A Milésima Corda do Banjo.

March 28, 2014 § 4 Comments

Lembro-me de uma vez, quando eu era criança, durante as férias, que, ao procurar no jornal da casa da minha avó se havia algum filme interessante na televisão, eu passei por cima de uma sinopse interessantíssima.

Era um filme sobre um garoto que havia nascido paralítico, em um vilarejo mexicano, e que, desde a mais tenra idade, tocava banjo. Um dia, um andarilho cego chegou em sua vila e, ao ouvir o garoto tocar banjo, disse-lhe que o dia em que o rapaz estourasse a corda de seu banjo pela milésima vez, ele estaria curado de sua paraplegia e conseguiria andar.

Para falar bem a verdade, eu não vi esse filme, apenas li sua sinopse. Acho que ele passava de madrugada e, na época, eu não podia ou não estava disposto a ir dormir de madrugada para assistir um filme.

De qualquer forma, esse filme entrou para a minha história como um filme que nunca vi e, consequentemente, é idealizado. É como a música dos Engenheiros do Hawaii que não existe e eu passei anos procurando, “Acontece toda vez que me apaixono”. Não sei como o filme termina. Não sei como o garoto reagiu à notícia. Se se entregou de corpo e alma à prática do banjo para tentar estourar, o quanto antes, sua milésima corda, se desistiu de tal empreitada, se contou desesperadamente cada corda estourada ou se deixou que as cordas estourassem por si.

Nem sei se a milésima corda estourou, se o garoto voltou a andar, se ele morreu antes da última corda estourar, ou, ainda, se em algum momento teve alguma epifania de que voltar a andar era algo pequeno comparado à música que tocou (lição de moral que partiu de alguém que, obviamente, tem as duas pernas funcionando muito bem).

Mas eu acho que a milésima corda do banjo é uma ótima metáfora.

Fato é que a prática é essencial ao aperfeiçoamento. Músicos praticam. Dançarinos praticam. Artistas marciais praticam. Médicos praticam. Não consigo pensar em nada na vida que não esteja sujeito à prática. Até sexo. Especialmente sexo. Os/as virgens que me perdoem.

Por outro lado, o problema da prática é que ela é sempre a promessa de um andarilho cego. “Se você praticar, você vai conseguir.” Quem disse? Quantos nunca chegam lá?

Falam muito das histórias de superação dos lutadores e campeões mundiais, mas nunca falam das centenas de fraturas por estresse, dos esportistas que lesionam os olhos e nunca mais entram em campo ou dos que foram derrotados na primeira rodada, perdendo pro campeão. Se tivessem perdido para o Campeão na última, seriam medalha de prata. Perdendo na primeira, não são nada.

Repetem à exaustão a história de náufragos salvos por golfinhos que os carregaram até a praia. E a história dos náufragos levados pro outro lado?

Ninguém repete a história dos afogados unicamente porque os afogados não têm história pra contar.

A prática ajuda, sim, sem dúvida.

Mas será que mil chutes por dia te levam ao chute perfeito?

Será que mil acordes te levam ao acorde perfeito?

Mil piscinas? Mil voltas na quadra? Mil desenhos? Mil pinturas? Mil textos?

Ninguém sabe. Mas mesmo assim se dedica a algo.

(Até porque, não se dedicar a nada é muito perto de já estar morto.)

Toda prática é uma questão de fé. Fé de que um dia o chute perfeito surja.

Novamente, você está diante do muro de espelhos. Você vê o passado e seus padrões, e tenta projetar um futuro. Se houve melhorias, você acredita que elas vão continuar ocorrendo. Se você não vê melhorias, bem vindo ao deserto. A paisagem nunca muda, mas parar de andar não te leva a lugar nenhum.

José caminha sem saber pra onde. Depois da luz apagada, do povo sumido, da noite esfriada, sem verso e sem protesto. Mas caminha.

Para os Gregos o Universo se criou sozinho. O Caos se rasgou, se dividindo entre Céu e Terra, Amor e Morte. Para os Gregos, Eros, o Amor, era a suprema potência cosmogônica de união. Esquece o bebê com arco e flecha: Amor é o que mantém seus átomos unidos. Thânatos, por sua vez, é a potência de desagregação, desintegração.

Basicamente, uma bomba atômica é um amor morrendo. Faz muito sentido se pensarmos na destruição, na morte e na contaminação e envenenamento que perdura por séculos.

Para perseguir um objetivo, a força primordial é o Amor. Desejamos nos unir àquela situação imaginada. Seja ela um campeonato de Taekwondo, um diploma, um carro novo ou a Ana Hickmann.

O que nos permite perseguir, dia após dia, um determinado objetivo é o Amor àquele objetivo. Ainda que seu objetivo seja ganhar dinheiro, você ama os benefícios que o dinheiro lhe trás. Simples assim.

Precisamos de amor para perseguir os objetivos dos quais acreditamos sermos capazes de atingir. Precisamos de ainda mais amor para perseguir os objetivos dos quais não acreditamos sermos capazes de atingir. Precisamos de amor para uma prática pois é eles que nos mantém andando e nos dá esperança. Mesmos sabendo que a esperança é o que nos mata.

***

Hoje terminei minha primeira caneta de correção de redações.

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§ 4 Responses to A Milésima Corda do Banjo.

  • Fy says:

    Muito sobre esperança … nada sobre paixão.

    Quando não se encontra Dionísio, Anarco, castra-se Eros… e Apolo torna-se inatingível.

    Dionísio sorri… – irônico? – porque sabe… que sem a milésima corda jamais alcançaria a melodia perfeita. E continua ….

    bj
    Fy

    • Marco says:

      Fiquei pensando . Mas existe amor sem paixão e paixão sem amor? Em

      um palno mais terreno, acredito que se trata de palavras diferentes

      para traduzir o mesmo afeto que nos move, nos alegra.

      Anarco, não tem fim, ponto final, a gente toca porque toca

      Abraço.

  • Fy says:

    Veja Marcos, de uma certa forma eu concordo com vc: quase completamente.

    Mas não usaria a paixão e o amor com um único significado. Eu penso que estaríamos vestindo Dionísio com uma moralidade que ele não tem .Dionísio , aqui, como desejo ou paixão, é amoral.

    Infelizmente o Amor, se tornou uma virtualidade self-service, na maioria das vezes. Inclusive como uma forma simplória de justificar. [ seja lá o que for ] A paixão não é o amor : é seu veículo e sua atualização.

    Dionísios… é um estado de ser… – é corajoso, e não implica em justificações. É uma entrega, livre e arriscada, aos delírios da criação contínua e natural. É um caminho em sí mesmo, caminho que ignora completamente sua chegada. É o caminhar.

    Eu penso que por isto as pessoas fogem e tentam ignorar Dionísios. Pq ele é o desejo , a paixão em sí : e por estar e ser em sí, provoca uma excitação contínua: e não além de sí. As pessoas o ignoram principalmente pq ele não depende ‘de’ . …

    Isto não implica em carrocéis, ou euforias sem-sentido. Para atravessar o desejo é preciso a Força que atravessa as paixões: nem sempre tranquilas… – e que às vzs requerem um esforço não muito racional… mas, sobretudo: estimulante. Por isto Dionísio atravessa momentos, fraquezas, incertezas e persiste : por ser o Desejo em sí. Dionísio, não é a saída do labirinto, e sim o desafio de viver o labirinto .

    Se a meta for o Amor, ou o Dinheiro, ou o que for, sómente ele : Dionísio: o bailarino que não fixa sua performance nas dores que provavelmente sentirá, ao contrário : significa-as – fará com que a chegada, tenha sentido, valor, alegria e exista.

    Bj
    Fy

    – uma versão de ‘Dionísio em sí':

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