Um (outro) Elogio da Loucura.
November 9th, 2011 § 11 Comments
Um grande amigo fala que eu sou um homem de idéias.
Não lembro se fui eu que criei a frase, ou ele, mas o bordão repetido à exaustão (eu dou motivos pra isso) é: “Anarco, você é um homem de idéias. Poucas delas boas. Mas um homem de idéias.”
De fato, eu dei motivos para essa frase. “Roubar” uma garrafa de vodka numa balada open bar (não pergunte), tentar quebrar o braço de um segurança bicudando a porta da balada (não pergunte), deixar um peru marinando no vinho tinto (preciso falar pra não perguntar?), desligar a chave geral de um estádio (céus, eu devia estar morto), etc, etc e etc.
O fato é que eu acredito que todo o processo criativo funciona com base em um casamento entre loucura e juízo.
Primeiro você pensa um monte de merda. Depois você censura a merda e solta só o que presta.
É tipo fazer café com a semente que aquele ratinho come. Com o problema que você não sabe se o ratinho tá comendo semente de café.
Os publicitários deram nome pra isso: Brainstorm. Aparentemente, se você der um nome legal, isso é uma boa justificativa pra falar merda.
Tecnicamente, o brainstorm é um shut-down do Juízo.
Ironicamente, alguns milênios atrás, os cabalistas chegaram a uma estrutura parecida por meio da metafórica estrutura da árvore da vida: “Deus” é o Todo, que se desdobrou na “Suprema Criatividade” e na “Suprema Restrição”. Quando os dois se casam, “passa um fiapinho” de criatividade pro Universo e esse fiapinho deu origem a tudo, dos planetas, estrelas e estrutura do espaço-tempo ao café feito de merda de ratinho.
Bom, meu objetivo com esse blog não é discutir o sexo dos anjos, a cabala, deus ou café de merda de ratinho, mas sim expor alguns ensaios, e recentemente, eu vinha pensando sobre o tema.
Primeiramente, óbvio que eu pensei nas aplicações mais concretas disso pra minha vida. Oras, eu ainda sou um advogado e eu ainda tenho que defender meus clientes. Meu trabalho é vestir roupas cerimoniais, criar sinfonias de lógica usando palavras antigas em línguas esquecidas para convencer uma entidade velha e de moralidade duvidosa chamada “Poder Judiciário”. Sou quase um taumaturgo.
E nesse sentido, quanto mais argumentos melhor. Depois que sejam os mais fracos excluídos.
Ademais, eu também sou um escritor. De blog, mas um escritor. De uma literatura menor, sim, mas um escritor. Nesse sentido, o processo criativo demanda a mesma estrutura metafórica de criação universal: Primeiro vem a Suprema Criatividade, depois vem a Suprema Censura, e o que passar, vira Criação.
Criação é a Loucura sob o crivo do Juízo.
Obviamente, dá pra aprofundar um pouquinho.
Em um caráter mais palpável, temos que o Juízo é, primordialmente, uma questão paradigmática: existe o certo e o errado, o bom e o ruim, o justo e o injusto, o eficiente e o ineficiente, tudo isso dentro de uma superestrutura pressuposta: dor é ruim, logo não vou prender o testículo esquerdo no canto da porta.
Pra um masoquista, prender o testículo esquerdo no canto da porta pode ser uma diversão de sábado à noite.
Nesse sentido, nosso cérebro é uma maquininha de aprender o que é certo e o que é errado. A escola é uma grande linha de montagem de paradigmas.
Obviamente, não estou afirmando que isso é ruim. Isso é necessário. E ser for um mal, é um mal necessário.
O problema surge quando só ensinamos o Juízo e não a Loucura.
Porque se o Juízo for maior que a Loucura, apenas criaremos o que já foi experimentado, o que é um oxímoro por definição: ninguém cria o que já foi experimentado. Isso é, quando muito, uma imitação.
É muita represa pra pouca água.
Para que exista criação é necessário que haja, pelo menos, um fiapinho a mais de Loucura que de Juízo.
Obviamente o mais comum é pensarmos em termos concretos de criatividade e todos os frutos que tal atributo trazem (dizem por aí que criatividade é algo valorizado pelos RH’s da vida), porém, é algo muito mais concreto e presente nas nossas vidas que nos livros de auto-ajuda (e olha que é bem presente nos livros de auto-ajuda).
Escrever um texto é uma vitória da Loucura sobre o Juízo.
Abrir uma empresa é uma vitória da Loucura sobre o Juízo.
Sedução é uma vitória da Loucura sobre o Juízo.
A pater(mater)nidade é uma vitória da Loucura sobre o Juízo.
Vencer a timidez, o medo da rejeição e a vergonha e sair pra dar uns amassos num(a) ilustre desconhecido(a) é uma vitória da Loucura sobre o Juízo.
Tudo que extrapola o que os olhos vêem é uma Vitória da Loucura sobre o Juízo.
Porque o Juízo só te leva até onde você consegue compreender. A Loucura faz você dar o passo adiante e ampliar os limites da compreensão, indo até onde você, por definição, nem imagina.
E você? Já abraçou sua Insanidade hoje? Why so serious?
Prezado Anarco,
não é a primeira vez que vejo nos seus escritos uma distinção entre literatura maior e menor. Você poderia discorrer com maiores detalhes como você faz essa distinção?
Em tempo: belo texto. Quase meigo. Dá vontade de sair surtando por aí. :-)
Putes. Isso foi um comentário de um amigo meu que disse que “considerava o Anarcoblog um dos melhores expoentes da Literatura Menor, ou seja, os blogs.”
Ele ressaltou que não era pra me ofender (e eu realmente não me ofendi) mas a questão primordial era se blog configura literatura.
Eu meio que discordo. Não garanto que blog seja literatura. Isso não é algo nem bom, nem ruim, mas apenas é um fato. Vc pode ter um blog excelente, e ele ainda vai ser menos literatura que um livro ruim, isso porque blogs e livros são linguagens diferentes.
Quando eu falo que Sandman é a melhor coisa que eu já li, não significa que eu esteja dizendo que Sandman é literatura, porque quadrinhos são uma linguagem distinta.
Well, talvez eu explore isso em iniciação científica/mestrado/doutorado.
É um ótimo tema pra uma tese.
Exato, pois isso cheira a uma definição bem conservadora do que é e o que não é literatura.
Como se o veículo fosse mais importante que a forma e o conteúdo.
Coloquemos assim: forma é indissociável de conteúdo, uma vez que os dois são determinantes pra atividade artística.
Você nunca vai ver Saramago colocando um vídeo do youtube no livro dele.
Isso é bom ou ruim? Depende.
Mas é literatura? Não, não é.
Ler um livro em voz alta para uma criança, faz com que o livro deixe de ser literatura?
Se eu fizesse um vídeo no youtube onde eu leio a obra de Saramago, o mesmo deixa de ser literatura?
Estou fazendo uma distinção aqui entre forma e veículo. Como forma entendo a linguagem utilizada: lírica, poética, prosa, narrativa, épica, quadrinhos, etc..
O veículo seria um livro, revista, site, e-book, etc…
NEsse sentindo, não vejo porque seu blog não pode ser visto como literatura.
AFinal, o que é literatura?
A palavra Literatura vem do Grego “Lithos”, ou “Pedra”, designando a obra feita para ser escrita em pedra, para ser aposta sobre um suporte físico.
Por quê isso? Porque a Literatura, por definição, está objetivamente colocada num suporte que permitirá ao leitor um contato objetivo com a obra. Se você pegar para ler as poesias completas de Drummond numa edição da Saraiva ou da Ediouro, dá na mesma. É objetiva, fixa e definida. Independe da qualidade do livro, independe da qualidade do meio.
Agora, se eu pego uma obra de Brecht, feita para o teatro, eu posso falar que ela é literatura? Talvez… E eu posso falar que uma peça teatral é literatura? Com certeza não.
O meio é diferente e vai alcançar diferente a platéia. Uma coisa é uma peça apresentada pelo Cigano Igor, outra é uma peça apresentada pelo Gianfranchesco Guarnieri.
Se eu leio um livro pro meu filho, aquilo PODE ser considerado literatura. Se eu declamo uma poesia não.
A Literatura, por estar fixa, permite coisas, por exemplo, que o folclore (que é primordialmente de tradição oral) não permite. É impossível você transmitir Machado de Assis via tradição oral (as digressões fariam tanto quem conta a história como quem a ouve se perder). Por outro lado, a Odisséia, que é um poema épico criado para ser declamado, tem outra estrutura.
Poesia é literatura? É.
Letra de música é literatura? Não.
Peça de teatro é literatura? Não.
Blog é literatura? Não.
E não é literatura porque, por exemplo, em um livro você nunca poderia discutir com o autor.
Ah, e vale destacar que, por exemplo, alguns poemas foram feitos para serem declamados, não lidos.
Lendo teu texto, difícil não lembrar de Friedrich Nietzsche; meu insano preferido. Viva a loucura libertadora, criativa, que transforma homens em grandes homens.
Nietzsche é uma coisa que eu tenho que reler.
ah!… a preferida dentre as preferidas! linda, linda, linda. e não há como negar que seja alegria em música. ainda me arrepio.
Gostei da definição de criação como “loucura sob o crivo do juízo”. não gosto muito da que fez equivalente: “vitória da loucura…”, embora tenha entendido a ideia do “fiapinho a mais”.
Gosto de enxergar o juízo como um tempero, de modo que mesmo qd a loucura “vence”, é uma vitória consentida. Pelo crivo do juízo. Senão, é só loucura.
Ahhhhh… a Loucura nunca é só.