Cortinas.
December 5th, 2011 § Leave a Comment
Começara durante o trabalho.
Era como se uma mancha residual, muito breve, permanecesse em sua visão após piscar.
Isto o deixara preocupado: tinha mais de cinquenta anos e se aproximava da aposentadoria. Trabalhar uma vida inteira em uma repartição pública para, na velhice, terminar cego seria mais uma prova da inegável injustiça da vida.
O médico, com sua camisa em monótono xadrez, no entanto, o tranquilizou: fora um aumentozinho na hipermetropia, ele estava ótimo. Sem chances de glaucoma, catarata, descolamento de retina e nem mesmo sujeira no liquor aquoso.
Mas a mancha continuava lá.
Um dia, no banho, lembrou-se de uma brincadeira de criança: abrir e fechar os olhos muito rapidamente, tendo a impressão de que o mundo se movia em câmera lenta. Disseram que era um truque de perspectiva usado por pintores.
Decidiu experimentar.
No início, a mancha meramente se fez visível, mas aos poucos, foi ganhando nitidez. Como se os olhos se acostumassem com aquele perpétuo movimento de abrupto encerrar e reiniciar de visão.
A mancha então ganhou braços, pernas cabelos e forma humana. De uma criança pequena, com olhos muito vermelhos e dentes afiados. Ao se ver percebida, sorriu e começou a andar em direção daquele que a vira, ficando mais próxima a cada piscada.
Sua família ouviu os gritos e arrombou a porta.
Os médicos disseram que poderiam usar soro fisiológico para umedecer os olhos, mas que ele precisava aceitar os enxertos.
Ele disse que arrancaria de novo as pálpebras se tentassem costurá-las de volta.
E pediu para nunca mais apagarem a luz.