Write It.

July 31, 2015 § Leave a comment

Eu sempre começo a primeira aula de redação do ano com uma aula inaugural específica. Essa aula é sobre o valor da escrita.

Parto do pressuposto que nada vem do nada. Portanto, alguém só se dedica a se esforçar por algo se ganhar alguma coisa com isso. O prêmio padrão que a gente sugere é o vestibular que, de fato, é a preocupação mais imediata que existe.

Uma segunda preocupação, bem real, diga-se de passagem, é a comunicação interpessoal propriamente dita. Afinal, boa parte (boa mesmo) da interação humana hoje é verbal e escrita. Do memorando da emprea até aquelas mensagens safadas que você troca no whatsapp (yeah, we know it!) o uso da língua é constante.

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Tudo isso é real e muito verdadeiro. Mas é meia verdade. E falta a outra metade.

Escrever não é apenas transmitir ideias. Também é organizá-las. Colocar suas ideias em palavras é não apenas registrá-las, mas também estruturá-las. Estruturando-as as reconhecemos. E as reconhecendo, nos reconhecemos. Quem tem o prazer de escrever tem o prazer de revisitar seus escritos e perceber o quanto mudou e se recriou.

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Mário de Andrade disse a Fernando Sabino, quando questionado se a Arte demandava obrigatoriamente a insatisfação, respondeu que não, e que se ele só conseguisse escrever se insatisfeito “nunca deveria ter pegado numa caneta, pra começar”.

Acho isso meio pesado, indeed, especialmente porque entre o escritor e aquele que escreve há uma distância terrível: todos deveriam escrever, mas nem todos seriam escritores.

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Uma das coisas que eu mais sinto falta na década de 2000 é da explosão dos blogs.

Na época, como esse era o meio mais fácil de publicar na internet, os criativos se direcionaram pra isso. Hoje temos twitter, instagram, facebook, tumblr and god-know-what-else, plataformas muito mais simples de publicação. E na minha opinião, muito mais rasas. É difícil achar um blog novo. E é difícil achar um blog bom novo.

Pessoas que escrevem blogs acabam tendo outra prioridade. Querem expor suas ideiasa tantos quanto possível, não apenas aos seus “seguidores”. Tecnicamente (e novamente na minha opinião) blogs acabam trazendo à tona mais pessoas interessadas em falar do que em serem reconhecidas. Posso estar errado, mas os blogs anônimos são um bom exemplo disso.

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Estou me deliciando ultimamente com o http://birdywithabrokenwing.blogspot.com.br/.

Não faço a putíssima ideia de quem é a pessoa. Não é um blog de pretensões literárias. Na verdade, está muito próximo do que o Homem-Hipotérmico chamava de blog “suco de maracujá”. São narrativas a respeito do cotidiano da autora.

Mas cara… é bonito.

É bonito ver alguém colocando escrevendo a própria vida (lembrando que escrever é organizar) e fazia tempo que eu não me inscrevia num feed.

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Resumindo, fica aqui a puxada de saco da semana.

Paredes.

July 20, 2015 § 2 Comments

Na última semana passei alguns dias pintando as paredes do apartamento para o qual minha mãe irá mudar (e eu irei junto).

Durante algum momento da tarde, minha avó mencionou que “para alguém que nunca pintou uma parede, até que estava ficando bom”. Isso me deixou levemente ofendido porque, primeiramente, estava objetivamente bom e, além disso, eu já havia pintado umas quatro ou cinco casas na vida, entre apartamentos, casas e quitinetes.

Sim, objetivamente quatro ou cinco casas é pouco.

Mas quantas paredes uma pessoa pinta na vida? Se pensarmos que normalmente as pessoas pintam paredes quando mudam de uma casa ou mudam para uma casa, é uma conta razoavelmente fácil. Assumindo que a pessoa não pague alguém para fazer esse serviço por ela. Não acredito, portanto, que o número de paredes que uma pessoa pinta na vida seja muito maior que o que eu já pintei.

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Eu acho esse tipo de trabalho bem legal e, se não tivesse um mundo de coisas que eu preciso e quero fazer, faria esse trabalho de bom grado. Quem trabalha com a mente deveria fazer mais trabalhos manuais pra descansar. E vice-versa, embora falar de vice-versa seja quase desmesurado, uma vez que as pessoas fazem muito mais trabalhos mentais que manuais atualmente..

Pessoalmente, acho essa desconexão com os trabalhos manuais algo negativo. Sim, de fato, é racional, uma vez que é mais inteligente pagar alguém para fazer um isso quando as minhas horas seriam mais lucrativas em outro trabalho. Mas é parte do meu mal colocado senso de romantismo a ideia de fazer mais as coisas que constroem a sua vida: cozinhar, pequenos reparos, limpezas, etc. Acho que isso serve bastante pra colocar nossas perspectivas no lugar.

Mas isso é só um mal colocado senso de romantismo.

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Pintar paredes também tem um simbolismo interessante. Pessoas não pintam paredes para deixar marcas, pintam para apagar marcas. Via de regra para apagar as marcas de outra pessoa ou as próprias e, assim, deixar a casa novamente virgem de história.

É algo um tanto quanto higiênico, sim, tal qual lavar as roupas que alguém usa. No entanto, não deixa de ser uma tentativa de apagar uma história.

Me lembro de um amigo de infância que, quando ia mudar de casa (a casa onde cresceu para a casa própria da família), ganhou do pai latas de spray para pixar o nome na velha casa. Era algo inócuo, uma vez que a casa seria pintada, mas ainda assim uma tentativa de deixar uma marca indelével em uma casa que se apresentaria virgem para o próximo morador, tal qual alguém que evita falar dos relacionamentos antigos em um encontro amoroso, como se fosse virgem de afeto e tivesse nascido quarenta e oito horas antes.

***

Pintar paredes é quase o diametralmente oposto de pintar um quadro, uma vez que aquele objetiva apagar marcas e este pretende criar marcas únicas e individuais e representativas de algo que apenas aquele ser humanos naquele momento poderia fazer.

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É… acho que pintei paredes demais na vida.

Um pouco de primeira pessoa.

June 25, 2015 § 12 Comments

Há algumas semanas eu fiz uma postagem no facebook que despertou certo estranhamento na minha taimelaine e a preocupação de amigos e amigas próximos.

Na referida postagem, eu mencionei que “Bondade é a putaqueopariu. Humildade é a minha bunda. Amor ao próximo é o caralho.” e que “Vou readequar as ambições: se eu conseguir sair dessa vida com PACIÊNCIA me dou por satisfeito.”

Várias pessoas se preocuparam legitimamente com isso, acreditando que eu tenha estourado porque minha vida estaria uma merda e eu teria entrado em desespero. Isso é meia verdade: minha vida está uma merda mas eu não estou em desespero.

Mas, mais importante que isso, a postagem não é sobre a minha vida, meu problemas ou qualquer outra coisa do gênero. Para falar a verdade, é sobre o aprendizado que, para variar, vem dos lugares mais estranhos do mundo.

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“Me perdoa, a vida é doce.”

Anos atrás o Lobão soltou essa música, uma das minhas favoritas em termos de composição, e que traz uma das imagens mais geniais da música brasileira: “sirenes que se atrasam pra salvar atropelados que viveram depressa demais”.

Viver depressa demais é um maravilhoso eufemismo pra morrer.

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Esse semestre eu fiz algo imprudente, peguei dezoito créditos na faculdade e estou ralando a bundinha pra conseguir cumpri-los. Por quê eu fiz isso? Porque eu quero me formar logo, pra começar a dar aulas logo e poder desenvolver decentemente meu trabalho no mundo.

Resultado? Trabalhei mal, comi mal, treinei mal, me fodi de verde, amarelo, branco e azul anil. Minha resistência foi pras cucuias. Minha vida pessoal foi pra pqp. Até minha saúde ficou comprometida.

Tudo isso porque eu tentei viver depressa demais.

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No entanto, preparando um trabalho de faculdade, me deparo com um texto no qual o autor menciona que a educação mudou. Antes, acreditava-se que uma faculdade formaria profissionais. Hoje se entende que isso acontece de forma contínua. Todos precisam estudar continuamente. Daí a proliferação de pós-graduações caça-níquel.

Ou seja, se a proposta educacional do mundo hoje é a formação continuada, é ESTÚPIDO eu ter pressa para terminar a faculdade.

Melhor eu ir com mais calma e desenvolver um bom trabalho do que fazer essa coisa idiota que é viver da promessa do futuro.

***

Um grande amigo meu, do meu time de Rugby, se formou na faculdade uns doze anos antes de mim, e me deu o prazer de jogar rugby com ele. Aos quase cinquenta anos, o preparo físico dele não era mais o mesmo, então ele não corria muito em campo. Mas ele se posicionava muito bem, portanto, sempre era um jogador chave para o time.

Quantas décadas de rugby ele precisou pra aprender isso? Pra aprender a estar no lugar certo e na hora certa?

***

Quanto tempo eu precisei de estudo, treino, poesia, trabalho pra perceber que talvez eu estivesse fazendo merda ao tentar viver depressa demais?

Dava pra adiantar todo esse sofrimento?

Não, porque não é porque as coisas não acontecem quando eu quero que elas não acontecem no tempo certo.

***

Minha letra ficou razoável nos últimos seis meses. Durante a infância era ilegível. Por mais que eu me esforçasse, não tinha resultado.

Eu aprendi a andar de bicicleta com dez anos. Por mais que eu me esforçasse antes, não tinha resultado.

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Desviar de um trem-bala é fácil. É só sair dos trilhos.

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Quando aprendemos algo de verdade? Quando as dezenas de peças se encaixam? Quando que acontece de o trabalho de faculdade conversar com a música no rádio, com a aula na segunda à noite, com o jogo de rugby e o livro de cabeceira? E tudo isso forma um todo que conversa entre si?

Fácil: na hora certa.

***

O post, portanto, não foi sobre raiva ou desespero. Foi sobre um breve momento de clareza que me fez me sentir tapado em seguida: Como demorou tanto tempo pra eu perceber que estava sendo duro demais comigo mesmo? Que estava exigindo de mim mais do que eu conseguia fazer? Quanto sofrimento e danos isso me causou? Demais.

Se eu fosse mais paciente comigo mesmo, talvez eu tivesse aprendido antes.

Se eu conseguir sair da vida com paciência, me dou por satisfeito.

***

E mais importante do que isso: Paciência é humildade de saber que ocasionalmente não cabe a você decidir o tempo das coisas. É bondade para não exigir de nada nem de ninguém mais do que esse possa dar. E amar ao próximo pois sabe que “ele está no tempo dele” e tá tudo certo.

Se eu sair dessa vida com paciência, eu me dou por satisfeito. Porque se eu sair dela com paciência, eu terei tudo que meu tamanho me permite almejar hoje.

***

Amém. Shelá.

Inferno.

June 22, 2015 § 3 Comments

Perdido, rodando e rodando,
Ouço alguém me chamar,
Envolto em pesado manto,
Me indica a estrada ao luar.

Pergunto seu nome ao estranho
e ele me ordena o calar
E disse que me mostraria o inferno
Para que eu pudesse contar.

“Acaso sois Dante encoberto?
Serás meu Virgílio a guiar?”
O silêncio me corta qual foice
E cesso o meu perguntar.

A estrada margeia um rio.
É o Letes, meu guia me aponta.
Diziam que as águas tiravam
Dos mortos a história que contam.

“Isso é mentira, preste atenção.
Uma armadilha para quem quer escapar.
O Letes amaldiçoa a memória
Daqueles que ousam tomar.

A memória não some, mas brilha
E reluz sem nada olvidar.
Tudo no inferno é armadilha.
E a maior é tentar escapar.”

Adentramos uma sala terrível
Em que as súplicas tomavam o ar
É a sala que pune aqueles
Que viveram do outro acatar.

Aqui descobrem o fim
Que obedecer leva a condenar
Passarão toda a eternidade
Aos juízes tentando apelar.

Mal sabem que a punição não aguarda
E que daqui não irão passar
O castigo é ouvir a sentença
E em vão tentar se exlicar.

“A mentira era o mais pertinente.”
“A honra não iria ajudar.”
“Tantos outros fariam como eu.”
“É injusto a mim condenar.”

Deixamos logo pra trás
A sala e seu castigar
A próxima seria pior
Que implorar sem se acreditar.

Lá se iria punir a preguiça
Daqueles que tentaram escapar
De viver uma vida plena
E de suas batalhas lutar.

Passarão o resto da vida
Vigiando o tempo imitar
Eternamente a vida que tinham
Sem nem mesmo um dia mudar.

Pois o tédio é o castigo daqueles
Que viveram sem nada enfrentar
E esquecem que maior derrota
É uma vida sem ter que lutar.

O terceiro círculo mostra
A história que querem contar
Ele pune a mentira daqueles
Que viveram de se enganar.

Quem em vida se justificou
Em morte vai ter que pagar
Com a língua pendendo da boca
Sem poder a mentira falar.

Aqui contarão a verdade
Que em vida foram ocultar.
Passarão uma eternidade
Contrariando o próprio falar.

O círculo de número quatro
É decorado todo de espelhos
E não guarda nenhuma piedade
Para quem viveu por vaidade.

Aquele que só quis ser amado
Viverá num inferno sozinho
Mendigará por amor e atenção
E sofrerá pra sempre no frio.

Pois aqui só existem aqueles
Que vivem pro próprio umbigo
E onde todos só querem pedir
Não existe quem possa doar.

O círculo que vem a seguir
É guardado a quem quis comandar
Aqui é uma grande guerra
Sem esperança de um dia acabar.

Se alguém um dia ordenou
Sem as ordens bem sopesar
Agora viverá ordenando
Sem ter a quem comandar.

O sexto círculo pune
Quem em vida foi violento.
Aqui fica quem se violou
E não se deu ao devido respeito.

Verão a saída do inferno
Tão perto, ao alcance da mão,
Mas para a liberdade alcançar
Mais do que aguentam então sofrerão.

O sétimo círculo pune
Quem tomou mais do que pôde dar
É o inferno que pune a gula
De quem cobra o que não quer doar.

O último e mais cruel
De todo o inferno e lugar
É onde se pode escolher
O castigo que irá enfrentar.

É um castelo de infinitas salas
Com torturas sempre a piorar
Mas ninguém sofre nenhuma
Pois procuram o pior torturar.

Esse é o inferno daqueles
que viveram intenso cobrar
de si mesmos sempre tentando
o perfeito um dia alcançar.

Chegando a viagem ao fim
Meu guia me lembrou de explicar
A todos que um dia ouvirem
De minha viagem ao inferno o cantar.

Devo a todos dizer
E em especial um grande alertar
Que pecar contra a própria vontade
É o pior de todo o pecar.

Pois não espera nem morte nem fim
Para ao inferno alguém condenar.
Quem nega a si mesmo o viver
Não precisa o inferno esperar.

La Petite Mort.

April 18, 2015 § 2 Comments

De Cruzeiro para São Paulo (e vice-versa), 17 de abril de 2015.

Caro Irmão de Armas,
Boa Noite.

“Ka Mate, Ka Mate, Ka Ora.”
“Morrer, Morrer, é Viver.”

Sei que, novamente, soa estranho qualquer espécie de saudação que sugira um período do dia (ou da noite) em uma carta aberta que, obviamente, permanecerá exposta ao escrutínio público nas mais diversas horas do dia ou da noite. Distração da minha parte, talvez pensem. Preocupação irrelevante, talvez você me critique. No entanto, devo deixar explícito: é noite, mas o Sol brilha.

Peço perdão pela vaguidão específica de tal afirmação, posto que a antítese demanda uma síntese, no caso, entre literalidade e metáfora. Seria Noite lá fora e Dia em mim? O contrário? A noite seria uma metáfora para a introspecção e o Sol para a vitalidade? O explícito da resposta tornaria essa missiva deveras menos interessante, de forma que me furtarei a tal explicação.

E me dou ao direito de não explicá-la pois esta carta esta prenhe de explicações. Talvez seja essa a grande função das cartas: explicar uma história a alguém.

E as explicações que acho que devo dizem respeito à quase morte deste blog.

Há meses não escrevo e, se escrevi, não escrevi com constância. A explicação que me sinto compelido a dar é que minha vida anda mais confusa que o Leste Europeu.

Resolvi que esse ano, depois de um breve momento de preparo e silêncio, eu assumiria as aulas de redação propostas por um grande amigo em Cruzeiro. Isso me rende 600 km de estrada por semana, dez horas de aulas na segunda-feira e uma rotina ainda mais atribulada. Paralelamente a isso, peguei mais matérias do que nunca na Faculdade e todos os demais projetos ainda estão vivos. Da Astrologia à produção de Roteiros. Uns mais vivos. Outros menos.

Essa explicação, no entanto, seria meia verdade. E como toda meia verdade, é igualmente uma meia mentira. A verdade inteira é que o Blog está morrendo porque eu estou morrendo.

Peço deesculpas pela pausa dramática, mas ela se fez necessária. Não pense de forma literal, como se fosse afligido por alguma doença sem cura. Nem pense que é de forma metafórica, tal qual toda mudança é uma espécie de morte. É algo mais literal, mas menos dramático.

Efetivamente, a rotina à qual me submeti é desgastante. Seiscentos quilômetros de estrada. Pouco sono. Pouco tempo. Muito trabalho. Tais flagelos impõe-se com um extremo catabolismo em mim. Estou cansado, desgastado e sem tempo. Uma semana caí doente. Noutras quase caí, mas me recuperei. Minha gargante sofre com dez horas de aula non stop. E me ausento do convívio dos meus entes queridos.

Trata-se de um efetivo desgaste físico. Nisso posso afirmar claramente, estou me matando um pouco todas as vezes que vou para lá.

No entanto, um efeito colateral se fez presente. Paradoxalmente ao desgaste, um sem precedente nível de vitalidade se fez presente. De onde concluo: Eu me sinto mais vivo quando estou me desgastando.

Sim, eu sei que parece paradoxal. Mas digo mais ainda: tal paradoxo é que impediu a percepção prévia de tal fato.

Durante os anos de treinamentos de artes marciais me senti mais vivo quanto mais desgastado.

Durante a faculdade, me senti mais vivo quanto mais desgastado.

Durante o Rugby costumávamos dizer que a melhor cerveja é a que vem depois de um jogo desgastante.

Por isso, inclusive, me lembrei do vídeo que encabeça esta carta. O Haka Maori. A Dança Maori.

À época, quando primeiro vi o vídeo, me questionei sobre o significado dos versos de abertura: “Morrer é Viver” ou “A Morte é a Vida”. Isso não fazia sentido. Tratei, portanto, em minha prepotência, de reinterpretar: O poeta deve ter querido dizer “Matar é Viver”. Faz sentido, afinal, é uma dança de guerra. Os selvagens querem apenas matar seus inimigo. É disso que a canção falou pra mim por tantos anos.

Tal conclusão hoje me envergonha. Primeiramente, por quebrar a primeira regra da interpretação de texto: se o autor quis dizer, por que não disse? E, em um segundo momento, por ter incorrido tão prontamente em um pecado mortal: recortar o mundo para que ele coubesse em mim ao invés de me abrir para o que o mundo pudesse me ensinar.

Hoje tudo parece tão óbvio, como num caleidoscópio de ideias: Morrer é viver, pois é se desgastando que se vive, é morrendo que se vive, tal qual uma vela que se consome enquanto queima. A busca de uma vida carregada de sentido é a busca de uma morte carregada de sentido. Esse é o símbolo do Cristo Crucificado, essa é a admiração que devemos ter: encontrar aquilo pelo qual vale à pena morrer e, por isso, se desgastar.

Obviamente (e por que não dizer, tristemente) as coisas não se resolvem com o encontro dessa verdade. Deus é aquele que está sendo. E nós somos sua imagem e semelhança. Estamos em constante movimento e a verdade de amanhã (muito provavelmente) não será a verdade de hoje.

No entanto, o mundo não muda. O mundo munda. E essa é a sensação que eu queria explicar, que eu queria compartilhar com você: a certeza carregada de sentido que a felicidade não se encontra no anabolismo, mas no catabolismo. Que a Felicidade é território do Sol, sim, pois ele sangra luz por todos os poros, mas também é de Saturno,  velho homem que carrega a foice. E, por que não dizer? Até mesmo de Júpiter, que doa mais energia do que recebe.

A morte em si não é felicidade, posto que isso seria mero fetichismo de fuga. Mero escape da mais assustadora responsabilidade que é criar uma alma: estamos morrendo o tempo todo. Se não direcionarmos nossas mortes, é perigoso que elas se tornem um sacrifício no altar errado. Cuidado. Como a estrada me disse: Anos e anos na correria faz leva e traz.

O catabolismo, bem direcionado, intenso e inteligente não destrói. Constrói. Seu corpo diz isso para você quando você treina. Você deveria ouvir o que ele lhe diz. Pois essa é a morte que constrói.

Talvez, por isso, em francês, orgasmo se diga “a pequena morte”.

Abraços de Guerra,
Anarcoplayba.

Quinze de Março.

March 16, 2015 § Leave a comment

Aparentemente hoje foi um bom dia para ficar quatro horas na estrada.

Eu deveria fazer um grande post. Explicitar mais uma vez o meu partido, meu lado e minhas opiniões. Tirar o cu de cima do muro de uma pretensa imparcialidade.

Mas eu estou muito velho, muito cansado e muito cego. Viajei muito para chegar até aqui, literal e metaforicamente. E quero dizer apenas duas coisas:

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam o país inteiro num puteiro pois assim se ganha mais dinheiro. A sua piscina tá cheia de ratos, suas ideias não correspondem aos fatos. O tempo não para. Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para.

E que eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais. Longe o profeta do terror que a Laranja Mecânica anuncia, amar e mudar as coisas me interessa mais.

Meu Arco.

March 13, 2015 § 1 Comment

Este é o meu arco. Existem muitos como ele. Mas este é o MEU arco. Ele é o meu melhor amigo. É a minha vida. Eu devo ter maestria sobre o meu arco assim como eu devo ter maestria sobre a minha vida. E eu vou.

***

É meio tosco começar um texto com uma mera paráfrase de “Meu Rifle”, mas é pertinente. Chegou hoje o meu arco. O primeiro arco que eu comprei (o outro foi herança de um projeto do meu tio). É simplesinho, coitado. Feito por um chinês, pago em dólares australianos e enviado por airmail. Taxado em cinquenta reais (o valor declarado era de vinte dólares) e feito em madeira, fibra de vidro e couro, ele não tem nada de mais.

Exceto que a tração dele é de oitenta libras. A maior tração de arcos comerciais modernos.

Oitenta libras é algo próximo a trinta e cinco quilos.

Para eu conseguir atirar com esse arco, precisarei segurar trinta e cinco quilos em uma corda em três dedos. É bastante, mas é o meu arco. E eu tenho que dominá-lo.

***

Acho que o feito físico mais impressionante que eu já fiz foi levantar noventa quilos em um braço.

Pra um culturista isso não é nada.

Eu estava descendo uma cachoeira com um amigo. Precisávamos pular sobre um vão. Passei primeiro, dei a mão para ele pular. Ele escorregou e eu o segurei. Com uma mão o levantei até a pedra. Não era um vão muito alto. Dois metros até a água, no máximo. Tinha correnteza, mas não tinha muitas pedras. Ele não ia morrer. Acho.

Foi fácil. Provavelmente porque foi o peso mais importante que eu já segurei.

***

Uma vez estávamos numa estrada e o rio lateral transbordou. O carro começou a ser arrastado. Saí do carro para evitar que ele fosse arrastado. Segurei ele na correnteza. Não foi tão difícil também. A correnteza não estava tão forte assim. Mas tinha gente no carro que não sabia nadar. Então não tínhamos muita opção.

Deve ter sido o maior peso que eu já empurrei.

***

Em um torneio de Karatê, que eu estava perdendo vergonhosamente, o adversário resolveu que ia ser uma boa ideia tirar um sarrinho da minha cara na luta.

Não foi.

Decidido a ser desclassificado, coloquei toda a força em um chute só. Acertou no meio do peito dele. Ele voou na terceira fileira da arquibancada. Uns cinco metros pra longe de onde eu chutei ele. Bem longe. Eu diria que nunca chutei com tanta força, mas eu não chutei com a perna. Chutei com o ódio.

***

Já carreguei quatro caixões. Do primeiro amor, do pai, da avó e do pai de um irmão.

É pesado. Muito pesado. Mas não foi sofrido. Prefiro que se alguém tiver que carregar um caixão, esse alguém seja eu. Sempre que possível, espero poder tirar esse peso (literal e metafórico) dos ombros das pessoas que eu amo.

Por isso que vou me esforçar para enterrar todos vocês. Espero ser o último a ser enterrado (ou morrer tentando). Porque ninguém deveria ter que enterrar alguém que ama. Então espero livrar vocês disso.

***

Meu arco tem uma tensão de oitenta libras. Trinta e cinco quilos. Pra segurar em três dedos, tracionar nas costas e controlar nos braços.

É fácil. Mais fácil que ter a cabeça erguida.

Só preciso de um motivo.

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