Carta a uma jovem escritora.

January 23, 2016 § Leave a comment

Minha cara, boa noite.

Antes de mais nada, peço desculpas por colocar tema tratado privativamente como tema de texto, mas espero que entenda: Seu questionamento levou a uma série de reflexões que desembocaram na resposta que eu te dei mas prosseguiram naquilo que demorei mais para elocubrar e não pude lhe dizer. Esta carta serve, portanto, para tentar organizar tudo o que eu tenho a dizer a respeito. É pouco e óbvio, mas que meu pecado seja afirmar o que para mim é óbvio e talvez, para os outros, não seja.

Você me perguntou que dicas eu tenho a dar para quem pretende se aventurar pela literatura. Fui questionado enquanto professor mas respondi como escritor, coisa que igualmente agora faço.

Em primeiro lugar, se você pretende se aventurar pela literatura, você tem que saber o que é literatura. O que é, como nasceu, para que serve e porque você deveria (se é que deveria) gastar horas, dias, semanas, meses e anos da sua vida fazendo isso. Pois bem, a literatura é o registro textual perene que busca levar ao leitor uma certa ideia ou um certo sentimento. Se o que você está fazendo não é isso, não é literatura. Não significa que não seja algo divertido, agradável ou que lhe faça feliz, mas é qualquer outra coisa. Vale dizer: uma selfie não é literatura, texto no facebook não é literatura, diário íntimo não é literatura and so on.

Tal definição não é purismo: serve para te orientar. O objetivo do texto literário é alcançar o leitor. Se você consegue entregar, com precisão, aquilo que você desejava entregar, missão cumprida. Seu maior treino será a Arte de fazer a intenção corresponder ao resultado. Por isso o seu texto tem que ser claro. Tem que ser inteligível. Ele não pode contar com a boa vontade ou companheirismo do leitor. Não pode depender da sorte.

Existe uma única exceção para essa regra: Se sua intenção for entregar ao leitor a confusão, a confusão do seu texto pode ser o meio para isso. Mas cuidado: essa técnica é arriscada e demanda extrema dedicação.

Em segundo lugar: Todo mundo escreve aos dezesseis anos. Poucos continuam aos vinte. Essa é a triste verdade. Se você pretende escrever tenha em mente que é um trabalho de persistência. Trabalhe o seu texto em termos de processo de vida. E nesse momento vem um dos maiores conselhos que eu posso te dar: organize seus arquivos. Desse conselho derivam os outros que eu já lhe disse: Escreva em um editor de textos e não escreva no facebook ou em qualquer rede social.

O Facebook foi feito para se comunicar, não para criar. Se algum dia você quiser encontrar aquele texto que você escreveu anos atrás, vai ser impossível localizá-lo. Minhas sugestões são: em primeiro lugar use um sistema de cloud storage. Aceite a realidade: usamos o computador para escrever. Ocasionalmente você rpecisará do papel, mas a regra é o uso de meios digitais. Guardar seus textos em UM lugar é pedir para, um dia, perdê-los. Isso é uma tragédia. Guarde seus textos em um computador E em mais algum lugar. Se possível, de tempos em tempos faça um backup mais seguro e revise-os. Um blog também ajuda, mas é um ponto secundário.

Em terceiro lugar: encontre harmonia entre a inspiração e a transpiração. Escreva, sim. Escreva muito, publique, debata, converse, troque impressões e opiniões. Mas também leia. Leia muito, ouça muita música, veja muitos filmes, passeie no parque e cuide de um jardim. É importante tomar cuidado com a figura do beneditino enclausurado no mosteiro escrevendo sobre a vida. Qual a sabedoria alguém que não viveu tem a falar sobre a vida? Viva a sua vida e viva a vida dos outros. A única forma de conseguir mais experiência de vida é pela experiência alheia. Filmes, livros, discos e conversas.

Melhore suas habilidades linguísticas, sempre. Português, inglês, francês, italiano, hebraico. O texto é uma forma para transferir uma emoção, mas não se separa forma de conteúdo. Você tem que estar em constante esforço consciente de aprendizado. Seja você mesma, mas também seja o seu melhor.

Sempre coloque a mão na consciência e se pergunte por que você quer escrever. Se você quiser contribuir para a Arte e para a Vida do seu leitor, escreva. Se seu objetivo for o reconhecimento, jogue a caneta no lixo. Nenhum bom autor nunca conseguiu nada escrevendo para si. Todo grande autor contribuiu para o mundo e, por isso, foi reconhecido. O egoísmo e o egocentrismo é desprezível em qualquer ser humano. E o escritor não tem o direito de ser desprezível.

É possível que critiquem você. E é possível que você receba dois tipos de crítica.

O primeiro tipo é aquele que acredita que sua obra não é boa o suficiente. Essa crítica vai apontar fundamentadamente alguns pontos que, na visão do crítico, são negativos. Essa crítica pode ser ou não pertinente. Se alguém lhe diz que para ele o texto não ficou bom, está falando a verdade.

O segundo tipo de crítica é aquele que não quer que você crie. Ponto. Esse tipo de crítica provavelmente será vaga e sem fundamento. Talvez se valha de senso comum para te desestimular. O famoso “isso não leva a nada”. Esse é o pior tipo de crítica, especialmente se você for como eu. Não se trata do questionamento a respeito da sua técnica, trata-se do esforço em fazer você não criar nada de novo. Nem um por cento da humanidade cria. Um pouquinho que você já faz já coloca você em outro patamar. Muita gente vai querer te manter no mesmo local. Tome cuidado. Se alguém falar de forma absoluta que o texto não presta, provavelmente é uma mentira.

Respeite seus limites, mas não muito. Comece curto, mas ambicione. Poemas, crônicas, contos, novelas. Quanto maior o texto, maior o esforço. É importante que você colha frutos rapidmente no começo, mas também é importante que você tenha projetos de longo prazo.

Sempre leia, pois é isso que vai te dar uma ideia de para quê serve a escrita. Sempre estude, nem que seja pouco, pois isso é o que vai te permitir ampliar os horizontes. E sempre escreva, nem que seja lentamente, pois é escrevendo que você criará o material que poderá ser peneirado, lapidado e polido.

Peço desculpas se contribuí pouco, mas é o que é possível para esse autor de pequena literatura.

Lhe desejo toda a sorte do mundo e que você possa contribuir para a Vida.

Abraços do front,
Anarco.

Aos meus amigos.

December 26, 2015 § 1 Comment

São Paulo, 25 de dezembro de 2015.

A todo mundo.

Caros amigos, boa noite.

Gostaria de iniciar esta missiva por algum apecto perdoável, mas, efetivamente, não consigo. E a tentativa de explicar as desculpas talvez sirva como melhor pedido de desculpas que qualquer outra coisa.

Talvez.

Este blog é, e sempre foi (e provavelmente sempre vai ser), sobre o meu coração. Eu posso falar sobre a dilma (assim mesmo, com letra minúscula, porque não é a pessoa, mas o símbolo) que ele sempre vai ser sobre como o meu coração reage sobre alguma coisa. Nesse caso, a dilma.

Nesse sentido, eu insisto, há tempos, em escrever. Oras acerto, oras erro. Acontece. O fato é que eu tento falar algo sobre algo que seja pertinente. Pois eu creio que seja, sim, pertinente o que eu sinto sobre o mundo.

Natural, portanto, que o blog siga o ritmo da minha vida. Quando eu falo que  a regra geral é que “quanto mais sexo, menos posts”, é verdade. Mesmo que a vida fodendo seu cu com uma piroca de negão de 30 centímetros até você pedir penico seja uma espécie de sexo.

Minha vida está tensa. Não insuportável, nem ruim, meramente tensa. Tensa como um pássaro que não canta por medo de ser percebido pela cobra.

E eu asumi essa tensão como natural e parte da minha vida. E não é. Peço desculpas por isso. Eu sou canário do reino, canto em qualquer lugar.

Quer exista cobra, quer não.

Desde 2003 há o almoço de natal Malandricus.

Malandricus.

Esse nome perdeu, mais do que nunca, todo um sentido que, talvez, nunca tenha tido de verdade, exceto no meu coração. Mas não é problema, pois eu falo sobre o meu coração.

Desde 2003 há o almoço de natal Malandricus.

Nos últimos quatro, talvez cinco, eu hospedei esse almoço de natal.

Esse ano não. Esse ano eu avisei todo mundo antes e falei: “Olha, não vai rolar. Não dá. Não aguento. Não vou fazer nada. A casa caiu, a chapa esquentou e não vai dar. O mundo tá pesado demais, não sei pra onde eu tô indo e não sei o que fazer. Não sei quem eu sou e nem da onde eu vim ou pra onde eu vou. Cabe querer fazer um almoço de natal nessa situação? Cabe? Não cabe. Não rola. Desculpa.”

Eu esperava que falassem “que pena, então não vira. Relaxa. É norml. Afinal, o que é um ano a menos em treze anos?”

O Breno falou “Beleza, esse ano é em casa”.

Obrigado.

Eu não sei mais o que falar a não ser isso: Obrigado.

E agora, escrevendo isso, com lágrimas (talvez desnecessárias) nos olhos eu digo: Obrigado.

Obrigado por ser(em) meus amigos. Obrigado porque quando eu falei pro mundo “desculpa, não dá, quebrei”, alguém virou e disse “calma, guenta as pontas que vai dar”.

Obrigado, meus amigos, porque quando eu não consegui ser eu mesmo vocês falaram “guenta as pontas que a gente te ajuda a ser você mesmo”.

Vocês fazem ideia de como isso é importante? Como é ter alguém pra falar “relaxa, a gente segura as pontas pra você”. Não têm. Duvido que tenham.

Isso é escolher bons amigos: Escolher as pessoas que te ajudam a ser você mesmo quando você falha e pede arrego. Pede pinico. Pede licença e pede desculpas.

Vocês não sabem como dói falar “desculpas porque eu não consegui ser eu mesmo”. E vocês me ajudaram nisso.

Eu falei anos atrás ao Homem-Hipotérmico: “Eu amo meus amigos porque com vocês eu posso ser imperfeito como eu sou. E eu sou grato por isso.”

Meu maior poder é ganhar quando eu não mereço. Meu maior poder é ser um filho mimado de deus. Porque eu não mereço, mas Deus me ama. E estando perto de vocês eu sou melhor do que eu sou de verdade. Porque eu me cerco das melhores pessoas no mundo. Eu me cerco daqueles com quem eu posso falhar que eles vão dar um passo adiante e dizer “descansa, porque está tudo sobre controle”. Meus amigos são as mehores pessoas no mundo. Porque eles são bons quando eu não sou suficiente.

Muito obrigado a todos eles por tudo. Não só os que estavam lá.

E eu peço desculpas, direta e abertamente a todos, especialmente ao Sartre, porque eu não fiz o papel que eu deveria fazer no mundo. Eu deveria ser melhor que que fui. Deveria ter convidado todos aqueles que eu amo. Mas falhei nisso. Peço desculpas a quem eu falhei com, mas agradeço àqueles que não falharam comigo quando eu não fui eu mesmo.

Espero algum dia ter poder suficiente para retribuir. Mas eu duvido.

 

 

2015: Um ano que deixou a bunda doendo.

December 17, 2015 § 2 Comments

Bom, já passou a metade do derradeiro mês de dezembro. Hora de fazer a tão-tradicional-quanto-possível retrospectiva de fim de ano. E se 2007 foi um ano que deixou um gosto de rola na boca e 2008 foi um ano que deixou um gosto de buceta mal lavada, 2015 foi um ano que deixou a bunda doendo. A novidade é que, se nos anos anteriores foi uma questão metafórica, 2015 deixou literalmente a bunda doendo. Felizmente, não por alguma espécie de engajamento no coito anal. Não, de forma alguma. Continuo com todas as preguinhas com as quais nasci. Nesse caso a dor na bunda veio do ano em que, até hoje, mais estudei e trabalhei.

Minha rotina no primeiro semestre foi dar aulas em Cruzeiro na segunda-feira, trabalhar no Peretz de terça a sexta durante o dia, corrigindo redações como se não houvesse amanhã e ir para a faculdade durante as noites e tardes. No segundo semestre era dar aulas em Cruzeiro na Segunda, em Taubaté na terça e na quarta e faculdade quarta, quinta e sexta, de manhã, tarde e noite.

Quando eu não estava em pé dando aula, estava sentado lendo, sentado corrigindo provas, sentado no carro dirigindo os 250km que separavam minha casa das minhas salas de aula, sentado trabalhando ou sentado ouvindo uma professora falar, por exemplo, que o ganhador do prêmio Nobel de química deveria ser proibido de trabalhar por ter feito um comentário racista ou outro absurdo do gênero.

2015 foi um ano em que eu sentei. Sentei e li, sentei e estudei, sentei e escrevi, sentei e dirigi, mas primordialmente sentei.

O resultado disso foi ter fechado doze das treze matérias que me propus a fazer nesse ano. Com uns quatro 9,5 no meio. Melhor desempenho acadêmico que eu já tive até hoje. Na prática, pelas minhas contas, falta cerca de duas matérias e duzentas horas de atividades acadêmicas complementares pra eu me formar. Está acabando. De verdade. Ah, também recuperei os quilos que perdi no ano anterior. Mas é a vida.

However… nem tudo são flores. Não consegui colocar em prática meu projeto de trabalhar mais e ter mais escravos (piada interna).

Acho que a única conquista que eu tive do ano passado para cá foi ter, pela primeira vez, assumido como titular de uma sala de aula. And so what? Assim como eu fazia quando era professor de artes marciais, eu dou a aula que eu considero a mais importante e útil o possível. Durante uns bons quinze anos eu treinei pra escrever e convencer. Esse é o meu pão com manteiga. Meu vinho, minha hóstia e minha comunhão. O texto é uma arma. Me dá um lugar calmo e tempo pra mirar que eu encontro a névoa rosa. Eu sei o que é bom. Eu sei o que é eficiente. Mas não sei quanto ruído existe entre o que eu falo e o que os alunos ouvem.

Obviamente algumas coisas são claras e perceptíveis. Aluno que se aventura a ler Guimarães Rosa nas férias. Aluna que reescreve um capítulo de Vidas Secas como se os retirantes estivessem fugindo do terrorismo. Aluno que cria um círculo no inferno pra quem não segue a própria vontade. And so on. Mas quanto é mérito meu? Tais alunos seriam brilhantes comigo ou sem migo (as piadas estão péssimas hoje). Eu dei um belo cenário… mas o drama foi todo deles.

Me pego diante de uma bela sensação de insatisfação. Em 2014 minha promessa de ano novo foi que eu me tornasse efetivamente um professor. E isso eu consegui. Sim, eu sei que para alguns isso pode parecer uma ambição modesta. Talvez seja mesmo. Mas foi um frio na barriga gigante largar o emprego nove às seis segunda à sexta pra tentar fazer algo que boa parte das pessoas nem tem vontade de fazer (entrar em uma sala de aula, enfrentar 40 adolescentes e falar pra eles que eles podem ser melhores do que eles são e que tudo é mais legal quando se tem conhecimento). Minha promessa foi cumprida (como normalmente é) mas essa sensação de insatisfação ainda permanece. O que não deixa de ser belo, uma vez que sugere que eu consigo ambicionar mais.

Por outro lado, no que diz respeito ao mundo ao meu redor, coisas novas aconteceram. Estou com uma casa em Cruzeiro e em Caçapava. Ainda muito aquém do que pode se considerar uma casa (de certa forma, é meramente uma cama e minhas coisas) mas é simbolicamente… significante. É a casa onde meu pai viveu e morreu… ou a casa construída pelo meu avô. De certa forma, há uma certa responsabilidade envolvida. Especialmente na casa de Caçapava. Anos atrás meu desejo de ano novo foi uma casa com quintal, que eu pudesse plantar um jardim e montar uma oficina. Se realizou.

E agora? Eu tenho um jardim, uma oficina e uma escrivaninha. Que eu eu faço com isso? Qual a promessa de 2016?

À medida em escrevo não deixo de me sentir abarcado por uma agradável sensação de felicidade. Me debruçar sobre os acontecimentos do ano que passou mostra uma série de pequenas vitórias. Conquistas. E inegável que da Vitória vem a Glória, e nisso há certa Beleza.

E o olhar para o futuro desperta inquietação. O desejo de construir mais e melhor. Efetivamente não serei o primeiro a ter dois diplomas, ou a mudar de carreira, ou a ser relevante na vida dos outros. Ou a herdar uma casa, a plantar um jardim, aprender a moldar madeira e metal com as próprias mãos ou escrever algo belo e criativo. Eu sou apenas um ser humano, com um passado e construindo um futuro. Como todos os demais bilhões de seres humanos ao redor da terra. Diferentes em sua essência, mas semelhantes em seus desejos e medos.

Talvz por isso tantas religiões falem em “irmãos”.

Acho que no fim, a ambição para 2016 vai ser algo nessas linhas: me tornar mais do que eu realmente sou. Ah sim, falta um objetivo concreto pra manter a mente focada. Mas isso eu ainda vou decidir. E quando isso acontecer, obviamente eu não contarei pra ninguém. Todo barulho é relativo ao silêncio que o precede. Bora fazer algum barulho.

Ah, e se não os vir até o próximo ano… Desejo a todos vocês a calma dos monges, a sorte dos irlandeses e a ira dos anarquistas.

Amém, Shelá.

 

A Gravata.

November 5, 2015 § 1 Comment

Durante o tempo em que eu ainda trabalhava como advogado eu costumava falar que seu eu ganhasse na Mega-Sena eu pegaria todo o dinheiro, colocaria na poupança e passaria um mês trabalhando sem falar para ninguém que eu ganhei na Mega-Sena, só para sentir um gostinho de como seria o resto da minha vida. Então, no último dia, eu iria trabalhar de gravata.

de gravata.

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Essa piada, devidamente roubada do Steinhaeger, lá no Malandricus Bar & Vodka, foi repetida diversas vezes, afinal, na época, eu ainda jogava bastante na Mega-Sena. Hoje eu mudei um pouquinho a piada. Basicamente em dois sentidos.

Primeiramente, eu só advogo se for de gravata. Só de gravata.

Segundo, não é piada. Eu só advogo se eu puder estar mesmo só de gravata.

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A grande maioria que me acompanha por aqui sabe que eu larguei a vida de escritório. O que talvez nem todos saibam é que eu ainda advogo. Em pvt, claro. Redijo as ações judiciais, escrevo, pesquiso e estudo. Só de gravata, afinal, estou no conforto do meu quarto, muitas vezes acompanhado de uma taça de vinho.

As vantagens da advocacia freelance.

Ocasionalmente eu tenho que fazer uma reunião, e como eu tenho que sair na rua eu acabo colocando mais roupa que só a gravata. Mas considero isso uma exceção de bom senso e bom gosto.

Fora que reunião não é nem trabalho de advogado direito. Trabalho de advogado tem que colocar a OAB na mesa, senão, poderia muito bem ser um trabalho qualquer.

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A advocacia feelance tem várias vantagens associadas à política da peça de roupa única e da taça de vinho. Com uma ação judicial por mês eu coloco uma graninha boa na minha conta. E olha que eu me oriento, via de regra, pela tabela da Ordem. Sou o melhor advogado com honorários da tabela da Ordem que o dinheiro pode comprar. Mas advogo só de gravata e com uma taça de vinho.

Alguns clientes consideram absurdo o fato de eu não estar disponível das 9:00 às 18:00 num lugar e vestido. Entretanto, isso não é problema: se eles não querem um advogado que trabalhe no horário que bem entender, só de gravata e com uma taça de vinho, eu não quero eles como clientes.

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Óbvio que minha vida não se tornou algo tão anti-social assim. Tenho que dar aulas de português também, nas quais tenho que interagir com pessoas. Mas o código de vestuário é menos rigoroso que o da advocacia e mais rigoroso do que o da minha advocacia. Posso trabalhar de calça jeans, camiseta e tênis. Eu me visto para dar aula da mesma forma que me visto para ter aulas na USP, and that works for me.

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A comparação entre ambas as carreiras (a advocacia free-lance e o magistério) me ensinou muita coisa ao meu respeito. Em especial como a gente briga com a própria natureza.

Precisei de uma década de advocacia e um ano de magistério pra aprender duas coisas.

A primeira delas é que eu preciso trabalhar com algo que eu veja resultado e relevância.

A segunda é que eu trabalho com a língua.

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Enquanto advogado, uma das coisas mais desesperadoras é ver a total ausência de conexão entre o seu trabalho e o resultado.

Às vezes você faz uma ação judicial coxa e ganha. Às vezes faz uma peça linda e perde. E às vezes o juiz te dá a vitória por algo que você nem colocou nos autos (o que significa que o que você escreve, praquele juiz, é irrelevante). E isso é desesperador. Trabalho tem que ter alguma recompensa além do contracheque no fim do mês.

E um aluno aparecer no facebook, mostrar a nota que tirou (9.0 de 10.0) e falar “Obrigado, sem você eu não conseguiria isso” é recompensa pra caralho.

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Por outro lado, minha vida profissional é bizarra. Minha to-do list tem aulas pra preparar, provas pra corrigir, petições pra elaborar, audiências para comparecer, cursos pra criar e mais uma dezena de compromissos acadêmicos da faculdade. E tudo isso tem em comum apenas uma coisa: a Língua.

Uma amiga minha me disse anos atrás que ela me enxergava como escritor. E isso é verdade. Não tenho livros escritos (ainda), mas tudo o que eu faço envolve a língua. Esse blog. As aulas. A advocacia. Tudo. E eu enxergo isso com enorme felicidade hoje. Meu trabalho é escrever ou ensinar a escrever. E subitamente tudo faz muito mais sentido.

Advogar e escrever esse blog é parte do meu trabalho. Afinal, que espécie de professor eu seria se eu mesmo não escrevesse? Como eu posso pedir pra um aluno escrever um poema se eu mesmo não conseguir fazer a tarefa que eu estou exigindo? Como pedir para alguém dar uma forma correta a uma ideia específica se eu não conseguir fazer isso? Como pedir pra alguém se expor com um texto escrito se eu tiver vergonha disso?

***

Quando eu era advogado e alguém me perguntava o que eu fazia para viver eu respondia “Eu venço”, afinal, esse é o trabalho do advogado, vencer. Se eu venço muito eu sou bom advogado. Se eu venço pouco, sou mau advogado.

Hoje se alguém me perguntar o que eu faço para viver acho que eu respondo: “Eu Componho“.

Um texto longo que ninguém (espero) vai ler sobre o ENEM.

October 25, 2015 § 2 Comments

Pois bem, passou o Enem e agora minha taimelaine tá bombando de memezinhos feministas a respeito de Simone Beauvoir na prova do Enem.

 

***

A respeito da prova, em primeiro lugar, nada contra a luta pela igualdade de gênero. Pessoalmente eu não acredito que os gêneros sejam iguais, mas acredito que eles devem ser tratados equitativamente. Existem falhas ainda, mas estamos melhorando. Entretanto, eu discordo das ações afirmativas como um todo. Por exemplo, no meu entender de jurista, a Lei Maria da Penha se aplica também para defender o homem em casos de agressão. São casos mais raros? Vamos assumir que sim, mas o que importa é combater a violência em geral. Pelo menos na minha opinião.

Dito isso, o tema de redação NÃO foi um absurdo. Nem a questão a respeito dos movimentos feministas. AMBOS os temas abordados são uma mera análise de questões de fato do mundo. VOCÊ NÃO TEM QUE SER MACHISTA OU FEMINISTA PARA PERCEBER O MUNDO. O cara pode ser o ser humano mais misógino do mundo e ele TEM que saber que existe uma discussão enorme a respeito da violência contra a mulher e ações afirmativas. NEM QUE SEJA PARA DISCORDAR.

Você pode defender o que bem entender, mas defenda com inteligência e conheça a opinião contrária.

***

Por outro lado, devo deixar novamente claro, eu nunca gostei do Enem.

Eu considero o Enem uma prova secundária em seu aspecto técnico, que privilegia elementos abstratos do processo cognitivo ao invés do conteúdo. Na Faculdade de Educação menciona-se que isso se deve ao fato de que o Governo pretende avaliar de forma homogênea o país e, para isso, tem que lidar com desigualdades sócio-econômicas. Para evitar distorções, ao invés de avaliar o conteúdo se avalia a capacidade de correlacionar informações. É algo válido, mas eu discordo.

***

Na minha opinião a escola tem basicamente duas funções: mostrar pro aluno os unknown unknowns e dar para ele repertório.

Os unknown unknowns são as informações que o aluno não sabe que não sabe. Na Teoria dos Jogos são três tipos de informações: o que você sabe, o que você sabe que você não sabe e o que você não sabe que você não sabe. O que você sabe é onde você está bem. O que você sabe que você não sabe é onde você pesquisa ou procura um especialista. O que você não sabe que você não sabe é onde você precisa tomar muito cuidado para não fazer merda.

Usando uma metáfora: Ao entrar em uma sala você pode ver os móveis e evitá-los. Se a luz está apagada você sabe que normalmente numa sala existem móveis, portanto, é bom tomar cuidado. Agora se naquela sala existir um alçapão é algo inesperado e desconhecido. E é nisso que você se fode.

Ou seja: esse é mais um glorioso dia da minha vida no qual eu não usei Báskara pra nada… mas eu sei que Báskara existe, posso procurar na internet ou posso perguntar pra alguém que sabe. Não saber que Amoníaco com Água Sanitária faz gás mostarda é perigoso pois eu posso fazer merda sem nem saber.

***

Além disso a escola oferece repertório ideológico para o aluno pensar o mundo. Se ele não tem conhecimento a respeito dos demais que pensaram o mundo antes dele, dificilmente vai conseguir compor ideias próprias. A esse respeito, vide Everything is a Remix.

Portanto, se eu não avalio o conteúdo, eu não avalio se aquela criança tem repertório intelectual pra pensar o mundo. E isso é ruim. É priorizar pessoas que apenas conseguirão responder ao mundo se houver um manual diante deles. Isso leva a uma sociedade no qual um aluno de Ensino Médio garantidamente possui nível de Ensino Fundamental, um Universitário possui nível de Ensino Médio, um Mestre possui nível de Universitário e um Doutor possui nível de Mestre.

E junto a isso, a prova de redação do Enem é a única que pede proposta de intervenção. Então pedimos a crianças sem experiência de vida e sem conteúdo teórico que sugira uma solução para um problema no mundo. É um estímulo ao imbecil com iniciativa.

Ou seja, a meu ver, é uma prova que não cobra coisas importantes (conteúdo) e demandam um posicionamento a respeito de uma questão complexa que os alunos (me perdoem) ainda não possuem conhecimento de mundo pra possuir. Resultado? Chovem propostas do tipo “o Governo deveria fazer uma Lei para” ou “o Governo deveria investir em”.

***

No entanto, o Enem se tornou o principal meio de ingresso em universidades federais. E uma coisa eu digo, enquanto professor, eu não sou pago pra discutir a realidade, eu sou pago pra resolver um problema: colocar meus alunos nos melhores vestibulares do País. Se o Enem é a maior porta de entrada, automaticamente os alunos (e professores) se prepararão mais pra ela. Nada mais natural.

Assim, se o Enem é uma prova com falhas conceituais, estimular os alunos a se prepararem pra ela é estimulá-los a se preparar pra uma prova com falhas conceituais. Algo perigoso. Não é um desastre e não é terrível, pois estamos falando de uma ciência humana, onde os seres humanos que farão a diferença. Se os alunos saírem do Ensino Médio despreparados a culpa não é do Enem, é do professor que não o preparou. (Ou seja, eu.)

***

Só que existe mais um problema e ele é abordado no que eu chamo de Aula Zero do meu curso de Redação: Vestibulares não selecionam os melhores alunos. Eles selecionam um PERFIL de aluno. O cara que passou no ITA (cuja prova tem Exatas, Português e Inglês) não tem o mesmo perfil do cara que passou na Poli (que cobra todas as matérias no Vestibular) ou da Unicamp (que tem um vestibular muito mais “humanista”). São Perfis diferentes que são preferidos por Universidade diferentes.

As três maiores escolas de Economia do Brasil são USP, UNICAMP e PUC-RJ. Cada uma segue uma linha ideológica distinta. As três melhores faculdades de Direito do País são a USP, o Mackenzie e a PUC-SP. Cada uma segue uma linha ideológica distinta. Porque essa é uma das funções da universidade: pensar o mundo, discordar, discutir, possuir linhas de pensamento que se batem, se digladiam, vencem e perdem. O pensamento PRECISA de discordância. Sem discordância vivemos numa idade média ou numa ditadura (não precisamos de choque no saco e pau-de-arara pra isso).

E quando unificamos o processo seletivo, unificamos o pensamento.

Não existem mais perfis dos alunos que entram em Universidades Federais. Existe perfil. Todos fazem a mesma prova, estudam as mesmas matérias e treinam o mesmo estilo de prova. E os alunos que entrarem serão os que farão a pós-graduação lá e virarão professores (Ah, a geração incestuosa nas universidades…). Sem Autonomia Universitária para a preparação de provas não há autonomia na escolha de perfis de alunos. Isso tende a homogeneizar os perfis universitários.

Discute-se muito hoje na Universidade a dificuldade em se pesquisar assuntos diferentes porque os Professores possuem linhas de pesquisa homogêneas. Isso é ruim. Não se traz ideias novas, incensa-se pensadores tradicionais e se quebra a voz discordante.

Todos amam citar a frase acima do bigodudo e falar de poesia, artes e espiritualidades. Mas ninguém gosta de lembrar dela quando um “reaça” fala que o país está indo a caminho de uma crise. Nessa hora é um bando de derrotista, com complexo de vira-lata, que não gosta de ver pobre na universidade. Quando uma espécie se reduz demais entende-se que ela está ameaçada de extinção porque não existe mais diversidade genética para garantir resistência a doenças e elementos nocivos. Quando as ideias se reduzem a um tipo só é a inteligência que fica ameaçada de extinção.

Ou seja, nada contra Hume. Mas será que não seria legal uma prova que também cita Bacon?

Soneto do Cassino.

October 23, 2015 § Leave a comment

Sei que existe um pecado capital,
e eu sei que sou de fato um pecador
do pecado de não ser original.
pr’um poeta esse é o maior terror,

Na aposta de poesia tão sem arte
eu queria apostar para perder
que espécie de jogada viciada
Pediria ao oponente pra vencer?

Um poeta que em ventura se aposta
creditando gran talento ao escrever
Não surpreende ao escrever tan’pouca bosta

Tão desculpa pra resposta receber
É tão triste a poesia sem que alinhe
As palavras nessas rimas de doer.

 

Humans.

October 15, 2015 § Leave a comment

Em 1951 estreou “O dia em que a Terra parou”. O filme conta a história de um alienígena que chega à Terra e avisa aos líderes mundiais que a corrida armamentista é um risco real à humanidade e deveria cessar. Confrontado, dá uma demonstração de poder, morre e deixa um aviso (que não vem ao caso).

“O dia em que a Terra parou” deu origem a várias sátiras, uma refilmagem e influenciou algumas obras que deram valor maior ou menor a alguns elementos do filme. A beligerância, a ficção científica, a mensagem de paz, etc. Um dos aspectos mais interessantes do filme, no entanto, diz respeito ao julgamento da humanidade.

“Acaso não faria justiça o Juiz de toda Terra?” Sim, faria. Mas nesse caso, o que é justiça? Globalmente, com certeza, cortejamos o espectro da culpa. Talvez não o dolo, admito, mas a culpa com certeza. Negligência, imprudência e imperícia. “Para dormir me deitei entre assassinos, comi meu pão entre as batalhas, fiz amor sem muita atenção e não tive paciência com a natureza”. Your excelence, we plead guilty.

No entanto, talvez seja errado julgar os humanos pelos nossos crimes. Pense bem: Nós até que conseguimos bastante coisa: nascemos de pedaços de estrelas que explodiram, juntamos carbono, ôxigênio e hidrogênio. Escrevemos nossas últimas vontades no DNA, passamos adiante e viemos tentando melhorar. Pra algo comparável a espermatozóides  de estrelas, até que a gente se deu bem.

Se pra um resto de estrelas a gente mandou bem, sob a perspectiva espiritualista, igual otimismo é cabível: Nascemos sem saber de onde viemos, quem somos ou pra onde vamos. O que vier é lucro.

Acho que no fim, não seremos julgados por nossos pecados, mas por nossas virtudes. Nossos erros são compreensíveis. Nossa beleza é um diamante.

Mas é tão comum ficarmos com a vista cansada, entediados e descuidados que deixamos nossa humanidade passar em branco, como se ordinários fôssemos. Porque num mundo de ruídos, mais um som é barulho. Daí a importância da diferença. De encontrar o distinto e reconhecê-lo como contraste do igual.

Pra essa proposta, Humans se apresenta como perfeito:

De um ex-presidiário espancado pelo pai falando sobre o amor que a mãe e avó de suas vítimas lhe rendeu ao homem lembrando da esposa inválida feliz por poder cuidar dela. Da mulher que matou o marido que a espancava para proteger os filhos ao japonês que fez um pacto de suicídio (felizmente mal sucedido). Do jamaicano pobre falando sobre a miséria à Russa rica falando sobre o dinheiro.

“Pobreza é querer e não conseguir.”

Ao final, difícil não se apaixonar pelo que faz de nós humanos. Não nossas falhas, mas nossas virtudes. E difícil não querer acabar com a pobreza no mundo. Acabar com o querer comer e não conseguir, com o querer amar e não conseguir, com o querer pensar e não saber.

Assistam. É importante descobrir o que faz de nós humanos.

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