Soneto da Emetofobia

August 16, 2017 § Leave a comment

Dentro em mim eu resguardo tantos medos
Dentro em mim eu carrego algum pavor
Dentre eles tem o maior que abomino
É o medo do que engulo ter que expor.

Há quem diga que se trata de vergonha
Outros acham que é ojeriza ao sabor,
que o amargo da minha bile é o que temo
Ou o azedo de vomitar gere temor.

Meu segredo, que não digo a todo mundo,
vomitar é irrelevante em seu teor.
Não se trata do ato em si minha paúra

mas lembrar do que engoli causa terror,
pois se o vômito pode o velho expurgar,
também pode relembrar a velha dor.

O Mundo Roda, Roda, Roda…

June 30, 2017 § 5 Comments

E de alguma forma eu paro sempre no mesmo lugar. E isso fala mais ao meu respeito do que eu gostaria.

30 de junho de 2017. Há mais ou menos 14 anos e 3 meses eu escrevi meu primeiro post no hoje extinto Malandricus Bar & Vodka.

Durante aquela fase, a fase Heróica da Malandricagem, nosso objetivo (ou pelo menos o meu objetivo) era compreender o mundo. Em algum nível eu consegui. Sim, em algum nível eu vi A Máquina do Mundo. Ela se abriu pra mim e me mostrou seus mistérios. Eu, enojado, fechei as portas e me tranquei numa caverna. Me afastei dos conflitos do mundo, não satisfiz os desejos, mas esqueci-os, e paguei o mal com o bem em uma tentativa vã de aderir àquilo que os livros antigos diziam que era a sabedoria.

Como não fazê-lo? Vi pessoas boas serem derrotadas e humilhadas por pessoas péssimas. Eu adoraria dizer que vi a humilhação em primeira pessoa, mas, na verdade, a vi em terceira pessoa.

“A natureza não gosta de pessoas boas. A natureza gosta de quem é melhor.”

Não quis ser parte disso. Não quis compactuar com isso. Acho que pretendi ser mais moralista que o Universo em si.

Não que seja muito difícil ser mais moralista que o Universo porque, bem, francamente, se você acha que o Universo tem alguma moral ou ética, você não esteve prestando atenção até agora. O problema é que o Universo não gosta muito de quem está fora do tom. E, cara… eu desafinei.

“Você é um fracasso.”
“Você está desperdiçando a sua vida.”
“Só você não vê que você pode ganhar muito dinheiro.”
“Você precisa de um apartamento pra gente poder transar.”
“Só falta ganhar dinheiro pra você ser um Partidão.”
“Você é fraco.”
“Se você gostasse de mim de verdade você me tirava do meu namorado.”

Frases reais que o universo me disse. Saídas da boca de amigos, namoradas, familiares. Daqueles para quem eu deixei de ser eu mesmo para proteger. Porque eu só sei fazer BEM uma coisa: lutar. Só isso. Até na minha profissão é isso. Eu sou advogado. Eu luto por dinheiro. Se eu luto bem, eu vivo bem. Se eu luto mal, eu vivo mal. Simples.

“The Matrix is a system, Neo. That system is our enemy. But when you’re inside, you look around, what do you see? Businessmen, teachers, lawyers, carpenters. The very minds of the people we are trying to save. But until we do, these people are still a part of that system and that makes them our enemy. You have to understand, most of these people are not ready to be unplugged. And many of them are so inured, so hopelessly dependent on the system, that they will fight to protect it.”

Mas aparentemente eu valorizei o universo mais do que ele mesmo se valoriza. Um erro. Toda virtude será castigada.

Agora, depois de o mundo rodar, eu parei novamente no mesmo lugar. No centro do campo de batalha. Eu contra o mundo. Porque qualquer coisa menos que isso seria injustiça.

Que assim seja.

O lugar que o mundo reservou pra mim fala muito a respeito do universo.

E muito mais a respeito de mim.

E-Letter.

May 17, 2017 § Leave a comment

Elegia Obscena a Belchior.

May 1, 2017 § Leave a comment

Morreu Belchior, um dos músicos mais criativos da MPB.

Não um dos mais famosos, não um dos mais consumidos, mas um dos mais criativos. Acho que a única pessoa que meio que ouve Belchior com frequência que eu conheço além de mim é a minha mãe. Tá na lista dos artistas que todo mundo conhece, a grande maior parte respeita e pouca gente ouve.

Fez sucesso com uma música lamurienta (“Como nossos Pais”), mas tinha nas melhores (IMHO) músicas uma pegada otimista (“Alucinação”, p. ex.). A sonoridade era única e marcante, o que me faz achar que ele junto com Oswaldo Montenegro são os melhores músicos da MPB. Tem algumas músicas que trazem uma influência meio clara do Blues e Jazz e escapam daquela coisa chata papoha de sambinha, violinha e o cacete à quarta da Máfia do Dendê.

 Talvez por isso que Belchior não é incensado pela galera Tropicália/Chico: Ele é sui generis. Não se afilia a grupo, a Escola, e não traz uma mensagem direta e simplista na música. Socialista, mas crítico da esquerda (“vou ser um milionário socialista, de carrão chego mais cedo na revolução”). Provavelmente vai ganhar homenagens póstumas de gente que nunca se importava com a obra dele. Tanto melhor, assim como Bowie, ele merece ser ouvido com calma e fora da dobradinha “Como Nossos Pais”/”Apenas um Rapaz Latino Americano”.

Eu quero saber o que será dito do fim da vida dele, recluso, com dificuldades financeiras e aparentemente num relacionamento disfuncional. Que seja explicado. Esse clichê do artista miserável causa muito estrago. Que ele morra e seja esquecido. Ao contrário do Belchior.

Cutelaria.

April 17, 2017 § 3 Comments

Uma coisa que eu sempre critico no Brasil é como nós não temos um mercado de hobbies desenvolvido. Eu acompanho alguns canais no youtube e me encanto como como o mercado nos EUA é aquecido. De pólvora para construir foguetes a armas de fogo, o americano médio tem acesso a materiais que permitem que ele realmente crie coisas novas e, ocasionalmente, perigosas.

Mas, se ocasionalmente alguém perde os dedos (algo ruim) isso estimula bastante o raciocínio e a capacidade de pensar. Fico triste pelos ocasionais manetas, mas, enquanto os dedos não forem os meus, é um preço baixo a se pagar para ter uma casta que tem como ideia de diversão fazer cerveja artesanal no quintal ao invés de sentar na frente da poltrona com uma cerveja vagabunda.

Eu, como alguns aqui sabem, estou me metendo a mexer na cutelaria. Um amigo meu define hobby como uma perda de tempo sistemática. Pessoalmente, eu gosto muito de pensar no hobby como o desenvolvimento de uma habilidade que pode ou não vir a ser útil na vida.

No meu caso, a cutelaria anda me ensinando muito a respeito de mim mesmo.

Minha primeira faca foi um aborto. Aos nove meses. Depois de dada a forma, preparado o cabo, tudo pronto, na hora da têmpera, a forja ficou quente demais e fundiu o aço. Isso me desanimou MUITO. Por um tempo eu cheguei a desistir. Mas a lição foi importante: não dá pra eu começar um projeto sem saber o que as ferramentas que eu tenho são capazes de fazer.

Esse final de semana eu comecei a segunda faca. Mais simples, mais direta. E me lembrei que meu avô sempre tinha uma oficina em casa. E ele sempre me deixou brincar com todas as ferramentas, exceto duas: o paquímetro e a ponteira de vídea (um metal muito duro e frágil usado para riscar o aço).

Hoje eu entendo porquê. Serrar, bater, furar, isso é fácil. A gente pensa que é muito trabalhoso, mas não é. Planejar é que é difícil. E o paquímetro e a ponteira de vídea são pra isso: medir e marcar.

É um pouco vergonhoso pra mim perceber que eu ainda sou meio tapado com o paquímetro. Me sinto meio desajeitado, sem muita habilidade. Usar o paquímetro não é só compreender o que é para ser feito. É conseguir fazer. Acho que esse é o significado da palavra “técnica” (ou me valendo do anglicismo skill) fazer a ponte entre o conhecimento e a realização.

Essa dificuldade em planejar a minha faca (essa é a segunda que eu começo a fazer sem nem elaborar um projeto) diz muito a respeito da minha dificuldade em planejar a minha vida. Eu resolvo problemas. Modéstia à parte, sou bom nisso. Me apresenta um desafio que eu encontro uma solução. Por vezes brilhante. Mas se eu sou bom em apagar incêndios, sou bem tapado em se tratando de projetar prédios.

Minhas facas são minhas criações. E toda criatura traz um pouco do seu criador. Minhas facas são minha vida: improvisadas, sem planejamento e dependentes exageradamente da minha habilidade e capacidade de resolver problemas.

Mas isso vai mudar.

São Paulo, 95 de dezembro de 2016.

April 5, 2017 § Leave a comment

Caro Irmão de Armas, boa tarde.

Há tempos não escrevo. Há tempos não lhe escrevo. Há tempos não me embebedo na liberdade criativa que apenas a ficção pode nos proporcionar. Vergonhosa é a ausência de quem sente vergonha de se ausentar e ainda assim o faz.

Gostaria de me desculpar (novamente), mas não o farei. Mais vergonhoso seria fazê-lo. Desculpas desprovidas da intenção de não repetir o erro são inócuas tanto quanto mentirosas. A ficção não é uma mentira, mas uma verdade inventada. Saber a verdade e se afastar dela sim é um pecado.

A verdade que ora se apresenta, por sua vez, ainda que aparentemente nova, é mero desdobramento dos últimos acontecimentos. Por mais de uma vez eu disse que 2016 foi o ano em que virei um Dothraki. E os últimos meses me levaram novamente à essa conclusão.

Não pretendo aqui invocar a pretensão de andar a cavalo brandindo uma espada curva, queimando vilas e pilhando pessoas, embora isso me encha de nostalgia da década de 20. 1620, quando pilhávamos a cavalo a Ásia Menor.

Mas pretendo, sim, evocar uma bunda quadrada de banco de carro, inúmeras horas de direção rumo à guerra (sim, pois todo desafio é uma guerra) e uma questionável higiene de carro (limpo como um cavalo no deserto).

Se tal vida trouxe inegáveis incômodos e desgaste, tais incômodos e desgastes trouxeram, se não a Iluminação de um bodhisatva, ao menos a clareza de um faqir malnutrido.

No ano que se passou aprendi que o esforço nos leva a lugares inimagináveis, que podemos, com dedicação e empenho mudar nossa vida, a nós mesmos e ao mundo, que viajar leve nos permite perceber melhor as viagens e que incômodos são apenas incômodos e são incapazes de impedir o caminho de quem Quer.

Mas, acima de tudo, aprendi que isso tudo é irrelevante.

Sim, meu amigo, meu Irmão de Armas,  irrelevante.

Peço desculpas pelo anticlímax, mas creio que a sabedoria que não causa impacto não é sabedoria alguma.

Alcancei o mítico sonho de de contar uma história de Homem contra o Mundo e de Homem contra Si Mesmo. Fui There and Back Again, mas, como um Bilbo Baggins subnutrido não trouxe de volta riquezas incontáveis que não uma: a Guerra não é um fim em si. O Sacrifício é um meio. O Ascetismo é um Ritual. E o Ritual é uma série de Atos com uma Finalidade.

Aprender a viajar leve é gostoso, mas irrelevante se inexiste destino. Desconforto é mero desconforto e não enaltece. Um calhorda sofrido é apenas calhorda e sofrido, não um santo. Carregar uma Cruz não te faz filho de deus. Ser filho de deus te faz filho de deus.

Todo o resto é fetiche. E nenhum fetiche satisfaz. Exceto o fetiche por ruivas. Esse satisfaz.

As provações ultrapassadas trazem poucos prêmios além da alegria da vitória. E a alegria da vitória é fugaz. Passada a embriaguez do banquete, o sono reparador, o êxtase do orgasmo, volta a Guerra.

Avisem o Bardo Inglês: estão respondidas as questões.

Ser ou não Ser? Ser.

É mais nobre sofrer com as flechas e setas da sorte ultrajante ou erguer mão contra um mar de problemas e dar-lhes fim? Erguer mãos contra um mar de problemas e dar-lhes fim.

Simples. Sem plumas e paetês. Sem purpurina. Sem fumaça e espelhos.

Começo a entender a não-metafísica albertocaeiriana.

Gostaria de mais me delongar, mas tenho um mar de problemas para dar-lhes fim.

Fique em paz,
Abraços de Guerra,
Anarcoplayba.

Militares.

March 9, 2017 § Leave a comment

Somos todos saquinhos de sangue.

Muito se discute a respeito de alma, humanidade, auto-consciência e transcendência. Vida após a morte, senso de propósito e realização pessoal. Hedonismo, sacrifício e sacro-ofício.

Mas somos saquinhos de sangue.

Talvez sejamos algo mais. Talvez tenhamos uma alma imortal, descendente direta do Criador, imortal e tão velha quanto o Universo em si.

Mas somos saquinhos de sangue que, uma vez furados, vazam até esvaziar.

Todas as discussões, ambições, desejos e ideais têm esse denominador comum: um coração, dois pulmões, cinco litros de sangue. Perde um litro, cai a pressão. Perde dois litros, entra em choque. Perde dois litros e meio, desmaia e morre.

A história, no fim, é escrita pelos saquinhos de sangue que não esvaziaram. Livros, fé, ideais, bandeiras são apenas uma forma que as ideias encontraram de pular de saquinho de sangue em saquinho de sangue. Tal qual um vírus se propaga. E a militarização é a administração dos saquinhos de sangue.

Toda a militarização tem como fundamento a uniformização e equalização dos saquinhos de sangue. Os saquinhos de sangue têm que correr juntos, porque, em pelotão, os saquinhos de sangue são mais eficientes. Os saquinhos de sangue têm que coexistir sem grandes sobressaltos e percalços. Os saquinhos de sangue têm que ser proficientes com as mesmas armas, comidas e equipamentos. E acima de tudo, os saquinhos de sangue têm que se sentir parte de uma massa.

Por isso os saquinhos de sangue são colocados em um treinamento, recebem número, uniforme e ordens de higiene, corte de cabelo, barba. Quanto mais uniformes, mas os saquinhos de sangue se mostrarão dispostos a abrir mão da própria segurança em benefício de algo maior. (Maior, não melhor.)

Quanto menos identidade, menos conflito. O anonimato total permite que o saquinho de sangue faça qualquer coisa, por mais indizível. O carrasco usa máscara por isso. O franco-atirador usa a balaclava por isso. O anonimato torna uma vida desumana mais suportável.

Ultimamente venho me sentindo muito bem por trás da barba, do terno e da gravata.

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