Luto.

April 12, 2007 § 1 Comment

Esse texto não é sobre artes marciais, sobre ex-namoradas, sobre histórias em quadrinhos, sobre a wikipedia. Fala sobre tudo isso, mas é, primordialmente um texto sobre livre arbítrio, ou sobre como o que você aprende muda quem você é.

Há cerca de oito anos atrás sofri o acontecimento que mais moldou a minha vida. Uma menina (embora tivesse uns 20 anos, naquela época éramos todos crianças) morreu.

Eu era apaixonado por ela. Olhando pra trás, agora, percebo que ela foi a primeira menina que eu tentei xavecar. Agora eu dou risada: minhas primeiras tentativas deveriam ser risíveis. Mesmo pra um moleque de 16 anos.

Não beijei. Mas, por ironia do destino, descobri anos depois que eu havia obtido certo sucesso na tentativa. A mãe dela tinha confidenciado que, apesar da idade, ela ia arriscar (não estranhem: dos 16 aos 20/21 anos a diferença é grande). Por sorte eu descobri anos depois, quando já tinha superado isso.

Foi literalmente do dia pra noite num acidente de carro, de madrugada, indo pra balada. Enquanto ela morria, eu conversava com alguns amigos meus e dela, todos devidamente bêbados sobre como ela era gente fina.

Lembro com razoáveis detalhes daquele domingo.

Fui acordado com a ligação me avisando que ela havia morrido. Pensei: “Nossa… A Jú morreu… eu deveria sentir alguma coisa… Bom, deixa eu tomar um banho e ir pro velório.”.

Fui andando no meu passo normal até lá.

Cheguei.

E comecei a chorar desesperadamente por umas sete horas seguidas, soluçando, ranhento e sem conseguir formular sequer uma frase conexa, mandando deus ir tomar no cu (em silêncio em respeito à mãe dela que era católica), desejando que eu pudesse ter morrido antes dela.

Carreguei o caixão dela até o túmulo, virei as costas e passei uns bons seis meses em um processo sutil de autodestruição, até que um sonho com ela permitiu que eu fizesse as pazes com a minha vida.

Perdoem-me se não descrevo o sonho, mas ele foi relevante para mim e a experiência transcendental, quando posta em palavras é, quando muito, vaga ou um enorme lugar comum.

Passa o tempo, primeira namorada, vestibular, faculdade, namoradas seguintes, o mundo muda, eu mudo e aquele domingo meio chuvoso, choroso e cinzento fica impresso na memória como um dos dias mais importantes na formação do meu caráter, quer ele hoje seja bom ou mau.

Tempos depois, acabei lendo uma história em quadrinhos na qual citam inadvertidamente, o “Ciclo do Luto”. Alguns anos depois ainda, me lembro disso e vejo na wikipedia (uma fonte confiável de saber).

O Luto, basicamente (existem diversas teorias), segue uma linha de negação, ira, barganha, depressão e aceitação. Não necessariamente nessa mesma ordem.

A parte irônica é que eu passei exatamente por esse ciclo, exatamente nessa ordem: Não senti nada, era como se nada tivesse acontecido; me desesperei, fiquei puto com deus; pedi pra ter tido a chance de morrer antes dela; passei uns seis meses em depressão, inconscientemente querendo me destruir; e, depois, entendi que embora tivesse morrido, na minha memória ela continuaria viva (num épico ela viraria estrela, pra Sartre ela ficaria imobilizada na minha percepção, pra um religioso iria pro céu, etc.) e superei.

Dentre as coisas relevantes que eu aprendi na wikipedia (nunca pensei que eu ia falar isso na vida) e que por sorte aconteceu comigo, é que é MUITO importante ir no enterro. Inconscientemente a humanidade aprendeu isso, mas é importante você VER que a pessoa morreu. É um choque, mas facilita muito toda a sua vida depois disso.

Há cerca de um mês morreu a menina que foi minha primeira namorada. Fiquei sabendo por MSN uma semana depois e confirmei no orkut. Infelizmente o problema de ter sido uma semana depois é que eu não tive a chance de aparecer no velório pra me despedir, o que é uma merda.

Atualmente ela era mais uma amiga que uma ex-namorada. Mantivemos algum contato via orkut e msn, nos vimos algumas vezes, life goes on e tal. Como dito por mim, ela era um ser humano mais bonzinho que eu (conforme eu mesmo havia dito pra ela na nossa última conversa) e, como dito pelo Stein: “Nós que somos pessoas muito piores, continuamos vivos.”.

Mas esse post não é sobre ela.

Depois que recebi a notícia, tive alguns problemas. Novamente fiquei sem sentir nada, mas me toquei na hora que era denial, o que me fez um pouco de mal. Pensei que ela era um ser humano mais bonzinho que eu, mas cáspita, isso é barganhar. Além do mais, ser bonzinho ou não, não tem nada a ver com viver ou morrer: não é subjetivo, é objetivo: se trata de constituição física, de atenção, dos hospitais onde você está e de um pouco de sorte. E isso é aceitação.

Sim, eu pensei exatamente isso.

Disso advêm algumas coisas:

1) Minha reação natural, pro bem ou pro mal, foi quebrada com o que eu aprendi. Eu me modifiquei. Minha reação psicológica natural foi alterada graças ao meu interesse por alguma coisa. Pra mim isso é uma grande prova de livre-arbítrio, o que me coloca contra a opinião de Einstein e de Scott Adams, mas eu não me importo: Livre-arbítrio pra mim existe, e eu não discuto fatos com argumentos.

2) Ignorance is a bliss. Não tivesse eu entrado nas engrenagens do meu cérebro/alma, provavelmente eu teria passado por um Ciclo de Luto muito mais bem definido dessa segunda vez, o que, quer fosse dolorido ou não, me permitiria resolver essa situação de forma mais definitiva e simples. Porra, se eu sofro, eu quero sofrer, se eu estou anestesiado, eu quero estar anestesiado, se eu estou puto, eu quero ficar puto. Não quero ter um superego psicólogo olhando de cima e apontando o quão caricatas são minhas reações. Só quero reagir. Porra.

3) Aprender sobre o luto me fez uma pessoa melhor. Eu pude ajudar algumas pessoas graças a isso. Tem vários detalhes que são importantes: sofrimento não se quantifica, cada um lida com a perda do seu jeito; se a pessoa não demonstra, não significa frieza; e que seu cérebro vai se defender da dor da melhor forma pra ELE, não da forma mais socialmente bonitinha. Eu vendi minha alma por um conhecimento que pode ser usado pra ajudar mais pessoas. Ich bin Faust.

Nisso vem a questão: aprender o que eu aprendi me fez sofrer mais, mas ajudou outros a sofrerem menos. Valeu à pena?

Como eu já disse: pra cada filósofo, jardineiro, músico e poeta que existiu, deve ter morrido uns cem soldados, que se dedicavam apenas a proteger seu lado da guerra, vendendo sua alma pra que algo pelo qual ele acreditava pudesse existir. É importante que existam artistas e idealistas? Sim, mas alguém tem que salvar o pescoço desses idealistas.

Como disse o Stein: “Você mataria com as próprias mãos uma pessoa pra que cem pudessem viver? Não? Sorte sua que alguém mataria.”.

Entre ser guerreiro ou poeta, eu já escolhi o meu lado.

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