Sartre, o bêbado e sua mãe.

December 26, 2005 § Leave a comment

Estou ficando velho.

Não falo isso por causa dos meus cabelos brancos, por causa da minha coluna zoada ou pq meu estômago não digere quantidades indústrias de alimentos com a mesma facilidade.

Pior: estou ficando rabugento. Tenho certeza que uma das frases que eu mais vou falar pros meus filhos é “tem hora pra tudo”. Especialmente porque hoje acho que esse é um dos indícios da maturidade.

E esse natal foi pleno de exemplos disso.

Música.

Existem inúmeros gostos musicais. E cada um deles se auto-fundamentaliza como “bom”. Um cara que ouve metal vai falar que aquela banda norueguesa que ninguém é a melhor do mundo porque o baterista toca com 37 baquetas e toca bumbo com o pinto.

O cara que gosta de funk vai falar que é música pra catar vagabunda, o que gosta de axé vai falar que é música animada, etc, etc, etc.

No fundo, música boa é a que você gosta. E a música tem sua função: música é pra divertir. Se você quer uma balada, quer ver gente animada, você não vai colocar Chico Buarque, vai colocar algo que anime. Tem hora pra tudo, pra ouvir Chico Buarque e pra ouvir Chiclete com Banana.

Você pode achar legal ficar sentado num sofá olhando pra cara dos seus amigos com olhar sonolento de quem sabe REALMENTE apreciar a melhor música erudita que existe, e que tocar bumbo com o pinto dá uma sonoridade toda especial pra batera. Mas, por favor, não obrigue os outros a partilharem da sua masturbação mental. Tem hora pra tudo. Quer bater punheta ouvindo Chico Buarque, se tranca no banheiro.

Bebida.

Todo o bêbado chato é Sartreano. Ele existe graças aos outros. O bêbado chato só é chato se os outros assim o julgarem. Os outros não sabem de nada? Pode até ser que não, mas eles que te aturam, portanto, eles que te julgam.

Não existe bêbado inconveniente se todos estão bêbados demais pra pensar nisso ou se sentirem incomodados. Não existe bêbado chato se não existe alguém pra chatear.

Dizem que nada é mais chato que estar sóbrio numa roda de bêbados. Isso é verdade porque enquanto os outros estão bêbados, zoando, e fazendo aquelas coisas que bêbados sempre fazem (tirando a roupa na balada, ameaçando pessoas, roubando garrafas de vodka, etc) você é o único não bêbado, o único chateável e o único que julga.

Inverta a situação e torne-se o único bêbado numa roda de pessoas sóbrias. Você vai ser o julgado, o palhaço, o bobo e, em casos mais extremos, o cara chato que não sabe beber.

O truque pra ser um bêbado socialmente aceito reside unicamente em percepção. Essa reunião de pessoas é para beber até ficar bêbado? Se sim, é bom você beber, pra não ser o único sóbrio no meio de um monte de gente bêbada. Se não, não é lugar pra ficar bêbado, não fique bêbado.

Saber beber não é agüentar virar uma garrafa de vodka, é saber quando é legal virar uma garrafa de vodka e quando não é. “Tem hora pra tudo”: tem hora pra beber pra caramba, tem hora pra fazer social, tem hora pra ficar sussa.

A bebida é um auxiliar da balada, não a balada. Assim como drogas.

Se você mata uma garrafa de vodka numa balada, você está numa festa. Se você mata uma garrafa de vodka num almoço, você está se comportando como um alcoólatra.

Se você usa drogas em uma balada, você quer extrair de uma situação o máximo de diversão. Se você usa drogas em casa, você quer só se drogar, your fucking junkie.

Acho que é por isso que os malandricus possuem gostos extremamente focados pra drogas: São auxiliares: se tomar um E te faz perder a balada, não tem graça. Se tomar Efedrina te deixa mais acordado, mais esperto, mais empolgado, vai te ajudar a aproveitar a balada.

Xaveco.

Sim, eu sei que ser bom é tirar leite de pedra. Eu sei que o cara foda cata mulher até em enterro. Sei que o cara bom sabe xavecar a menina na frente do namorado e sim, também sei que ocasionalmente a gente conseguiu tudo isso.

A gente já discutiu isso na mesa desse bar, mas, a pedido do Stein, incluo um replay disso:

Tem hora pra xavecar. Existem momentos em que é socialmente aceito você xavecar uma menina. E outros no qual não é. Se você xaveca ela num momento inapropriado, você está fazendo papel de bobo pros outros. Inclusive pra ela.

Além disso, achar que no meio de 47 homens ela vai querer ficar logo com você é se achar especial demais. E qual a primeira lição da malandricagem sobre se achar especial?

Tenhamos uma mente brilhante… quem faz, faz, não mostra. Tem hora pra tudo. Quem sabe faz a hora, mas não gasta chumbo com alvo que tá longe demais pra ser atingido.

O inferno pode até ser os outros… mas pra toda ação há uma reação que depende dos outros. Se você quer ser um chato, ok. Mas não se esqueça que os chateados estão em maior número…

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