Você não é tão criativo quanto pensa.
October 29, 2012 § 8 Comments
(E, pra todos os efeitos, eu também não.)
Sim, eu ando ausente. Bite me.
Fato é que eu ando sem muita inspiração. O texto de hoje, por exemplo, está sendo ruminado há meses.
Sim, durante esse período de falta de criatividade, me dei ai trabalho de refletir sobre, bem, a criatividade.
Um dos erros ao se pensar sobre a criatividade é tratar o julgamento do produto por mérito do processo. Acreditar que houve um processo criativo porque alguém disse que o produto é criativo.
Isso equivale a falar que se eu tirasse cópia de meia centena de cartas patente e voltasse dois séculos no passado (ou esperasse um apocalipse nuclear) eu seria uma pessoa criativa porque, bem, eu estaria construindo um monte de coisa que ninguém construiu até então, o que me parece um julgamento errôneo: o processo pode ser considerado criativo quando gera algo novo para quem o produz.
Cabe a analogia: uma paródia não é exatamente um produto criativo. O Latino não fez exatamente (e nem grosseiramente) umt rabalho criativo ao tentar parodiar “Oppa Gangnam Style”.
Digo isso porque por inúmeros motivos eu tenho meu processo “criativo” bem consciente. E 99% das vezes é um processo de recombinação de elementos ideológicos pré-disponíveis. Anagramas do que apreendi.
Dizem que 1% da internet produz, 9% parodia e 90% meramente consome e copia.
Daí eu chego à conclusão de que existem duas criatividade. A Alta Criatividade e a Baixa Criatividade, onde essa primeira eu nem tenho certeza de que exista de verdade. É aquela que alguns humanos na face da Terra alcançam, apresentando algo realmente novo. A mudança do Estado da Arte. Aquele “e se eu dividir por zero?”. “E se eu inventar um número que multiplicado por ele mesmo dê -1?”.
Esse aspecto de criatividade inovadora é responsável por algumas das maiores obras da humanidade e, embora possível de ser alcançado, não permite muita elocubração sobre seu sistema interno de funcionamento.
De certa forma esbarramos no mesmo problema da computação: como criar um gerador de números verdadeiramente aleatório?
Deixando de lado aquilo a respeito do qual não temos controle, prefiro me debruçar sobre aquilo que temos algum controle. A Baixa Criatividade, que, embora seja mero recombinar de elementos ideológicos pré-disponíveis, é suficiente pra uma vida muito mais divertida.
E cheguei a uma conclusão: o processo criativo demanda duas variáveis. Repertório e Entropia.
Repertório não é um grande problema. São os elementos pelos quais você já transitou na sua vida. O que você leu, ouviu, comeu, aprendeu, tocou, cheirou, sentiu, escutou, entendeu, etc, etc, etc. Quanto mais elementos você tiver, mais letras vai existir no seu alfabeto.
Já a entropia… ah… a Entropia, minha velha amada. Falei sobre entropia aqui.
Sem entrar no sentido emocional de destruição que Entropia recebeu, entropia é a diminuição de regras de ordenamento de um determinado sistema. Não misturar meias e cuecas, por exemplo, é uma regra. Não comer carne de porco, é outra. Combinar o cinto com o sapato é outra.
E a parte interessante é que a diminuição na quantidade de regras permite um novo rearranjo dos elementos pré-existentes. Como dito pelo Neil Gaiman: “Vocês não saberão o que estão fazendo, e isso é lindo, porque quem não sabe o que está fazendo, não conhece as regras, e se não conhece as regras, não sabe o que pode ou não ser feito, e vai cometer erros maravilhosos, originais e lindos.”
Agora, isso é algo que assusta muita gente: a criatividade não admite o insípido e inofensivo bom gosto. É tanto a releitura de uma obra de Brahms sob a sonoridade da banda de pífanos de caruaru quando fazer piada sobre ter relações carnais com um nascituro e sua mãe, uma razoavelmente famosa “artista” da televisão brasileira.
Isso porque bom gosto é regra de etiqueta, e regra diminui a entropia.
Talvez por isso que algumas linhas psicanalíticas (Jung, notadamente) falam que o inconsciente é a sede da criatividade. Não é porque “lá” é um “lugar especial”, é porque “lá” não tem regras. É lá que você sonha com um livro de técnicas de suicídio ou com o demônio que faz os gatos chorarem como bebês ou com uma partida de futebol com bolhas de sabão ou com uma asa delta feita de tangerinas. Ou a Ira de Aquiles o Pelida, que pelo desejo de ser lembrado eternamente matou algumas centenas de homens.
E convenhamos, matar algumas centenas “pra ser lembrado” é uma tremenda grosseria.
Mas criatividade, mesmo a criatividade baixa, a criatividade “é o que tem pra hoje”, não admite “não pode”. Ela pede um “e se?”.
Acho que o Borges tem tudo a ver com o teu texto
” Tenho para mim que sou essencialmente um leitor. Como sabem, eu me aventurei na escrita, mas acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta; porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.”
E aquele lance de vc é do tamanho dos seus sonhos? Se a criatividade é do tipo “é o que temos pra hoje” (inclusive essa frase tá quase levando sua autoria nos meus comentários) depende muito do que vc quer com isso e do que espera. Se tem grandes pretensões ou não. Se tem bons observadores ou não. Harry Potter e Narnia não são grandes inovações criativas, mas são de alta criatividade, na minha opinião, e não houve diminuição de regras impostas de plano de fundo, os autores seguiram padrões de um sistema de ocultismo popular, como vc bem sabe. O que eu acho que pode ser é que talvez o que torne o que você chama de alta criatividade seja a riqueza de detalhes.
Vips, eu não acho que a diferença seja uma questão de intensidade. Pra mim, fazendo uma metáfora simples, é mais ou menos assim: se eu te dou as letras M, R, O, A, vc pode escrever Amor, ou Roma… uma pessoa de criatividade baixa escreve MORA, ou ORAM.
A Alta Criatividade é descobrir novas letras…
Entendi, e minha baixa criatividade de sempre permite que eu não discuta muito além dos pontos de vista que já possuo. E outra coisa, esse texto me deu um desânimo rs
Huhauahuahua… Que isso, Vips… Não é pra desanimar: estamos todos no mesmo barco… As letras que n´so TEMOS são uma coisa útil, fato… mas mais importante é buscarmos letras novas.
Que bobagem essa de desânimo. Não deu desânimo nenhum. Afinal, é fato que nem todos terão a criatividade de Fernando Pessoa, Clarice…, mas isso não importa. O importante é escrever com paixão, dedicação. força e suor e, claro, muita diversão ;-). Vamos brincar com as letras.
Ainda assim acho delicado separar algo como Criatividade em dois únicos polos, “baixa” e “alta”… até porque, será que os grandes criativos de fato inventaram algo completamente novo sem antecedente algum? E mesmo a total e completa inovação, o sopro da Alta Criatividade.. será que também não teve uma fonte?
Será criativo classificar a criatividade nesses padrões? hehehe
:D
Mas exatamente essa que é a proposta: dividir entre a recopmbinação de elementos pré-existentes e a “inspiração divina” de pensar algo até então inédito.
E veja, não estou falando que a baixa criatividade é algo ruim: não é. Nem que é algo fácil: não é. Nem que é inútil: não é.
É apenas que recombinações dos seus elementos pré-constituídos podem fazer de vc o melhor de vc. Mas elementos novos te fazem uma nova pessoa.