La Petite Mort.

April 18, 2015 § 2 Comments

De Cruzeiro para São Paulo (e vice-versa), 17 de abril de 2015.

Caro Irmão de Armas,
Boa Noite.

“Ka Mate, Ka Mate, Ka Ora.”
“Morrer, Morrer, é Viver.”

Sei que, novamente, soa estranho qualquer espécie de saudação que sugira um período do dia (ou da noite) em uma carta aberta que, obviamente, permanecerá exposta ao escrutínio público nas mais diversas horas do dia ou da noite. Distração da minha parte, talvez pensem. Preocupação irrelevante, talvez você me critique. No entanto, devo deixar explícito: é noite, mas o Sol brilha.

Peço perdão pela vaguidão específica de tal afirmação, posto que a antítese demanda uma síntese, no caso, entre literalidade e metáfora. Seria Noite lá fora e Dia em mim? O contrário? A noite seria uma metáfora para a introspecção e o Sol para a vitalidade? O explícito da resposta tornaria essa missiva deveras menos interessante, de forma que me furtarei a tal explicação.

E me dou ao direito de não explicá-la pois esta carta esta prenhe de explicações. Talvez seja essa a grande função das cartas: explicar uma história a alguém.

E as explicações que acho que devo dizem respeito à quase morte deste blog.

Há meses não escrevo e, se escrevi, não escrevi com constância. A explicação que me sinto compelido a dar é que minha vida anda mais confusa que o Leste Europeu.

Resolvi que esse ano, depois de um breve momento de preparo e silêncio, eu assumiria as aulas de redação propostas por um grande amigo em Cruzeiro. Isso me rende 600 km de estrada por semana, dez horas de aulas na segunda-feira e uma rotina ainda mais atribulada. Paralelamente a isso, peguei mais matérias do que nunca na Faculdade e todos os demais projetos ainda estão vivos. Da Astrologia à produção de Roteiros. Uns mais vivos. Outros menos.

Essa explicação, no entanto, seria meia verdade. E como toda meia verdade, é igualmente uma meia mentira. A verdade inteira é que o Blog está morrendo porque eu estou morrendo.

Peço deesculpas pela pausa dramática, mas ela se fez necessária. Não pense de forma literal, como se fosse afligido por alguma doença sem cura. Nem pense que é de forma metafórica, tal qual toda mudança é uma espécie de morte. É algo mais literal, mas menos dramático.

Efetivamente, a rotina à qual me submeti é desgastante. Seiscentos quilômetros de estrada. Pouco sono. Pouco tempo. Muito trabalho. Tais flagelos impõe-se com um extremo catabolismo em mim. Estou cansado, desgastado e sem tempo. Uma semana caí doente. Noutras quase caí, mas me recuperei. Minha gargante sofre com dez horas de aula non stop. E me ausento do convívio dos meus entes queridos.

Trata-se de um efetivo desgaste físico. Nisso posso afirmar claramente, estou me matando um pouco todas as vezes que vou para lá.

No entanto, um efeito colateral se fez presente. Paradoxalmente ao desgaste, um sem precedente nível de vitalidade se fez presente. De onde concluo: Eu me sinto mais vivo quando estou me desgastando.

Sim, eu sei que parece paradoxal. Mas digo mais ainda: tal paradoxo é que impediu a percepção prévia de tal fato.

Durante os anos de treinamentos de artes marciais me senti mais vivo quanto mais desgastado.

Durante a faculdade, me senti mais vivo quanto mais desgastado.

Durante o Rugby costumávamos dizer que a melhor cerveja é a que vem depois de um jogo desgastante.

Por isso, inclusive, me lembrei do vídeo que encabeça esta carta. O Haka Maori. A Dança Maori.

À época, quando primeiro vi o vídeo, me questionei sobre o significado dos versos de abertura: “Morrer é Viver” ou “A Morte é a Vida”. Isso não fazia sentido. Tratei, portanto, em minha prepotência, de reinterpretar: O poeta deve ter querido dizer “Matar é Viver”. Faz sentido, afinal, é uma dança de guerra. Os selvagens querem apenas matar seus inimigo. É disso que a canção falou pra mim por tantos anos.

Tal conclusão hoje me envergonha. Primeiramente, por quebrar a primeira regra da interpretação de texto: se o autor quis dizer, por que não disse? E, em um segundo momento, por ter incorrido tão prontamente em um pecado mortal: recortar o mundo para que ele coubesse em mim ao invés de me abrir para o que o mundo pudesse me ensinar.

Hoje tudo parece tão óbvio, como num caleidoscópio de ideias: Morrer é viver, pois é se desgastando que se vive, é morrendo que se vive, tal qual uma vela que se consome enquanto queima. A busca de uma vida carregada de sentido é a busca de uma morte carregada de sentido. Esse é o símbolo do Cristo Crucificado, essa é a admiração que devemos ter: encontrar aquilo pelo qual vale à pena morrer e, por isso, se desgastar.

Obviamente (e por que não dizer, tristemente) as coisas não se resolvem com o encontro dessa verdade. Deus é aquele que está sendo. E nós somos sua imagem e semelhança. Estamos em constante movimento e a verdade de amanhã (muito provavelmente) não será a verdade de hoje.

No entanto, o mundo não muda. O mundo munda. E essa é a sensação que eu queria explicar, que eu queria compartilhar com você: a certeza carregada de sentido que a felicidade não se encontra no anabolismo, mas no catabolismo. Que a Felicidade é território do Sol, sim, pois ele sangra luz por todos os poros, mas também é de Saturno,  velho homem que carrega a foice. E, por que não dizer? Até mesmo de Júpiter, que doa mais energia do que recebe.

A morte em si não é felicidade, posto que isso seria mero fetichismo de fuga. Mero escape da mais assustadora responsabilidade que é criar uma alma: estamos morrendo o tempo todo. Se não direcionarmos nossas mortes, é perigoso que elas se tornem um sacrifício no altar errado. Cuidado. Como a estrada me disse: Anos e anos na correria faz leva e traz.

O catabolismo, bem direcionado, intenso e inteligente não destrói. Constrói. Seu corpo diz isso para você quando você treina. Você deveria ouvir o que ele lhe diz. Pois essa é a morte que constrói.

Talvez, por isso, em francês, orgasmo se diga “a pequena morte”.

Abraços de Guerra,
Anarcoplayba.

Quinze de Março.

March 16, 2015 § Leave a comment

Aparentemente hoje foi um bom dia para ficar quatro horas na estrada.

Eu deveria fazer um grande post. Explicitar mais uma vez o meu partido, meu lado e minhas opiniões. Tirar o cu de cima do muro de uma pretensa imparcialidade.

Mas eu estou muito velho, muito cansado e muito cego. Viajei muito para chegar até aqui, literal e metaforicamente. E quero dizer apenas duas coisas:

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam o país inteiro num puteiro pois assim se ganha mais dinheiro. A sua piscina tá cheia de ratos, suas ideias não correspondem aos fatos. O tempo não para. Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para.

E que eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais. Longe o profeta do terror que a Laranja Mecânica anuncia, amar e mudar as coisas me interessa mais.

Meu Arco.

March 13, 2015 § 1 Comment

Este é o meu arco. Existem muitos como ele. Mas este é o MEU arco. Ele é o meu melhor amigo. É a minha vida. Eu devo ter maestria sobre o meu arco assim como eu devo ter maestria sobre a minha vida. E eu vou.

***

É meio tosco começar um texto com uma mera paráfrase de “Meu Rifle”, mas é pertinente. Chegou hoje o meu arco. O primeiro arco que eu comprei (o outro foi herança de um projeto do meu tio). É simplesinho, coitado. Feito por um chinês, pago em dólares australianos e enviado por airmail. Taxado em cinquenta reais (o valor declarado era de vinte dólares) e feito em madeira, fibra de vidro e couro, ele não tem nada de mais.

Exceto que a tração dele é de oitenta libras. A maior tração de arcos comerciais modernos.

Oitenta libras é algo próximo a trinta e cinco quilos.

Para eu conseguir atirar com esse arco, precisarei segurar trinta e cinco quilos em uma corda em três dedos. É bastante, mas é o meu arco. E eu tenho que dominá-lo.

***

Acho que o feito físico mais impressionante que eu já fiz foi levantar noventa quilos em um braço.

Pra um culturista isso não é nada.

Eu estava descendo uma cachoeira com um amigo. Precisávamos pular sobre um vão. Passei primeiro, dei a mão para ele pular. Ele escorregou e eu o segurei. Com uma mão o levantei até a pedra. Não era um vão muito alto. Dois metros até a água, no máximo. Tinha correnteza, mas não tinha muitas pedras. Ele não ia morrer. Acho.

Foi fácil. Provavelmente porque foi o peso mais importante que eu já segurei.

***

Uma vez estávamos numa estrada e o rio lateral transbordou. O carro começou a ser arrastado. Saí do carro para evitar que ele fosse arrastado. Segurei ele na correnteza. Não foi tão difícil também. A correnteza não estava tão forte assim. Mas tinha gente no carro que não sabia nadar. Então não tínhamos muita opção.

Deve ter sido o maior peso que eu já empurrei.

***

Em um torneio de Karatê, que eu estava perdendo vergonhosamente, o adversário resolveu que ia ser uma boa ideia tirar um sarrinho da minha cara na luta.

Não foi.

Decidido a ser desclassificado, coloquei toda a força em um chute só. Acertou no meio do peito dele. Ele voou na terceira fileira da arquibancada. Uns cinco metros pra longe de onde eu chutei ele. Bem longe. Eu diria que nunca chutei com tanta força, mas eu não chutei com a perna. Chutei com o ódio.

***

Já carreguei quatro caixões. Do primeiro amor, do pai, da avó e do pai de um irmão.

É pesado. Muito pesado. Mas não foi sofrido. Prefiro que se alguém tiver que carregar um caixão, esse alguém seja eu. Sempre que possível, espero poder tirar esse peso (literal e metafórico) dos ombros das pessoas que eu amo.

Por isso que vou me esforçar para enterrar todos vocês. Espero ser o último a ser enterrado (ou morrer tentando). Porque ninguém deveria ter que enterrar alguém que ama. Então espero livrar vocês disso.

***

Meu arco tem uma tensão de oitenta libras. Trinta e cinco quilos. Pra segurar em três dedos, tracionar nas costas e controlar nos braços.

É fácil. Mais fácil que ter a cabeça erguida.

Só preciso de um motivo.

Ano Novo.

February 8, 2015 § Leave a comment

Minha resoluções de ano novo, historicamente, tendem a dar certo.

Obviamente isso não significa que o ano novo tenha algo especial que faça minhas resoluções darem certo. O ano novo é uma data como outra qualquer, sem nada de especial senão o sentido que se escolheu impor. É tão arbitrário, mas tão arbitrário, que a cada quatro anos enfiam um dia a mais no ano pra corrigir e não foder a paçoca de vez.

O ano novo astrológico, os solstícios e equinócios (que marcam as estações) são datas reais. Você olha pro mundo e elas existem. Hoje é o dia mais longo do ano, a noite mais longa, ou um dos dois dias em que ambos duram o mesmo. Isso faz sentido. Uma mudança de calendário não. Mas ainda assim minhas resoluções de ano novo, historicamente, funcionam.

***

Óbvio que  minhas resoluções não são coisas facilmente inferíveis. Raramente são coisas do tipo “perder cinco quilos”, “trocar de carro”, “conhecer a Suazilândia”, “arranjar uma namorada” ou coisa que o valha. Me parece um desperdício de resoluções.

Temos tão poucos anos pra resolver. Até agora, eu tive trinta e dois. Desses trinta e dois, só desde 2008 eu venho fazendo resoluções de ano novo. É muito pouca coisa. Muito pouco tempo. Ainda tenho que viver em paz, olhar a face de deus, reverenciar o olho de fogo do sol, construir um castelo na lua, dançar tango com a deusa de cabelos de cobre, bater lâminas com o Deus que se rejubila no sangue dos derrotados e contemplar a extensão do reino daquele que vê mais longe.

É muita coisa pra gastar como algo que um mortal consegue. Se é pra ambicionar, que seja algo fora da esfera humana. A Paz de deus, a paixão de Vênus ou a emoção da Lua. Qualquer coisa nesse sentido. Uma boa resolução de ano novo seria virar Shazam: A sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio.

Mas infelizmente não vivemos na época em que gigantes caminham sobre a Terra. Isso foi privilégio de Homero. Talvez tenhamos que nos contentar com a calma dos monges, a sorte dos irlandeses e a ira dos Anarquistas.

***

Como regra de polegar (algo muito mais legal que rule of thumb), me falaram que um bom começo é pensar no seu leito de morte. O que é aquilo que você quer conquistar pra essa vida. Algo que, se amanhã você batesse o carro e ficasse preso nas ferragens sem ninguém por perto, nesses últimos segundo, lhe fizesse sorrir e pensar “encontrei a paz”, “amei ao próximo”, “ajudei meu semelhante”, “mudei”, “contei uma história bela”. Qualquer coisa nesse sentido.

Isso vai colocar as coisas em perspectiva. No leito de morte não rola pensar que “esperavam de mim que”, “ética não era esperado de mim no momento” ou “ninguém nunca vai saber que”. Leito de morte é tenso. É você com você mesmo. Talvez por isso que o último verso (sim, verso é uma palavra apropriada) do “Pai Nosso” seja “agora e na hora de nossa morte”. Na hora da morte a única coisa que se sabe é que a vida passa diante dos olhos.

Que nós não nos envergonhemos de pedidos pequenos.

***

Obviamente, “pequeno” é questão de perspectiva. Perder cinco quilos pode ser questão de vaidade ou retomar o império sobre o próprio corpo. Ser o melhor da sua área pode ser vaidade ou ultrapassar um limite supostamente impossível.

“Impossível é uma grande palavra usada por gente pequena pra viver no mundo em que está ao invés de mudá-lo” e blábláblá.

Perdoar pra uns é natural, pra outros é uma violência. Acordar às seis da matina é um sacrifício ou um prazer. Não comer o pudim é um esforço intangível ou uma decisão simples. Varia. Que bom. Sócrates já falava que Deus dá a rola conforme o cu. Ou coisa parecida. Ou foi outra pessoa. Whatever.

***

O fato é que, graças sejam dadas, os desafios existem e são superáveis. Uma meta por vez. De inverno em inverno. A gente vai melhorando.

É tão bom que eu estou cogitando começar a incluir outros anos novos no meu calendário.

Tem o civil, o chinês, o astrológico, o celta, o judeu e o civil de novo. Cinco. Cinco resoluções. Imagina o quanto melhor pode ser uma pessoa com cinco resoluções por ano? Muito melhor. E com a chance de escolher uma por vez pelos meses que se seguirão. É pra ter esperança. Quase como ter várias mortes pra refletir sobre. Só que sem aquela coisa chata de morrer de verdade e tal.

Cinco objetivos pra atingir. Mesmo que pra descobrir que eles eram parciais, pequenos, egoístas e mesquinhos.

Porque o bom de alcançar um objetivo pequeno é descobrir que ele é pequeno.

O Castelo na Lua.

January 16, 2015 § Leave a comment

Dizem que na Lua existe um castelo.

Chegar nele é fácil. Saia da planície de Manilus, ande pela estrada que separa o Mar da Tranquilidade e o Mar da Serenidade, vire à esquerda e siga até o Lacus Somniorum, o lago dos sonhos.

No lago dos sonhos peça para os cisnes brancos ou negros te levarem até o Castelo do Lago dos Sonhos. Mas cuidado: um deles fala a verdade, outro mente. E não adianta tentar usar a solução clássica desse problema porque, às vezes, o que fala a verdade mente e o que mente fala a verdade. E se você disser que isso é injusto, eles rirão da sua cara e dirão que a Lua não é lugar de justiça, e eles não tem nenhum compromisso nem com a verdade e nem como a certeza.

Mas supondo que você saiba distinguir a verdade da mentira e escolher a indicação correta, você caminhará até o Castelo do Lago dos Sonhos. Melhor, você correrá até o castelo, mas não será o único. Por uma ilusão de ótica, você vai achar que ele está muito mais perto do que de fato está, e, ansioso, correrá. Ironicamente, no entanto, correndo ou andando, você chegará no momento correto. Alguns psicólogos dirão que isso é um efeito da percepção do tempo em um momento de ansiedade. Os cientistas dirão que é um efeito da difração da luz. Alguns poetas dirão que o castelo te esperaria mais tempo. Mas,novamente,  assim como nos cisnes, é melhor você saber distinguir a verdade da mentira.

Na porta do Castelo há um Grifo e um Dragão. É muito importante que você não ouça o que eles dizem. Via de regra eles falam sobre o tempo, mas com frequência começam a discutir sobre notícias, política, futebol e escândalos. Muito provavelmente eles brigarão sem parar e você não receberá informação alguma deles. Talvez eles te mostrem uma selfie em Cancún, uma foto amamentando um Leão, beijando um golfinho ou outra coisa fútil. Apenas ignore.

Você então parará perante a porta e poderia jurar que ela é feita de alabastro. Mas isso seria falso. Você não conhece alabastro. Provavelmente ninguém que você conhece conhece alabastro e provavelmente você precisaria de mais do que seis conhecidos-de-conhecidos para encontrar alguém que conhece alabastro. É uma palavra perdida nos livros, fadada a ser esquecida, como tantas outras.

Então você pensará em bater à porta. E se questionará porquê. Há a necessidade de adentrar assim? Por que não beijá-la? Acariciá-la? Talvez conversar com ela, perguntar se ela conhece alguém que conhece alabastro ou outra coisa para quebrar o gelo. Com o tempo ela se abrirá e você entrará. Talvez você se sinta constrangido de deixá-la para trás, afinal, não se cruza duas vezes o portão do Castelo da Lua, mas não se sinta. Ela não guarda rancores.

Você deixará os cisnes para trás, os que falam verdades e mentiras, os guardiões do castelo, que falam futilidades, e a porta, que nada disse, e talvez seja de quem você sinta mais saudades, e então você entrará no salão de festas, e se sentirá triste por não ter festa alguma. Talvez você pergunte onde estão as pessoas, mas suas perguntas não terão resposta. Aqui é a Lua, não um lugar de respostas.

Sem respostas para suas perguntas, você continuará em frente, rezando para que algo aconteça e desejando para que o que acontecer seja bom. Tudo isso é irrelevante. Aqui não é lugar de orações nem de desejos. Você encontrará uma sala com dois tronos. Nele não estão sentados nem um Rei e nem uma Rainha. Há muito esse castelo não tem nem Rei e nem Rainha. Dizem que se o Eclipse do Sol cair num domingo você pode encontrar os legítimos Regentes. Mas faz tanto tempo que isso não acontece que ninguém se lembra mais e, se acontecer, talvez os confundam com mais um funcionário ou outro turista, o que seria verdade, fosse a Lua um lugar de verdades.

Esse é o Salão dos Segredos e Mistérios. Em um dos tronos senta um dos guardiões. No outro o outro. Você perguntará qual é qual. Um não responderá, outro lhe perguntará qual a diferença. De qualquer forma, ambos responderam. Talvez você peça um mistério. Talvez você peça um segredo. E você receberá. Mas não saberá se é um mistério ou um segredo. Temendo se trate de um segredo, não perguntará a ninguém o mistério. Acreditando ser um mistério, perderá um segredo. Guarde silêncio. O tempo das palavras ficou na porta. E por isso você sentirá saudades da porta.

Carregando seu segredo nas mãos, você encontrará vários espelhos. E eles rirão de você. Isso é injusto, mas aqui não é local de justiça. É local de espelhos. Não se apegue a eles. Espelhos mostram você e o que fica atrás de você. Uma dessas coisas vai mudar, a outra não. E é muito perigoso trocar uma pela outra.

Tão logo você pare de se importar com os espelho (você não deveria nem ter começado), você será conduzido ao quarto de hóspedes, mas não poderá dormir nele. Quando você perguntar por quê, não receberá resposta. Talvez você se pergunte se isso é mais um mistério ou mais um segredo. Mas, novamente, você ficará sem respostas. Não se questione se a falta de respostas é um novo mistério ou segredo. O tempo é curto e o paradoxo de Zenão há muito foi resolvido.

Se você não tiver mais dúvidas, você sairá do quarto. Se você ainda tiver dúvidas, andar lhe ajudará a pensar e você sairá do quarto onde não pode dormir. A primeira porta que você encontrar lhe levará à saída. As demais também, mas você parará de procurar na primeira. Você sairá pelo lado escuro do castelo, no lado escuro da lua. De lá você não tirará nem mistérios e nem segredos, mas talvez relembre toda a viagem inúmeras vezes, sem sequer se atentar para o mais importante.

Se cada um fizer o seu…

January 14, 2015 § 4 Comments

Vamos ver se eu consigo escrever sobre isso de forma mais positiva agora.

Recentemente escrevi um texto falando sobre “A Cervejinha do Guarda”.

De forma resumida, a questão é bem simples: para conviver em paz, precisamos da colaboração de todos. Para um assassinato, precisamos de apenas um assassino.

O poder de destruir é muito maior que o de construir. Construção exige cuidado, carinho, atenção, percepção. Não à toa os reis da Grécia Antiga traçavam sua linhagem até Júpiter, não a Saturno.

Some-se a isso o fato de que os players (peço desculpas pelo uso da terminologia de Teoria dos Jogos, mas é apropriada) possuem assimetria de recursos. A Coca-Cola polui muito mais do que você. Muito mais até mesmo que todos os funcionários da Coca-Cola juntos em suas casas. E não interessa quantas árvores você plante, você nunca vai recuperar a área de floresta desmatada pela Kátia Abreu.

O resultado, portanto, é muito simples: Não interessa o quanto cada um é honesto, justo, temente a deus, bom pai, separa o lixo reciclável e o caralho à quatro. Você precisa de UM madeireiro pra foder todos os esforços da sua tarde linda plantando mudinhas no Ibirapuera. Não interessa o quanto o seu prédio separe o lixo, você nunca vai reverter o estrago do inventor do DDT.

Se cada um fizer o seu, cuidar da sua casa, da sua vida, não jogar lixo na rua e respeitar as leis o mundo vai ficar exatamente assim: a bosta que está, já que o fdp que não faz o seu não se contenta apenas em se omitir, mas ainda fode a paçoca.

Ok, Le maison ces’t tombé, não tem mais o que fazer, vamos sentar na frente do PC colecionando likes nos status que compartilhamos enquanto o mundo queima. A humanidade deu errado, que venham as baratas.

Porém, ainda há uma esperança. A assimetria de recursos vale pros dois lados. A Coca-Cola polui mais que todos os seus funcionários juntos. Mas o Bill Gates já doou mais para fins humanitários que qualquer pessoa na história da humanidade. E temos condições de pensar o altruísmo de forma eficiente. Mas pra isso temos que assumir uma postura diferente: não é fazer o seu, é fazer mais do que o seu. Fazer por quem não faz. Fazer o seu máximo possível.

E é aí que a coisa fode.

Fazer o seu melhor, o seu máximo, exige uma bela dose de auto-conhecimento e auto-crítica. Não é o que se quer, é o que se pode. E talvez mais. Dar as moedinhas do console do carro não é grande coisa pra quem ganha mais de R$ 5.000,00 por mês.

Além disso, quanto tempo e dinheiro gastamos com futilidades? O que realmente precisamos? Será que aquilo que tomamos do mundo está sendo passado adiante, de forma mais inteligente e mais consciente?

E por fim, fazer mais que o seu envolve, muitas vezes, romper com o lugar comum. Peter Singer, no vídeo acima, menciona um garoto que pensou em ser médico sanitarista para salvar vidas. Mas depois ele descobriu que trabalhando num banco de investimento poderia doar o suficiente para contratar quatro médicos sanitaristas no meio da África. E fez isso. Médico = profissional bonzinho que salva vidas. Agente Financeiro = filhodaputa cocainômalo que ganha dinheiro especulando. Agente Financeiro que ganha dinheiro especulando e paga meia dúzia de médicos para salvar vidas = um soco na boca do estômago dos estereótipos simplistas.

Se cada um fizer o seu, o mundo vai ficar assim, essa bosta que está. Mas se quem estiver disposto fizer mais do que o seu, talvez ainda haja uma esperança para a humanidade.

Ou melhor, se cada um fizer mais do que o seu, talvez tenhamos uma humanidade.

 

 

O que nos tornaremos.

December 31, 2014 § Leave a comment

“Eu acreditava que eu seria enterrado a cem metros de onde nasci.”
“E agora?”
“Agora eu estou em Jerusalém e olho para um Rei.”

Último post do ano. Último post de 2014.

Recentemente, conversando com um grande amigo, ele me lembrou do Reveillon de 2004, um ano que deixou um gosto de rola na boca. E pontuou (acertadamente) que dali em diante, as picas não deixaram de acontecer. Grandes amigos morreram e foram enterrados. Grandes amigos morreram por dentro e ainda andam por aí, mortos-vivos, vivendo de ideais alheios, caminhando em busca do conteúdo da cabeça de alguém para se nutrirem, apodrecendo aos poucos. Zumbis. Nossas contas bancárias não alcançaram os objetivos que tínhamos aos dezessete. E efetivamente as ambições não encontraram a realidade.

E, para ser sincero, vi muita gente se ferrando também. Tomando pedrada atrás de pedrada. Vendo algumas pedradas que aconteceram eu começo a entender porque a lapidação era uma pena de morte tão extrema na Bíblia (e ainda é em algumas nações muçulmanas). É pedaço do mundo sendo jogado na sua cara. E de vez em quando dói ter pedaço do mundo sendo jogado na sua cara.

O pior é que a “maré ruim” deu poucas mostras de mudanças. Especialmente no macro: vivemos a maior seca de quase cem anos. Grosseiramente causada pelas nossas picanhas criadas na floresta amazônica. E obviamente não somos muito competentes para usar nossos recursos. Ou os governantes que elegemos não são muito competentes para isso. Nada me convence de que “as coisas vão mudar”. Quer dizer, que as coisas vão “se” resolver. Pra falar a verdade, parece que a (falta de) água vai mesmo bater na bunda.

E acompanhando, em geral e na média, os esforços e sofrimentos de pessoas razoavelmente próximas a mim, fui surpreendido com notícias de uma velha amiga de faculdade, que em meio a problemas de saúde aparentemente sérios (preferi ser discreto e não questionar detalhes) conseguiu perder cerca de dezesseis quilos em coisa de quatro meses. Gente que ficou doente de verdade e se curou. Gente com inúmeras dificuldades e que se superou. Gente sendo, well, gente.

Dizem que os Deuses invejam os mortais por isso: Só os mortais podem se tornar mais do que são.

Obviamente, por um lado, isso é uma vitória estúpida. Se orgulhar de sobreviver a uma doença é tipo se orgulhar de ser atingido por um raio e sobreviver. Não seria melhor não ser atingido pela porra do raio, pra começar?

Mas raios acontecem. Merda acontece. Acontece doença, acontece acidente de trânsito, acontece assalto, acontece bala perdida, acontece carga tributária escorchante. Na melhor das hipóteses, você morre dormindo sem dor. Mas sabendo que o melhor que podemos esperar do final é que uma boa morte venha coroar uma boa vida, as perspectivas ficam, no mínimo, tétricas. E isso pede uma mudança de paradigmas.

Se as tragédias ocorrerão, se elas levarão entes queridos e cobrarão um preço bem caro na conta-corrente da felicidade, torcer para que tragédias não ocorram é estúpido. Torcer para passar pelas tragédias de forma harmônica e bela sim é um ideal.

Que as tragédias ocorram, mas que sejamos maiores que elas.

Que sejamos agredidos, mas não percamos a paz.

Que sejamos derrotados, mas não nos sintamos derrotados.

Que nos desgastemos, mas não percamos a vitalidade.

Que os anos continuem vindo, bons ou maus, mas que não esqueçamos que é uma época linda para se estar vivo.

Que não sejamos nunca arrebatados indefinidamente pelo esquecimento, mas reconheçamos e lembremos por onde andamos, e sejamos capazes de encontrar novos caminhos.

Que sejamos compreensivos com nosso passado.

Que acreditemos sermos capazes de triunfar.

E que nos tornemos mais do que que somos.

Pois as veredas por onde corremos diz o que fomos. Aquilo que cremos o que nos tornaremos.

  • Lick it!

  • Pios

    Error: Twitter did not respond. Please wait a few minutes and refresh this page.

  • Recent Comments

    Anarcoplayba on La Petite Mort.
    Lívia Ludovico on La Petite Mort.
    Gueixa on Meu Arco.
    Anarcoplayba on Se cada um fizer o seu…
    Anonymous on Se cada um fizer o seu…
  • Categorias

  • Archives

  • Inscreva-se para receber atualizações de post por e-mail.

    Join 300 other followers

  • Meta

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 300 other followers