Último Post de Blog de um Homem que Ficou Velho de Repente.

December 1, 2016 § 2 Comments

Uma das melhores histórias em quadrinhos que já foram escritas se chama Transmetropolitan (fic aqui o link da Amazon, mas eu vi que foi lançado no brasil e, sobrando uma grana, TENHO que comprar).

Transmetropolitan fala sobre um Jornalista (Spider Jerusalem) no século XXIII que é retirado de um exílio auto-imposto nas montanhas para cumprir um dever contratual de escrever dois livros.

O livro se passa em um futuro distópico Cyberpunk. Como o câncer foi curado com facilidade e a maior parte das doenças também, drogas são plenamente legalizadas. A tecnologia é tão avançada que entretenimento e bens de consumo são praticamente infinitos.

Mas como em toda distopia, a tecnologia mudou, mas a humaniade continuou a mesma.

Grupos de “trans” fazem protestos pelos seus direitos e são massacrados pela polícia (Transespécies, que injetam dna alienígena em si, não transgêneros). O Presidente declara que o trabalho dele é conquistar 51% dos votos e proteger esses 51% dos 49% restantes. Religiões são criadas para explorar a fé alheia. E por aí vai.

Mas o ponto principal e que levou Spider ao autoexílio é que a quantidade de informação é tão imensurável que afoga qualquer expectativa de Verdade. A frase mais emblemática da série toda é “Lies are news and the Truth is obsolete!” Mentiras são notícia e a Verdade está obsoleta.

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O Dicionário Oxford elegeu a palavra “Pós-Verdade” como a Palavra do Ano em 2016.

Pra mim isso e eleger “estupro infantil” como palavra do ano é quase a mesma coisa.

Pós-Verdade é um conceito no qual acontecimentos objetivos são menos relevantes para a formação de uma convicção pessoal do que apelos a ideais ou emoções.

Eu gostaria de dar exemplos, mas esse é um post de despedida e não quero maculá-lo com vieses.

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Deram um substantivo para a frase “Lies are news and the truth is obsolete.”

Chamaram de Pós-Verdade.

E isso destrói a finalidade desse blog.

Muito tempo atrás ele surgiu como minha busca pela Verdade. Minha verdade.

Mas a verdade é inútil. Mera circunstância. Massinha de modelar para aquilo que eu quero.

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Em um mundo de Pós-Verdade, nada é verdadeiro. O Palmeiras tem quatro ou nove títulos sei-lá-do-quê? Gente, é um campeonato, como é possível não haver concordância com isso? Ou do Palmeiras ou dos outros Times? É documental!

Percebem? E percebem que isso é a parte menos relevante de tudo? Do time de futebol ao partido político. Do sexo ao amor. Da Economia à Religião.

 

“Errado está o mundo, que não se curva à minha genialidade.”

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Não sei o que vou fazer. Certamente impossível deixar de escrever. Mas eu preciso dar um passo adiante. Escrever algo maior do que eu mesmo. Algo que seja Verdadeiro de tal forma que seja impossível refutar. Talvez literatura, não sei.

Mas se eu não conseguir me libertar do que sou hoje, uma pessoa escrevendo sobre o mundo, melhor que eu não escreva at all.

Esse ano eu ainda tenho um último post para escrever. Mas depois o blog deverá definhar e morrer (como já vem definhando e morrendo há anos).

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Se tudo der certo, só saio da caverna pra escrever dois livros.

Feliz dia dos mortos. Feliz dia do Amor.

October 31, 2016 § Leave a comment

O grande desafio, pra mim, de tentar levar uma vida espiritualizada é deixar de lado velhas crenças. Crenças científicas. E a internet ferra muito a nossa vida nisso.

O primeiro problema vem quando a gente fala em crenças científicas. Porque ciência funciona. Simples assim. Como disse um amigo meu, “penicilina não precisa de fé, não tem que acreditar pra funcionar”. Toda a religiosidade, em compensação, precisa. E piora muito porque a religiosidade está muito relacionada com as sincronicidades/coinciências.

Sincronicidade é uma palavra bonita pra falar que existe uma causalidade implícita nas coisas. Uma causalidade não evidente. Coincidência é uma palavra pra falar que não existe causalidade entre dois eventos que ocorrem em um determinado momento. Normalmente, “coincidência” é um super-trunfo. “A janela abriu quando eu perguntei se tinha alguém!” “Coincidência.” Cabô discussão.

E as coisas pioram quando você começa a trabalhar com exercícios comparativos.

Por exemplo, o mundo todo hoje comemora Halloween. O Halloween foi atribuído a 31 de outubro em virtude das festividades pagãs do Sabbat de Samhain. Que é basicamente o dia dos mortos. Essa data era comemorada no meio do outono (então às vezes cai no dia 30, às vezes no 31, depende do calendário) e era a data na qual as pessoas celebravam a morte. Meio bizarro celebrar a morte, mas é mais ou menos isso: os entes queridos que partiram eram lembrados, homenagens eram feitas e de todas as festividades, essa era a única na qual o consumo de carne era autorizado.

O problema é que no Hemisfério Sul se comemora o auge da primavera. A Celebração do Amor por excelência. Era o grande festival da fertilidade no qual as pessoas transavam como coelhinhos.

E agora nós estamos no auge da primavera, mas sabemos que o outro lado do mundo celebra a morte. E aí? Qual que tá valendo de verdade? Daqui a dois dias é finados, hoje é halloween, amanhã é dia de los muertos, ontem foi Beltane aqui e foi Samhain do outro lado do Equador.

Ontem foi a celebração do sepultamento de uma grande amiga. Vai deixar saudades e muito amor. Foi feito o serviço religioso, foram entregues flores e seu nome foi celebrado com um churrasco. Normalmente na casa não se come carne. Mas uma criança pediu então se fez essa exceção.

Eu gostaria de fazer um imenso texto a respeito de tudo isso, mas ela ensinou que o silêncio é a demonstração maior de devoção.

Portanto, Silêncio.

 

 

The Times, they are a’changing.

October 6, 2016 § 2 Comments

Prólogo: Provavelmente é assim que morre um blog: aos poucos e lentamente.

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O STF determinou e manteve o entendimento de que a prisão do condenado pode ocorrer após o julgamento em segundo grau, sem a necessidade de se esgotar os recursos.

O STF entendeu que a autoridade policial pode entrar em residências, sem mandado, mediante justificativa posterior comprovada.

O TJSP anulou o julgamento do Massacre do Carandiru.

Vítima de boato na Internet é ameaçado e tem medo de sair de casa.

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É muito bonito falar que a única coisa certa é a mudança quando a mudança é pro lado que a gente quer. E a gente nunca acha que está errado, afinal, se estivéssemos errados, nós perceberíamos, né?

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Nos últimos meses uma série de decisões judiciais (não de qualquer Corte, da Suprema Corte) vêm “flexibilizando” os direitos e garantias individuais. Pros advogados isso é desesperador. E pros outros cidadãos também deveria.

Os Direitos Humanos são uma garantia do indivíduo diante do Poder do Estado. Toda evolução do direito caminhou em direção à proteção dos direitos individuais. Hoje vemos um passinho em sentido contrário.

Não sei se esse passinho vai se consolidar, mas é um passinho. E ele parece coerente com muito mais coisa correndo.

O Código de Processo Civil positivou a possibilidade de julgamento e execução de parte incontroversa do pedido. O STF entende ser possível a prisão após o julgamento de segundo grau. A redução da maioridade penal ficou bem próxima de aprovada (se não vier a ser). Criou-se o crime de feminicídio. O Direito Penal está endurecendo.

(E sim, apesar do TJSP ter anulado o julgamento do Carandiru por um argumento garantista, a última coisa que ele foi foi garantista).

Porque a sociedade está endurecendo.

Parece (talvez seja pessimismo meu) que as pessoas querem a punição logo. O Direito Penal Liberal entende que é melhor absolver um culpado do que condenar um inocente. Mas parece que “A Sociedade” vem entendendo que é tanto culpado absolvido que é melhor dificultar a vida deles.

Por um lado, isso é muito ruim. E muito perigoso.

Mas a sociedade não quer o que é certo. Ela quer resolver os problemas dela. Em todos os sentidos: Político, social, econômico, jurídico.

A mudança da percepção da sociedade implica na mudança da percepção das Leis. Foi assim com a “Legítima Defesa da Honra”. Vai ser assim com invasão de domicílio pela Polícia.

Afinal, se tem gente que acha que pode divulgar vídeo acusando gente de ser estuprador, por quê não trancafiar na cadeia após um julgamento de segundo grau? Vamos combinar que no julgamento o réu teve mais direito de defesa.

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O que mais me chama a atenção nisso é que cada vez mais parece haver uma correlação direta entre povo e governo (ou entre povo e lei, nesse caso). Leis que não pegam, governos que ficam ou que caem, quer algumas pessoas gostem ou não. Quer pareça certo ou não. O STF deu essas duas decisões. E foi mais ou menos essa composição que autorizou o casamento homossexual e está perto de descriminalizar o uso de drogas.

E é nessa questão que permaneço: é possível falar em certo e errado quando falamos em um processo histórico de larga escala? Parece que o pêndulo está indo pro lado contrário agora, a caminho da repressão ao indivíduo em prol do coletivo. E é tão possível evitar isso quanto é possível voltar ao tempo da “Legítima Defesa da Honra”.

Talvez a questão não seja se algo é certo ou errado, mas sim se é adequado ou não em um determinado tempo. E isso vale pras Leis e pros Governos.

But the Times, they are a’changing.

One Punch Man.

August 31, 2016 § Leave a comment

Dois fucking dias antes do meu aniversário e tudo que eu tenho a falar é sobre um fucking Mangá.

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One Punch Man é uma homenagem ao anticlimax. É um Mangá/Anime sobre um herói que consegue derrotar todos os inimigos com apenas um soco.

Pense em todos os mangás e animês até agora criados. Pense em todas as horas de sofrimento que o protagonista passa para conseguir vencer um inimigo claramente superior.

OPM é o contrário.

Com um soco ele vaporiza os inimigos durante o discurso de ameaça deles. E logo em seguida fica puto porque esperava que aquela luta representasse ALGUM desafio.

Saitama (identidade do OPM) é um ex “salary man” (termo usado em japonês para indicar o trabalhador de colarinho branco em funções de pouco prestígio nas empresas) que decide, em virtude do tédio, virar “super-hero for a hobby”. Sua pretensão com isso é preencher o vazio de sua vida com a adrenalina do desafio.

Dedicando-se a treinar durante três anos (fazendo 100 flexões, 100 agachamentos, 100 barras e correndo 10 quilômetros todos os dias) Saitama alcançou o nível de poder capaz de esmigalhar um meteoro com um soco. Wait. Wut? Sim, isso mesmo.

Depois de derrotar um monstro com um tapa, um ciborgue pede para ser seu discípulo. Relutantemente (por acreditar que não tem nada a ensinar) ele aceita. E descobre que para ser um super-herói ele precisa se filiar ao Sindicato dos Super-Heróis, ou será considerado apenas um louco.

Ele se filia e descobre que seu discípulo ciborgue está ganhando muito mais notoriedade especialmente por ser… bonito.

Em suas tentativas de subir em classificação de herói Saitama enfrenta heróis mais antigos que decidem sabotá-lo fazendo bad publicity dele para o povo.

OPM acaba trabalhando a vertente do humor nonsense em todos os episódios: No fim trata-se da história de um herói que resolve tudo sem emoção alguma.

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One Punch Man é um Mangá sobre um herói depressivo.

Um herói que era um white collar worker, sem razões para viver uma vida sem emoção, que não sentia prazer em nada, e que decidiu ser herói por hobby no tempo livre. Não estranhamente, ele se tornou melhor no hobby que no trabalho sem sentido que fazia mas, ainda assim, não encontrou qualquer prazer em nada.

Sua vida é sem desafios e mesmo o que pode parecer um grande risco se mostra apenas mais um dia. E a expressão bland and blank dele mostra isso.

Não bastasse isso, para ser reconhecido em seu hobby, ele precisa da aprovação de seus pares. Sem a aprovação do sindicato, liga, federação, whatever, não interessa o quão forte ele é: ele não existe.

E não basta fazer bem o trabalho: sem o famigerado “marketing pessoal” e o “networking” é muito mais difícil obter o sucesso.

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One Punch Man é uma história tristemente parecida com a realidade: uma vida sem sentido num emprego fungível que só ganha cores aos finais de semana. Uma vida na qual sem o reconhecimento de um grupinho você não é parte da “comunidade”. Uma vida na qual o marketing pessoal cria Bel Pesces da vida enquanto empreendedores desembolsam economias da vida num negócio que, às vezes, falha.

Um dos meus maiores problemas é superanalizar coisas bobas. E eu fiz isso de novo.

Mas que faz sentido… isso faz.

 

 

Só é despedida quando você não quer que seja. Parte II.

August 7, 2016 § 2 Comments

Ou “Eu não amadureci tanto assim nos últimos dez anos”.

“A morte, o destino, tudo, estava fora de lugar. Eu vivo pra consertar.”

Mais de dez anos atrás um grande amigo saiu de sampa pra ir pro RJ. Por n motivos, mas resumindo, várias coisas ruins aconteceram e ele decidiu começar de novo. Ele fez uma festa de despedida na qual eu não consegui ir, mas como ele era meu colega de apartamento, não faltou a chance de uma última cerveja. E nesse dia eu falei “respeito sua decisão, mas não gosto. Eu gosto dos meus amigos perto de mim.” E ele me respondeu da forma ainda mais surpreendente: “Na minha despedida foram todos os meus amigos de faculdade e trabalho. Mas você foi o único que falou que queria que eu ficasse.”

E era verdade. Eu sabia o que ele queria. E eu queria outra coisa. Porque eu achava o melhor pra ele. Porque eu me importo com o mundo ao meu redor.

Em n motivos eu sou um filho da puta. Às vezes eu rezo pra que um meteoro me esmague e livre o mundo da minha existência. Eu sou bom em uma pá de coisas ruins. Eu sei mentir, eu sei brigar, eu sei tocar a música certa pra fazer as pessoas dançarem. Eu sou um desperdício de matéria orgânica na face da Terra. Seria melhor dividir meu corpo entre três etíopes. Mas eu tenho UMA coisa boa. Uma e apenas uma: eu quero ver as pessoas felizes.

Isso e apenas isso.

Mas tem um problema. Eu quero ver as pessoas felizes, mas não consigo fazer as pessoas felizes. Eu não consigo nem cuidar da minha vida, quanto mais cuidar da vida dos outros. Eu mal consigo cuidar de dois gatos. Quanto mais ajudar um amigo que está de mudança pra Alemanha porque a mãe da filha dele fez alienação parental e ele concluiu que não restou nada ora ele aqui se ele não tem a filha dele.

A morte. O Destino. Tudo. Está fora de lugar. Eu vivo pra consertar . E fracasso.

Eu falei anos atrás que eu queria o Algoritmo da Alma Humana. Porque eu queria consertar almas tortas. Deus do céu. E até hoje eu não consegui. Nem a minha. Nem dos meus familiares. Nem dos meus amigos. Não consegui. Nada. Eu sou aquele que vê a casa caindo e nem consegue tirar o carro da garagem. Pra quê eu sirvo na face da terra se eu não consigo nem ajudar as pessoas que eu amo?

Uma vez eu falei pra um amigo que tem polaridade política oposta à minha que eu só conversava com ele sobre política porque nós dois queremos a mesma coisa: Um mundo melhor. Discordamos do caminho pra isso. Mas desejamos.

E deus do céu… Como é difícil fazer alguma coisa que preste. A metáfora da semeadura é perfeita. Centenas de sementes pra dezenas de brotos e unidades de plantas. Deus do céu. Eu quero ver mais plantas.

Eu não sei o que vai ser do futuro. Mas eu vou consertar o mundo ou morrer tentanto. E se for pra não conseguir resolver nada, que pelo menos o morrer tentando chegue logo.

E sim. Isso é um post desabafo.

Stranger Things is an Anagram to Stephen King!

July 30, 2016 § Leave a comment

Ou quase.

Ou “O que a Augusta tem a ver com Netflix.”

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Na Década de 2000 a Rua Augusta, em São Paulo, era parte da “Boca do Lixo”. Uma área de botecos, puteiros, putas de rua e drogados. Ok, ainda é uma área de botecos, puteiros, putas de rua e drogados, mas os drogados são filhos da Classe Média-Alta fumando maconha e cheirando cocaína, não os mendigos crackudos. Os botecos, salvo raras exceções, viraram botecos sujos com preço de limpinhos. E as prostitutas e puteiros estão cada vez menos presentes. Se não me engano uns dois ou três puteiros tradicionais foram incorporados em prédios residenciais de classe média-alta.

E tudo isso teve um estopim: Vegas.

O Vegas era uma balada que abriu em um determinado momento da década de 2000 (não, não vou procurar datas. Isso é um blog, não a wikipedia.) e foi um sucesso. Captando o público “alternativo” e gls (hoje lgbtt) a casa foi um sucesso e abria de quarta a domingo. E pra uma casa noturna, abrir de quarta a domingo é bastante coisa. Subitamente a Augusta entrou no circuito underground de baladas. A rua que antes era alternativa de lazer de Office Boy querendo gastar o salário no puteiro virou ponto de artistas, publicitários, atores, e demais profissionais ditos “criativos”.

Um dos efeitos do Capitalismo e da Livre Concorrência é que todos querem ganhar dinheiro. Portanto, boas ideias tendem a ser copiadas à Exaustão. Nos anos que se seguiram, inúmeros outros barzinhos, pubs, casas de show, baladas and whatsoever abriram na região, tirando a Augusta do roteiro underground de baladas pro roteiro mainstream. Sem uma gota de esforço estatal a região se revitalizou. Os aluguéis aumentaram, a segurança aumentou e o que antes era falta de opção para muitos se tornou opção para poucos: morar na Rua Augusta. Por ironia do destino, os aluguéis subiram tanto que o Vegas, pioneiro da revitalização, fechou suas portas por não conseguir mais arcar com tal custo.

Esse efeito foi estudado na Inglaterra, em bairros que deixaram de ser “ruins” e se tornaram referência cultural. De forma resumida, as ondas de consumo seguem um caminho padrão: Um grupo pequeno que quer se diferenciar dos demais. Em seguida isso vira uma moda em um nicho específico. Tempos depois a moda se populariza e alcança toda a sociedade. Em breve a moda vira mainstream e logo o grupo pequeno que quer se diferenciar lança uma nova moda. Indie Rock, óculos de armação grossa, barba e bigode, camisetas com ícones pop da década de 80/90, Rua Augusta, etc. É quase uma Lei da Natureza Humana, disponível para quem souber usar.

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O último grande sucesso do Netflix (e do Universo da Cultura em Geral)  foi “Stranger Things”. Uma série produzida pelo próprio Netflix que paga tributo e homenagem aos filmes da Década de 80. Os Goonies, ET, Carrie, Conta Comigo, and so on. As referências vão desde a abertura que se vale de uma tipografia que sugere Stephen King a uma menção explícita a esse autor em um determinado episódio. Há também referências gráficas aos Langoliers em “Uma Fenda no Tempo” e outas dezenas de sugestões.

Tal “exagero” nas referências não é um problema porque a série é boa e as referências efetivamente bem feitas e acabam não pesando. A série não é ótima, não é maravilhosa, mas é boa. Cria-se um suspense bom, o Drama funciona bem, os personagens, ainda que caricatos, amadurecem e a história é bem contada. A série funciona bem, mas não é algo que vai ser lembrada daqui a cinco anos como algo maravilhoso e que precisa ser assistido de novo como Breaking Bad (mas talvez eu pague a língua), portanto, o sucesso alcançado precisa ser melhor explicado. E ela fez o sucesso que fez pelo mesmo “Efeito Augusta”.

Assim como na vida real, a Internet possui um grupo pequeno que faz muito barulho. São os fanboys que querem que as obras que eles gostam façam sucesso e tratam de espalhar isso para todos. Nada contra ser fanboy. Eu sou fanboy de uma pá de coisa.

Ao bater nessa “classe” da Internet, as obras podem ser aceitas ou rejeitadas. Mas se forem aceitas, terão propaganda gratuita. Especialmente na Internet, em que a quantidade de produtos é infinita, tendemos a seguir indicações de pessoas que sabemos que possuem um gosto parecido com o nosso. Breaking Bad ganhou propaganda gratuita dos que trabalham com literatura, artes e cinema em geral. O Roteiro é perfeito, ponto. Isso fez com que algumas pessoas fizessem propagando, inúmeros fossem assistir e, desses inúmeros, alguns odiaram e outros amaram. Mas fez sucesso.

Stranger Things mirou outra base de fanboys. Nerds que tiveram a infância na década de 80. A série permitiu lembrar, de forma nostálgica, todas as coisas que deram um “boom” naquela época: videogames, hq’s, RPG, ET, etc, etc, etc. Conclusão? A Série ganhou propaganda gratuita. Vi pessoas que falaram que a série “ganhou eles no primeiro episódio, com os garotos jogando RPG”. Nada contra. Mas me parece pouco pra ser ganho assim, num primeiro episódio.

Toda a Série me deixou com a impressão de que é um frankenstein de séries, filmes e conceitos feitos para agradar a audiência. Ser um frankenstein não é ruim. O próprio monstro é legal pakas. (E não me encham o saco falando que Frankenstein é o cientista, não o monstro). A série ficou até algo parecido com os filmes do Tarantino, se o Trantino não fosse um psicótico doente que gosta de virar o mundo de pernas para o ar. Mas a marca da produção artística atual é a releitura e as referência. Fazer uma obra baseada em referências e releituras tende a agradar o público (vide Star Wars e Tarantino).

Eu não considero ruim quando alguém cria uma obra pensando em agradar a audiência. Também não considero automaticamente bom. É apenas um fato. Baseado em algo muito próximo de uma Lei Humana. É saber usar as cordinhas inconscientes que nos movimentam. Nada contra cordas. Mas gosto mais delas conscientes.

O Prêmio pela Bondade.

July 10, 2016 § 2 Comments

A pergunta que mais destroça religiões é “Por que coisas boas acontecem para gente ruim?” e sua gêmea “Por que coisas ruins acontecem para pessoas boas?”. Gosto de pensar qu isso vem de um inerente e mal colocado senso de justiça humano ou da nossa vontade desagradável de antropomorfizar tudo.

Esperar que o Universo lhe trate bem porque você é uma pessoa boa é esperar que a chuva não molhe os injustos ou que o Sol não brilhe para os maus. O Sol nasce para todos e a chuva, resumidamente, cai em quem está na chuva.

Isso é fácil de se pensar quando falamos em Sol, Chuva, Verão e Inverno. Mas menos fácil quando falamos em um câncer, uma demissão, um acidente de carro, um infarto, um estupro ou uma leucemia numa criança de oito anos. Sim, é ruim. Não, não é punição. Se morrer fosse alguma punição não seria algo tão democrático (talvez a única coisa realmente democrática).

Os Católicos costumam responder a essa pergunta sobre coisas ruins com pessoas boas com um dos maiores clichês teológicos possíveis: “Deus tem planos e eles são insondáveis”. Bom, isso é problemático porque é ma ofensa àquele mandamento lá de não ter imagens de Deus. Pretender que Deus tem planos é achar que Deus tem interesses, vontdes ou o que quer que seja. Como se Deus tivesse realmente curiosidade pra saber o que você faz no sábado à noite, sua safadeenha.

Outro clásico é o famoso “tudo acontece por uma razão”. E com isso eu concordo. Burrice, por exemplo, é uma razão muito comum. Mas isso não responde. Se eu quebro meu pé bicudando uma pilastra, a causalidade é deveras evidente, coisa que não acontece quando um membro da família morre de repente.

Uma das minhas respostas favoritas ainda é a dos antigos cabalistas, que tiram D’us da parada e resumem a uma frase curta e hermética: “O Prêmio para a Bondade é a Bondade e a Punição para a Maldade é a Maldade”. Meu professor de Literatura Hebraica falou isso com um elevado ar professoral (sorry pelo trocadilho) e complementou “vocês conseguem imaginar como é ruim ser ruim?”.

Eu gosto da frase e desgosto da interpretação. Muito bonito, muito fofo, muito cuti cuti, mas não se sustenta. Olha para o mundo e veja se pessoas “más” (peço desculpas pelo aparente maniqueísmo, mas destaco que ele é apenas aparente) não se regojizam com sua maldade. Se regojizam. Um clássico das aulas de medicina legal é o prazer da confissão, quando criminosos contam o crime com detalhes cênicos, como se estivessem revivendo o momento do crime e reaproveitando-o. Não se trata apenas de cimes passionais, mas também de criminosos profissionais, como assaltantes a bancos, que se orgulham de seu profissionalismo.

Malandros se aprazem em serem malandros. Corruptos se aprazem em serem corruptos. Caridosos se aprazem na caridade. E por aí vai. Sem punições. Sem julgamentos. A vida segue e não há nada de novo sob o Sol. Apenas uma verdade que segue triunfante:

O prêmio por ser quem se é é ser quem se é.