Videogame.

February 14, 2018 § Leave a comment

Ano retrasado comprei um Playstation 4.

Depois de década afastado dos consoles (meu último foi um Nintendo 64), resolvi voltar a jogar. Como dito por um amigo, é mais barato que bar ou mulher.

De lá pra cá eu joguei poucos jogos, mas com intensidade. Basicamente, passeei por Fallout 4, Metal Gear Solid V e Witcher III.

O que mais chamou minha atenção (e me agrada na atual fase dos jogos) é o peso que a história e os personagens têm nos jogos. O desenvolvimento dos personagens ganhou laivos estilísticos de literatura. Mais de uma vez eu me peguei torcendo por um determinado personagem e até mesmo desenvolvi um certo afeto. Notoriamente por alguns dos Robôs em Fallout 4, o que gerou uma reflexão interessante (e esse post, dur).

Tema central de Blade Runner é o que nos torna humanos. Se eu tenho uma máquina que possui recordações, uma história e até mesmo livre arbítrio (tanto quanto nós temos – pausa pra discórdia, fim da pausa pra discórdia), podemos falar que ela ainda é uma máquina? Ou estamos diante de algo humano ou aproximado à humanidade? Robôs sonham com ovelhas elétricas?

Por outro lado, nos referidos jogos, não estamos falando nem de uma efetiva inteligência artificial: é uma imitação artística do que seria uma inteligência artificial. Um faz de conta, assim como Romeu, Julieta, Hamlet, Riobaldo, Dom Casmurro, etc. É uma mentirinha, como toda arte.

Não nos relacionamos com os personagens, nos relacionamos com a projeção que fazemos sobre aqueles personagens.

A existência do Capitão Ironsides, Riobaldo, Deckard é mera projeção de expectativas nossas. Projetamos na nossa interpretação do mundo que aqueles seres (que não existem objetivamente) possuem uma consciência (que, efetivamente, não existe).

Nesse sentido, ao torcer por algum personagem (de videogame ou da arte) estamos inventando (com o auxílio do autor, claro) uma entidade. Estamos emprestando uma profundidade inventada para algo que é plano: possui apenas a face que o autor cria e nos mostra.

Discutir se Capitu traiu ou não Bentinho é um exemplo maravilhoso disso: o Autor apresentou a personagem, elocubrações a respeito disso são apenas fruto de uma projeção nossa a respeito de uma Ficção.

A ironia é que até segunda ordem, o mesmo princípio se aplica às pessoas também.

Nada prova que as pessoas com as quais nos relacionamos no dia a dia são mais conscientes ou humanas que um Nexus 6. Projetamos nelas a expectativa que temos de que elas existem, possuem consciência, desejos, vontade, história.

O Outro, também, é uma projeção nossa, construída com base mais ou menos compartilhada e exposta por ele.

Nós não nos relacionamos com pessoas. Nos relacionamos com as projeções que fazemos sobre essas pessoas.

Cai por terra a afirmação de Platão de que a Arte é uma imitação da Vida. A Vida é Arte. Uma obra de Arte em rascunho, sem tempo de passar a limpo, sim, mas Arte none the less.

Diante disso, do fato de que as pessoas com que nos relacionamos são humanas apenas na medida em que projetamos isso sobre elas, apenas uma pergunta deve ser feita:

Você está andando em um deserto e olha pra baixo. Você vê um jabuti andando. Você o pega e vira ele sobre o próprio casco. Ele está lá, se debatendo e com a barriga voltada para o sol. Se ficar assim, ele vai morrer. Mas você não o ajuda. Por quê você não o ajuda?

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Manifesto Legeek.

February 7, 2018 § Leave a comment

O Anarcoblog, abrindo uma nova seção do site, passará a publicar os melhores trabalhos de storytelling e branding. Trata-se de realização de um sonho antigo: casar a literatura e a literatice com a atividade empresarial. Comecemos com a parceria que viabilizou tudo isso: Legeek Creative Studio.

Se por um breve momento do Céu você visse
A vida de todos que podem te ver,
E apenas uma palavra pudesse dizer,
O que você falaria?
E qual o valor de se fazer entender?

É mentira que pensamos usando palavras. Um mito propagado sem muita reflexão. Uma simplificação repetida e sem critério. Se essa mentira fosse verdade, recém-nascidos não pensariam, pois não possuem palavras. E sem ter como pensar, recém-nascidos não teriam nem como aprender a falar.

Pensamos por símbolos. Significantes que levam a significados. Sensações, sons e palavras. Sabores, texturas e emoções. Falamos com a língua, os olhos e a garganta. Argumentamos com sons, toques e cheiros.

Não existe mal-entendido, existe mal explicado. Não existem meias-palavras, existe a palavra manca de olhar, sem emoção, desprovida de tom sobre tom. Órfã de desejo e vontade.

A mensagem é o dito junto ao sentido. Se pudéssemos comungar com quem falamos, se pudéssemos falar com formas e cores, se pudéssemos nos expressar com sons e perfumes, com a voz e os sentimentos, com a temperatura e a textura, diríamos tudo o que somos e seríamos compreendidos. Mas há um mar de espaço vazio separando as ilhas que somos.

Se conectar é construir.

Engenheiros usam concreto armado e cabos de aço. Nós transformamos você em mensagem. A comunicação não acontece por acaso. A mensagem não se transmite sem querer. Ninguém compõe uma sinfonia caminhando pela rua e escorregando numa poça d’água.

Não se engane: acreditar que a comunicação não precisa de preparo é como dispensar o médico e o exame do pré-natal. É possível prosperar por acidente, mas essa é a exceção, não a regra. E não temos tempo para o aprendizado por tentativa-e-erro.

Nossa missão é ajudar as ideias a nascer. Dar Forma aos Anseios. Dar Vida às Formas. Somos Engenheiros de Sonhos. Fazemos a síntese do passado, presente e futuro em um único ponto carregado de vida, uma pequena semente, uma semente feita dos seus sonhos, planos e ambições, que traz a essência de quem você foi, é e vai ser. Uma semente que será entregue a cada um que te ver, ouvir e escutar. Que dará ao mundo todo a possibilidade de te conhecer.

Escolha com cuidado. É apenas uma semente pra cada. E você quer vê-la nascer.

This is my Knife.

January 5, 2018 § 3 Comments

This is my knife.
There are many like it,

But this one is mine.
My knife is my best friend.
It is my life.
I must master my knife
As I must master my life.
And I will.

***

O Texto de hoje é sobre facas. Pra ser mais preciso, sobre uma faca em especial. Minha primeira faca. Não em propriedade, mas em criação.

À Esquerda a Faca 01. à Direita a Faca 00.

***

Meus experimentos com Cutelaria começaram cerca de três anos atrás. Infelizmente, se tanto, posso chamar isso de um hobby. Se tanto porque duas facas em três anos é ridiculamente pouco. Vida que segue: é uma diversão, não um trabalho.

A Faca 00 foi um balde de água fria. Todo o trabalho feito foi perdido em menos de um minuto:peguei uma talhadeira de pedreiro, tirei a têmpera, aqueci ao rubro, forjei, desbastei no esmeril, desbastei na lima, corrigi as imperfeições, poli, furei e, na hora do tratamento térmico, a faca derreteu na forja. Um ano e meio de trabalho perdido. Virou lixo. Serrei a parte queimada e guardei a adaga quebrada pra me lembrar desse fracasso.

Por muito tempo eu me esquivei da forja. Me senti incomodado com um erro tão primário. Mas, acabei voltando.

Na verdade, acho que esse foi um dos ensinamentos que eu vi na prática. Eu costumo falar, nas aulas de Astrologia, que essa história de “Virginiano é organizado”, “Escorpionino trepa bem”, “Capricórnio é ambicioso” é clichê. Ninguém, no meu entender, é bom em alguma coisa gratuitamente. O que existe é Amor, e aquilo que se ama você acaba fazendo bem porque gosta de fazer e quer que melhore. Eu amo trabalhos manuais, amo facas e amo cutelaria. Isso não significa que eu seja BOM nessas coisas. Mas significa que eu gosto. Portanto, vou melhorar nelas.

***

Outra coisa que essa faca me ensinou foi que eu estou muito acostumado a compensar falta de planejamento com esforço. Nenhuma das duas facas foram planejadas eu simplesmente “fui fazendo”. Isso implicou em alguns erros. Em alguns casos aparentes. Em outros não.

Just like my life.

***

Existe um prazer único em trabalhos manuais em geral e um prazer especial na cutelaria.

É algo único ser capaz de pegar materiais disponíveis no mundo e moldá-los de acordo com a própria vontade.

Encontrar um bom aço num ferro-velho, tirar o tratamento térmico na forja, cortar, desbastar, polir, afiar e, ao final, dar o tratamento térmico final.

A sensação é a de que você faz parte de uma linhagem de ferreiros de milênios atrás, testando, experimentando, descobrindo, fazendo algo que poucos seres humanos ousaram fazer. É um privilégio.

Além disso, existe o prazer de experimentar coisas que a gente “ouve falar”. O Ferro aquecido a rubro perde as propriedades magnéticas. A Faca temperada é mais dura. Metal ao rubro fica mole. Tantas coisas que a gente ouve falar. Que acredita. Mas não experimenta.

***

Admito que eu afirmei que a primeira faca foi um trabalho perdido para fins literários.

A primeira faca fracassou, mas eu não fracassei. Ela, inteira, foi um aprendizado de erros e acertos. Vocês não fazem ideia de como é difícil limar. Sim, lima. Coordenação motora, força, constância e ritmo. Muito tempo fazendo um trabalho muito repetitivo. Demanda uma paciência que eu não tenho. Ainda.

A Faca 00 foi uma experiência que me rendeu experiência. “Só”. A Faca 01 traz a Faca 00 dentro de si. Eu trago ambas dentro de mim.

Tente, erre, aprenda. Tente melhor, erre melhor, aprenda melhor.

***

Durante um tempo eu guardei os restos da Faca 00 como lembrança. Pra manter na mente que alguns cuidados devem ser tomados. Conheça suas ferramentas, mantenha a concentração, um deslize pode tudo a perder.

Hoje eu vejo que eu não preciso carregar esse cadáver para me lembrar disso. Existe uma linha tênue que separa o Rigor do Sadomasoquismo. Too many times I crossed it.

Posso deixar para trás esse erro (e junto com ele tantos outros). Talvez eu a dê para um rio, talvez eu a enterre no túmulo de minha família. Coerente de qualquer forma.

***

Anos atrás, num determinado ritual, numa determinada Ordem, recebemos a incumbência de “descer ao mundo dos mortos para encontrar dois filósofos caldeus e perguntar pra eles sobre um livro escrito por eles”. O que eu vi foram dois seres que me falaram que “o Livro foi fruto de uma vida inteira de trabalho e o menor de todos os resultados”. Minha interpretação é que o objetivo não é escrever um livro que sobreviva milênios, mas ser alguém que escreve um livro que sobrevive milênios.

Talvez eu tenha alucinado, talvez eu tenha inventado tudo isso, talvez eu tenha mesmo descido ao mundo dos mortos. De qualquer forma, se foi uma alucinação ou invenção, foi uma alucinação ou invenção sábia pra caralho e eu estou muito orgulhoso da minha capacidade de inventar e alucinar o que eu precisava ouvir.

Essa faquinha não será passada de pai pra filho. Não será uma herança de família. Não é grandiosa e nem perfeita. Mas é minha, feita por mim e traz a minha marca nela.

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Hobbies são uma questão complicada. Por um lado, eles tiram energia que poderia ser aplicada a outras coisas. Por outro, eles permitem um aprendizado diferente daquele que você teria normalmente.

Hoje eu tenho uma faca de combate. Eu não pretendo andar com ela por aí. Na verdade, ela já está no meu altar e não pretendo que ela saia de lá.

Eu não perdi horas fazendo uma faca. Eu gastei horas aprendendo a fazer uma faca. E hoje eu sou um ser humano que sabe mais do que sabia antes.

Hora de começar a faca 02.

Pergunte-se sempre o que Cristo faria…

December 30, 2017 § Leave a comment

… Mas lembre-se que enfiar o pé na porta, virar a mesa e descer a chibatada na galera é uma das possibilidades.

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Anton Szander Lavey é o fundador do Satanismo Moderno, uma filosofia que eu, particularmente abomino, conquanto reconheça ter certa beleza ácida.

Basicamente Lavey era um tocador de órgãos (o instrumento musical, não as pirocas) que tinha dois empregos: na igreja e no puteiro. O negócio ficou meio pesado quando ele viu que as pessoas que ouviam ele tocar na missa também ouviam ele tocar no puteiro (tocar no puteiro, não tocar o puteiro). Aí ele ficou emputecido (quanta putaria, meu deus) e resolveu criar uma religião pra zombar e atacar a hipocrisia católica.

Todo o Satanismo é uma grande trollagem ao Catolicismo. Sendo uma religião de negação, serve quando muito pra criticar, não pra construir.

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A filha de Lavey, herdeira da Igreja Satânica, afirmou em entrevista recente que se a Igreja Satânica fosse fundada hoje, provavelmente zoaria com  budismo e hinduísmo, e toda essa galera good vibes que agradece sem conjugar verbo (“Gratidão” é substantivo, porra, se coloca como sujeito na frase, ô caralho) e acha que Namastê significa “A Divindade que Habita em Mim Saúda a Divindade que Habita em Você” (e nem desconfia que essa frase é bem grande pra uma palavra só).

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A Raiz do Satanismo, ironicamente e na minha opinião, vem não de um desprezo pela religião, mas de um respeito pela Religião. Apenas alguém que leva a sério uma determinada religiosidade pode declarar guerra a ela porque seus fiéis são hipócritas. Só alguém que acha que o Catolicismo deve ser levado a sério ficaria puto com o cara do puteiro na missa.

Na minha opinião Romantizada, portanto, Lavey era um cara que achava que a Religião deveria ser praticada integralmente, e não seletivamente.

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Obviamente, Lavey estava na contramão da História.

A religiosidade, como um todo, vinha sofrendo de uma amenização da serieade: o Judaísmo têm preceitos claros e específicos e demanda estudo. O Cristianismo é um judaísmo hippongo, que tira os preceitos e o estudo e troca isso por uma rodinha de violão no fim do churrasco cantando “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. O Protestantismo manda você ter fé. A Contra-Reforma deixou as coisas ainda mais leves.

Atualmente o ser humano médio acredita que basta você tentar ser bom (o que vale é a intenção), ficar com vergonha se não conseguir e reencarnar infinitas vezes que um dia todo mundo vai encontrar a salvação e ninguém nunca vai se foder.

Aí a gente tem católico que usa camisinha, Cabalista que não cortou o pau, Budista que fuma maconha, nego falando Namastê no churrasco, tudo isso porque a religião deve servir pra você aprender a viver bem com quem você é. Busca-se a confirmação daquilo no que já se acredita. A religiosidade virou uma instância de legitimação daquilo que você já é. Tudo pode, menos julgar. Tudo é permitido, mas se você for agredido, mostre a outra face. Não existe pecado, mas não faça mal aos outros, nem a quem merece. Porque você não pode julgar ninguém.

É a Nutellização da Religiosidade.

***

Eu sinto saudades do Velho Testamento.

David era um adúltero que mandou o melhor amigo morrer na guerra pra comer uma gostosa. Abraão era um covarde que escondeu o casamento por medo. Caim resolveu as tretas com Abel na ponta de faca (ou enxadada). O primeiro virou rei, o segundo é o Patriarca, o terceiro ganhou a proteção de D’us. Se o Velho Testamento ensina alguma coisa é que D’us não tem moralidade alguma. E até prefere os caras mais sangue ruim.

Isso abre uma nova frente de ironia: Não transar? Não comer porco? Não trabalhar aos Sábados? É a religião querendo controlar você e te transformar num cordeirinho manso! Você tem só que não julgar, não agredir, ser bonzinho, amar incondicionalmente e se afastar dos malvados que tá tudo certo.

Sure.

***

Eu sinto saudades de uma vida menos relativa. Em que julgamentos e batalhas sejam vistos com menos temor. Em que as pessoas não tenham medo de julgar.

Em retrospecto, acho que minha cagada foi lá em 2008, quando acreditei que nada era verdadeiro e tudo era permitido.

Pra um Cavaleiro, Boa Sorte é Dragão.

December 25, 2017 § 2 Comments

(Ou, a “Última Retrospectiva”.)

Desde o ano passado eu passei a utilizar um aplicativo de facebook chamado “Neste Dia”. Basicamente ele serve para mostrar as publicações feitas naquele dia um ano atrás, o que traz resultados interessantes. Da lembrança de uma boa piada às fotos com a ex-namorada, é interessante ver o que você postava em um determinado dia e/ou época.

Com a aproximação do fim do ano, em datas distintas, eu tive a oportunidade de rever pequenas postagens feitas nessa época e que traziam uma retrospectiva de um determinado ano.

Até agora, 2016 foi um ano foda,  2015 foi um ano tenso, 2014 foi um ano em que desejei esperança e acho que tudo começou em 2007, o ano que deixou um gosto de rola na boca. Eu adoraria passar ano por ano, retrospectiva por retrospectiva e ver o que cada ano trouxe, mas o denominador comum de cada um deles é que foram anos pesados.

***

Recentemente eu fiz essa brincadeirinha aqui na forma de meme:

Como a maior parte das minhas reflexões, ela começou como uma piada: “Quando você achar que está no inferno, que as coisas estão pesadas demais, que não vai dar pra aguentar, calma: logo você vai se acostumar e o inferno vai ser o seu novo normal”.

Sim, é isso. Não tenho mais esperanças que (depois de dez anos), um dia, as coisas melhorem, eu viva uma vida de paz e contemplação, trabalhe para ganhar o pão de cada dia, compre uma casinha com cerquinha branca no subúrbio, case com uma mulher que me ame e compre um labrador dourado.

Not gonna happen.

Se 2017 me ensinou alguma coisa (e oh, boy, como ensinou) foi que a rotina está virando saudades.

(Por favor, leia apenas as palavras pintadas em amarelo pelos alunos no muro do colégio que me contratou a primeira vez pra ser professor e que vai ser demolido. Obrigado.)

Eu cometi o erro de acreditar que eu poderia viver uma vida leve, tranquila, calma e plácida. “Deboísta”. Que eu poderia ensinar crianças a ler e escrever e, quem sabe, morrer velhinho com meus ex-alunos ainda próximos de mim.

Uma vida “boa”. Uma morte “boa”. Pra uma pessoa “boa”.

Mas aparentemente (e o Universo me deu evidências suficientes) que eu seja uma pessoa “boa”.

Na verdade, se eu tenho a agradecer algo a 2017 foi ter aprendido que o maior de todos os pecados é querer ser mais virtuoso que a vida, mais moralista que “deus” ou pretender colocar no universo alguma espécie de senso humanista de Justiça.

Justiça é o que acontece. Se não aconteceu melhor, você não mereceu melhor.

2017 destruiu minhas ambições de ser uma pessoa virtuosa. Matou meus planos de fazer bem ao mundo.

Give up sainthood, renounce wisdom,
And it will be a hundred times better for everyone.

Give up kindness, renounce morality,
And men will rediscover filial piety and love.

Give up ingenuity, renounce profit,
And bandits and thieves will disappear.

These three are outward forms alone; they are not sufficient in themselves.
It is more important
To see the simplicity,
To realise one’s true nature,
To cast off selfishness
And temper desire.

Ok. Os planos estão mortos. Vida longa aos planos! Mas dessa vez Planos de Guerra. I’m born to ride the crashing wave.

Termino 2017 como há dez anos atrás: Eu sozinho, contra o mundo, sem contar com nada além da minha capacidade de lutar. Se eu luto bem, eu vivo bem. Se eu luto mal, eu vivo mal. Sozinho. Contra o Mundo. Qualquer coisa menos do que isso seria covardia.

Peço, nesse instante, aos meus amigos e amigas que talvez estejam lendo esse texto (se é que alguém ainda lê esse blog) que não se sintam esquecidos. Depois que as lanças são postas em descanso, os escudos pendurados e a armadura bem oleada (ou o terno lavado a seco) o primeiro lugar onde parar é na taverna, pra beber a mais uma batalha sobrevivida.

Agradeço a vocês por estarem presentes na minha solidão. Afinal, a gente nasce sozinho, a gente morre sozinho, e toda experiência sere apenas a nós mesmos.

Por isso, mais do que nunca, e correndo o risco de me repetir, eu ofereço um brinde.

Um brinde aos amigos ausentes. Porque é muito importante saber que existe um porto seguro. De que ainda que à distância (com o fucking atlântico, nas planíces geladas da patagônia, pra lá ao norte do Rio Grande ao sul dos EUA, ou através do maior desafio da vida adulta, as terríveis “agendas”) eu sei que estamos juntos.

Um brinde aos amores perdidos. Porque nada ensina mais do que o amargo da derrota. Nada impulsiona mais que a Ira de Marte. Nada dá mais energia que a fúria carregada de sentido advinda da compreensão do erro crucial.

Um brinde à estação das lutas. Porque enquanto existe luta, existe Vida. Porque o Conflito é a Mola Mestre da História, dos Mitos e da Épica. Porque mar calmo não faz bons marinheiros. Porque quem nasce pra Ira constrói um Paraíso de Fogo e Enxofre.

E que cada um de nós dê ao Diabo aquilo o que ele merece, seja ele quem for, esteja onde estiver. Porque o Diabo, seu moço, é o Príncipe das Mentiras, filho da Mentira Rei com a Mentira Rainha. A Mais Bela de Todas as Mentiras, mas Mentira, ainda que Bela. E O Diabo merece apenas um destino: A Morte.

Amém. Shelá.

(P.s.: Se alguém se preocupou com minha vida quando leu “A Última Retrospectiva”, não se preocupem, não pretendo morrer. Apenas escolhi esse sub-título porque, hoje, depois de todo esse ano, não espero nenhuma retrospectiva diferente em todos os próximos anos da minha vida.)

Stálin Nunca Teria Sido Prefeito.

December 13, 2017 § Leave a comment

Ler livros que confirmam os seus ideários gera um efeito perigoso: confundir o binômio Identidade + Vaidade com Genialidade. Que atire a primeira pedra quem nunca pensou “Nossa, esse cara é um gênio! Pensa igualzinho a mim!”.

Dito isso (e caveat lectorem), comecei a leitura de “Antifrágil“, do mesmo Autor de “A Lógica do Cisne Negro“, Nassim Nicholas Taleb. O livro se dedica a avaliar sistemas que reagem positivamente a choques (ao menos no longo prazo). De forma simplista, uma certa dose de estresse em condições específicas é positiva à vida como um todo.

Independentemente de mais textos presunçosos à medida em que o Livro segue, a frase título do Post (usada pelo Autor, mas atribuída a Mark Blyth) serve para ilustrar um conceito chave: a vida é não-linear. Um agrupamento de 100 pessoas não é mil vezes mais simples que um agrupamento de 100.000 pessoas. É muito mais.

Em um município, um gasto de 1,75 milhões com refeições é absurdo e inaceitável. Em um País, com um orçamento bilionário, passa batido. Ou seja, o aumento de escala implica num estímulo ao gasto (provavelmente você se sente mais confortável em comprar uma sobremesa de R$ 50,00 num jantar de R$ 150,00, and so on). Stálin não teria nunca sido prefeito: a relevância de seus atos (atrozes) demanda uma escala em que executar 1.000.000 é “um mal necessário”.

Por outro lado, mesmo em livros que satisfazem o viés de confirmação, coisas novas surgem: A Suíça (aka Confederação Helvética) trabalha com um conceito diametralmente oposto ao Brasil no que tange à competência legislativa subsidiária. No Brasil, a regra é que a Competência escala de baixo pra cima: A Lei Federal tem precedência sobre a Lei Estadual and so on. Na Suíça (falta-me conhecimento sobre Direito Constitucional Suíço) seria o oposto: O Município tem precedência sobre o Estado and so on.

Não pretendo aqui tomar (muito) partido: será que interessa mesmo para o Brasil, por exemplo, Estados em que o Imposto de Renda, o Porte de Armas e o Consumo de Drogas sejam diferentes uns dos outros? Eu acho que sim, mas isso tornaria uma viagem para o Brasil (aquela parte que começa pra lá do Rodoanel) ou pra Bahia do Sul (aquele Estado que começa na fronteira de SP e RJ) muito mais complexa.

Mas levando em conta que eu gosto mais do Brasil de São Paulo pra Baixo, eu votaria a esse favor.

 

O Prometido e Presunçoso Texto sobre A Revolta de Atlas.

December 8, 2017 § Leave a comment

A Revolta de Atlas é o livro mais famoso da Ayn Rand. Por mais famoso leia-se “o que eu li”. Aí eu posso parar por aqui, dizer que li as obras fulcrais da Ayn Rand e pagar de intelectual em ter que ler o resto (algo pertinente, como mencionarei abaixo).

Ayn Rand é uma escritora judia que tem como primeiro nome a letra Ayn, que na cabala hermética está associada ao Caminho do Diabo, cujo mote é “seja feita a minha vontade”. Ela ficou famosa por ser um dos ícones do liberalismo, defendendo incessantemente que ninguém pode ser obrigado a nada e que a vontade individual é soberana, não sendo justo, em hipótese alguma, a premissa de prejudicar o indivíduo em prol do grupo. Ou seja, “Seja feita a minha vontade”.

O livro trata, em resumo e sem spoilers, de um momento no “futuro” no qual a filosofia de limitação do indivíduo e de controle dos meios de produção se mostrou razoavelmente vitoriosa em todo mundo, sendo os Estados Unidos o último bastião da liberdade que está lentamente perdendo a guerra. Como o livro foi escrito lá pro meio do século passado, esse futuro deve ser passado já.

Se o parágrafo anterior parecer a descrição de um romance brega e nacionalista, isso é meia verdade. Primeiramente, Ayn Rand não é americana. É Russa. Porém, ela é brega pra caralho. E isso torna o livro um paradoxo muito grande: ele é muito brega e muito bom.

Ayn Rand não tem a mínima noção de técnica literária. A construção de personagens dela é horrível. Os protagonistas são perfeitos e mijam möet-chandon e os antagonistas batem em filhotes de basset quando acordam. A descrição das cenas de sexo me fez me sentir lendo um spin-off liberal de ficção erótica de revistas de sacanagem da década de 1990 (vocês, milenials, nunca saberão do que estou falando). E rola umas viajadas enormes na construção do drama, apesar de (justiça seja feita) ela ter seus momentos de genialidade narrativa.

Eu costumo falar que Arte Política é muito mais política do que arte. E isso se comprova. Eu consigo imaginar todos os amigos dela numa roda de leitura debatendo os manuscritos e falando que está maravilhoso, como um clube de auto-afirmação. Nada muito diferente do que foi a Tropicália ou a MPB.

Porém, e talvez seja por me sentir acolhido em um livro no qual a chantagem emocional, a moralidade, uma ética de vergonha e a proteção do fraco sejam ridicularizadas, é uma leitura estimulante. Até a metade do primeiro volume a narrativa se arrasta. À medida que a trama se complica e o livro ganha ritmo, as pequenas breguices vão se tornando… pequenas. Quando você menos espera, você quer: i) produzir, criar, pesquisar, empreender, escrevar, trabalhar como se fosse um exercício da sua existência na face da terra; e ii) passar a fio de espada quem atrapalha o seu caminho.

De certa forma, me arrepeno de não ter lido antes A Revolta de Atlas. Acho que eu teria me sentido muito menos sociopata em saber que tem mais gente que pensa como eu.