Ano Novo.

February 8, 2015 § Leave a comment

Minha resoluções de ano novo, historicamente, tendem a dar certo.

Obviamente isso não significa que o ano novo tenha algo especial que faça minhas resoluções darem certo. O ano novo é uma data como outra qualquer, sem nada de especial senão o sentido que se escolheu impor. É tão arbitrário, mas tão arbitrário, que a cada quatro anos enfiam um dia a mais no ano pra corrigir e não foder a paçoca de vez.

O ano novo astrológico, os solstícios e equinócios (que marcam as estações) são datas reais. Você olha pro mundo e elas existem. Hoje é o dia mais longo do ano, a noite mais longa, ou um dos dois dias em que ambos duram o mesmo. Isso faz sentido. Uma mudança de calendário não. Mas ainda assim minhas resoluções de ano novo, historicamente, funcionam.

***

Óbvio que  minhas resoluções não são coisas facilmente inferíveis. Raramente são coisas do tipo “perder cinco quilos”, “trocar de carro”, “conhecer a Suazilândia”, “arranjar uma namorada” ou coisa que o valha. Me parece um desperdício de resoluções.

Temos tão poucos anos pra resolver. Até agora, eu tive trinta e dois. Desses trinta e dois, só desde 2008 eu venho fazendo resoluções de ano novo. É muito pouca coisa. Muito pouco tempo. Ainda tenho que viver em paz, olhar a face de deus, reverenciar o olho de fogo do sol, construir um castelo na lua, dançar tango com a deusa de cabelos de cobre, bater lâminas com o Deus que se rejubila no sangue dos derrotados e contemplar a extensão do reino daquele que vê mais longe.

É muita coisa pra gastar como algo que um mortal consegue. Se é pra ambicionar, que seja algo fora da esfera humana. A Paz de deus, a paixão de Vênus ou a emoção da Lua. Qualquer coisa nesse sentido. Uma boa resolução de ano novo seria virar Shazam: A sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio.

Mas infelizmente não vivemos na época em que gigantes caminham sobre a Terra. Isso foi privilégio de Homero. Talvez tenhamos que nos contentar com a calma dos monges, a sorte dos irlandeses e a ira dos Anarquistas.

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Como regra de polegar (algo muito mais legal que rule of thumb), me falaram que um bom começo é pensar no seu leito de morte. O que é aquilo que você quer conquistar pra essa vida. Algo que, se amanhã você batesse o carro e ficasse preso nas ferragens sem ninguém por perto, nesses últimos segundo, lhe fizesse sorrir e pensar “encontrei a paz”, “amei ao próximo”, “ajudei meu semelhante”, “mudei”, “contei uma história bela”. Qualquer coisa nesse sentido.

Isso vai colocar as coisas em perspectiva. No leito de morte não rola pensar que “esperavam de mim que”, “ética não era esperado de mim no momento” ou “ninguém nunca vai saber que”. Leito de morte é tenso. É você com você mesmo. Talvez por isso que o último verso (sim, verso é uma palavra apropriada) do “Pai Nosso” seja “agora e na hora de nossa morte”. Na hora da morte a única coisa que se sabe é que a vida passa diante dos olhos.

Que nós não nos envergonhemos de pedidos pequenos.

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Obviamente, “pequeno” é questão de perspectiva. Perder cinco quilos pode ser questão de vaidade ou retomar o império sobre o próprio corpo. Ser o melhor da sua área pode ser vaidade ou ultrapassar um limite supostamente impossível.

“Impossível é uma grande palavra usada por gente pequena pra viver no mundo em que está ao invés de mudá-lo” e blábláblá.

Perdoar pra uns é natural, pra outros é uma violência. Acordar às seis da matina é um sacrifício ou um prazer. Não comer o pudim é um esforço intangível ou uma decisão simples. Varia. Que bom. Sócrates já falava que Deus dá a rola conforme o cu. Ou coisa parecida. Ou foi outra pessoa. Whatever.

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O fato é que, graças sejam dadas, os desafios existem e são superáveis. Uma meta por vez. De inverno em inverno. A gente vai melhorando.

É tão bom que eu estou cogitando começar a incluir outros anos novos no meu calendário.

Tem o civil, o chinês, o astrológico, o celta, o judeu e o civil de novo. Cinco. Cinco resoluções. Imagina o quanto melhor pode ser uma pessoa com cinco resoluções por ano? Muito melhor. E com a chance de escolher uma por vez pelos meses que se seguirão. É pra ter esperança. Quase como ter várias mortes pra refletir sobre. Só que sem aquela coisa chata de morrer de verdade e tal.

Cinco objetivos pra atingir. Mesmo que pra descobrir que eles eram parciais, pequenos, egoístas e mesquinhos.

Porque o bom de alcançar um objetivo pequeno é descobrir que ele é pequeno.

O Castelo na Lua.

January 16, 2015 § Leave a comment

Dizem que na Lua existe um castelo.

Chegar nele é fácil. Saia da planície de Manilus, ande pela estrada que separa o Mar da Tranquilidade e o Mar da Serenidade, vire à esquerda e siga até o Lacus Somniorum, o lago dos sonhos.

No lago dos sonhos peça para os cisnes brancos ou negros te levarem até o Castelo do Lago dos Sonhos. Mas cuidado: um deles fala a verdade, outro mente. E não adianta tentar usar a solução clássica desse problema porque, às vezes, o que fala a verdade mente e o que mente fala a verdade. E se você disser que isso é injusto, eles rirão da sua cara e dirão que a Lua não é lugar de justiça, e eles não tem nenhum compromisso nem com a verdade e nem como a certeza.

Mas supondo que você saiba distinguir a verdade da mentira e escolher a indicação correta, você caminhará até o Castelo do Lago dos Sonhos. Melhor, você correrá até o castelo, mas não será o único. Por uma ilusão de ótica, você vai achar que ele está muito mais perto do que de fato está, e, ansioso, correrá. Ironicamente, no entanto, correndo ou andando, você chegará no momento correto. Alguns psicólogos dirão que isso é um efeito da percepção do tempo em um momento de ansiedade. Os cientistas dirão que é um efeito da difração da luz. Alguns poetas dirão que o castelo te esperaria mais tempo. Mas,novamente,  assim como nos cisnes, é melhor você saber distinguir a verdade da mentira.

Na porta do Castelo há um Grifo e um Dragão. É muito importante que você não ouça o que eles dizem. Via de regra eles falam sobre o tempo, mas com frequência começam a discutir sobre notícias, política, futebol e escândalos. Muito provavelmente eles brigarão sem parar e você não receberá informação alguma deles. Talvez eles te mostrem uma selfie em Cancún, uma foto amamentando um Leão, beijando um golfinho ou outra coisa fútil. Apenas ignore.

Você então parará perante a porta e poderia jurar que ela é feita de alabastro. Mas isso seria falso. Você não conhece alabastro. Provavelmente ninguém que você conhece conhece alabastro e provavelmente você precisaria de mais do que seis conhecidos-de-conhecidos para encontrar alguém que conhece alabastro. É uma palavra perdida nos livros, fadada a ser esquecida, como tantas outras.

Então você pensará em bater à porta. E se questionará porquê. Há a necessidade de adentrar assim? Por que não beijá-la? Acariciá-la? Talvez conversar com ela, perguntar se ela conhece alguém que conhece alabastro ou outra coisa para quebrar o gelo. Com o tempo ela se abrirá e você entrará. Talvez você se sinta constrangido de deixá-la para trás, afinal, não se cruza duas vezes o portão do Castelo da Lua, mas não se sinta. Ela não guarda rancores.

Você deixará os cisnes para trás, os que falam verdades e mentiras, os guardiões do castelo, que falam futilidades, e a porta, que nada disse, e talvez seja de quem você sinta mais saudades, e então você entrará no salão de festas, e se sentirá triste por não ter festa alguma. Talvez você pergunte onde estão as pessoas, mas suas perguntas não terão resposta. Aqui é a Lua, não um lugar de respostas.

Sem respostas para suas perguntas, você continuará em frente, rezando para que algo aconteça e desejando para que o que acontecer seja bom. Tudo isso é irrelevante. Aqui não é lugar de orações nem de desejos. Você encontrará uma sala com dois tronos. Nele não estão sentados nem um Rei e nem uma Rainha. Há muito esse castelo não tem nem Rei e nem Rainha. Dizem que se o Eclipse do Sol cair num domingo você pode encontrar os legítimos Regentes. Mas faz tanto tempo que isso não acontece que ninguém se lembra mais e, se acontecer, talvez os confundam com mais um funcionário ou outro turista, o que seria verdade, fosse a Lua um lugar de verdades.

Esse é o Salão dos Segredos e Mistérios. Em um dos tronos senta um dos guardiões. No outro o outro. Você perguntará qual é qual. Um não responderá, outro lhe perguntará qual a diferença. De qualquer forma, ambos responderam. Talvez você peça um mistério. Talvez você peça um segredo. E você receberá. Mas não saberá se é um mistério ou um segredo. Temendo se trate de um segredo, não perguntará a ninguém o mistério. Acreditando ser um mistério, perderá um segredo. Guarde silêncio. O tempo das palavras ficou na porta. E por isso você sentirá saudades da porta.

Carregando seu segredo nas mãos, você encontrará vários espelhos. E eles rirão de você. Isso é injusto, mas aqui não é local de justiça. É local de espelhos. Não se apegue a eles. Espelhos mostram você e o que fica atrás de você. Uma dessas coisas vai mudar, a outra não. E é muito perigoso trocar uma pela outra.

Tão logo você pare de se importar com os espelho (você não deveria nem ter começado), você será conduzido ao quarto de hóspedes, mas não poderá dormir nele. Quando você perguntar por quê, não receberá resposta. Talvez você se pergunte se isso é mais um mistério ou mais um segredo. Mas, novamente, você ficará sem respostas. Não se questione se a falta de respostas é um novo mistério ou segredo. O tempo é curto e o paradoxo de Zenão há muito foi resolvido.

Se você não tiver mais dúvidas, você sairá do quarto. Se você ainda tiver dúvidas, andar lhe ajudará a pensar e você sairá do quarto onde não pode dormir. A primeira porta que você encontrar lhe levará à saída. As demais também, mas você parará de procurar na primeira. Você sairá pelo lado escuro do castelo, no lado escuro da lua. De lá você não tirará nem mistérios e nem segredos, mas talvez relembre toda a viagem inúmeras vezes, sem sequer se atentar para o mais importante.

Se cada um fizer o seu…

January 14, 2015 § 4 Comments

Vamos ver se eu consigo escrever sobre isso de forma mais positiva agora.

Recentemente escrevi um texto falando sobre “A Cervejinha do Guarda”.

De forma resumida, a questão é bem simples: para conviver em paz, precisamos da colaboração de todos. Para um assassinato, precisamos de apenas um assassino.

O poder de destruir é muito maior que o de construir. Construção exige cuidado, carinho, atenção, percepção. Não à toa os reis da Grécia Antiga traçavam sua linhagem até Júpiter, não a Saturno.

Some-se a isso o fato de que os players (peço desculpas pelo uso da terminologia de Teoria dos Jogos, mas é apropriada) possuem assimetria de recursos. A Coca-Cola polui muito mais do que você. Muito mais até mesmo que todos os funcionários da Coca-Cola juntos em suas casas. E não interessa quantas árvores você plante, você nunca vai recuperar a área de floresta desmatada pela Kátia Abreu.

O resultado, portanto, é muito simples: Não interessa o quanto cada um é honesto, justo, temente a deus, bom pai, separa o lixo reciclável e o caralho à quatro. Você precisa de UM madeireiro pra foder todos os esforços da sua tarde linda plantando mudinhas no Ibirapuera. Não interessa o quanto o seu prédio separe o lixo, você nunca vai reverter o estrago do inventor do DDT.

Se cada um fizer o seu, cuidar da sua casa, da sua vida, não jogar lixo na rua e respeitar as leis o mundo vai ficar exatamente assim: a bosta que está, já que o fdp que não faz o seu não se contenta apenas em se omitir, mas ainda fode a paçoca.

Ok, Le maison ces’t tombé, não tem mais o que fazer, vamos sentar na frente do PC colecionando likes nos status que compartilhamos enquanto o mundo queima. A humanidade deu errado, que venham as baratas.

Porém, ainda há uma esperança. A assimetria de recursos vale pros dois lados. A Coca-Cola polui mais que todos os seus funcionários juntos. Mas o Bill Gates já doou mais para fins humanitários que qualquer pessoa na história da humanidade. E temos condições de pensar o altruísmo de forma eficiente. Mas pra isso temos que assumir uma postura diferente: não é fazer o seu, é fazer mais do que o seu. Fazer por quem não faz. Fazer o seu máximo possível.

E é aí que a coisa fode.

Fazer o seu melhor, o seu máximo, exige uma bela dose de auto-conhecimento e auto-crítica. Não é o que se quer, é o que se pode. E talvez mais. Dar as moedinhas do console do carro não é grande coisa pra quem ganha mais de R$ 5.000,00 por mês.

Além disso, quanto tempo e dinheiro gastamos com futilidades? O que realmente precisamos? Será que aquilo que tomamos do mundo está sendo passado adiante, de forma mais inteligente e mais consciente?

E por fim, fazer mais que o seu envolve, muitas vezes, romper com o lugar comum. Peter Singer, no vídeo acima, menciona um garoto que pensou em ser médico sanitarista para salvar vidas. Mas depois ele descobriu que trabalhando num banco de investimento poderia doar o suficiente para contratar quatro médicos sanitaristas no meio da África. E fez isso. Médico = profissional bonzinho que salva vidas. Agente Financeiro = filhodaputa cocainômalo que ganha dinheiro especulando. Agente Financeiro que ganha dinheiro especulando e paga meia dúzia de médicos para salvar vidas = um soco na boca do estômago dos estereótipos simplistas.

Se cada um fizer o seu, o mundo vai ficar assim, essa bosta que está. Mas se quem estiver disposto fizer mais do que o seu, talvez ainda haja uma esperança para a humanidade.

Ou melhor, se cada um fizer mais do que o seu, talvez tenhamos uma humanidade.

 

 

O que nos tornaremos.

December 31, 2014 § Leave a comment

“Eu acreditava que eu seria enterrado a cem metros de onde nasci.”
“E agora?”
“Agora eu estou em Jerusalém e olho para um Rei.”

Último post do ano. Último post de 2014.

Recentemente, conversando com um grande amigo, ele me lembrou do Reveillon de 2004, um ano que deixou um gosto de rola na boca. E pontuou (acertadamente) que dali em diante, as picas não deixaram de acontecer. Grandes amigos morreram e foram enterrados. Grandes amigos morreram por dentro e ainda andam por aí, mortos-vivos, vivendo de ideais alheios, caminhando em busca do conteúdo da cabeça de alguém para se nutrirem, apodrecendo aos poucos. Zumbis. Nossas contas bancárias não alcançaram os objetivos que tínhamos aos dezessete. E efetivamente as ambições não encontraram a realidade.

E, para ser sincero, vi muita gente se ferrando também. Tomando pedrada atrás de pedrada. Vendo algumas pedradas que aconteceram eu começo a entender porque a lapidação era uma pena de morte tão extrema na Bíblia (e ainda é em algumas nações muçulmanas). É pedaço do mundo sendo jogado na sua cara. E de vez em quando dói ter pedaço do mundo sendo jogado na sua cara.

O pior é que a “maré ruim” deu poucas mostras de mudanças. Especialmente no macro: vivemos a maior seca de quase cem anos. Grosseiramente causada pelas nossas picanhas criadas na floresta amazônica. E obviamente não somos muito competentes para usar nossos recursos. Ou os governantes que elegemos não são muito competentes para isso. Nada me convence de que “as coisas vão mudar”. Quer dizer, que as coisas vão “se” resolver. Pra falar a verdade, parece que a (falta de) água vai mesmo bater na bunda.

E acompanhando, em geral e na média, os esforços e sofrimentos de pessoas razoavelmente próximas a mim, fui surpreendido com notícias de uma velha amiga de faculdade, que em meio a problemas de saúde aparentemente sérios (preferi ser discreto e não questionar detalhes) conseguiu perder cerca de dezesseis quilos em coisa de quatro meses. Gente que ficou doente de verdade e se curou. Gente com inúmeras dificuldades e que se superou. Gente sendo, well, gente.

Dizem que os Deuses invejam os mortais por isso: Só os mortais podem se tornar mais do que são.

Obviamente, por um lado, isso é uma vitória estúpida. Se orgulhar de sobreviver a uma doença é tipo se orgulhar de ser atingido por um raio e sobreviver. Não seria melhor não ser atingido pela porra do raio, pra começar?

Mas raios acontecem. Merda acontece. Acontece doença, acontece acidente de trânsito, acontece assalto, acontece bala perdida, acontece carga tributária escorchante. Na melhor das hipóteses, você morre dormindo sem dor. Mas sabendo que o melhor que podemos esperar do final é que uma boa morte venha coroar uma boa vida, as perspectivas ficam, no mínimo, tétricas. E isso pede uma mudança de paradigmas.

Se as tragédias ocorrerão, se elas levarão entes queridos e cobrarão um preço bem caro na conta-corrente da felicidade, torcer para que tragédias não ocorram é estúpido. Torcer para passar pelas tragédias de forma harmônica e bela sim é um ideal.

Que as tragédias ocorram, mas que sejamos maiores que elas.

Que sejamos agredidos, mas não percamos a paz.

Que sejamos derrotados, mas não nos sintamos derrotados.

Que nos desgastemos, mas não percamos a vitalidade.

Que os anos continuem vindo, bons ou maus, mas que não esqueçamos que é uma época linda para se estar vivo.

Que não sejamos nunca arrebatados indefinidamente pelo esquecimento, mas reconheçamos e lembremos por onde andamos, e sejamos capazes de encontrar novos caminhos.

Que sejamos compreensivos com nosso passado.

Que acreditemos sermos capazes de triunfar.

E que nos tornemos mais do que que somos.

Pois as veredas por onde corremos diz o que fomos. Aquilo que cremos o que nos tornaremos.

Aquilo que Cremos.

December 31, 2014 § 1 Comment

A crença, por definição, é irracional.

Se você “acha que”, “acredita que”, “supõe” ou “imagina”, você, por definição, escapou pela tangente daquilo que você sabe e adentrou no reino das hipóteses.

Daí tiramos que o contrário de crença não é descrença, mas conhecimento. Negar a existência de Deus é a crença na sua inexistência ou, para ser mais preciso, a crença de que a ausência de evidência evidencia a ausência.

Mas esse não é um post sobre Deus ou sobre o Diabo, mas sobre a Terra do Sol.

O conhecimento não admite hipótese. Sei que isso parece incongruente, vez que a ciência trabalha, largamente, com hipóteses. Ocorre que o conhecimento científico, nada mais, é a consolidação das hipóteses. O Brasão da Universidade de São Paulo, portanto, é um erro: Scientia Vinces. “Vencerás pela ciência.” A Ciência é a vitória da crença, quando esta deixa de ser contestada e vê sua majestade reconhecida. Somos súditos da Ciência, não seus comandantes.

Tais conjecturas, obviamente, parecem paradoxais. Acaso o conhecimento que possuímos hoje como sólido e imutável, um dia, não passou de crença? Creio que sim. E creio mais: creio que a crença é uma ideia apaixonada. Seria lindo que a Terra fosse o centro do Universo. Portanto, defenderei tal ponto de vista. Mas espere, o Sol ser o Centro do Sistema Solar faz mais sentido, portanto, defenderei tal ponto de vista. Se o modelo precisar ser corrigido, por amor à verdade, que assim seja. Que nos divorciemos das velhas crenças para nos enlaçarmos com novas.

Contudo, há um porém. Sendo nossas crenças frutos de nossas paixões, não raramente as mesmas sofrem de uma inquestionável cegueira e/ou burrice. E como apaixonados, passamos a defender cegamente aquilo em que depositamos nossa devoção, quando não nossos ideais. Eu amaria dar como exemplo a eleição de chefe de estado recentemente ocorrida, mas não pretendo datar esse texto. Creio que ele deve permanecer atual para os próximos meses. Para o presente momento, basta dizer que somos apaixonados por nossas crenças e, portanto, burros por elas. Elas demandam os maiores absurdos e sacrifícios e nós, tolinhos apaixonados, acatamos tais demandas.

Cuidado com as crenças que te apaixonam. Elas podem estar tomando o controle de sua Vida. Orai e Vigiai.

No entanto, as crenças estabelecidas, as certezas, oferecem um consolo claro e inequívoco a respeito do que fazer: o que sabemos nos permite planejar exatamente onde queremos chegar.

No entanto, com nossas certezas podemos chegar apenas onde sabemos e, convenhamos, isso é muito chato. Toda descoberta é fruto da loucura, uma vez que decorre do abandono do conhecido em prol do ainda-por-conhecer. Cientistas são aqueles que perdem a razão estabelecida em prol de uma nova Razão (que talvez venha a ser igualmente temporária).

E esse é o trunfo da crença: o conhecimento nos oferece mapas. As crenças podem nos levar a terras ainda não mapeadas.

E mais: quando falamos da ciência humana, estamos falando das crenças sobre o Homem. E essas crenças são paradigmas em seu duplo sentido: são a régua que nos permite nos medir e a bússola que diz onde queremos chegar. O estudo do ser humano exige, por definição, um ideal do que é ser humano, e esse ideal é uma crença.

Porque aquilo que cremos é o que definimos como rumo.

Diz o que fomos.

December 25, 2014 § 2 Comments

A humanidade é um evento razoavelmente novo. Eu arriscaria novo demais para que já estejamos pessimistas.

Ou otimistas.

Sim, é verdade que se olharmos para trás, o panorama é desanimador.

O Homo Sapiens venceu o Homo Neanderthalensis por vários motivos, mas o principal era o fato de que os Sapiens tinham mais filhos. Sim, nossa gestação era de nove meses ao invés de, sei lá, onze ou mais. Isso aumentava a natalidade e o crescimento populacional. E antes das armas, o número de soldados era o fator determinante para a vitória.

Meio deprimente isso. “Nós somos os Homens Sábios! Admire nossa capacidade craniana, Universo! Nós somos a espécie dominante!” “E o que lhes vez alcançar tal título?” “Ah, a gente faz filho rápido.”

Se olharmos pro hoje, também, as perspectivas não são muito animadoras. A gente vive numa época em que uma parte da população faz fila para comprar um telefone novo enquanto uma parte faz fila pra ganhar sopa quente.

Ma-as… É Natal. Então é hora de buscar um pouco de esperança também. Porque se temos filas de pessoas para conseguir sopa em garrafas pet cortadas, desesperançosas e famintas, temos pessoas doando sopa.

Vivemos em tempos interessantes. Pela primeira vez na história da humanidade temos condições de assumir uma alimentação que evite todo e qualquer tipo de crueldade animal e nos manter saudáveis. Como conseguimos isso? Com uma economia que permite que compremos alimentos orgânicos de pequenos camponeses que moram muito longe da gente, tecnologia que permite extrair e/ou sintetizar os nutrientes que precisamos e a possibilidade de comprar frutas exóticas que chegam em nosso país de avião.

Percebem o quanto isso é absurdo? Criamos uma máquina mais pesada que o ar, que funciona à base de energia refinada de fósseis de animais mortos, que voa, para poder comer tâmaras plantadas a um oceano de distância de nós. É poder demais. É suficiente para que nós pensemos o quão milagroso é o momento em que vivemos. Citando: As possibilidades que estão diante de nós deveriam fazer o pensamento gaguejar.

No entanto, com grande poder… Grande é a responsabilidade. E nesse sentido, tenho um mea culpa a fazer. Venho vivendo tempo demais sem consciência de mim e do mundo que me cerca. Acéfalo. Correndo atrás da próxima refeição, da próxima diversão, da próxima piada, do próximo filme. Uma criatura sem pensamento, procurando me alimentar da cabeça de outros. Um Zumbi. É, Papai Noel… fui um ser humano deveras medíocre.

É Natal. Se no Hemisfério Norte (da onde vem toda essa história) é solstício de inverno, momento de reclusão e maior medo (e que demanda a maior coragem), quando a esperança dos homens renasce, aqui é o momento de Sol a pino é hora de reconhecer algo maior. E por isso, eu quero fazer meu pedido de natal. Eu quero emagrecer.

Porque gordura é energia tomada do mundo e que está parada em você. Energia que poderia estar nutrindo um Etíope em algum lugar da África.

É o telefone celular que você não precisa tanto assim, mas compra de qualquer jeito.

É a carência desmesurada que vem para suprir uma dor que, talvez, já devêssemos ser Sapiens o suficiente para termos superado.

É o conhecimento que não aplicamos.

São os livros que compramos e não lemos.

As cascas de uma rotina que talvez não tenha mais razão de ser.

A aspiração a uma vida que, talvez, não lhe caiba, tal qual um sapato caro que não cabe no pé.

Portanto, se me cabe um desejo, que ele seja prepotente: Que a energia que eu tenho esteja sempre em movimento. Que eu possa dar mais ao mundo do que tomo. Que eu aprenda apenas aquilo que é útil na face da Terra. Que tudo o que tenho tenha utilidade. E que não haja excesso em nada do que faço. Que eu não coma quando não sinto fome, pois a comida que como não alimenta a outrem. Que eu esteja com meus atos, meu coração, minha mente e meu espírito rigorosamente em forma. E que sendo o melhor que posso ser, eu possa me tornar mais do que sou.

Como somos diz o que fomos. Como agimos diz o que nos tornaremos.

Amém. Shelá.

Por onde corremos.

December 22, 2014 § 1 Comment

Ser humano é um grande saquinho de sangue. Fura, e ele vaza. Corta e ele escorre.

Boa parte do esforço humano é garantir que o sangue não vaze. Ele foi feito pra correr nas veias, não pra escorrer por aí. Se duvida, passe pelas prateleiras de absorventes dos supermercados. Uma sociedade que não se preocupa com isso jamais teria tantas opções: interno, externo, com abas, sem abas, para o dia, para a noite, para dormir, para dançar, para pular de paraquedas e sei lá mais o que.

Sangue do meu sangue é a relação entre pais e filhos. Bastardo é o filho que saiu do buraco errado. É o sangue que corre por onde não deve.

Sangue fora do corpo coagula. A menos que seja sangue de hemofílico. Pior ainda.

Sangue fora das veias e dentro do corpo é derrame. É bem ruim também.

Pros gregos, os “crimes de sangue” eram os piores. Crime do sangue contra o sangue. Haviam deuses especiais pra punir só isso. E a punição poderia passar, olha a ironia, pelo sangue. Era costume na época: aquele que derramasse o sangue do pai teria seu sangue derramado pelo filho. Toma essa, Agamenon.

Um sacrifício de sangue é um dos maiores que existe. “O sangue do Cristo tem poder.” Meu professor de Arnis, o Mestre Dada Inocala, uma vez disse que a massagem filipina tem por objetivo fazer o sangue fluir melhor no corpo, porque sangue é vida, e onde há sangue correndo, há vida.

O sangue tem que correr pelo lugar certo. Dentro das veias.

E se somos saquinhos de sangue, por acaso seríamos a forma que a natureza encontrou de fazer o sangue correr por onde deve? Na face da Terra devemos correr pelas estradas corretas? Gente parada coagula? Gente que corre pela vereda errada é derrame? Sangue é Vida. E Gente é Sangue. Então é melhor correr. E pelo lugar certo. Desperdiçar sangue é pecado mortal.

Literalmente.

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