Divagabundeando.

August 16, 2007 § Leave a comment

Os Marxistas, por muito tempo, defenderam a tese de que as pessoas pensam com palavras.

Essa é uma idéia razoavelmente interessante e de observação imediata. Se eu penso, penso com palavras.

Essa tese foi extremamente difundida, especialmente graças ao livro “1984”, no qual o Estado reeditava todos os anos o “Dicionário Oficial”, a cada ano que se passava reduzindo as palavras. Era uma tentativa de impedir que as pessoas pensassem em determinado assuntos.

O problema dessa tese é que ela ignora que o processo cognitivo é precede o uso das palavras. Em verdade, o pensamento é um pré-requisito para o uso das palavras: primeiro você pensa, depois utiliza símbolos, aí cria uma linguagem interpessoal capaz de expor seus pensamentos a terceiros e só depois desenvolve telepatia.

O quê? Sou só eu?

Isso me veio à cabeça quando pensei sobre Saudades.

Nós nos orgulhamos de que essa palavra, Saudades, só existe em português.

Eu acho que cada língua tem um motivo de orgulho. Ou deveria ter. O Alemão tem aquela palavra que significa “o sentimento de felicidade que te assalta ao presenciar a desgraça alheia”. Ao mesmo tempo, eu gosto do fato de que em Inglês há apenas uma palavra para designar “ser” e “estar”. Embora ter duas palavras específicas para cada situação seja mais preciso, usar a mesma pra “ser” e pra “estar” dá uma idéia de constante mutação do mundo.

E esse orgulho podemos ter, o de falar que a saudades é nossa.

Só que, se pensamos em saudades, o que a palavra significa?

Há anos atrás li a definição do Houaiss sobre saudades como “sentimento meio nostálgico decorrente da falta sentida de alguma coisa”. Era mais ou menos isso, e eu estou citando de cabeça, portanto, procurem vocês num dicionário. Ou melhor, não procurem.

Saudades é um sentimento? Será? A gente pode definir uma sensação como algo físico, mas seria uma imperícia. As sensações e os sentimentos são sentidos no cérebro, quer tenham causa externa, quer não. Em última instância, querer distinguir sentimentos de sensações é como querer distinguir dependência física de dependência psíquica: A OMS já disse que não tem diferença.

Afinal, se heroína te dá uma crise de abstinência com uma diarréia que te leva à morte, ou se você engole uma pilha no meio de uma crise de abstinência de crack, o resultado é o mesmo: você morre. Ou vai passar um tempo muito estranho no banheiro.

Agora, uma coisa importante saber é que saudades não é nostalgia.

A Nostalgia é um sentimento meio doentio, um tanto quanto mórbido. Uma vontade de cristalizar um momento, uma época, um lugar. Nostalgia seria como ser um homem bomba da história.

Saudades te faz sorrir. É ter um pensamento feliz e se sentir flutuando.

Se sartrearmos, o passado é certo, pois está preso na nossa memória. O problema é que Sartre (assim como Marx e o Rock) errou: o passado parece imutável, mas não é. O céu não tinha cor de turmalina, o ar não cheirava a framboesas e, quer você queira, quer não, seu primeiro amor tinha espinhas na cara…

É difícil envelhecer pois as saudades se acumulam. Cada coisa boa que acontece se soma àquela coisa grande chamada Passado, em uma curva exponencial. A cada dia que você quer se superar, você tem um paradigma maior: tudo o que já te aconteceu.

Por outro lado, o panorama contrário é ainda mais desolador: se você não tem saudades de nada, significa que você não teve grandes vitórias. A sua primeira transa com certeza não foi a melhor da sua vida, mas foi uma sensação única.

Esse é um dos problemas da malandricagem (e eis que uma reles divagação se torna um texto metasubjetivo): a gente quer viver sempre mais rápido, queremos sempre acelerar. O movimento uniforme nos angustia, queremos aceleração o tempo todo.

Mas quando você aumenta a velocidade, aumenta também a massa. E se a massa aumenta, a energia necessária pra aumentar a velocidade também é maior. Conclusão: Se você correr muito, mas muito rápido, vai terminar gordo e com uma hidrelétrica enfiada no seu rabo.

Mas o pior de tudo não é a saudades de uma coisa ou de algum lugar, ou ainda de uma pessoa. Essas você pode sempre lembrar. Ter um pensamento feliz e sair voando por aí.

O que dói mais é a saudades de você mesmo, porque o que quer que tenha acontecido, você mudou, e aquela pessoa que você era se perdeu invariavelmente.

Não trago comigo a lembrança do que fui. Quando muito trago comigo a lembrança do que fiz.

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