Só é Revolução se Eu Puder Dançar.

March 16, 2007 § Leave a comment

Ok, peço desculpas pelo último texto que acabou sendo um apanhado de idéias que ficaram girando pela minha cabeça por alguns dias envolvendo vícios, virtudes, Charlie Brown Jr., morte, justiça e a necessidade súbita de ser um pouco mais irresponsável.

(Sim, mais ainda).

Hoje, porém, cruzei com uma notícia (que é linda, está grávida de pequenos Arzios e vai se casar comigo em dois meses) que literalmente me emocionou:

A Alemanha vai organizar uma Mega-Rave, com ingressos subsidiados pelo Governo custando 12 euros, que vai durar dois dias em comemoração ao Tratado de Roma.

Glossário:

Alemanha: País da Europa que iniciou duas guerras mundiais, foi dividido por um muro por alguns anos entre comunistas e capitalistas, berço do Nacional Socialismo e do Neo Nacional Socialismo, hoje é um dos países mais desenvolvidos do mundo, tri-campeão mundial de futebol, sediou a copa do mundo passada e um cenário forte na música eletrônica.

Rave: Festa de música eletrônica que costuma durar alguns dias seguidos regada a Drogas (químicas e não químicas).

Tratado de Roma: Tratado assinado em 1957 que lançou as bases para a criação da União Européia, bloco supranacional formado por vários países da Europa que eu não estou com saco de listar agora.

Traduzindo a notícia acima, a Alemanha vai fazer uma Mega-Balada pra comemorar um tratado político. O Estado vai dar uma festa. Pra comemorar a União Européia.

E por quê isso é a coisa mais foda que eu li em muitos dias?

Antes de mais nada, é muito foda pelo simples fato de que não se trata de um festival, uma feira, uma exposição.

É uma balada. Pura e simples.

Ninguém quer lembrar do passado, homenagear pessoas, transformar isso tudo numa grande excursão onde nós vamos descobrir que o diplomata que redigiu o tratado falava oito idiomas, seis dialetos, tinha três cursos superiores e gostava de se masturbar com a mão esquerda enquanto pensava em poodles.

É uma festa para as pessoas se divertirem. Querem pura e simplesmente festejar. A UE é uma coisa boa, portanto, vamos beber, dançar, encher a cara e tirar o máximo de prazer que essas 48 horas podem nos oferecer.

Beleza, as pessoas querem dançar, encher a cara e tirar todo o prazer que essas 48 horas podem oferecer. Mas é justo tirar dinheiro dos impostos pra isso?

Sim, é.

O Estado se justifica pelo Povo. Todo poder vem do Povo e em nome Dele deve ser exercido, né mesmo? O Estado foi feito pra fazer a gente feliz. Se ele falha nisso, temos que trocar de Estado. Se o Estado nos oprime, tem algo errado.

Gente nasceu pra brilhar, não pra pagar imposto. Cada ser humano tem o dever e direito de buscar sua felicidade e realização. O Estado ajuda ou atrapalha?

E o último ponto que me emocionou nessa história toda: Com todos os problemas, erros, acertos e atritos envolvidos, a UE foi criada para pessoas. Pra gente.

Óbvio que os grandes conglomerados econômicos tinham lá seus interesses. Mas se fosse só interesse econômico, bastava parar na área de livre comércio. Caiam as aduanas, fiquem as fronteiras.

Mas não. Uma só moeda significa que a remuneração do seu trabalho na França pode ser usada na Alemanha ou na Itália. Não sei se a UE pode ser considerada um sinal de liberdade e esperança. O provável é que eles estivessem cansados de tantas guerras e decidissem criar uma identidade Transnacional.

Parafraseando Saramago: “Somos todos Europeus”. Tratar-se-ia de um bloco de Liberdade para ELES. Um condomínio fechado com mania de grandeza.

Ainda assim merece respeito. Ainda assim demandou esforço, trabalho, e uma idéia que embora primordialmente lucrativa, é bonita. De certa forma, a UE é uma puta linda. Linda, simpática, carinhosa, atenciosa, inteligente. Ter como objetivo primordial o lucro apaga as outras qualidades? I guess not.

Uma Revolução é algo difícil de se fazer. Precisa de uma boa idéia, um bom processo e um bom resultado. Um resultado Ruim é uma Revolução Fracassada. Um Processo Ruim é um derramamento de sangue. Uma idéia Ruim é uma tragédia histórica.

Alguém me diga por que eu deveria lutar pelo fim da liberdade? Por que eu deveria aceitar que toda a humanidade fosse jogada numa vala comum? Por que eu deveria aceitar que o Estado fosse o único patrão e o único empresário? Por que eu deveria me submeter à uma religião que não é a minha?

Acho que não somos os filhos do meio da história. Não somos pessoas sem um objetivo para realizar. Talvez sejamos apenas a primeira geração de filhos do lado vitorioso de uma grande guerra.

Todas as histórias param de ser contadas depois da vitória. Ninguém conta em detalhes o “Viveram Felizes Para Sempre”. Artisticamente é correto: narrar o resto da vida depois de uma vitória seria, na melhor das hipóteses, entediante.

Mas a vida não é a arte, e uma imitar a outra não significa que uma deva se tornar a outra.

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