Sobre o Pior Dia da Minha Vida e Sobre Aquela Puta Chamada Morte.
Hoje quero falar sobre o pior dia da minha vida.
Deve ser estranho você falar “Hoje é o pior dia da minha vida” pelo simples fato de que você não lembra de todos os dias da sua vida. Achar que um dia em especial é o pior dia da sua vida é um tanto quanto precipitado.
Porém para um dia ser o pior dia da sua vida, você não precisa de uma grande tragédia. Oras, grandes tragédias invariavelmente vão acontecer, e elas moldam seu caráter.
Pra um dia ser o pior dia da sua vida, você só precisa de uma sucessão de pequenas tragédias.
Tudo começou com a idéia de ir para a Tribe. Havia combinado com uma menina de ir pra lá com ela e com um outro amigo meu. Um dia antes roubaram a república dela em Assis. Para os céticos, ela teve um sonho profético a esse respeito.
Meu outro amigo desencanou.
24 horas antes eu havia comentado com o Reverendo Breno que esse seria invariavelmente o dia mais difícil da minha vida, porque minha ex estaria lá também, fora o fato de que tudo indicava que eu iria com ela.
Bom, a parte mais relevante do pior dia da minha vida, obviamente, envolve minha ex. Mas como eu sou contra usar blogs para mandar recado, respeito a intimidade dela e me abstenho de colocar qualquer menção a isso.
Bom, na ida para a Tribe, decidimos colocar o carro num estacionamento que haviam aberto cerca de 4km antes da entrada da festa, em função das duas horas de transito em menos de 2 km.
Seguimos para a Tribe fora ter encontrado algumas pessoas lá (é sério… em raves você faz amizades que duram mais que uma festa), fora um comentário de uma amiga da minha ex que eu sinto que hoje posso chamar de minha amiga, foi uma tragédia de níveis épicos. Ao final do dia, como o carro estava longe, fui antes para pegar um taxi e depois voltar para pegar as meninas.
Com o intuito de ser um pouco mais literal, gostaria de narrar como tudo transcorreu escrevendo de forma descritiva.
Era noite e não havia luz nenhuma na estrada, exceto a luz das estrelas.
Paguei o táxi e desci, e percebi que havia um homem sentado no pneu da frente do lado do motorista. Pensando que talvez fosse o vigia do estacionamento, fui entrando e ele entrou dentro da casa.
Percebi que as rodas do meu carro estavam soltas e faltando três, pelo menos. Quando o choque deu lugar à compreensão, abri o porta malas para pegar meus bastões. (Para aqueles que não sabem, bastões são armas melhores que facas).
Não encontrei, ele havia roubado os bastões também. Lembrei a outra arma que eu tinha no carro, as espadas de treino, mas elas também haviam sumido. Só havia me restado a faca, a arma com a qual eu mais treino, mas a menos eficiente. Minha faca de arremesso, a mais fácil de ocultar, ainda estava onde eu sempre a escondia. Deixei minhas coisas e entrei na casa,usando o celular para iluminar o caminho e evitar ser emboscado. Vasculhei todos os cômodos da casa e cheguei ao quintal, onde o mato alto mostrava que a casa estava abandonada há muito tempo.
Quando comecei a olhar pelo quintal, tentando discernir alguma forma humana à noite, vi que alguém estava correndo na estrada. Corri no meio do mato que estava na altura das minhas coxas, pulei de um salto a cerca de arame farpado que delimitava o quintal, desci um barranco de cerca de 4 metros de altura aproveitando o momento da queda, caí na estrada e não parei de correr.
Quando o ladrão viu que seria alcançado, veio em minha direção. Lembrando do ensinado pelo mestre Nakayama, no Sotai, tomei postura ofensiva de luta com facas civil e mandei que ele ficasse parado. Ele veio em minha direção, repeti o comando. Ele continuou andando, com a faca brilhando na luz das estrelas gritei “Pára aí, você quer morrer, filho da puta?”.
Ele parou.
Imagino que a visão de um homem com 1,95m de altura, sem camisa, de calça jeans imunda e com uma faca na mão numa estrada deserta tenha intimidado um pouco ele.
Eu disse que ele iria devolver as rodas, e ele disse que não havia roubado nada. Eu disse que aquilo não era uma discussão, era uma ordem. Mandei ele ir andando na minha frente e ele disse que não ia me deixar com uma faca atrás dele. Eu disse que aquilo não era uma discussão, era uma ordem.
Enquanto ele andava a dois metros na minha frente, com as mãos levantadas, pensei que se eu desse uma facada, mas só uma facada nos rins dele, ele estava morto. Eu atingiria a artéria renal, e ele sangraria até a morte em dois minutos. Se eu parasse de esfaquear ele.
Não o matei.
Ele pediu pra eu guardar a faca, que aquilo era besteira, eu disse que se ele não ficasse quieto, eu ia fazer uma besteira.
Ele foi até o quintal, e disse que os pneus estavam lá, que era só eu procurar, eu disse que quem iria procurar era ele.
Ele me mostrou onde estavam. Eu peguei os pneus e ele disse que ia embora.
Eu deixei.
Quando cheguei no carro, liguei para as meninas que estavam na Tribe e avisei o que havia acontecido pedi que elas fossem me encontrar enquanto eu arrumava o carro.
Liguei para a polícia e, meia hora de burocracia depois, consegui pedir uma viatura.
Por coincidência o Stein me ligou e eu contei o que havia acontecido. Ele disse que me ligaria mais tarde.
Andei por onde eu persegui o ladrão e vi que eu consegui encontrar a chave de rodas. Respirei aliviado. Agora sim eu poderia começar o trabalho.
Enquanto eu procurava a chave do carro, um senhor, de mais ou menos 45 anos com sua esposa parou o carro. Ela abriu a janela e eu, surpreso com alguém ter parado numa estrada deserta pra ver o que um homem com uma faca e uma chave de roda nas mãos fazia dise que eu estava com problemas, que meu carro havia tido as rodas roubadas eu que eu iria começar a colocar as rodas agora. Pedi que eles mandassem uma viatura policial para o local, por favor.
Eles disseram que fariam o possível e partiram.
Comecei a colocar as rodas e percebi que as luzes de dentro não acendiam, e, quando dei por mim, percebi que o ladrão havia roubado o rádio, meu ipod, havia desligado a bateria e roubado o estepe, fora as espadas e os bastões.
Comecei a colocar as rodas no carro, no escuro, sozinho e sem luz nenhuma, exceto a do celular.
Minha sorte foi que o ladrão não jogou os parafusos longe.
Mais ou menos uma hora depois, como as meninas demoravam, liguei para uma delas e elas disseram que haviam decidido pegar um táxi de volta para casa e que já chegaram lá.
E eu não estava conseguindo colocar uma roda do carro. O macaco não levantava tudo o que precisava, uma árvore com espinhos me cortava enquanto eu tentava colocar o pneu no carro.
Tive vontade de deitar na grama e dormir até o dia amanhecer. E me lembro do que me deu forças para não desistir.
Eu disse para mim mesmo: eu vou colocar esse carro para funcionar porque eu vou caçar o filho da puta que roubou minhas coisas.
E voltei a montar o meu carro.
Quando estava colocando a última roda, 45 minutos depois, chegou a polícia e o velhinho com um guincho. Fizeram o boletim de ocorrência na hora, e disseram que ele estaria pronto na delegacia de Araçariguama em cinco dias.
Como meu carro estava pronto quando eles chegaram, não consegui ir atrás do ladrão, o que hoje eu descobri que foi uma boa coisa, porque a estrada por onde ele fugiu era um centro de treinamento do exército. E o exército não ia achar que um cara sem camisa, com uma faca na mão era o Rambo querendo tomar uma cerveja.
Peguei a estrada para São Paulo e cheguei em casa às dez horas da noite, depois de viajar os 60 km mais solitários da minha vida, com uma roda com um parafuso a menos e sem o estepe do carro.
Agora eu tenho que tentar minimizar o prejuízo.
Esse blog não é pra falar sobre as minhas histórias. Não é para falar de como eu, sozinho, à noite, no mato, persegui, interceptei e rendi um assaltante usando apenas uma faca. Isso foi idiota. Ele poderia ter uma arma de fogo, ele poderia usar a chave de rodas, ele poderia ter outra faca, ele poderia ter comparsas, ele poderia me emboscar, ele poderia voltar quando eu não estava vendo, ele poderia voltar com mais pessoas, armado, etc. Eu poderia morrer. Eu fui idiota e fiz algo estúpido. Mas tive sorte.
Repito tudo o que eu falo pros meus alunos nos meus seminários de defesa pessoal e artes marciais: Não reaja. Não revide. Deixe levar tudo e saia com sua vida. Eu cometi um erro, reagi por instinto porque precisava voltar para a casa e precisava das rodas do meu carro. Foi instinto e foi burrice. Reagi na base da adrenalina. Nunca façam isso. Não pretendo fazer de novo.
Eu pensei muito sobre tudo o que aconteceu. E é sobre isso que eu quero falar aqui, sobre minhas conclusões.
A primeira delas é a mais suave e mais idiota. O ideal seria terminar com ela, pois ela é suave, e minimizaria as conclusões depressivas que esse post traz.
Eu me tornei um ser humano melhor. Precisei de anos de artes marciais e esporte, mas me tornei um ser humano melhor. Eu entrei na casa, localizei o ladrão. Pulei uma cerca de arame farpado de um metro e meio de altura com um só salto, utilizei o momento do meu movimento e desci um barranco de uns setenta graus de inclinação, corri atrás do ladrão e rendi ele.
Eu me tornei um guerreiro no sentido estrito da palavra. Um matador. Alguém que colocou seu corpo e sua mente focados em um único objetivo: matar gente. Eu hoje posso me considerar diferente dos outros seres humanos.
“E então Deus me expulsou da companhia de meus pais e de todos aqueles que eram iguais aos meus pais. Sobre mim colocou um sinal para que todos soubessem que agora eu me tornara diferente de todos os outros. Diferente, pois agora meu sacrifício era digno. Diferente, pois tinha descoberto algo novo enquanto meu irmão tombava a meus pés. Diferente, pois agora eu aprendera a usar uma arma, e esse simples fato me tornara diferente dos outros seres criados por Deus. Agora, todos aqueles que vissem o sinal sobre mim saberiam o quão perigoso eu me tornara.” – Datu Shrii Lapu-Lapu.
A segunda as conclusões, embora boazinha, pode estar equivocada.
Enquanto eu caminhava atrás do ladrão para levá-lo até minha casa, eu pensei em matá-lo. Mas não matei.
Não foi por medo da polícia. Eu não havia chamado polícia nenhuma até aquele momento. Poderia esfaqueá-lo e deixar a hemorragia fazer o serviço, esconder o corpo no mato e deixar os urubus e outros animais cuidarem do corpo por uns três dias, mais ou menos o tempo que ia demorar pra começar a feder e encontrarem o corpo. Mas não matei.
Também não foi porque “toda vida é sagrada” ou porque eu estragaria a minha vida.
Talvez seja por covardia.
Mas lá no fundo, foi porque eu fiquei com pena do ladrão.
As pessoas dizem que quando você é roubado, você sofre de uma ira incontrolável, uma vontade de matar qualquer ladrãozinho que passa na sua frente.
Mas eu fiquei com pena dele. Ele estava com medo de mim. Assustado. Tudo o que ele queria era fugir, e ele só não fugiu porque eu o alcançaria na corrida.
Na frente dele ele não via um homem de um 1,95m de altura, com uma calça jeans suja, sem camisa e com uma faca na mão.
Ele viu a morte dele. E isso o reduziu a uma presa.
E eu tive pena dele, porque ele era medo e pavor. E eu não poderia matar alguém que se resumia a medo e pavor. Seria como matar uma pessoa indefesa. Um aleijado. Um paralítico. Um bebê.
E eu deixei ele ir embora para a vida dele.
A penúltima conclusão é de ordem budista.
Todos nós estamos interligados de alguma forma, e ninguém é bom ou mal. As pessoas interagem. Ele e minha ex me fizeram mal nesse dia. Eu devo ter apavorado o sujeito. O velhinho me fez bem, quando toda a sensatez diria que ele deveria deixar um cara com uma faca na estrada e seguir reto. O atendente da Casa do Pão de Queijo que eu almocei hoje me deu um pão de queijo de graça. As pessoas fazem mal e bem umas às outras, o tempo todo. E ninguém é bom ou mal, as pessoas estão boas ou más. Nós só temos o dever de agir de acordo com nossas verdadeiras naturezas.
E a última conclusão, provavelmente é a mais sombria.
Em Fight Club tem uma cena na qual os membros do Project Mayhem criam um acidente automobilístico para chegar a uma situação limite de quase morte. Lutas não causam isso. Brigas talvez. Acidentes de carro causam.
A tese era que só quando você chega muito perto da morte que você entende a vida.
Eu não tive uma experiência de quase morte, eu tive uma experiência de quase merda, o que é bem diferente. Se uma coisinha desse errado, se ele estivesse armado, se ele estivesse em bando, se ele tivesse usado a chave de roda, se ele tivesse me emboscado, eu teria uma experiência de quase morte, ou, mais provavelmente, uma experiência de morte mesmo.
Mas enquanto eu colocava as rodas do meu carro, sozinho, só com a luz das estrelas e de um celular, sem saber se a polícia ia chegar e sabendo que minha ex e as amigas dela já estavam em casa, eu me toquei de que eu estava sozinho. By myself. No meio do mato, longe de tudo e de todos, com um ladrão que não era desprezível de tamanho por perto, embora fosse óbvio que ele não tivesse treinamento algum, eu percebi: eu posso morrer aqui. Morrer de verdade. Não como com um jardineiro correndo atrás de você e dos seus amigos com uma tesoura de poda.
De verdade.
Tomar porrada com uma chave de roda na cabeça até ter seu cérebro espalhado pelo chão. Ser espancado por um bando de ladrões e ter seu corpo jogado no mato. Perder a faca e ter a garganta cortada.
Morrer. De verdade. E virar notícia na semana seguinte.
E isso bateu em mim mais forte que qualquer outra coisa. Eu queria que alguém estivesse do meu lado. Pra rir da situação, pra conversar comigo, pra falar comigo.
E queria que minha ex passasse por lá (era caminho) pelo menos pra me dar um oi, saber se eu estava bem e se eu precisava que elas pedissem um guincho pra me tirar de lá.
Eu queria um ser humano do meu lado.
Eu podia morrer. Era uma experiência de quase morte. Minha experiência de quase morte.
E na morte, você está sozinho.
Na morte, não existe pai, mãe, amigos, amigas, namorada, esposa, família, nada.
Na morte você está sozinho.
Não existe certo, errado, bom, mau, bem, mal, reprovação, aprovação.
Na morte você está sozinho.
Ainda que eu estivesse num leito de hospital, com amigos e parentes segurando minha mão, eu estaria sozinho.
Ainda que eu estivesse num carro com cinco pessoas e morresse, cada um de nós estaria sozinho.
Na morte, não existe mais nada. É você e você mesmo. É a vida que você escolheu para si mesmo. Você se resume em um segundo à sua vida e à sua consciência. Não existe aprovação social, não existe mais nada.
Você está sozinho.
Eu disse recentemente que você só pode se considerar um ser humano adulto quando você encara a morte pela primeira vez de frente. Não se trata da morte do seu bisavô quando você tem quatro nos de idade. Trata-se da morte de um ente querido. Trata-se da morte quando você não está pronto pra morte. Trata-se da morte quando você tem um contato traumático com a morte. Só é adeus quando você não quer dizer adeus.
Quando o ser humano tem um encontro traumático com a morte ele toma duas posturas básicas: Ou percebe que pode morrer amanhã, e se cerca de cuidados, ou percebe que pode morrer amanhã, e vive mais a vida.
Cerca de oito anos atrás tive meu contato com a morte. Naquele dia eu vi que eu poderia morrer no dia seguinte, então era bom eu começar a viver melhor a minha vida.
Ontem, naquela situação de quase morte eu vi que o que é realmente importante é viver de acordo com a sua consciência.
Porque na morte você está sozinho.
Acho que por isso a última frase do Pai Nosso é: “agora e na hora de nossa morte, amém.”
Agradeço infinitamente a Deus, por vc estar vivo. O que diferencia um homem é a sua capacidade de evolução. Tenho muito orgulho de vc. Te amo.
Comment by Anonymous | July 17, 2007 |
Paulo, você ainda consegue achar que não é profundo o suficiente? Suas idéias e experiências sempre me fazem refletir. Obrigada por dividir mais esse aprendizado comigo. Espero que com isso você se torne ainda melhor do que já é. Concordo contigo, a consciência é nossa bússola e, embora estejamos sozinhos na morte, ainda acredito que antes e depois dela estaremos juntos de quem amamos. Se cuida querido! Você mora no meu coração!
Comment by Roberta | July 17, 2007 |
Sinceramente? O que pra vc pode ter parecido ruim da sua tal ex não aparecer, talvez amanhã vc perceba que ela não poderia agir da melhor forma. Acho que mais do que ter consciência do que é a morte, vc teve provas de que, nas adversidades, por piores que sejam, até mesmo quem te dá as costas pode na verdade estar te fazendo o melhor de todos os bens.
Comment by Anonymous | July 17, 2007 |
Nascemos sozinhos. Morremos sozinhos. Estamos sempre sozinhos.
Ma vida; depois eu não sei.
Comment by Ovo | July 17, 2007 |
ei colega.. parabéns por ter se tornado “um guerreiro no sentido estrito da palavra, Um matador”.Que os ENSINAMENTOS DE NAKAYAMA te gueim! Amém!
Comment by Anonymous | July 20, 2007 |
Bom demais pra ser ficcao. Talvez foi melhor sua ex nao parar, se ela nao tem treinamento, nao tiver o perfil, ela so iria atrapalhar. Se bem que ela deveria ter discado 190.
Nao existem pessoas mas ou ruins. As pessoas agem de maneira razoavel, dentro do limite delas. Algumas sentem medo.
Pena que esse pais de covardes aderiu ao controle de armas de fogo, e a proibicao da pena de morte seja clausula petrea. Mas chega de agitar bandeiras.
Comment by Roger | July 20, 2007 |