O Prêmio pela Bondade.

July 10, 2016 § Leave a comment

A pergunta que mais destroça religiões é “Por que coisas boas acontecem para gente ruim?” e sua gêmea “Por que coisas ruins acontecem para pessoas boas?”. Gosto de pensar qu isso vem de um inerente e mal colocado senso de justiça humano ou da nossa vontade desagradável de antropomorfizar tudo.

Esperar que o Universo lhe trate bem porque você é uma pessoa boa é esperar que a chuva não molhe os injustos ou que o Sol não brilhe para os maus. O Sol nasce para todos e a chuva, resumidamente, cai em quem está na chuva.

Isso é fácil de se pensar quando falamos em Sol, Chuva, Verão e Inverno. Mas menos fácil quando falamos em um câncer, uma demissão, um acidente de carro, um infarto, um estupro ou uma leucemia numa criança de oito anos. Sim, é ruim. Não, não é punição. Se morrer fosse alguma punição não seria algo tão democrático (talvez a única coisa realmente democrática).

Os Católicos costumam responder a essa pergunta sobre coisas ruins com pessoas boas com um dos maiores clichês teológicos possíveis: “Deus tem planos e eles são insondáveis”. Bom, isso é problemático porque é ma ofensa àquele mandamento lá de não ter imagens de Deus. Pretender que Deus tem planos é achar que Deus tem interesses, vontdes ou o que quer que seja. Como se Deus tivesse realmente curiosidade pra saber o que você faz no sábado à noite, sua safadeenha.

Outro clásico é o famoso “tudo acontece por uma razão”. E com isso eu concordo. Burrice, por exemplo, é uma razão muito comum. Mas isso não responde. Se eu quebro meu pé bicudando uma pilastra, a causalidade é deveras evidente, coisa que não acontece quando um membro da família morre de repente.

Uma das minhas respostas favoritas ainda é a dos antigos cabalistas, que tiram D’us da parada e resumem a uma frase curta e hermética: “O Prêmio para a Bondade é a Bondade e a Punição para a Maldade é a Maldade”. Meu professor de Literatura Hebraica falou isso com um elevado ar professoral (sorry pelo trocadilho) e complementou “vocês conseguem imaginar como é ruim ser ruim?”.

Eu gosto da frase e desgosto da interpretação. Muito bonito, muito fofo, muito cuti cuti, mas não se sustenta. Olha para o mundo e veja se pessoas “más” (peço desculpas pelo aparente maniqueísmo, mas destaco que ele é apenas aparente) não se regojizam com sua maldade. Se regojizam. Um clássico das aulas de medicina legal é o prazer da confissão, quando criminosos contam o crime com detalhes cênicos, como se estivessem revivendo o momento do crime e reaproveitando-o. Não se trata apenas de cimes passionais, mas também de criminosos profissionais, como assaltantes a bancos, que se orgulham de seu profissionalismo.

Malandros se aprazem em serem malandros. Corruptos se aprazem em serem corruptos. Caridosos se aprazem na caridade. E por aí vai. Sem punições. Sem julgamentos. A vida segue e não há nada de novo sob o Sol. Apenas uma verdade que segue triunfante:

O prêmio por ser quem se é é ser quem se é.

Uma análise presunçosa sobre Game of Thrones.

June 28, 2016 § 1 Comment

(Que contém spoilers.)

Ok, terminou a sexta temporada e estamos indo para a última temporada (que assim como Breaking Bad vai ser esticada em duas, então sim, eu sei que tem mais dois anos, mas não, isso não faz duas temporadas) e é o momento perfeito para fazer uma análise que eu estou postergando faz tempo sobre a série (não, não li os livros ainda).

1) A Magia em Game of Thrones.

Uma das coisas que eu acho mais interessante em GoT é a magia. Existe magia, mas ela consegue ser ainda mais discreta que em Senhor dos Anéis. Melisandre queima uma sanguessuga e alguém morre. Coincidência? Não? Não dá para saber. A Magia em GoT está nas coincidências. Quem ofende as leis dos deuses acaba sendo castigado. Cai um meteoro na cabeça dele? Não. Mas ele morre exatamente como matou. Os arquitetos do Red Wedding morreram com um tiro de besta, esfaqueado no coração e com a garganta cortada diante do cadáver do filho.

Isso cria um capítulo completamente novo sobre “verossimilhança”. “Ain, que coisa tosca, aquilo na Batalha dos Bastardos foi deus ex machina”. Sim, foi. Assim como o que aconteceu com o Oberyn. E com a Arya. E com a Ygritte, que não erra um coelho a trinta metros, mas errou o Jon. O Cão deveria ter morrido também e não morreu. E por aí vai.

Outra coisa interessante é o Poder do Sangue. Filhos de Nobres são melhores que filhos de plebeus. Porque são nobres. Ponto. Um exército liderado por um nobre luta melhor. Um nobre é mais forte. Ponto. O Direito de Governar está ligado ao sangue. E funciona. Porque é mágico.

As pessoas possuem funções no grande esquema das coisas. Hodor tinha UMA função durante toda sua vida. Cumprida a função, ele pode morrer. Isso parece cruel para nossa vida individualista… Mas em uma terra na qual o que importa é que o Fogo vença o Gelo, isso é uma honra.

2) A Religião em Game of Thrones.

Essa é a parte mais legal de todas. Existem basicamente três panteões em GoT: Os Deuses Antigos, Os Sete e O Senhor da Luz.

Os Deuses Antigos são basicamente uma religião panteísta que idolatra árvores e elfos. Ops, quer dizer, Árvores e as Crianças da Floresta.

Os Sete são uma religião politeísta que idolatra sete personificações antropomórficas de aspectos da humanidade: O Estranho (A Morte/Saturno), a Sábia (Júpiter), O Guerreiro (Marte), O Pai (Sol), a Dama (Vênus), o Artesão (Mercúrio) e a Mãe (Lua).

O Senhor da Luz, cuja fé o proclama como o Único Deus e queima os hereges por aí.

Existe uma relação clara entre as religiões “reais” em ordem cronológica (Paganismo, Politeísmo Greco-Romano e Monoteísmo Judaico-Cristão) e as religiões de GoT. Cáspita, o catolicismo deles até queima bruxas por aí também.

E nesse aspecto, duas coisas saltam à vista: primeiro que todas as religiões funcionam. Os deuses antigos funcionam, atuam, influenciam nas coisas. Os Sete também. E o Senhor da Luz nem se fala. Isso sugere que o foco da religião não são os Deuses, mas os seres humanos. TALVEZ daí venha boa parte do Segredo de Atlântida, ops, quer dizer, Valyria e do Poder dos Maesters.

Além disso, tudo indica que a Fé do Senhor da Luz vai mesmo se estabelecer.

3) Um mundo de Transição.

Um dos tópicos mais fortes em GoT é a transição dos velhos modos para os novos modos. Ned morreu porque representava os velhos modos. A maior parte dos patriarcas foram mortos e destronados. Daenarys passou a maior parte das seis temporadas lutando contra os velhos modos (escravidão).

Foda-se o nome. Um Snow é Rei de Winterfell. Foda-se a tradição: Arya é Arya E é uma Sem Nome (ela bebeu do poço, não?). Acaba a Casa Frey. Acaba a Casa Bolton. Acaba a Casa Martell. Os Lannisters não têm mais herdeiros. A Patrulha da Noite não enfrenta mais os Wildlings. Morreu o último gigante. Os Greyjoy virarão comerciantes. Daenerys não quer ganhar a dança das cadeiras, quer quebrar a roda dos tronos. E por aí vai.

E eu acho que essa é a grande razão pela qual GoT faz sucesso hoje: ele fala de uma transição entre o passado e o presente, semelhante à que acontece entre a Idade Média e a Idade Moderna: Robert derrubou a maior dinastia já estabelecida e com isso mostrou que poderia ascender ao trono. Depois disso todos entenderam que o Trono de Ferro era viável. Direito de nascença o cacete. Aqui é livre arbítrio burguês.

Se eu fosse arriscar um palpite, portanto, diria que tudo caminha para um resultado “moderno”: As velhas casas caem, os bichos papões morrem junto com os outros seres mágicos (White Walkers, Crianças da Floresta, Dragões, etc.) e no final a gente termina com algo próximo a uma democracia.

***

Para quem quiser mais umas brincadeiras sobre GoT: http://www.dorkly.com/post/79337/10-insane-details-game-of-thrones-fans-have-noticed

Minha faca.

April 25, 2016 § Leave a comment

Cheguei em Cruzeiro hoje, depois de uma semana que envolveu, na falta de um, dois foras por whatsapp. E descobri que meu avô meu deu uma faca de presente. Ele me mandou um áudio avisando que ela estava numa caixinha no alto de um armário. Disse que não sabia se seria muito útil, mas que talvez servisse pra churrasco ou coisa do gênero:

promoção

Não sei se meu avô sabia o que estava fazendo. Mas junto com essa faca nova de churrasco, um brinde, estava essa faca velha e maltratada:

antes

Essa faca velha e maltratada foi a minha primeira faca. Comprada em 1996. Vinte anos atrás.

Nesses vinte anos (como parece óbvio) eu a perdi de vista. Eu havia comprado, na época, para acampar com meu pai. Não é uma faca muito boa. A marca é Tramontina (nada customizado, ou de alguma cutelaria profissional). O desenho dela é meio tosco. O Cabo é em plástico (nada de osso de Cervo ou coisa que o valha). Mas é a minha faca.

***

Anos atrás eu fiz uma paródia do poema “My Rifle”, o “My Knife”.

This is my knife.
There are many like it.
But this one is mine.
My knife is my best friend.
It is my life.
I must master my knife as I must master my life.
And I will.

***

Quando eu recuperei minha faca dei uma olhada boa nela. Tinha umas manchas de ferrugem, causadas pela Água, um denteado FEIO na lâmina e bastante marca de uso. Parece que, sem eu saber, deram uma bela zoada na minha faca. Mas agora ela voltou pras minhas mãos. E agora eu tenho as ferramentas necessárias para arrumá-la.

Desci para a oficina. Minha primeira preocupação era em consertar aquela marca grosseira de denteado. Como se tivessem usado ela pra cortar um prego ou algo que era duro demais, sujeitando-a a algo para o qual ela não fôra feita.

Quando a lâmina é fundida, ela passa por um tratamento térmico. Primeiro você aquece o metal ao rubro, no Fogo, e depois esfria rapidamente, na Água. O choque deixa o aço duro. Para ser útil, ele passa por um aquecimento moderado, para relaxar. Sem isso, qualquer choquezinho quebra ele.

O correto seria eu tirar o tratamento térmico, voltar ela para o formato original e depois temperá-la de novo. O problema é que ela já tem um cabo, para manejar a faca com tranquilidade, e isso me faria perdê-lo. Eu poderia até tentar fazer outro, mas o controle que o cabo oferece é tão importante quanto o fio da lâmina.

Dei uma marteladinha para quebrar a marca e passei no esmeril, molhando bem com Água para garantir que o aço não perdesse a têmpera. Depois lixei para tirar a ferrugem e as marcas. Aço bom enferruja. Armas têm que ficar longe da Água. Só aço ruim, morno, nem quente nem frio que não sofre com a umidade.

Outro problema é que o Esmeril desbasta o metal, mas não presta para dar Fio. Fio se dá na Pedra. Simples assim. Água, Pedra e Paciência. Isso é que garante o corte da arma: passar repetidamente e com calma pela mesma Pedra.

Terminada a afiação, tentei lixar e polir a faca para deixá-la espelhada, como nova. Mas não deu… Precisaria de muito tempo e muitas lixas diferentes. Me contentei com deixá-la brilhante. Afinal, é uma faca, não um espelho. Por fim, passei uma camadinha de óleo pra proteger da umidade futura.

depois

***

Minha faca é minha vida. Pode não ser um espelho, mas consigo me enxergar nela.

Quem tiver ouvidos que ouça.

 

Soneto do Saturnismo.

April 20, 2016 § Leave a comment

Cicatrizes são medalhas de batalha
E são honras tão pesadas quanto mundo
Mas cada corte é a lembrança de uma falha
E cada falha é tão pesada quanto o chumbo.

Sim, a pele cicatriza todo corte
Inclusive os velhos talhos, tão profundos.
Mas se a dor logo passa num segundo
Cicatrizes são um peso e um acúmulo.

Não se morre das mazelas superadas
Mas se morre muitas vezes por descuido.
E a dor, que quando chove, me acomete

É a desculpa tão perfeita quando a culpo
Pois a dor que a cada falha se repete
Leva os ossos e a carne para o túmulo.

O Apocalipse de Paulo Tarso.

April 17, 2016 § Leave a comment

Não é nenhuma novidade que eu tenho um fraco pelos textos religiosos.

Com a idade, muito para minha surpresa, me aproximei da mitologia Judaico-Cristã. O suficiente para estudar hebraico. Se algum Cristão ler isso vai estranhar eu me referir a “Mitologia Judaico-Cristã”. Sim, mitologia. Hércules era filho de um Deus com uma Mortal. Aquiles era filho de uma Deusa com um Mortal. Jesus era filho de um Deus com uma Mortal. Simples assim.

O ponto da mitologia não é uma prova irrefutável da existência ou não de algo. O ponto da mitologia é apresentar um ponto a respeito ou não do ser humano. E em se tratando de seres humanos, a definição de um paradigma é um ideal, não um fato. Se eu afirmo que o ser humano é honesto naturalmente, longe de isso ser um fato comprovado, é uma ambição humana.

Nesse sentido, quando o autor bíblico fala que o ser humano é terra e sopro divino ele não está falando que somos primos do tijolo. Está falando que temos natureza dual, uma parte que precisa apenas de comida, sono e sexo. Outra parte (que nem precisa vir desse amigo invisível chamado de deus) que quer transcender o mínimo, deixar para trás a mediocridade. Ser mais do que se é. A Mona lisa não foi pintada pela parcela tijolo de DaVinci.

Nesse sentido, um dos livros mais difíceis de se entender é o Apocalipse. Primeiro porque é em linguagem simbólica. Então acaba havendo certa relevância toda informação dada. Vinte e quatro tronos. Por que não 15? Quatro animais. Por que não oito? É como um código que se faz necessário uma chave para se entender. Além disso, o Livro do Apocalipse fala de um tempo por vir, mas quando? E falam há séculos que o fim está próximo, mas ele nunca chega?

Eu sou astrólogo. E umas das minhas chaves favoritas, obviamente, é a astrologia. A astrologia (tradicional) trabalha com quatro elementos, sete planetas e doze signos. Isso desde muito tempo antes da bíblia ser escrita. E não à toa as constelações que davam a roda zodiacal alguns milênios atrás eram Touro, Áquila, Aquário e Leão. O Bezerro, a Águia, o Anjo e o Leão apresentado no Apocalipse. Aí você aplica os sete selos, igrejas, etc. aos planetas e chakras correspondentes e os doze signos à doze tribos de judá e tá tranquilo, tá favorável.

E a primeira coisa que tem que ser entendido sobre o Apocalipse é que Apocalipse significa revelação. O Livro do Apocalipse é o livro da Revelação. Revelação tem como origem duas palavras “Revel”, que é “aquele que não age” e “Ação”. O Apocalipse é a ação de não agir.

Tao Te King, Capítulo 2:

Por isso o sábio age sem nada fazer
e ensina sem nada dizer
As coisas surgem e Ele permite que venham,
as coisas desparecem e Ele as deixa ir.
Ele tem mas não possui
e age sem expectativas,
Quando seu trabalho está feito,
Ele o esquece.
E por isso ele dura para sempre.

O apocalipse é sobre a iluminação. Aquela clareza de sentido e de certeza que alguns tanto almejam. E é por isso que o número de salvos é fixo: 144.000 a revelação não é para todos.

Além disso, o livro é longo. Longo pra caralho. E tem sol escurecendo, lua virando sangue, nego a cavalo, peste, fome, guerra, etc. É tanta desgraça que parece até a lista de deputados eleitos do PMDB. Porque a iluminação não é agradável.

E revelação, em si, já é uma palavra complicada: aquilo que está oculto se mostra. E quem disse que o que está oculto é bom? Até onde eu sei, ninguém se esconde pra fazer coisas boas, justas e corretas.

E a última coisa: morre gente pra caralho no apocalipse. Porque nós somos humanos. Metade tijolo e metade filhos de deuses. Vivemos nossa rotina, se esforçando para alcançar o reconhecimento dos seus pares tijolos: estudamos muito para passarmos numa faculdade cara, para termos empregos caros, roupas caras, carros caros, esposas e maridos caros para gerarmos filhos caros e no fim da vida termos uma morte cara e sermos lembrados como o cara que montou uma empresa que dava emprego para mais de duzentos tijolos, termos comido mais de 100 tijolas na vida, viajar para os lugares mais disputados pelos demais tijolos e fazer inúmeras outras tijolices. Ao perceber os tijolos ao seu redor acaba rolando morte. Morte de amizades, de empregos, de carreiras, de amores. Porque os tijolos ao seu redor são os tijolos que você usou pra construir essa vida ao seu redor. E essa vida é mentirosa. Porque você é mentiroso. E enquanto você for mentiroso você não pode pretender o direito de viver em um mundo verdadeiro. Porque você é parte do seu mundo. A parte principal.

Eu queria que o Apocalipse fosse um meteoro caindo na Terra. Ou uma epidemia zumbi. Porque não teria que existir escolhas. E nada é pior do que escolher contrariamente àquilo que você sabe ser certo.

A ignorância é uma benção e a revelação uma maldição. Talvez por isso o Apocalipse prometa a Estrela-da-Manhã aos que por ele passam.

A Barba.

April 17, 2016 § 1 Comment

Um tanto quanto atrasado, finalmente aderi à moda da barba.

Nunca gostei. Mas me surpreendi. Aparentemente eu fico bem de barba, apesar das falhas nela.

***

Na última década a barba realmente entrou na moda. Os hipsters usaram como uma demonstração clara de personalidade. Durante um breve momento os auto-intitulados lenhadores usavam a barba como uma atestado de masculinidade. Lenhadores que usavam hidratante para barba e eram vegetarianos para combater a crueldade contra os animais. Mas ainda assim com a pretensão de uma imagem de virilidade e rusticidade.

Pessoalmente, eu escolhi deixar a barba crescer como um presente de despedida para uma grande amiga. Ela está com a viagem próxima e não deve voltar tão cedo. Como ela sempre disse que “Barba era caractere sexual masculino” resolvi que até ela ir embora vou manter a barba. Besteirinha, mas acho que é tão válido quanto usar uma barba hidratada para demonstrar rusticidade.

***

Um dos motivos pelos quais eu nunca gostei de barba é porque, quando eu era adolescente, a prima da minha primeira namorada viu um cara no ônibus e falou “para ele” à distância que “ele parecia bonito, mas estava de óculos escuros, e isso é truque pra esconder o rosto”. Desde então tenho ojeriza a tudo o que esconde o rosto.

Óculos escuros? Péssimo. Os olhos são a janela da alma. Por quê alguém esconderia a alma? Boa coisa não é.

Me lembro também que o meu pai mencionou que policiais e militares apenas usam máscaras para missões de extremo nível de violência. É para “remover” o alvo mesmo. Por isso que snipers sempre estão de máscara. Protege o rosto, esconde a identidade, a pessoa e as emoções.

Talvez por isso que os reis sejam sempre retratados de barba. Dizem que príncipes se barbeiam, mas reis têm barba. Faz sentido. Símbolo de sabedoria e experiência? Não. Uma forma de esconder o rosto e condenar à Pena Capital, mandar soldados para morrer, negociar com lideranças corruptas. E por aí vai.

***

Os biólogos falam que a barba é uma camada de proteção. Creio que seja verdade, mas pelo visto não é contra o frio ou contra os germes. É pra proteger a identidade mesmo.

A barba não deixa antever rugas, cicatrizes, marcas e até minimiza as expressões. O homem atrás dos óculos e do bigode tem poucos, raros amigos. O Homem atrás da barba é um rei. Que vê peões, cavalos, bispos, torres e até mais a Rainha, sua Rainha caírem e permanece impassível. Se os inimigos soubessem que ele sorriu, sofreu, trouxe rugas e cicatrizes, talvez se sentissem estimulados. Nesse sentido, minha barba é arma e armadura. Apesar das falhas.

***

Minha vida não está fácil (nem um pouco) e estou longe de ser um rei. Mas a barba é uma arma ou uma armadura útil. Finja que não está sofrendo e o mundo vai acreditar. Ou te ignorar, mas dá na mesma.

Talvez um dia eu consiga encarar a vida de cara limpa novamente. Até lá, mantenho a barba.

Redenção.

March 6, 2016 § Leave a comment

A Queda é um mito comum a inúmeras religiões e culturas. E se você não gosta de religião, tudo bem: gruda em alguém mais velho e ouça ele dizer que “no tempo dele não era assim”. É quase natural do ser humano idealizar o passado. Quer seja um passado imaginado, onde vivíamos pelados comendo frutas, ou real, onde os jovens pediam “a bença” aos mais velhos e esses os abençoavam. Com a mesma mão que chicoteavam escravos.

O mito de um passado áureo não precisa ser verdade. Basta ser mito. Porque ele não precisa falar sobre história, precisa falar sobre o ser humano. E se é um tema tão importante assim, A Queda, é algo a ser respeitado, posto que não fala sobre deus, fala sobre os erros humanos. Troque deus por “bem”, “mal”, “ética”, “moral”, “costumes” ou “meu critério pessoal e individual de certo e errado” e dá na mesma.

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil.”

Mito diferente. Mesmo símbolo.

Ninguém liga para o pecado das religiões. Eles são irrelevantes.

“Ain, não coloca esse pipi nesse popô.”
“Deus não quer que você se masturbe.”
“Não coma porco.”

Pfff. Isso é irrelevante. Se você não considera errado, não é queda. O julgamento é seu. Talvez você tenha algum prazer mórbido de aderir aos dogmas de uma religião apenas para ter um prazer de selfrighteousness (não tem palavra boa pra isso em português). Mas isso é vaidade, talvez não o meu pecado favorito, mas um delicioso também.

Agora, saber o certo e fazer o errado. Isso mata. Isso dói. Isso destrói. Isso é A Queda. No conceito individual de certo e errado não existe “meus amigos fariam”, “ninguém ficou sabendo”,  “no meu lugar fariam a mesma coisa”, “não sou obrigado”, “a verdade me causaria problemas”, “a honra seria inconveniente”, “a justiça me traria incômodos”, etc.

E o mais legal é que existem tantas Quedas quanto existem seres humanos. Depende do critério de certo e errado de cada um. Pra uns cair é perdoar, pra outros é punir. Não é lindo? Tantos seres humanos e tantas formas de descer aos infernos. Tantas e tão diferentes. Deus pode não ser infinitamente bom, mas é infinitamente criativo.

Há quem diga que as religiões enfiam um conceito de medo, dor e incerteza dentro da gente. Eu não acredito nisso. Eu acho, sim, que ela explora um mercado aquecido e potencialmente infinito. O mercado do erro. Errar é mais fácil que acertar.

E se o pecado é razoavelmente universal (e efetivamente original, afinal, o pecado de um raramente é o mesmo pecado de outro) a resposta a esse pecado recebe tantos nomes e tão diferentes.

Os católicos falam em penitência. Castigue a carne para limpar a alma. Isso dá ótimos fetiches e perversões, mas péssimas pessoas. Estou sofrendo, portanto, vou me punir. Machuquei alguém, portanto, vou me machucar. Crazy, huh? Teve até uma época em que as pessoas eram queimadas com essa justificativa.

Os espíritas trabalham com o Karma, que é um troço bem católico também, mas com um pique argumentativo. Se você fez sofrer, você vai sofrer. “Mas olha, o cara fez um monte de gente sofrer e morreu em glória e riqueza…” Hah, na próxima vida ele vai ver! Piques! Você não pode argumentar! Lero-Lero!

reencarnação

Em inglês uma palavra usada para se redimir dos erros é “Atonement” algo traduzido como reconciliação mas que tem a mesma raiz de tom.  Atonement seria algo semelhante a “afinação”. “Voltar para o tom correto”. Também é bonito.

Já o Judaísmo… e vocês todos sabem que eu sou uma putinha para o judaísmo… Tem uma palavra interessante: Tikum. A tradução normal é “correção”. Mas em sentido literal é retorno. Como se “pecar” fosse se desviar do caminho… e o retorno seria a correção. Mas mais do que isso, existe uma locução para o pecador redimido: Baal Tikum. O Senhor do Retorno ou Senhor da Correção. E é aquele capaz de corrigir seus erros e voltar ao caminho. Dizem até que ninguém é mais amado por D’us que o Baal Tikum. A parábola do filho pródigo também mostra isso.

A visão judaica, de certa forma, é cruel: como corrigir um erro? O que passou passou. Não dá pra, fácil assim, voltar no tempo e corrigir um erro. Não surpreende. O Judaísmo é uma religião saturniana. Deve ser difícil mesmo merecer o amor especial de D’us.

Agora, se o erro é individual, assim também é a correção. Não cabe a ninguém falar a forma certa de corrigir um erro. Mas invariavelmente essa correção vai passar pelo caminho inverso da Queda. Se a Queda é uma tentativa de suprimir a vontade de deus (ou sua verdade individual) por aquilo que você acha que é o mais correto (quer por vaidade, quer por ambição ou ainda por se achar inteligente e que pode enganar os deuses), a Redenção é deixar de lado o que você quer e escolher o certo. E se o que você quiser for o certo, aí você está (de verdade) no paraíso.

E só quem teve a chance de corrigir um erro sabe o quanto é verdade que deus o ama mais. Ou pelo menos, sabe o que é estar feliz e em paz. O que é quase a mesma coisa e serve para os mesmos propósitos.

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 323 other followers