Cadê minha virgem, Maria? – Um post conjunto de Stein e Anarco.

March 28, 2006 § Leave a comment

Morar num alojamento universitário está sendo uma experiência antropo-religiosa. Faz ter uma visão diferente sobre os outros, sobre quem eu fui e quem eu sou. Permite o contato com uma cultura que há muito tempo eu não vivencio.

A maioria dos estudantes aqui é de primeiro ano. Freshmen. Recém saídos do colegial. 17 ou 18 anos. Um tanto quanto inocentes. Vivendo em um país que não sabe lidar muito bem com a sexualidade. São, quase em sua totalidade, virgens.

Estou no meio desse país estranho chamado Virginlândia.

Eu já não sou virgem há um bom tempo. Aos 21 anos, a idéia da virgindade já é uma preocupação infantil, distante. Um passado longínquo diante de tantas coisas mais importantes que passei depois dela. Essa condição de Senior among the Freshmen me dá a chance única (e ocasionalmente dispensável) de ver como eu posso, um dia, ter sido.

Para esses garotos, a virgindade é uma preocupação real. Que os afeta diariamente.

Isso faz com que eles sejam naturalmente menos confiantes em si mesmos. Ate hoje eu me lembro, da manhã que sucedeu a noite que perdi a virgindade. Pulos de alegria. Um enorme peso social que tinha sido tirado das costas. A partir daquele momento as coisas não poderiam mais dar errado. Eu assumia minha posição de predador no nicho social.

Há uma pressão natural sobre a virgindade. No Brasil, o sexo é encarado de uma maneira tão aberta que ser virgem e ser um herege religioso é quase a mesma coisa. No mundo inteiro a virgindade é a provação do homem. O homem virgem é cheio de duvidas. Ate porque ele não sabe como funciona. Nunca esteve lá. É sexualmente inapto.

No Brasil podemos dizer que a virgindade é uma circuncisão. Porém, é um rito sem cerimônia. Perder a virgindade aqui não é se tornar uma pessoa melhor, como sói ocorrer nos ritos de passagem. É deixar de ser um pária. É deixar de ser meio gente. Um cabaço é uma coisa que te atrapalha, só isso.

E acho que isso está valendo tanto pra homens quanto pra mulheres. Transar com uma mulher virgem não é, em si, algo bom. É óbvio que não deixa de existir um carinho, uma preocupação com deixar a experiência o mais prazerosa o possível pra ela, mas isso não significa, de forma alguma, mais prazer pra você. E tem mais a ver com prepotência que com retribuição.

Após a primeira experiência sexual o homem adquire uma confiança sobrenatural. Irreal. Quase eufórica. Ele já não esta mais sob provação. Ele já superou seu estigma. Ele sabe como se faz. Mas, ate esse ponto, ate perder a virgindade, o homem é apenas um menino.

Óbvio que isso é ilusório, como uma trip de LSD na qual você acha que é o super-homem e pode voar. Mas acontece.

E isso traz diversas conseqüências que, num primeiro momento, não são diretamente esperadas.

O Homo Hímen não sabe lidar direito com o conceito de sexo. Ele esta desesperado. Se alguém está fazendo sexo e ele não, é só fofoca. O menino tem curiosidade e não consegue falar sobre outra coisa. Típico de High School, um ambiente naturalmente isento de sexo, mas não de sexualidade. Esse excesso de energia sexual é péssimo para todos. Fofocas, intrigas, traições. Só porque os cabaços não tem nada melhor para fazer. Como trepar, por exemplo.

Acreditem, a cena de uma platéia olhando enquanto você está ficando com a menina não é, de forma alguma, estranha. E se tem platéia, é ÓBVIO que a mina vai ficar constrangida e vai ser difícil você levar ela pra cama. Cabaço só atrapalha.

Uma vez que o homem não é mais virgem ele já não sente mais a necessidade de ficar xeretando na vida alheia. Ele cria seu próprio espaço sexual. Cria sua intimidade. “Os outros estão fazendo sexo? Foda-se. Eu também.”

E ele começa a ficar puto quando começam a falar de sua vida íntima. Não tem nada mais irritante do que aquele gordinho filho da puta que não pega nenhuma mina falando das minas que você pegou para o resto da galera, inclusive pras meninas, igualmente virgens. Ele não tem nada a ver com isso. Cabaço só atrapalha.

Trepar num ambiente High School é praticamente uma heresia ao Cabacismo. Todo mundo comenta. Todo mundo tem alguma coisa para falar sobre. E um monte de nerds começa a vir perguntar para você como é que se faz.

Atenção, senhores! Não há regras! Não existe livro de auto-ajuda!

Como se adiantasse. Uma série de seguidores fica te observando para adquirir suas técnicas. Aconteceu comigo uma vez de eu estar trocando idéia com uma mina na balada e um desses caras ficar parado do meu lado para “escutar aquilo que eu falo”.

O que eles não sabem é que cada um vai desenvolver sua técnica. O máximo que você pode conseguir é perceber que o primeiro passo é ir de peito aberto. Um círculo social que tem coisa melhor pra fazer que ficar prestando atenção em você ajuda muito. Seu círculo de amizades te dá o backup pra você se arriscar, mas não vai “xavecar a mina pra você”.

Bom. Eu não consigo lidar com essa falação toda que ocorre há minha volta. Eu não me sinto pressionado a perder minha virgindade. Eu não quero ninguém falando das mulheres que eu comi, to comendo, como. Tenho meu espaço intimo. Se eu como 2, 3, 7 ao mesmo tempo, mérito meu, azar o seu.

Não é assim como acontece, claro.

Olhando todas essas intriguinhas, voltei a pensar no quão inseguro é o homem. O quão inseguro eu sou. A virgindade traz segurança patente. Obvia. Mas mesmo após a primeira noite o homem ainda se sente inseguro. O homem tem duvidas. Muitas dúvidas. Eu tenho duvidas. O fim da virgindade é o começo da vida “de verdade”. Quando você passa a aprender a fazer sexo. Muita gente perde a virgindade, mas não faz muita coisa com o que vem depois.

Eu já fiz muita fucked up shit por aí. Já poderia ter morrido um milhão de vezes. Ter sido estuprado outro milhão. Mas nunca. Eu já gostei muito de alguém (não vou falar que amei. Não sei se amei). Eu já fui um grande filho da puta com muita mulher por aí. Mesmo assim, eu to aí, vivendo.

Poderíamos chorar o leite derramado, ou nos arrependermos profundamente. Mas não. Faz parte da nossa vida. Nossas cicatrizes nos ensinaram muita coisa, e fazem parte de nós. Mesmo aquelas que doem quando chega o inverno e o tempo muda.

A primeira duvida de um homem é sobre quando ele perdera sua virgindade. Sua próxima duvida é quando ele fará sexo anal/sexo com duas mulheres/sexo com o Kid Rock e um marciano. Não importa, depende do cara.

Depois disso ele descobre que sexo é só sexo… e que vale sessenta reais. A próxima dúvida, então, é se e quando o sexo vai significar (ou voltar a significar) alguma coisa.

A nossa primeira vez nos confunde, fazendo acreditar que foi mais daquilo que foi. Meninos e meninas, não se enganem: vocês vão todos se apaixonar pela pessoa com a qual perderem a virgindade. Todos, sem exceção. Nunca mais vão esquecer. E saibam que esse sentimento lindo que vocês têm se chama gratidão, e não amor. Estão gratos da pressão social retirada de suas costas. No fundo da sua cabeça você acha que te fizeram um favor. Nada mais. Eventualmente vocês percebem que não é nada daquilo que você pensava.

A grande ironia é que a primeira vez é especial e única. Da mesma exata e idêntica forma para todos…

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