Casa V.

December 6, 2013 § 6 Comments

Vamos pra casa? Não pra sua ou pra minha. Pra casa de infância. Casa de avó. Pra casa de sonhos, na qual somos piratas, ninjas, cavaleiros e astronautas. Na casa onde a sobremesa vem antes da janta e não precisamos comer a salada.

Vem e me guarda. A sete chaves e com chave de ouro. Me guarda no peito, no bolso e no olhar. Não me economiza. Me guarda sem medo de gastar. Se veste de noiva pra nadar no mar. Joga futebol no seu baile de debutantes. Toma iogurte em taça de prata.

Vamos que com você eu sou mais eu. Pra você eu sou mais eu. Porque eu quero a prisão da sua queda livre. Eu trocaria o paraquedas por uma pirueta. Eu bateria asas pra acelerar.

Você é o destino meu livre arbítrio. O cumprimento sem compromisso. A promessa quieta sem juro ou risco. Um casamento sem padre nem testemunha. Sem aliados nem alianças, pois beijos e abraços não são promessas e contratos.

Vai, me recebe na sua casa. Abre as portas e fecha as janelas. Me recebe como se eu fosse o último hóspede. Porque você é minha última estada. Perdoa o atraso. A estrada era longa e a noite foi negra. Deixei minhas lágrimas e perdi estrelas. Carreguei muitas malas enquanto você se cansava.

Vem descansar, amor. Descansa no hoje que o amanhã vai vir. Viva no agora que ele vira pra sempre. Dorme na noite até ela virar um sol, rompendo em aurora e socando as retinas. Rompendo as pálpebras dos bêbados e das cafetinas. Segura minha mão que o sol já vai nascer e é hora de dormir. É hora de sonhar enquanto os padres rezam as missas, os banqueiros fecham contratos e os ternos vazios ligam os computadores.

Vem que nós vamos rasgar as pálpebras das estátuas de pedra, correr a cavalo nos trilhos do metrô, comer pão com manteiga molhado no café com leito, ofender o bom senso, o carro do ano e a previdência privada.

Vem viver de brinde surpresa e manhã de natal. De subversão e de ser voluntário. Guerrear contra o ordenado e o ordinário. Vamos arremessar pétalas de rosas ao mundo enquanto nos agredimos a golpes de beijos. Vamos grafitar com tinta invisível praças, pontes e leitos. Que hoje o agora é pra sempre.

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