F(arte).

June 2, 2014 § 5 Comments

Nas aulas de Literatura do colégio somos expostos aos movimentos literários como uma sequência clara e indistinta de movimentos artísticos. Essa metodologia configura, em verdade, um curso de história da literatura que, tal qual a maioria das disciplinas escolares, acaba sendo um amontalhado (se essa palavra não existe, deveria) de retalhos organizados de acordo com uma falsa obviedade.

O resultado disso é que nós estudamos a literatura como um evento passado e a ignoramos em seu caráter presente. Simplificamos: Drummond é Drummond porque é Drummond. O literato é um literato porque é um literato. Não estudamos o processo de composição dos escritores. Não avaliamos a pretensão dos mesmos. Tomamos a obra como se fosse óbvia e sequer imaginamos como o escritor a compôs.

Mario de Andrade dedicou seu primeiro livro ao mestre Mario de Andrade. Drumond dedicou seu primeiro livro ao mestre Mario de Andrade e seu segundo livro ao amigo Mario de Andrade. João Cabral de Melo Neto dedicou seu primeiro livro ao amigo Carlos Drummond de Andrade.

Apresenta-se, pois, uma declarada e intencional continuidade entre os autores, oriunda de uma visão global da Arte, ou da Função da Arte, ora chamada de F(arte) ou “Efe de arte”. Essa visão global está correlacionada a um ideal de mundo e arte e ao compromisso do artista para com esse ideal de arte.

O Realismo-Naturalismo é o resultado global do compromisso assumido pelos autores diante de um ideal de compreensão de mundo no qual as “Leis” da natureza moldam o mundo e o homem. O Modernismo é o resultado global do compromisso dos autores de romper com a Velha Arte e integrar em suas obras as mais novas descobertas filosóficas.

Os Autores que não se prestam a servir a um ideal de mundo acabam relegados ao segundo plano da história. Autores menores.

O problema de se enxergar as obras como causa e não consequência de um movimento literário é que isso abertamente nos joga em confronto com nossa mediocridade. Baudelaire é um clássico pois reconheceu (ainda que inconscientemente) um espírito de uma época, um zeitgeist, e se comprometeu com ele em uma relação simbiótica.

De tal constatação advém o questionamento: se a arte transcendente está de acordo com a F(arte) de um determinado momento, qual a arte transcendente de hoje? Quem serão os literatos estudados daqui a 100 anos? Quem organizará a Semana de Arte Moderna de 2022?

***

Ontem (01/06/2014) fui assistir à peça “São Paulo Surrealista“, em cartaz no Teatro Incêndio.

A peça se propõe a, por meio de uma linguagem surrealista (duh) e iconoclasta repisar e repassar o território artístico da cidade de São Paulo, emprestando a Mário de Andrade, Pagu, Frida Kahlo e outros o status de mitos fundadores e patronos de uma cidade que se caracteriza pela desunidade linguística e artística.

Aproveitando o mito de Orpheu, reposicionando-o na Consolação (e não na Conceição, tal qual Vinícius), o herói ascende nos círculos do inferno da cidade, ou de seus inferninhos, do limbo da cracolândia, no qual corpos sem alma perambulam, aos altos círculos dos Jardins Paulistas, onde banqueiros e diplomatas se regojizam em sua gula, passando, como não deveria deixar de ser, pela Luxúria do Baixo Augusta.

São Paulo se vê retratada não como a esquina da Ipiranga com a São João, ornada de dura poesia concreta, mas como um inferno, um inferno que são os outros, vez que cada um escolhe os círculos que mais lhe aprazem. Acaso é mais nobre pagar por sexo com cartão de crédito do que com pensão alimentícia?

Ironicamente, o desafio da peça é uma proposta quase intransponível: como dar continuidade a um movimento cujo objetivo é romper com a continuidade? Como romper com a estética do rompimento? A solução para esse dilema acaba por ser uma abordagem dadaísto-surrealista que encontra no choque aos sentidos seu meio de impressão sensorial e que possui no lugar o eco que lhe torna possível: os sons, cheiros e texturas do centro de São Paulo constroem o Teatro do Incêndio e permitem que a plateia se torne o palco onde a peça é encenada.

Se o desafio da trupe era dar continuidade a um movimento que se propôs ao rompimento pelo choque, inegavelmente foram bem sucedidos: saindo da confissão do papa condenado à cadeira elétrica ou da exposição da exploração do corpo feminino, a peça encontra seus pontos altos na encenação de um Mário de Andrade enrustido e da tortura com a intenção de fazer da loucura sanidade. Afinal, após tantos anos de rompimento, apenas a simplicidade da nudez masculina e o escárnio do maior ideólogo modernista podem se propor a carregar a tocha do modernismo.

A peça permanecerá em cartaz até setembro, com espetáculos aos sábados e domingos, respectivamente às 21:00 e 19:00 horas, no Teatro do Incêndio, na Avenida da Consolação, 1219.

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§ 5 Responses to F(arte).

  • Fy says:

    Eu acredito que vc esteja falando sobre re-significar ou atualizar. E está certo, não há como atualizar sem compreender ou passear no entorno temporal de qualquer movimento artístico – incluindo a literatura – . Um verdadeiro observador, atravessa o próprio olhar entranhando-se na paisagem, uma viagem completa; e nunca um relance superficial.

    Uma idéia, seja lá qual for sua projeção, transborda muitas nuances, e é preciso procurá-las pra que se possa possuí-la em real entendimento. Mesmo que, claro, subjetivemos, precisamos de todo o cenário.

    Sobre a peça, – também lí sobre ela, … bastante Artaud… bastante Breton ,- underground demais? – mas eu não entendi se vc gostou ou não – gostou?
    Esta crítica me deu vontade assistir :

    http://raphaelgama.blogspot.com.br/2012/03/critica-teatral-sao-paulo-surrealista.html

    bj

    • Anarcoplayba says:

      É isso e mais um pouquinho, Fy. Uma coisa que me interessa bastante é como a história (e nesse sentido a história da literatura) analisa o presente ou, no caso, a contemporaneidade. (Descobri essa semana que mudaram a denominação da República Velha e República nova para primeira, segunda, terceira e quarta república.) E acho interessante tentar “adivinhar” como o futuro vai entender o nosso presente. Em termos literários, o pós modernismo já veio e meio que deu o que tinha que dar. E agora? Vem o quê? Existe espaço pro modernismo na contemporaneidade?

      Pra mim, a peça foi uma releitura do passado (ainda que esse passado seja o modernismo) e nisso foi extremamente bem sucedida.

      Eu fico tentando identificar onde a peça se situa no panorama contemporâneo da arte, e para onde caminhamos atualmente e me causa certa estranheza não encontrar a resposta pra isso ou não enxergar na peça uma mensagem discernível no meio do surrealismo.

      No fim, acho que se resume a isso: gostei, sim, bastante, mas com a ressalva de que para o meu gosto pessoal, sou mais tendente às montagens mais clássicas e cleans.

  • Fy says:

    “amontalhado” … – é incrível como a facul enquadra. Matéria estudada – matéria repetida. Literatura – poesia – filosofia > cada qual em seu cercadinho absurdo. Como se a inspiração dançasse um ritmo cadenciado pelos parágrafos, indo e voltando, pelas colunas apertadinhas das apostilas.

    Talvez por isto O’Neill retirou Miró deste circuito e ensaiou outro roteiro em Uma Coisa em Forma de Assim . – Sem contar com os Malditos : poetas, pintores, escritores, science fiction writers, cinema, os beats chacoalhando os 60, de Snyder a Piva, deslizando em Moore, atravessando Artaud… rizomando a cultura e seus cacoetes.

    É … a mim confunde bastante estes gráficos traçados, tentando conter os entornos das épocas sem apresentar o vanguardismo fugidio e genial quase-nascido no Salon des Refusés > linhas de fuga que forçaram e forçam as paredes acadêmicas – desestabilizando as lições de casa.

    Sim, o entorno de qualquer época é um útero , mas os frutos são sempre híbridos – não há gaiolas suficientes. Modernismo – pós-modernismo – fauvismo – dadaísmo – etc ah … que se misturam e se confundem em seus próprios “tais” . [ de etc e tal ]
    bj

  • Anarcoplayba says:

    Uma questão que sempre volta e retorna nesse exato sentido é que o ser humano é uma maquininha de encontrar padrões: a gente olha pro hoje e inventa uma historinha pra explicar como o ontem vira hoje. Toda a dita ciência, na verdade, é isso, mesmo que isso seja anticientífico: histórico de relacionamentos de banco, por exemplo, é a crença de que o seu comportamento vai se repetir, mesmo que a ciência sabe que não existe indução.

    O irônico é quando o crítico sequer percebe a idiotice que disse: tem gente que fala, abertamente, que os mitos gregos dialogam com Machado de Assis. Poha… quer falar que existe um intertexto, vira e fala, mas não força!

    Na pegada dos estudos de Pessoa dessas semanas passadas, tirando o fato de que ele cagou nos espiritualistas e psicanalistas a respeito da heteronomía (sugerindo que eles falaram o que falaram porque pra quem tem um martelo, todo problema é prego), uma das coisas divertidas foi a menção de que ele não falava das influências dele porque tudo o que ele leu o influenciou. Por sinal, a respeito do papel da criatividade humana, estou quaaaaaaaase escrevendo um texto estranho, que mistura a questão transgênero, revolução francesa e criatividade.

  • Fy says:

    - Por sinal, a respeito do papel da criatividade humana, estou quaaaaaaaase escrevendo um texto estranho, que mistura a questão transgênero, revolução francesa e criatividade.-

    Nossa, muito bom. – O lance do Pessoa, “o que não fez a menor questão de ser pessoa” , ou encaixável, é que desencaixado de estilos e dele mesmo, pôde participar de vários universos, e criar mais uma porção.

    A questão de estilo, pra mim, viaja muito mais na tua proposta de texto acima – super estóica em superar o sentido e criar propostas – do que perpetuar algum. Até porque em uma análise mais secular a dimensão do sentido é ineficaz, impassível, viciosa, estéril – e não-criativa. Não fica no quase, escreve o texto estranho que eu quero ler .

    Quando agente sente que tudo atravessa o igual, e as linguagens apenas se repetem, é quando não há de nada novo sob o sol … we must switch the sunshine place – Bj
    Fy

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