Dude, Where’s my Hate?

March 9, 2014 § 8 Comments

Um dos conceitos que eu achei mais brilhante é a ideia de Túnel de Realidade.

Por esse conceito, o mundo é um universo extremamente amplo e grande, do qual nós conseguimos apreender apenas uma parcela.

Segundo as pessoas que acreditam nessa teoria, o que somos capazes de apreender é dado pelo que somos capazes de perceber (nossa percepção objetiva) e interpretar (nossa percepção subjetiva).

Portanto, se você nasceu, cresceu e viveu sua vida toda em higienópolis, chances são de que a sua realidade percebida seja bem homogênea no que tange ao mundo. Se você nasceu no Tocantins e mudou para São Paulo, você percebeu duas realidades diversas. Logo, você conhece mais mundo que boa parte das pessoas.

Por outro lado, não se trata apenas da percepção, ams também da intrpretação. A Sheherazade (a jornalista, não a mina das mil e uma noites) olha pra um trombadinha interpretando o mundo com outros olhos que, por exemplo, um filósofo de esquerda. Eles possuem paradigmas de interpretação do mundo diferentes, portanto, o mundo em que eles vivem são diferentes.

***

Para alguns pensadores, o (ou um dos) objetivos da vida, é a ampliação do seu túnel de realidade. Ou seja, a ampliação da sua percepção e interpretação do mundo para entender que, a despeito do livro ser uma bosta, a vida é feita de mais de cinquenta tons de cinza, não de preto e branco.

A capacidade de olhar para uma determinada situação compreendendo mais de uma interpretação da realidade seria, portanto, um aspecto da so overated “expansão de consciência”. Não estamos falando aqui de ver anjos ou de enxergar os fios das tramas do destino, mas apenas e tão somente flexibilidade cognitiva.

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Nos mitos gregos alguns deuses eram considerados belos e bondosos enquanto outros maldosos e atrapalhadores. Um dos casos mais clássicos disso (e expostos na Ilíada) é o conflito entre Marte e Athena.

Marte, o Senhor de todas as Batalhas, aquele que se apraz com o sabor do sangue de seus inimigos, por inúmeros motivos, se opunha a Atena, a descendente direta da cabeça de Zeus.

Ser descendente da Cabeça de Zeus significa ser filha da sabedoria de Zeus-Júpiter. Zeus, no caso, o dono de toda a sabedoria e astúcia. Aquele que conhece o todo. Athena, portanto, seria a Senhora de Todo o Conhecimento vestida com roupas de Batalha.

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Na astrologia, Marte é o Pequeno Maléfico. O Senhor de todos os rompimentos, discórdias e brigas. Porque Marte é de temperamento Colérico, quente e seco. O que é certo é certo e o que é errado é errado. Period. Não existe mais ou menos ou veja bem.

Júpiter, por outro lado, é o grande benéfico. O Senhor da expansão de área. Aquele que tudo sabe, tudo vê. O senhor da calma e da avaliação. Veja bem, dependendo do lado que se olha, tudo está certo.

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Marte e Júpiter são planetas quase opostos. Ambos se expandem, claro, mas cada um a seu modo. Marte é a expansão em foco, em seta, em penetração. Júpiter se expande em área, como um lençol ou colchão. Mole macio e confortável. Tudo que Marte não é.

Marte Rompe, porque Marte não tem Veja Bem. Marte não admite opinião contrária. Marte não admite outra hipótese. Para Marte, o objetivo é um. E estratégia é covardia. Period. Ele é o Senhor do Ódio, da Ira, do Rancor, da Fúria e da destruição. Se não é do jeito certo, é do jeito errado. Que se queime e se reinicie.

***

Em algum lugar do passado eu perdi meu Marte.

Houve um tempo em que a vida era deveras mais fácil. Existe a minha opinião e existe a opinião errada. E a opinião errada é errada porque perdeu. Foi derrotada. Não resistiu à verdade. Justiça é tirar aquilo daquele que não merece. E sabe como você descobre se ele merece? Vai e tira. Se ele perder, é porque não merece.

Era uma época em que a vida não gostava de pessoas boas, mas sim de pessoas melhores.

Era uma época de ódio e rancor.

E se amor é a potência cosmogônica de união, o ódio (ou morte) é a potência cosmogônica de separação. Corte. Queime. Desintegre. Separe e espalhe. Só existe uma verdade e uma opinião. Os discordantes que morram e sumam. Relegados a uma darwinística lata de lixo da história. Existe um objetivo: Vencer. E uma das estratégias pra isso é destruir os demais competidores.

Destrua tudo que, no fim, sobra só o indestrutível.

***

Às vezes eu queria que o Todo Poderoso, definitivamente, me esmagasse com um dedo flamejante por todos os “pecados” que eu já cometi. Queria que minha carne e (irritante) gordura fosse distribuída entre 8 etíopes para, quem sabe, fazer do mundo um lugar melhor.

Mas isso não acontece. Eu amaria ser condenado a um inferno se esse inferno fosse outra coisa que não essa perda de mono-perspectiva associada a uma ausência de altruísmo.

Reconheço que o outro tem direito à felicidade, mas não me comprazo com a felicidade alheia. 

Não me importo com a vida alheia, mas não tenho amoralidade suficiente para atravessar o caminho do outro.

Falei anos atrás que era uma merda ser um canalha incompetente ou um romântico frustrado.

Hoje eu só queria encontrar meu ódio.

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§ 8 Responses to Dude, Where’s my Hate?

  • Elisa says:

    Muito bom!
    Adoro seus textos!

  • Lívia Ludovico says:

    Anarco, agora sua força vem do amor… bonitinho. :)

    (Sério, não é possível q só eu vejo beleza nisso!)

  • Karina says:

    por isso gosto tantos destes versos que já trasncrevi algumas vezes:

    “A certeza, por certo, causa dano

    mas é aspiração confessa

    de quem, nietzschiano, se cansa

    de ser humano,

    - demasiadamente humano.”

    certeza é a ignorância ignorada.

    ter consciência dos infinitos matizes é um mérito que pode ser doído.

    mas a ideia de que somos o que fazemos, onde foi parar? de que a prática leva à mudança de paradigmas?

    • Anarcoplayba says:

      Claro que enxergar o todo é uma qualidade… por isso Júpiter e Athena eram os deuses bons… e Ares era um proscrito… ;)

      Mas quando se tratava de ir pra guerra, quando era fazer viúvas ou ver sua esposa virar viúva… a coisa mudava de figura…

      A prática é território de Marte também. Duas mil e quinhentas repetições pra que o repetido se torne parte de você. Agora… confesso que fiquei em dúvida de pq isso veio à tona… :)

  • Karina says:

    pelo sentimento de inferno. se existe perspectiva de mudança pode ser um purgatório. mas se não existe intenção de mudança tampouco deveria ser expresso como um inferno, penso eu.

    ou não entendi coisa alguma.

    • Anarcoplayba says:

      Não, não… é pertinente… mas percebe que a distinção é feita a posteriori? Inferno não admite mudança… Purgatório admite. Então eu vou saber se era purgatório quando sair dele…

      E percebe que poucas coisas tornam o inferno tão dolorido quanto a esperança de que talvez um dia ele acabe?

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