O Inferno do Velho Buk.

November 18, 2013 § 4 Comments

Bukowski é a nova Clarice Lispector das internets: todo mundo cita, ninguém realmente leu.

Imagino que isso se dê porque Bukowski, fora de contexto, é um autor extremamente citável. Fora de contexto ele se confunde com um putanheiro safado, o que faz com que todos os putanheiros safados se escondam embaixo do seu guarda-chuva, encontrando um argumento de autoridade para justificar suas vidas de putanheiros safados.

Da mesma forma, todos os sofredores românticos com o coração inchado de dor de amor citam Clarice Lispector, os góticos passam os dias ouvindo Joy Division e The Cure, os emos ouvem a merda que eles ouvem, e todos vamos buscando por afinidade encontrar expressões artísticas para justificar nossas paixões individuais.

E, ah, meus amigos… As mentiras da arte são tantas. São plantas artificiais. Artifícios que usamos para sermos ou parecermos mais reais.

Nesse sentido, descontextualizar Bukowski é um crime, uma vez que é reduzi-lo a uma faceta de sua fração. Entender Bukowski como um mero velho safado é ignorar que Bukowski é um poeta da dúvida. É a inadequação daquele que deseja mas teme. Diz a música que somos medo e desejo. Bukowski é sobre medo e vergonha. E sua obra é sobre transgressão e auto-repressão.

Dizem que Bukowski passou algumas décadas escrevendo e trabalhando nos Correios até que um editor fez uma oferta para que ele largasse seu emprego e vivesse em tempo integral como escritor. Ele teria aceito a oferta, aos 49 anos, registrando em carta que tinha duas opções: Ficar nos Correios e enlouquecer ou virar escritor e morrer de fome. E ele havia decidido morrer de fome.

Bukowski não é um heroi em seu sentido mais amplo. Lhe falta a coragem e a convicçãode um heroi. O que lhe move é, quando muito, o medo e a dor. O medo de uma existência patética, a dor de uma vida encurvado em uma jaula segura. É aquele acredita que uma morte lenta, dolorida e vergonhosa é melhor que aquela vida. E, nesse sentido, ele é um heroi.

A obra de Bukowski é um todo indissociável da vida do Autor. Afirmar que é uma obra autobiográfica é uma simplificação desmedida. Mas, nesse caso, não se distingue produto de processo e produtor. Por isso “O Inferno do Velho Buk” é uma iniciativa louvável.

“O Inferno do Velho Buk” é uma peça orquestrada pela Companhia Teatral Vaca Profana que se propõe, em uma montagem surrealista, baseada na obra de Bukowski, a elaborar um mosaico do todo orgânico Autor e Obra.

Esse pastiche, que mistura criador, criação e processo criativo desenha um mapa da obra de Bukowski. Um mapa não é o território, mas é a representação simbólica do território. E por mais romântica que seja a aproximação descompromissada da pura leitura de uma obra, tal qual alguém que passeia pelo país, a presença de um guia que aponte os detalhes tornará a viagem muito mais produtiva. E essa missão foi cumprida.

É impossível se negar que, da mesma forma que a obra retrata o autor, a peça retrata a companhia, uma vez que produto é indissociável de processo. A peça foi montada com número reduzido de atores, que se intercalam em papéis distintos representando os personagens de diversos contos Bukowskianos. Diversos personagens que não são tão diversos assim, afinal, Bukowski é sobre dramas humanos, não sobre indivíduos.

A locação escolhida também colabora: o Purgatorium 90 é um bar na Baixa Augusta cuja temática de decoração retrata as representações medievais do inferno, e de certa forma, é sobre isso que trata a obra de Bukowski: a vida em um inferno medieval de morais, regras, expectativas e certezas que talvez não mais nos caibam, tal qual um sapato apertado demais. Os personagens andam diante da plateia, pois sobre isso também é a obra de Bukowski: o escrutínio público das vergonhas íntimas.

Concedo destaque à atuação de Gustavo Oliveira e ao texto do Velho Buk: enquanto aquele se beneficiou de seu tempo de palco, este teve o benefício de um texto poético, que não precisa retratar a realidade dos contos.

A peça estará em cartaz até o dia 03.12, sendo montada todas as terças-feiras. O número de ingressos é reduzido e a um preço quase simbólico. Já assisti uma montagem, e pretendo assistir outras.

Vale à pena assistir à peça que, de certa forma, não é apenas baseada na obra de Bukowski, mas é a vida e a obra de Bukowski. Afinal, não é difícil viver de arte. É impossível viver sem arte.

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§ 4 Responses to O Inferno do Velho Buk.

  • Fy says:

    Excelente texto ! –

    E vc falou sobre um lance que não deixa de ser engraçado: a manipulação de textos em busca de justificativa [ pessoal ] autorizada. – mto bom isto! –

    A arte de habitar mundos sempre inventados. Deslizar nossas conclusões em discursos alheios . Imaginações alheias . Flutuar uma total isenção de royalties . Hey Man … a maioria de nós, nem conheceu ninguem. Conhecemos idéias, e, na maioria das vezes esquecemos de contemporizá-las ou de dar a importância devida a seu cenário, nos perdendo no sem-nexo, tornando-nos apenas seguidores…

    Eu acredito que habitamos um mundo sempre inventado. Inventamos Clarice na maioria de nossos vazios amores sem-volta, e … Clarice foi muito mais. Tentamos acusar ou mesmo justificar frustrações manipulando Exupery. Isto sem falar em política ou religião.
    Mas … não conhecemos ninguem.

    A gente só vive uma vida: a nossa própria. Não vivemos a vida dos outros e não estamos em todos os lugares ou tempos para podermos capturar todas as experiências possíveis. Mas acho incrível a possibilidade de abusar destas tantas personagens e suas formas singulares e únicas de absorver o mundo. A vida.

    Fernando Pessoa , que não acreditava na necessidade de ser idêntico a si mesmo , e constante e coerente , e unitário ,fez da escrita a mais estonteante experiência de tornar-se outro do que ele mesmo . Conseguiu , com isso , visitar universos muito diferentes , sensações muito díspares , vivências contrastantes , pensamentos muito estranhos uns dos outros . Por isto o teatro – esta experiência escancarada de outramento – é tão fascinante. Adorei mto este post !

    Meu Bukowsky preferido :

    Parabéns!
    bj
    Fy

    • Anarcoplayba says:

      Sabe, eu vou deixar o texto no ar até sábado, pra dar uma divulgada na peça (não que isso vá resolver muito, mas o que vale é a intenção), mas o próximo post é sobre Breaking Bad e parte da coisa é exatamente sobre esse valor da arte.

      A Arte não imita a vida e a vida não imita a Arte. A Arte é uma caricatura da vida, é exagerada, histriônica e irreal. E por causa dessa irrealidade é que ela tem valor. O Drama (o bom Drama) é um mundo fechado. Eu coloco os personagens, dou um empurrão, eles interagem e saem dançando por aí. Intervenções externas são a marca do mau drama.

      Na vida não. Na vida, aparece um terceiro cara, pisa no seu pé, tira ela pra dançar, o segurança encrenca com você o barman oferece uma vodka pra ela, a amiga mais gostosa dela dá em cima de você e existe um infinitude de forças externas agindo. A Vida é um mundo aberto. É um mundo onde um ônibus bate no seu carro do nada. Onde Deus ex Machina acontece.

      Mas esse é o valor da Arte. A Arte isola e realça a vida. Ela permite uma caricatura da existência que, pelo exagero e caricatura, nos permite experimentar algo que talvez estivesse longe demais da realidade. Ninguém vai viver o drama de um príncipe cujo pai foi morto pelo tio que casou com a mãe e precisa vingá-la. Mas é a arte que permite a vivência de extremos normalmente distantes da realidade.

  • Fy says:

    Com “i” > sorry .

  • Fy says:

    - achei em portugues :

    então, queres ser um escritor?

    (Tradução: Manuel A. Domingos)

    se não sai de ti a explodir
    apesar de tudo,
    não o faças.
    a menos que saia sem perguntar do teu
    coração, da tua cabeça, da tua boca
    das tuas entranhas,
    não o faças.

    se tens que estar horas sentado
    a olhar para um ecrã de computador
    ou curvado sobre a tua
    máquina de escrever
    procurando as palavras,
    não o faças.

    se o fazes por dinheiro ou
    fama,
    não o faças.

    se o fazes para teres
    mulheres na tua cama,
    não o faças.

    se tens que te sentar e
    reescrever uma e outra vez,
    não o faças.

    se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
    não o faças.

    se tentas escrever como outros escreveram,
    não o faças.

    se tens que esperar para que saia de ti
    a gritar,
    então espera pacientemente.
    se nunca sair de ti a gritar,
    faz outra coisa.

    se tens que o ler primeiro à tua mulher
    ou namorada ou namorado
    ou pais ou a quem quer que seja,
    não estás preparado.

    não sejas como muitos escritores,
    não sejas como milhares de
    pessoas que se consideram escritores,
    não sejas chato nem aborrecido e
    pedante, não te consumas com auto-devoção.

    as bibliotecas de todo o mundo têm
    bocejado até
    adormecer
    com os da tua espécie.
    não sejas mais um.
    não o faças.

    a menos que saia da
    tua alma como um míssil,
    a menos que o estar parado
    te leve à loucura ou
    ao suicídio ou homicídio,
    não o faças.

    a menos que o sol dentro de ti
    te queime as tripas,
    não o faças.

    quando chegar mesmo a altura,
    e se foste escolhido,
    vai acontecer
    por si só e continuará a acontecer
    até que tu morras ou morra em ti.

    não há outra alternativa.

    e nunca houve.

    - Bukowski

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