Stálin Nunca Teria Sido Prefeito.

December 13, 2017 § Leave a comment

Ler livros que confirmam os seus ideários gera um efeito perigoso: confundir o binômio Identidade + Vaidade com Genialidade. Que atire a primeira pedra quem nunca pensou “Nossa, esse cara é um gênio! Pensa igualzinho a mim!”.

Dito isso (e caveat lectorem), comecei a leitura de “Antifrágil“, do mesmo Autor de “A Lógica do Cisne Negro“, Nassim Nicholas Taleb. O livro se dedica a avaliar sistemas que reagem positivamente a choques (ao menos no longo prazo). De forma simplista, uma certa dose de estresse em condições específicas é positiva à vida como um todo.

Independentemente de mais textos presunçosos à medida em que o Livro segue, a frase título do Post (usada pelo Autor, mas atribuída a Mark Blyth) serve para ilustrar um conceito chave: a vida é não-linear. Um agrupamento de 100 pessoas não é mil vezes mais simples que um agrupamento de 100.000 pessoas. É muito mais.

Em um município, um gasto de 1,75 milhões com refeições é absurdo e inaceitável. Em um País, com um orçamento bilionário, passa batido. Ou seja, o aumento de escala implica num estímulo ao gasto (provavelmente você se sente mais confortável em comprar uma sobremesa de R$ 50,00 num jantar de R$ 150,00, and so on). Stálin não teria nunca sido prefeito: a relevância de seus atos (atrozes) demanda uma escala em que executar 1.000.000 é “um mal necessário”.

Por outro lado, mesmo em livros que satisfazem o viés de confirmação, coisas novas surgem: A Suíça (aka Confederação Helvética) trabalha com um conceito diametralmente oposto ao Brasil no que tange à competência legislativa subsidiária. No Brasil, a regra é que a Competência escala de baixo pra cima: A Lei Federal tem precedência sobre a Lei Estadual and so on. Na Suíça (falta-me conhecimento sobre Direito Constitucional Suíço) seria o oposto: O Município tem precedência sobre o Estado and so on.

Não pretendo aqui tomar (muito) partido: será que interessa mesmo para o Brasil, por exemplo, Estados em que o Imposto de Renda, o Porte de Armas e o Consumo de Drogas sejam diferentes uns dos outros? Eu acho que sim, mas isso tornaria uma viagem para o Brasil (aquela parte que começa pra lá do Rodoanel) ou pra Bahia do Sul (aquele Estado que começa na fronteira de SP e RJ) muito mais complexa.

Mas levando em conta que eu gosto mais do Brasil de São Paulo pra Baixo, eu votaria a esse favor.

 

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O Prometido e Presunçoso Texto sobre A Revolta de Atlas.

December 8, 2017 § Leave a comment

A Revolta de Atlas é o livro mais famoso da Ayn Rand. Por mais famoso leia-se “o que eu li”. Aí eu posso parar por aqui, dizer que li as obras fulcrais da Ayn Rand e pagar de intelectual em ter que ler o resto (algo pertinente, como mencionarei abaixo).

Ayn Rand é uma escritora judia que tem como primeiro nome a letra Ayn, que na cabala hermética está associada ao Caminho do Diabo, cujo mote é “seja feita a minha vontade”. Ela ficou famosa por ser um dos ícones do liberalismo, defendendo incessantemente que ninguém pode ser obrigado a nada e que a vontade individual é soberana, não sendo justo, em hipótese alguma, a premissa de prejudicar o indivíduo em prol do grupo. Ou seja, “Seja feita a minha vontade”.

O livro trata, em resumo e sem spoilers, de um momento no “futuro” no qual a filosofia de limitação do indivíduo e de controle dos meios de produção se mostrou razoavelmente vitoriosa em todo mundo, sendo os Estados Unidos o último bastião da liberdade que está lentamente perdendo a guerra. Como o livro foi escrito lá pro meio do século passado, esse futuro deve ser passado já.

Se o parágrafo anterior parecer a descrição de um romance brega e nacionalista, isso é meia verdade. Primeiramente, Ayn Rand não é americana. É Russa. Porém, ela é brega pra caralho. E isso torna o livro um paradoxo muito grande: ele é muito brega e muito bom.

Ayn Rand não tem a mínima noção de técnica literária. A construção de personagens dela é horrível. Os protagonistas são perfeitos e mijam möet-chandon e os antagonistas batem em filhotes de basset quando acordam. A descrição das cenas de sexo me fez me sentir lendo um spin-off liberal de ficção erótica de revistas de sacanagem da década de 1990 (vocês, milenials, nunca saberão do que estou falando). E rola umas viajadas enormes na construção do drama, apesar de (justiça seja feita) ela ter seus momentos de genialidade narrativa.

Eu costumo falar que Arte Política é muito mais política do que arte. E isso se comprova. Eu consigo imaginar todos os amigos dela numa roda de leitura debatendo os manuscritos e falando que está maravilhoso, como um clube de auto-afirmação. Nada muito diferente do que foi a Tropicália ou a MPB.

Porém, e talvez seja por me sentir acolhido em um livro no qual a chantagem emocional, a moralidade, uma ética de vergonha e a proteção do fraco sejam ridicularizadas, é uma leitura estimulante. Até a metade do primeiro volume a narrativa se arrasta. À medida que a trama se complica e o livro ganha ritmo, as pequenas breguices vão se tornando… pequenas. Quando você menos espera, você quer: i) produzir, criar, pesquisar, empreender, escrevar, trabalhar como se fosse um exercício da sua existência na face da terra; e ii) passar a fio de espada quem atrapalha o seu caminho.

De certa forma, me arrepeno de não ter lido antes A Revolta de Atlas. Acho que eu teria me sentido muito menos sociopata em saber que tem mais gente que pensa como eu.

Vitória.

October 9, 2017 § 1 Comment

Eu tenho um fraco pela escrita.

Em retrospecto, sempre tive um fraco pela escrita. Costumo dizer que todo mundo escreve na adolescência, mas poucos de nós continuam escrevendo após a adolescência.

A escolha da faculdade foi motivada primordialmente por isso. Nos dizeres de um velho professor a respeito da minha dúvida entre Jornalismo e Letras: “Anarco, você gosta de escrever e a faculdade que ensina a escrever é Direito, não Jornalismo ou Letras.”

Com anos de advocacia, onde, no fundo, eu ganho pra escrever, eu resolvi ser professor de Redação. Após ser escolhido Paraninfo da formatura dos meus alunos, momento no qual eu escrevi um dos melhores textos da minha vida, retornei à advocacia, onde, resumidamente, eu escrevo.

No meio do caminho, tive a oportunidade de trabalhar uns seis meses em uma agência de publicidade, no departamento de “Criação Verbal”. Meu trabalho, de forma resumida, era criar a “Identidade Verbal” para algumas marcas na comunicação institucional interna e externa. Eu era a Voz dessas companhias.

Acho que o bottomline de tudo isso é o fato de que eu escrevo. É isso que eu faço pra viver. Escrevo como advogado, ensinava a escrever (e tinha um prazer egocêntrico gigante em escrever em sala para mostrar para os meus alunos a técnica) e escrevi para empresas.

Eu traço um dos pontos mais importantes dessa atividade toda ao finado Malandricus Bar & Vodka, nos idos de 2003, quando começamos um blog de natureza confessional (como todo blog tem o direito de ser).

Naquela época havia um certo sonho de “escrever profissionalmente”, o que quer que isso significasse. Era o boom dos blogs. Quando o Ruy Goiaba lançava livro e era convidado a ser colunista. Blogs eram a porta de entrada para as mídias tradicionais. Acreditávamos que poderia acontecer com a gente também.

Isso, ainda, não aconteceu. Não escrevi um livro, não me tornei colunista, não tive um filho (que eu saiba) mas plantei uma pá de árvore.

Porém, uma Vitória merece reconhecimento: em parceria com a Legeek assumi a Criação Verbal e Comunicação Institucional da Mansão Rubi. Resumidamente, isso significa que eu fui contratado para escrever. Bi-semanalmente no Facebook e frequentemente no site e nas campanhas. Sou o porta-voz de uma Empresa. De certa forma, sou o Oráculo desse empreendimento.

Eu passo minha vida dividido entre a autocrítica e o auto-reconhecimento. Ainda não tenho meus livros escritos. Ainda não lancei meus cursos. Ainda não conquistei todas as montanhas e picos que ambiciono.

Mas fui escolhido para ser o escriba e orador de um Projeto que traz o coração de seus empresários.

E é uma Honra ser o Oráculo do Coração de alguém.

Da Série “É um milagre que eu ainda tenha vida sexual”.

October 2, 2017 § 2 Comments

Mote: “Eu não destruiria uma família, por exemplo. Só provoco pessoas que mostram interesse. Não desperto interesse alheio.”

Glosa: “Dá na mesma. Não cortar e provocar dá na mesma. É como pretender diferenciar mentir e omitir. Na verdade, já que estamos down the sincerity road, provocar ativamente me parece mais nobre, pois não tem desculpa ou historinha bonita.

“Eu não transaria com um pai de família, mas daria em cima dele sutilmente para que ele se interessasse por mim e depois eu pudesse exercer o poder de afastá-lo de mim, pouco importando se ele vai destacar energia e desejo da esposa dele pra mim, pensando em mim enquanto transa com ela e querendo mais e mais consumar o ato que eu não vou deixar.”

Meh. Ter o Poder para impedir e não impedir é disfarçar a vilania com um manto de omissão. E eu respeito os vilões, mas não respeito tanto os mentirosos.

“Fiz e fiz porque quis. Gosto. E acho que um relacionamento que não resiste a uma provocação não merece existir. Que termine. Que acabe e que morra. Aqueles que sobreviverem, merecem ser chamados de relacionamento de verdade. Eu sei o que eu sou e sou o que sou por consciência e vocação.”

Isso eu posso respeitar. Muito melhor que “Não posso fazer nada… ele que demonstrou interesse. Eu só não impedi.” 

Porque essa desculpa é uma mentira.

Uma mentira confortável para dormir à noite.

E a mentira é a arma do fraco.

 

Bukowsky, seu merda!

September 3, 2017 § Leave a comment

Um dos maiores males que Bukowsky causou foi criar um exército de hedonistas suicidas.

“Ain, encontre algo que você ama e deixe isso te matar.”

A figura romântica do artista atormentado, isolado do mundo raso e sem sensibilidade, ganhou, assim, um de seus maiores mitos representados na figura do cara solitário que bebe demais, fuma demais e fica se pulando de one night stand em one night stand porque “ninguém o entende”.

Talvez seja o casamento entre o nihilismo e o hedonismo que causa tanto problema. Se nada importa e todos caminham rumo ao túmulo, just enjoy the ride. Com variações mínimas você consegue enxergar uma série de memes repassados à exaustão: Da vida nada se leva, exceto as lembranças; Mortos todos são iguais; Viajar enriquece; Encontre algo que você ama e não precisará trabalhar um dia de sua vida, etc. Subitamente, portanto, people just want to enjoy the ride.

E isso não seria um grande problema. Exceto pelo fato de que as pessoas que estão “enjoying the ride” estão “riding the wave” que aqueles que se comprometeram com algo ao invés de “enjoy the ride” criaram.

Sim, deixando de lado aquela cambada de moleque de 18 anos que morreu nas duas grandes guerras (porque falar em guerra é clichê demais na minha vida), os grandes avanços modernos dificilmente foram criados por um bando de gente pensando na viagem exótica das férias.

Seria engraçado, também, pensar como seria o mundo se Churchill, er, quer dizer, Gandhi (prometi que não ia falar de guerras) estivesse pensando na balada de sexta-feira, no percentual de gordura corporal ou na próxima temporada de Game of Thrones (sim, porque autocrítica é importante).

Gosto de pensar que, paradoxalmente, seria mais produtivo encontrar algo que você ama e MATAR por isso. (Obviamente não de forma literal, posto que isso seria apologia ao crime e ao criminoso e eu nunca cometeria tal crime). (wink wink)

Mas empreender horas, dias e anos de sua vida é gastá-la, e gastar a vida é matar a si mesmo. Ou matar o hedonismo. Ou matar a preguiça. Ou matar os concorrentes. Matar as distrações.

E apenas gastando a Vida de forma consciente pode-se pensar em uma vida um pouco mais memorável. Obviamente não existe mais muito espaço para grandes heróis. Somos as crianças do meio da história. Não temos grandes propósitos ou um lugar claro. Nossa Grande Guerra é espiritual, nossa Grande Depressão é nossas vidas.

Mas talvez alguma obra, ainda que mediana, esteja ao alcance de todos. Que seja uma griffe de brigadeiro Gourmet.

Até mesmo porque, se a única expectativa que você tem da vida é aproveitar a viagem e se divertir, bom, talvez seja porque você não ame nada além de si mesmo.

Não é à toa que Dorian Gray era profundamente hedonista.

Soneto da Emetofobia

August 16, 2017 § Leave a comment

Dentro em mim eu resguardo tantos medos
Dentro em mim eu carrego algum pavor
Dentre eles tem o maior que abomino
É o medo do que engulo ter que expor.

Há quem diga que se trata de vergonha
Outros acham que é ojeriza ao sabor,
que o amargo da minha bile é o que temo
Ou o azedo de vomitar gere temor.

Meu segredo, que não digo a todo mundo,
vomitar é irrelevante em seu teor.
Não se trata do ato em si minha paúra

mas lembrar do que engoli causa terror,
pois se o vômito pode o velho expurgar,
também pode relembrar a velha dor.

O Mundo Roda, Roda, Roda…

June 30, 2017 § 5 Comments

E de alguma forma eu paro sempre no mesmo lugar. E isso fala mais ao meu respeito do que eu gostaria.

30 de junho de 2017. Há mais ou menos 14 anos e 3 meses eu escrevi meu primeiro post no hoje extinto Malandricus Bar & Vodka.

Durante aquela fase, a fase Heróica da Malandricagem, nosso objetivo (ou pelo menos o meu objetivo) era compreender o mundo. Em algum nível eu consegui. Sim, em algum nível eu vi A Máquina do Mundo. Ela se abriu pra mim e me mostrou seus mistérios. Eu, enojado, fechei as portas e me tranquei numa caverna. Me afastei dos conflitos do mundo, não satisfiz os desejos, mas esqueci-os, e paguei o mal com o bem em uma tentativa vã de aderir àquilo que os livros antigos diziam que era a sabedoria.

Como não fazê-lo? Vi pessoas boas serem derrotadas e humilhadas por pessoas péssimas. Eu adoraria dizer que vi a humilhação em primeira pessoa, mas, na verdade, a vi em terceira pessoa.

“A natureza não gosta de pessoas boas. A natureza gosta de quem é melhor.”

Não quis ser parte disso. Não quis compactuar com isso. Acho que pretendi ser mais moralista que o Universo em si.

Não que seja muito difícil ser mais moralista que o Universo porque, bem, francamente, se você acha que o Universo tem alguma moral ou ética, você não esteve prestando atenção até agora. O problema é que o Universo não gosta muito de quem está fora do tom. E, cara… eu desafinei.

“Você é um fracasso.”
“Você está desperdiçando a sua vida.”
“Só você não vê que você pode ganhar muito dinheiro.”
“Você precisa de um apartamento pra gente poder transar.”
“Só falta ganhar dinheiro pra você ser um Partidão.”
“Você é fraco.”
“Se você gostasse de mim de verdade você me tirava do meu namorado.”

Frases reais que o universo me disse. Saídas da boca de amigos, namoradas, familiares. Daqueles para quem eu deixei de ser eu mesmo para proteger. Porque eu só sei fazer BEM uma coisa: lutar. Só isso. Até na minha profissão é isso. Eu sou advogado. Eu luto por dinheiro. Se eu luto bem, eu vivo bem. Se eu luto mal, eu vivo mal. Simples.

“The Matrix is a system, Neo. That system is our enemy. But when you’re inside, you look around, what do you see? Businessmen, teachers, lawyers, carpenters. The very minds of the people we are trying to save. But until we do, these people are still a part of that system and that makes them our enemy. You have to understand, most of these people are not ready to be unplugged. And many of them are so inured, so hopelessly dependent on the system, that they will fight to protect it.”

Mas aparentemente eu valorizei o universo mais do que ele mesmo se valoriza. Um erro. Toda virtude será castigada.

Agora, depois de o mundo rodar, eu parei novamente no mesmo lugar. No centro do campo de batalha. Eu contra o mundo. Porque qualquer coisa menos que isso seria injustiça.

Que assim seja.

O lugar que o mundo reservou pra mim fala muito a respeito do universo.

E muito mais a respeito de mim.