Vi Veri Veniversvm Vivvs Vici.

February 19, 2014 § 9 Comments

Eu sou, por definição, um pessimista.

Mais do que isso, sou o pior tipo de pessimista que existe: me considero um realista.

Não conto vantagem antes do tempo, não canto vitória antes da hora, duvido até que o sol vá nascer amanhã e não conto com a foda até tirar a camisinha (não pra colocar, pra dar o nózinho e jogar fora).

Isso dificulta muito a minha vida, uma vez que eu vivo o paradoxo de Zenão: a flecha sempre precisa percorrer metade do caminho até chegar ao alvo. E como o espaço pode ser infinitamente dividido, sempre falta metade do caminho. Portanto, a flecha nunca chega.

No entanto, a teoria dos limites destruiu o paradoxo de Zenão. As dízimas periódicas, ao atingir o que se chama de limite, estão tão próximas desse número que se tornam esse número. 3,9999… não é MUITO próximo de 4. 3,9999… É quatro.

E, exercitando meu otimismo, preciso reconhecer que rompi um limite.

Em dezembro de 2012 eu saí do último escritório de advocacia em que eu trabalhei. Um dos maiores da América Latina (e consequentemente do mundo). O maior de sua área no Brasil. Saí desse escritório para arriscar a carreira de professor.

Parece estranho falar em arriscar. Afinal, o magistério é visto como carreira de tia. Carreira “falta de opção”. Que não dá dinheiro. E por aí vai.

Mas meu desafio não era uma carreira mais bem remunerada. Era uma carreira que eu gostasse de percorrer. Esse era meu desafio. Eu aceitaria ganhar menos, contanto que eu não tivesse que levantar da cama sofrendo, enfiar uma gravata no bolso (pra retardar seu uso), colocar um sapato (“Eu odeio gente chique eu não uso sapato, mas que se foda!“) e ir vender horas da minha vida pra um organismo maior responsável por secretar a munição, as armas, o desfolhante, o veneno usado para destruir a vida.

Me dê um tatame para deitar, meio tatame para sentar e duas tigelas e meia de arroz e eu sou mais feliz como professor do que comendo com talheres de prata como advogado.

Então esse era o desafio. E eu foquei nele. E meu objetivo era alcançá-lo.

Pois bem, hoje, um ano depois, eu não alcancei esse objetivo. Continuo não sendo professor. Nem me formei ainda. E acho que vai um tempinho, hein?

Mas estou ganhando mais que como advogado.

Sim, eu também não esperava por isso, mas aconteceu. Hoje a minha hora como monitor e corretor de redações bate a minha hora de advogado. Não é muito mais. Cerca de 20% mais. Mas é mais. Ah, e eu não ganho, líquido, tanto quanto eu ganhava, porque no último escritório no qual eu trabalhei (o maior da América Latina, o padrão atual) eu trabalhava 40 horas por semana. Hoje trabalho 30.

Sim, eu sei, eu trabalho mais de 30 horas por semana no colégio. Mas na advocacia eu trabalhava mais de 50 horas por semana.

Não vou entrar em detalhes. Basta saber que ganho um pouco menos e trabalho MUITO menos.

Venci.

Não significa que eu não tenho mais problemas. Tenho sim. A maior parte deles são os mesmos da época em que eu advogava. Porque eu me mudei, mas, ainda, não tanto. Falta muito.

Mas esse problema eu resolvi. Esse pequeno problema eu superei. Essa dízima periódica eu transcendi. Esse limite eu rompi. Essa montanha eu escalei.

Que venham as próximas, mas essa montanha eu escalei. Esse Everest eu subi, como em um sonho estranho recente no qual eu subia ao Topo do Mundo. Ao chegar lá, e olhar ao redor, vi uma nova montanha se apresentando (afinal, o Everest é um dobramento moderno, ainda está crescendo – e sim, eu pensei isso no sonho!). E eu estou olhando pra ele. Afinal, enquanto eu estiver crescendo, novas montanhas estarão crescendo.

Mas essa montanha eu venci.

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§ 9 Responses to Vi Veri Veniversvm Vivvs Vici.

  • Lívia Ludovico says:

    Eu digo sempre: Salário emocional é commodities. Ok. Pode até não pagar as contas no final, mas só de levantar feliz da vida para enfrentar o mundo, já está valendo. E vc tem jeitinho de professor! E mesmo q não vire a sua carreira, só de ter experimentado, de ver certo brilho no olhar do aluno, ahhh… vamos combinar, é muito legal!

    Não falei no texto da Sheherazade… aproveito neste: é bom ter o velho Anarco de volta.

    Porque o mundo gira. ;)

  • Anonymous says:

    Anarco, tenho tanta inveja de vc hehhe. Fico encantada com a tua força

    e coragem pra fazer as coisas acontecerem. Irmão, acordar feliz , sair

    da cama alegre porque vai trabalhar com aquilo que se gosta, isso não

    tem preço, isso é uma das maiores fortunas que um homem pode ter.

    PARABÉNS POR ESSA CONQUISTA

  • Anonymous says:

    P/ mim você chegou lá..

    Desde meus 16 anos acordo todos os dias as 05:50 da manhã p/ ir vender 8 horas do meu dia (11 horas se você contar o tempo das conduções), fazendo algo que não gosto, p/ pessoas que gosto menos ainda..
    I know that feeling bro

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