Colocando alguns fantasmas pra fora do armário. (Ou, “Breve Interlúdio Emo”)

August 22, 2006 § Leave a comment

Eu sempre tive sonhos extremamente vívidos. Um universo onírico frequentemente me brinda com coisas que, pelo que eu ouvi dizer, não são padrão.

Eu tenho consciência de que estou sonhando. Frequentemente tenho referências sensoriais além da visão. Sinto perfumes, ouço sons, toco texturas, sinto vento, frio, calor, pele. Já cheguei até a ler textos e ouvir músicas. Isso pra não falar em sonhos em primeira pessoa (Sim, é raro eu me ver nos meus sonhos. Quase sempre eu estou em primeira pessoa. Como em Doom.) e que meus sonhos sempre são coloridos.

Isso traz algumas conseqüências interessantes. A primeira delas é o fato de que eu GOSTO dos meus sonhos. Até dos pesadelos (dariam excelente filmes de terror).
Por outro lado, eles costumam mexer comigo. E meu inconsciente me prega várias peças e não deixa meus esqueletos dentro do armário.

Esses dias sonhei com uma ex. Uma vez uma amiga minha achou nojento eu me referir a uma ex-namorada como “uma ex aí”. Entendam: não é despeito nem raiva. É só uma forma sutil de proteger a identidade dessa pessoa. Porque quem ela é, depois do fim do namoro não interessa mais.

Lidar com ex-namoradas, mesmo quando você perdeu o contato com elas, é foda. É foda ESPECIALMENTE quando você perdeu o contato com elas.

Sartreando, enquanto você interage com uma pessoa, ela é um aspecto dinâmico. Ela muda, reage, cria um sistema de feedback no qual ambos fornecem input e output (sometimes, input, output, input, output, input, output). Quando você convive com uma pessoa ela é um fractal: um todo aparentemente caótico resultado de um somatório definidor.

Quando você deixa de conviver com essa pessoa, você perde o contato com esse ser humano, com esse fractal. A pessoa vira um retrato. Quando muito, uma função: você pode não ter uma imagem exata de como essa pessoa é, mas dada a experiência prévia, você pode arriscar em que lugar do plano cartesiano ela está.

Quando você deixa de conviver com uma pessoa ela perde o elemento levemente aleatório, ela perde a caoticidade. Ela vira um retrato. Talvez um cadáver. Se pá, um esqueleto no armário. Ali, entre as gravatas e as cuecas.

E o pior é com o tempo você perde a relação com a realidade. Aquela ex não é mais uma pessoa com a qual você brigou. É uma pessoa legal, com a qual você tinha uma certa afinidade, mas porque você era mais novo e imaturo, não tinha como dar certo. A imagem que você tem dela continua jovem e límpida enquanto a pessoa envelhece. É um Retrato de Dorian Gray às avessas.

Mas o que é engraçado é que, pelo menos eu, tenho um armário muito pequeno. Cabe só um esqueleto por vez. Sempre o maior deles. É como se toda vez que eu tentasse esconder o cadáver de um amor perdido eu tivesse que fazer uma comparação: “Então… qual esqueleto é pior? Ah, esse aqui não é tão mal… vai, deixa eu colocar umas rendas que ele vai ficar bem na sala. Do lado do criado mudo.”

Padre Antonio Vieira disse que amor com amor se apaga. Talvez o correto seja que amor com amor se ofusca.

Esse post é dedicado ao meu Universo Onírico (por me fazer lembrar de um retrato límpido de exatos três anos atrás); ao Padre Antonio Vieira; à minha gaveta de cuecas e gravatas (por ser pequena e só caber um esqueleto por vez); e aos amores perdidos (que a vida lhes seja sempre leve).

Malandricus Bar & Vodka retorna agora à sua programação normal.

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