que a vida não gostava de pessoas boas, mas sim de pessoas melhores.

Era uma época de ódio e rancor.

E se amor é a potência cosmogônica de união, o ódio (ou morte) é a potência cosmogônica de separação. Corte. Queime. Desintegre. Separe e espalhe. Só existe uma verdade e uma opinião. Os discordantes que morram e sumam. Relegados a uma darwinística lata de lixo da história. Existe um objetivo: Vencer. E uma das estratégias pra isso é destruir os demais competidores.

Destrua tudo que, no fim, sobra só o indestrutível.

***

Às vezes eu queria que o Todo Poderoso, definitivamente, me esmagasse com um dedo flamejante por todos os “pecados” que eu já cometi. Queria que minha carne e (irritante) gordura fosse distribuída entre 8 etíopes para, quem sabe, fazer do mundo um lugar melhor.

Mas isso não acontece. Eu amaria ser condenado a um inferno se esse inferno fosse outra coisa que não essa perda de mono-perspectiva associada a uma ausência de altruísmo.

Reconheço que o outro tem direito à felicidade, mas não me comprazo com a felicidade alheia. 

Não me importo com a vida alheia, mas não tenho amoralidade suficiente para atravessar o caminho do outro.

Falei anos atrás que era uma merda ser um canalha incompetente ou um romântico frustrado.

Hoje eu só queria encontrar meu ódio.

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