Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes.

October 3, 2007 § 1 Comment

Qualquer um que está familiarizado com algum tipo de esporte está familiarizado com alguns conceitos não escritos que nós utilizamos aqui como metáforas pra vida.

Temos “O Jogo”, que é o jogo maior, aquele Jogo Platônico, maior que nós mesmos e para o qual damos apenas uma pequena contribuição. Pelé sem sombra de dúvida engrandeceu o futebol. Bruce Lee engrandeceu as artes marciais. Musashi engrandeceu o Kenjutsu.

A virtude dos grandes gênios, seu legado, nada mais é do que tornar maior algo que já existia antes dele. Raramente temos uma invenção 100% original. Estamos apenas flutuando num mar de probabilidades, pegando peças que, de repente (Uia!) se encaixam e formam um todo perene muito maior do que as partes.

Já “o jogo”, assim, com letra minúscula, é uma partida. Uma peleja de final de semana. Ocasionalmente, um campeonato. A diferença de um jogo pra “O Jogo” é simples: Gol de mão também ganha jogo, mas não ganha O Jogo.

Por fim, temos a “jogadinha”, que nada mais é do que um drill, uma estratégia pré-fabricada pra tentar enganar o adversário e ganhar o jogo. Quando o jogador sai correndo pra bater a falta e salta a bola. Quando você finta um chute na virilha e acerta a cara do adversário. Quando a bola sai do abertura, vai pro primeiro centro, volta pro abertura e vai pro segundo centro. Tudo isso são jogadinhas, malandragens usadas pra ganhar um jogo.

A grande virtude das jogadinhas são o fato de que elas são usadas pra confundir o adversário. Se eu sou mais lento, eu finto. Se ele é mais rápido, eu dou olé.

É óbvio que você pode usar jogadinhas contra adversários mais fracos, mas o fato é que a jogadinha parte do pressuposto que o adversário é superior a você em um determinado aspecto. Se eu sou mais rápido do que ele, eu não preciso fintar o chute: eu coloco meu pé na cabeça dele quando eu quiser.

A jogadinha é um reconhecimento da sua inferioridade.

E, como na guerra e no amor vale tudo, como a guerra é a continuação do esporte por outros meios, como o amor é cego, a primeira conclusão à qual podemos chegar é que se você encontrar um cego na rua, pode chutar o saco dele na hora que não pega nada. Não, pera… essa é outra conclusão.

Jogadinhas, fintas, “joguinhos” partem do pressuposto que você está em uma posição de inferioridade. Se você tem que fintar é porque você não é bom o bastante para ir de frente.

Não significa que uma finta não tenha arte, ou que os olés do Garrincha não sejam espetaculares. Mas dá olé quem não corre mais que o adversário.

Não é errado admitir as próprias fraquezas, e se valer de fintas e olés e jogadinhas. Mas é mais importante ser bom.

Se você só faz jogada ensaiada, lembre-se que talvez você esteja olhando o mundo todo de baixo. E lembre-se também que a medida do gênio é a criação e o improviso.

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