Nome aos Bois.

August 9, 2019 § Leave a comment

Um dos motivos pelo qual eu ando escrevendo tão pouco é a curva de aprendizado é uma função radical: de alta declinação no começo e baixa declinação no final.

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Isso é a curva de uma função raiz: quanto maior o tempo, mais difícil é obter um incremento.

O que, obviamente, não significa que ocasionalmente eu não tenha vontade de compartilhar pequenos avanços.

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A última vez que eu entrei em um tatame foi quatro anos atrás. Um amigo meu, professor, pediu para eu aparecer no treino. Fui. Depois do treino regular, ele pediu que as pessoas se distribuíssem pelo tatame para o combate. Ele perguntou se eu queria lutar. Respondi que sim. Ele respondeu rindo “Ah, mas quando você ia negar uma luta. né?”

O que ele não sabia é que eu estava com medo. Eu estava (e estou) absurdamente fora de forma. Sem fôlego, sem alongamento, lento, fraco. Eu ia entrar num tatame pra enfrentar um cara em seus 20 anos que estava treinando três a quatro vezes por semana, no primor da forma física e técnica. Óbvio que eu tinha medo de me machucar (como me machuquei, estirando o ligamento do tornozelo em um low kick mal aplicado).

Mas eu não admitiria ficar paralisado pelo medo. Lutei todas as lutas que me colocaram para lutar (e pedi mais algumas, pra deixar bem claro pra mim mesmo que eu era mais forte que meu medo – e bom senso).

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Por outro lado, com enorme frequência, eu elogio o medo. O contexto é sempre o mesmo: “Medo é bom. Medo de fazer merda é saudável. Te ajuda a não ser um escroto na face da terra”.

O Medo, nesse sentido, está intimamente ligado a uma preocupação com os efeitos de suas ações. Eu chego mesmo a falar que ser um bom pai passa pelo medo de ser um mal pai.

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Ocorre que esse medo não é medo de verdade. Medo é uma resposta instintiva de auto-preservação a uma ameaça real ou percebida. O medo de falhar, por exemplo, é uma garantia de manutenção da imagem social (ou “face”).

Quando esse “medo” está relacionado ao cuidado em desempenhar uma tarefa não é medo, mas responsabilidade. Comprometimento. Até mesmo Empatia.

Responsabilidade traz a etimologia de “aquilo que faz pontes entre as coisas” (Res: Coisa, Pons: Ponte). É a capacidade de se conectar com o mundo e enxergar nele beleza e valor que merece cuidado.

Obviamente é um pouco presunçoso se sentir responsável pelo mundo. Mas, no fim, tudo se resume ao tamanho do mundo pelo que você se responsabiliza: você, sua casa, sua família, seu bairro, sua cidade e seu mundo.

Tem bastante espaço para crescer.

Sequoias.

May 2, 2018 § 2 Comments

A Arte não imita a Vida (Chupa, Platão!). A Arte idealiza a Vida. Por isso em filmes ninguém nunca pega o troco, nunca disca o número errado, nunca recebe ligação de telemarketing e nem precisam repetir o que disse (a menos que isso tenha finalidade dramática). Sabe aquela dificuldade em pegar um celular tocando no bolso da calça sem desligá-lo? Nunca acontece em filmes.

A Arte usa a Vida. Quebra, recorta e cola para formar um mosaico que, de alguma forma, vai ser mais Vivo que a própria Vida. (Uma tentativa de impedir um avião de decolar para não permitir que o amor da sua vida vá embora, mas vai te render um inquérito na Polícia Federal).

Talvez a Arte seja, em verdade, mera digestão. Como uma Bolha Assassina, que fagocita a Vida, a digere e usa os aminoácidos para construir algo novo e tão inédito quanto uma Criatura Mitológica fantástica que é tipo um cavalo (que já existe) com um chifre (que já existe) no meio da testa (que já existe), mas, ei, é criativo, juro!

A beleza do unicórnio não está na sua existência. Nem na sua biologia. Menos ainda na criatividade (afinal, um ornitorrinco num dia ruim dá de dez a zero num unicórnio em termos de criatividade). A beleza do Unicórnio está na ideia de que é algo extraordinário e merecido apenas para poucas pessoas. Dificilmente o implante de células-tronco de um Narval na testa de um Mangalarga Marchador dará o mesmo resultado. Especialmente porque detalhes desnecessários como a gravidez dos unicórnios não seriam tão agradáveis (especialmente na hora de sair).

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O ponto é que a Vida é muito mais simples do que a Arte. E não me refiro à simplicidade-filé-grelhado-apenas-com-sal-grosso. Me refiro à simplicidade vou-mandar-mensagem-porque-estou-na-seca-e-quero-transar.

Estatisticamente, aquele casal no restaurante quer apenas uma boa comida (pun intended). Estatisticamente, a maioria absoluta é motivada por questões muito mais simples, hormonais, físicas ou até mesmo por um instinto de sobrevivência que faria muito mais sentido em um animal sem sapiência. (Mal posso esperar para que vocês passem pela sapiência também, Bonobos!)

99% dos seres humanos são 99% animais. O 1% que sobra se divide em uma curva de cauda longa daqueles que são 98% animais, 97% animais, 96% animais, e por aí vai.

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A Beleza da Arte (e o que salva a Vida), entretanto, é que nós não vivemos em um mundo de simetria de resultados.

A humanidade gerou um Shakespeare (ou meia dúzia que escreveu as histórias contadas por Shakespeare) e isso compensa todas as Stephenie Meyers do mundo. Cáspita, uma Stephenie Meyer compensa a existência de todos os blogueiros wannabe literatos da internet (Tô falando com você mesmo, Anarco, cuzão!).

Não interessa que 99% dos casais num restaurante estejam passando o tempo entre uma trepada e outra. Talvez exista um casal em meio a todos os restaurantes que já existiram e vão existir que esteja se reencontrando depois de duas décadas sem se ver e precisem apenas saber que eles estão vivos e bem, e que a felicidade é possível.

É possível que aquela cerveja nem-tão-gelada-assim seja mais uma numa longa tradição de cervejas-nem-tão-geladas-assim em bares nem-tão-limpos-assim. É possível que entre todas as cervejas que já existiram e vão existir seja a última que aquele grupo de amigos, inteiro, conseguiu tomar juntos.

A música tocando pode ser música de fundo pro bar inteiro, mas, entre todas as músicas já tocadas e que ainda serão, é possível que ela seja pra menina  de cabelo meio desfiado na fila do banheiro a música que ela sempre associava ao outro bar (que fechou faz tempo) onde ela conheceu o primeiro namorado.

A música-nem-tão-boa-assim lembra tempos mais simples-carne-grelhada-com-sal-grosso, mesmo sendo nem-tão-boa-assim.

E esse é o ponto primordial: 99% da vida é feita de espaço vazio, frio e irrelevante assim como 99% dos seres humanos é feito de espaço vazio, frio e irrelevante. Mas aquele 1%… Aquele 1% é um hit de sertanejo universitário invertido. Aquele 1% que sobra compensa todo o resto. Aquele 1% é Estrela.

É muito pouco. Se pá nem existe.  Talvez a gente esteja olhando pra uma luz que deixou de brilhar faz tempo e só esteja enxergando o restolho. Mas é esse restolho que compensa o espaço vazio nas mesas dos restaurantes, nos viadutos das avenidas e nas recepções dos aeroportos. Ainda que ele não exista de verdade, mas seja inventado.

99% é vida. 1% é Arte. Viva boa Arte.

Violino.

April 3, 2018 § Leave a comment

Um homem triste toca violino.

O som é horrível. Desafinado, rouco e abafado.

As cordas são seus nervos.

O arco é navalhado.

“A Red Wheelbarrow”.

March 20, 2018 § 2 Comments

(Ou “A Saudades que eu Tenho do Curso de Letras.”)

Mr. Robot é o melhor seriado que eu já vi. O que quer que você esteja fazendo, pare de ler esse texto e vá assistir Mr. Robot.

(Mentira, não para não, termina o texto que eu tô me sentindo carente de leitores. Brigado.)

Em um determinado episódio, um determinado personagem faz a afirmação “A Red Wheelbarrow”, o que deixa o outro personagem perplexo, ao que ele continua “É a única coisa em inglês que meu pai sabia falar”, e declama o poema de William Carlos WilliamsRed Wheelbarrow“:

“so much depends
upon 

a red wheel
barrow 

glazed with rain 
water 

beside the white
chickens”

A performance dos atores e o desenrolar da história (vai assistir, cazzo) dão ao poema uma emotividade tocante. Admito que eu achei inicialmente o poema tosco (“tanta coisa depende de um carrinho de mão vermelho, molhado de chuva, do lado das galinhas brancas”) mas resolvi ir atrás do poema. E dos Ensaios Críticos. E bateu saudades da Letras.

***

Nas palavras do poeta, ele escreveu aquele poema movido pelo afeto e admiração que nutriu por um pescador e seu filho, que mais de uma vez mencionou que trabalhou “até os joelhos” no gelo, mas não sentia frio. Ao ver o Red Wheelbarrow no quintal, ao lado das galinhas brancas, se sentiu tocado e escreveu.

***

O problema é que, uma vez que o poema é escrito, ele não pertence mais ao autor. Ele poderia falar o que quisesse a respeito do poema e do que o levou a escrever. Pouco importa. Poesia é o que o Leitor lê, não o que o escritor escreve.

Um ensaio menciona que Williams, membro das vanguardas da época e amigo de Ezra Pound, se inspirou no estilo fotográfico, se dedicando a pintar uma imagem com palavras.

Outro ensaio menciona que, por meio da quebra calculada das palavras, ele cria poesia com uma mera frase.

Outro sugere que o Carrinho é uma das máquinas simples de Aristóteles, sugerindo que muito da nossa vida é baseada na simplicidade.

Outro sugere que a chave do poema está na palavra depende.

Nenhum deles tem base no que o Autor quis dizer. Todos eles se baseiam no que o Autor disse.

Intenção e resultado raramente são coincidentes.

***

“So much depends”. Tanto depende. Tanto o quê? Inexiste limitação, inexiste indicação. A primeira estrofe não limita nada e pode ser extravasada para a Vida. A segunda estrofe se limita a uma palavra “upon”. Juntas as duas primeiras estrofes compõe uma única frase, a ser complementada pelas três estrofes seguintes.

A segunda estrofe é, em minha opinião, a chave para o entendimento do poema. Apesar de o título ser “The Red Wheelbarrow”, a palavra Wheelbarrow é separada em Wheel + Barrow. Wheel, a Roda, sendo um símbolo de ciclo e repetição, traz a noção de tempo. E Barrow é, em tradução, um pequeno monte de pedras e terra usado para sepultar os mortos. Uma cova rasa. O ciclo de mortes, todos os que morreram antes de nós, todos os que foram sepultados e fertilizaram a terra.

À imagem da roda e da túmulo se acrescenta a chuva, cobrindo tudo em um filme de água, caindo sobre tudo. Não se controla a chuva. Se aceita. E as galinhas brancas, ao lado, indiferentes. O dia a dia e a rotina, sem planos e sem vontade.

Tanta coisa depende do tempo, dos mortos, do acaso e daquilo que fazemos sem pensar.

***

Saudades da Letras.

Videogame.

February 14, 2018 § Leave a comment

Ano retrasado comprei um Playstation 4.

Depois de década afastado dos consoles (meu último foi um Nintendo 64), resolvi voltar a jogar. Como dito por um amigo, é mais barato que bar ou mulher.

De lá pra cá eu joguei poucos jogos, mas com intensidade. Basicamente, passeei por Fallout 4, Metal Gear Solid V e Witcher III.

O que mais chamou minha atenção (e me agrada na atual fase dos jogos) é o peso que a história e os personagens têm nos jogos. O desenvolvimento dos personagens ganhou laivos estilísticos de literatura. Mais de uma vez eu me peguei torcendo por um determinado personagem e até mesmo desenvolvi um certo afeto. Notoriamente por alguns dos Robôs em Fallout 4, o que gerou uma reflexão interessante (e esse post, dur).

Tema central de Blade Runner é o que nos torna humanos. Se eu tenho uma máquina que possui recordações, uma história e até mesmo livre arbítrio (tanto quanto nós temos – pausa pra discórdia, fim da pausa pra discórdia), podemos falar que ela ainda é uma máquina? Ou estamos diante de algo humano ou aproximado à humanidade? Robôs sonham com ovelhas elétricas?

Por outro lado, nos referidos jogos, não estamos falando nem de uma efetiva inteligência artificial: é uma imitação artística do que seria uma inteligência artificial. Um faz de conta, assim como Romeu, Julieta, Hamlet, Riobaldo, Dom Casmurro, etc. É uma mentirinha, como toda arte.

Não nos relacionamos com os personagens, nos relacionamos com a projeção que fazemos sobre aqueles personagens.

A existência do Capitão Ironsides, Riobaldo, Deckard é mera projeção de expectativas nossas. Projetamos na nossa interpretação do mundo que aqueles seres (que não existem objetivamente) possuem uma consciência (que, efetivamente, não existe).

Nesse sentido, ao torcer por algum personagem (de videogame ou da arte) estamos inventando (com o auxílio do autor, claro) uma entidade. Estamos emprestando uma profundidade inventada para algo que é plano: possui apenas a face que o autor cria e nos mostra.

Discutir se Capitu traiu ou não Bentinho é um exemplo maravilhoso disso: o Autor apresentou a personagem, elocubrações a respeito disso são apenas fruto de uma projeção nossa a respeito de uma Ficção.

A ironia é que até segunda ordem, o mesmo princípio se aplica às pessoas também.

Nada prova que as pessoas com as quais nos relacionamos no dia a dia são mais conscientes ou humanas que um Nexus 6. Projetamos nelas a expectativa que temos de que elas existem, possuem consciência, desejos, vontade, história.

O Outro, também, é uma projeção nossa, construída com base mais ou menos compartilhada e exposta por ele.

Nós não nos relacionamos com pessoas. Nos relacionamos com as projeções que fazemos sobre essas pessoas.

Cai por terra a afirmação de Platão de que a Arte é uma imitação da Vida. A Vida é Arte. Uma obra de Arte em rascunho, sem tempo de passar a limpo, sim, mas Arte none the less.

Diante disso, do fato de que as pessoas com que nos relacionamos são humanas apenas na medida em que projetamos isso sobre elas, apenas uma pergunta deve ser feita:

Você está andando em um deserto e olha pra baixo. Você vê um jabuti andando. Você o pega e vira ele sobre o próprio casco. Ele está lá, se debatendo e com a barriga voltada para o sol. Se ficar assim, ele vai morrer. Mas você não o ajuda. Por quê você não o ajuda?

Manifesto Legeek.

February 7, 2018 § Leave a comment

O Anarcoblog, abrindo uma nova seção do site, passará a publicar os melhores trabalhos de storytelling e branding. Trata-se de realização de um sonho antigo: casar a literatura e a literatice com a atividade empresarial. Comecemos com a parceria que viabilizou tudo isso: Legeek Creative Studio.

Se por um breve momento do Céu você visse
A vida de todos que podem te ver,
E apenas uma palavra pudesse dizer,
O que você falaria?
E qual o valor de se fazer entender?

É mentira que pensamos usando palavras. Um mito propagado sem muita reflexão. Uma simplificação repetida e sem critério. Se essa mentira fosse verdade, recém-nascidos não pensariam, pois não possuem palavras. E sem ter como pensar, recém-nascidos não teriam nem como aprender a falar.

Pensamos por símbolos. Significantes que levam a significados. Sensações, sons e palavras. Sabores, texturas e emoções. Falamos com a língua, os olhos e a garganta. Argumentamos com sons, toques e cheiros.

Não existe mal-entendido, existe mal explicado. Não existem meias-palavras, existe a palavra manca de olhar, sem emoção, desprovida de tom sobre tom. Órfã de desejo e vontade.

A mensagem é o dito junto ao sentido. Se pudéssemos comungar com quem falamos, se pudéssemos falar com formas e cores, se pudéssemos nos expressar com sons e perfumes, com a voz e os sentimentos, com a temperatura e a textura, diríamos tudo o que somos e seríamos compreendidos. Mas há um mar de espaço vazio separando as ilhas que somos.

Se conectar é construir.

Engenheiros usam concreto armado e cabos de aço. Nós transformamos você em mensagem. A comunicação não acontece por acaso. A mensagem não se transmite sem querer. Ninguém compõe uma sinfonia caminhando pela rua e escorregando numa poça d’água.

Não se engane: acreditar que a comunicação não precisa de preparo é como dispensar o médico e o exame do pré-natal. É possível prosperar por acidente, mas essa é a exceção, não a regra. E não temos tempo para o aprendizado por tentativa-e-erro.

Nossa missão é ajudar as ideias a nascer. Dar Forma aos Anseios. Dar Vida às Formas. Somos Engenheiros de Sonhos. Fazemos a síntese do passado, presente e futuro em um único ponto carregado de vida, uma pequena semente, uma semente feita dos seus sonhos, planos e ambições, que traz a essência de quem você foi, é e vai ser. Uma semente que será entregue a cada um que te ver, ouvir e escutar. Que dará ao mundo todo a possibilidade de te conhecer.

Escolha com cuidado. É apenas uma semente pra cada. E você quer vê-la nascer.