*Projeto Nostalgia.

August 2, 2007 § 3 Comments

Suspirara.

Jamais imaginaria que um suspiro lhe deixaria tão desconfortável. Era como se subitamente aquele banco de concreto num parque fosse uma relíquia de um tempo em que os seres humanos ainda andavam de quatro, com punhos fechados apoiados contra o chão e sem polegares opositores. Todas as suas vértebras reclamavam daquela posição que se tornara incômoda pelo peso de um suspiro.

Mas que idéia. De quem tinha sido a sugestão de se reencontrarem naquele banco, naquele parque?

Não havia nada de errado com o lugar. Não significava nada para eles. Em verdade, nunca significara nada para eles sequer isoladamente, quanto mais enquanto casal. Era um terreno neutro, no qual ambos poderiam conversar sem se sentirem pressionados.

Com sorte o acaso lhes daria algum assunto. Uma criança tropeçando, um velhinho passeando com um poodle, como um Millôr perdido no tempo, no espaço e em outra dimensão. Mas isso não faria diferença: ela nunca gostara de Millôr.

Subitamente, tudo o que ele queria era que eles estivessem frente a frente, não lado a lado. Era como se ao se encararem, com os olhares de encontro um ao outro, alguma relação pudesse ser travada. De amor, de ódio, de paixão. Se enfrentarem seria a melhor coisa que poderia fazer.

Não daquela forma. Não lado a lado, com os olhares indo ao encontro de uma criança que andava num triciclo, uma simbiose de capacetes e joelheiras e luvas e rodinhas numa bicicleta feita para que não se machucassem. Seus olhares coincidiam apenas na direção e sentido. Nenhum dos dois via a mesma criança de capacetes, joelheiras e proteção demais.

O que ela fizera nos últimos anos? Será que ela leu Ulisses como queria? Ou mesmo Finnegan’s Wake? Um ser humano não pode morrer sem ler Joyce uma vez ela lhe dissera. Um ser humano não deve morrer sem ler Joyce, ele a corrigira, como alguém que sabe que pessoas morrem com sonhos inacabados, embora acalentasse a vontade do realizar todos sonhos do mundo, especialmente os que não eram dele.

Com certeza ela lera Joyce. Isso explicaria tudo. Porque em tão pouco tempo ela envelhecera tanto. Havia lido Joyce e se sentia pronta para morrer. Pensou em lhe perguntar e havia lido Joyce, com uma risadinha constrangida que ao final soaria forçada, mas teve medo de estragar o silêncio.

E a ele? O que restara? Escrevia um romance e teria filhos, tinha essa convicção. Mas não sabia se deveria plantar uma árvore. Achava que deveria, claro, mas não sabia como. Não literalmente, pois não há grande mistério nisso: instintivamente sabia que as folhas eram pra cima, as raízes pra baixo, em sentido vertical, e com o caule para fora.

Como uma enorme seta “esse lado para cima” colada pelo bom senso.

Isso era fácil. A questão era que árvore deveria plantar. Qual seria a marca que ele deixaria no mundo?

Madeira de lei? Uma pretensão de deixa algo nobre que viraria um pedaço de móvel, mais dia menos dia? Árvore frutífera, uma tentativa vã de dar algo doce a alguém sem nenhum esforço, como uma caridade involuntária que faria algum desavisado, um dia, agradecer a quem plantara aquela árvore?

Quais as marcas que ele deixaria no mundo? Quais as marcas ele deixou nela?

Ela permanecia em silencia, com olhos de Coronel Kurtz, fitando o espaço vazio.

Árvores transformavam gás carbônico em oxigênio. Ela transformava oxigênio em nostalgia.

Um pombo passou voando sobre eles. Secretamente desejou que fossem alvo de uma piada de Deus, ou da mira de um pombo. Era como se a melhor coisa que pudesse lhes acontecer fosse uma piada do imponderável. Com se a saída daquela peça de Sartre fosse um pastelão. Onde estavam Stan Laurel e Oliver Hardy quando precisavam deles?

Queria dançar.

Não um tango, ou um bolero. Nada que colocasse qualquer romance no ar. Muito menos queria dançar sozinho. Não era uma música sobre ele. Não era uma música sobre ela. Era uma ópera sem coro. Uma tragédia grega escrita por um romano.

Mas transformaria aquilo num musical dos anos trinta. Dançaria na chuva, como Gene Kelly, não como Malcolm McDowell. E a tiraria para dançar. Como um Arlequim que ridiculariza o pálido Pierrot.

Diria que a ama, não porque fosse verdade, mas porque todo filme deveria ter um diálogo que termina com “eu te amo”.

Levantou de um salto, a puxou pelo braço e lhe disse, com os olhos indo de encontro a seus olhos: “Quer um sorvete?”

*O Projeto Nostalgia não é sobre a realidade. Não pretende retratar meu cotidiano, ou um acontecimento da minha vida, ou a realidade. O Projeto Nostalgia é meramente uma tentativa de escrever alguma ficção, pois tudo o que eu tenho para falar de sério, por ora, já foi dito, e estou com saudades de uma época na qual o que eu escrevia não tinha qualquer mensagem para transmitir. E quem não gostou… que conte outra estória… J

§ 3 Responses to *Projeto Nostalgia.

  • Steinhaeger says:

    Eu acho que o Malandricus não deveria ser usado para escrever ficção.

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  • Stelline says:

    Bravo, bravo !!! :)

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  • Thaís says:

    Amei.
    “Subitamente, tudo o que ele queria era que eles estivessem frente a frente, não lado a lado.”
    Parece que me vi ali, me identifiquei com ele…e com ela.
    Grande parte das coisas realmente extraordinárias que ocorrem em um relacionamento se passam em nossa mente. As coisas mais sutis ocorrem no silêncio, quando um está diante do outro…ou do lado.
    Sabe quando você tem tanto, tanto a dizer e não consegue falar nada…(ou acaba chamando pra tomar sorvete rsrsrs).
    Sempre achei esse lado invisível dos relacionamentos o mais romântico, o mais mágico e, no final, é o que faz realmente valer a pena…

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