Eu hoje Joguei tanta coisa fora…

November 10, 2007 § 7 Comments

Sabe… nem todo texto tem que ser literário.

Nem todo texto tem que ser poético.

Nem todo texto tem uma mensagem pra passar.

Tanta gente usa blog pra soltar algumas coisas que tão dentro de si.

Deu vontade, só isso.

Tem uma música do Paralamas do Sucesso que sempre volta à cabeça.

Na verdade, têm várias… Mas de vez em quando, a música que eu me lembro é essa:

“Eu hoje joguei tanta coisa fora,
Relendo os seus bilhetes,
Eu penso no que eu fiz.

Cartas e fotografias,
Gente que foi embora
E a casa fica bem melhor assim.

Tendo a lua aquela gravidade,
onde o homem flutua,
merecia a visita não de militares
mas de bailarinos.

E de você e Eu…”

Essa música sempre me lembra minha primeira namorada, simplesmente pelo fato de que eu ouvi essa música pela primeira vez no CD acústico do Paralamas do Sucesso, que foi lançado quando estávamos namorando. Cerca de nove anos atrás.

Não, não estou ouvindo isso enquanto arrumo meu quarto. (Se interessar a alguém, a trilha sonora é Johnny Cash. Me pareceu estranhamente apropriado.)

Me lembrei dessa música simplesmente porque estou jogando muita coisa fora. Arrumação de Primavera. Em pleno Verão, Evey. Você já teve a sensação de que precisava se livrar de tudo o que não e mais necessário?

O tempo todo.

Então… essa primeira namorada morreu no começo do ano.

Ela ia se formar em arquitetura no começo do ano (sim, ela terminou a facul ano passado e morreu no delta T entre o fim das aulas e a colação de grau).

Ela teve uma diverticulite. Basicamente é uma fissura do intestino grosso que acontece de vez em quando com algumas pessoas. É razoavelmente fácil de se livrar disso. É só operar logo pra não dar septicemia.

Ela morava no Rio de Janeiro. Foi no hospital umas três vezes, e mandavam ela de volta pra casa sempre, mandando tomar buscopan. Na quarta vez a enfermeira disse que ela seria internada de qualquer jeito. Qando perceberam que não era cólica, operaram às pressas. Mas a infecção já estava no sangue.

Dali pra frente era saber se ela sobreviveria de acordo com o corpo dela.

Ela faleceu.

Bom, hoje é dia de jogar um monte de coisa fora. Aqui está o que eu penso a respeito disso:

Ela era uma pessoa mais boazinha do que eu. Era carinhosa, simpática, fofinha, legal, carismática, e objetivamente fazia pessoas felizes. Quis fazer arquitetura porque queria trabalhar com artes. Quis fazer UFRJ porque achava que não passaria na USP.

Eu sou um filho da puta. Estraguei namoros só pra provar pra mim mesmo que eu podia fazer a mina trair o cara. Aprendi a lutar. Aprendi a bater. Aprendi a lutar com facas. Não sou o melhor artista marcial dentre os que treinam comigo. Mas sou o mais sangue ruim. E isso garante que eu coloque meu pé na cara de quem eu quiser. Meu trabalho se resume a manipular o Estado pra coagir os outros a fazerem o que meus clientes querem. Sou antipático, prepotente, e não tenho nenhum respeito pela vida humana.

Ela merecia viver. Eu não.

Porém, eu fui fazer USP porque era o que eu queria. Eu fiz o que eu quis. Eu sou prepotente, nunca duvidei que ia passar. Trabalho pra pagar meu plano de saúde. Estudo primeiros socorros e medicina porque você nunca sabe quando vai estar dirigindo bêbado e vai sofrer um acidente. Ou quando seus amigos vão tomar bebida demais, drogas demais, violência demais ou simplesmente ter azar.

Eu vim para São Paulo, que tem hospitais melhores. Eu treinei meu corpo pra ser mais resistente. Eu possivelmente prestaria mais atenção no meu corpo. Potencialmente ia colocar o pau na mesa e mandar a porra do Dr. Antonio Carlos de Araújo (Ou outro nome que estivesse no crachá) me atender direito porque eu sei onde ele trabalha, posso descobrir onde ele mora, quem é a esposa dele e onde os filhos dele estudam FÁCIL, e ele não sabe quem eu sou.

Porque eu sou um filho da puta prepotente eu teria mais chances de sobreviver que ela.

A natureza não premia pessoas boas. A natureza premia pessoas eficientes.

A natureza é uma filha da puta e uma vez na vida eu queria que deus me esmagasse com sua “fúria divina” e salvasse uma porra de uma criança subnutrida na China porque eu MEREÇO morrer e a PORRA da criança não tem culpa nenhuma de ter nascido numa porra de ditadura comunista que acha que colocar ela pra trabalhar e ganhar três dólares por dia é “pleno emprego”.

A vida não faz sentido at all.

Quando eu disse que o Marcelo Rubens Paiva não merecia meu respeito porque pulou no rasinho sem ver se dava pé, eu estava falando sério. Obviamente eu nunca falaria isso pra ele por mera educação. Mas, eventualmente pressionado, eu diria abertamente: “Seu retardado mental. Ficou aleijado porque foi idiota. Parabéns, você jogou seu corpo no lixo porque é um imbecil. Qualquer animal possui um mínimo senso de auto-preservação. Você é mais ou menos como um autista da seleção natural: tem polegares opositores, sabe usar ferramentas, mas não tem senso de auto-preservação!”

Eventualmente eu seria processado, ou nunca mais comeria mulher alguma, porque ele é uma artista, e eu sou um advogado materialista e mesquinho, e isso me tornaria um fracasso evolutivo também.

Mas, sabe com é… eu não quero meus genes misturados com os de alguma mulher que ache fofinho pular de cabeça no rasinho e passar o resto da vida numa cadeira de rodas chorando o “azar” de ter sofrido aquele “acidente”.

Eu acredito piamente que temos o dever moral, ético, humano e evolutivo de viver nossa vida da melhor forma possível. Temos que realizar nossos sonhos.

Por favor, nunca confunda isso com hedonismo. Sonhos não se resumem a prazer físico. Ao prazer sensorial. Oscar Wilde estava ERRADO: os sentidos NÃO curam a alma. E eu só posso sentir PENA de alguém que sonhe com o prazer físico. Que tenha no prazer seu objetivo superior de existência.

Pra mim alguém que vive em função do prazer só perde em termos de classificação de “criaturas mais desprezíveis da face da terra” pra quem acha bonito sofrer.

Tipo… sabe aquelas pessoas que gostam de sofrer e alardear somo são discriminadas e que merecem piedade. Então, essas não me dão pena, me dão nojo.

“Ah, mas quem você pensa que é pra julgar os sonhos e desejos dos outros?”

Anarcoplayba, advogado, blogueiro, artista marcial e alguém que com muita freqüência risca uma linha de giz no asfalto e fala: “Daqui pra cá sou eu, daqui pra lá é você. Se quiser invadir o meu lado, mergulha e passa por baixo, Mané, ou eu vou quebrar o seu braço em doze lugares.” Eu não sou ninguém especial, da mesma forma que todo mundo. O que me diferencia de você é que eu tomo partido na vida.

Ah, e pra quem não sabe, doze lugares é o número máximo que eu conheço de fraturas que não precisam de ferramentas pra serem causadas.

Provavelmente eu vou passar o final de semana arrumando meu quarto. Jogando mais coisa fora.

“Tudo o que morre
fica vivo na lembrança.
Como é difícil viver
Carregando um cemitério na cabeça.”

Hoje estou jogando fora pornografia e coisas de pesca.

Uma das coisas mais tristes que eu consigo imaginar é uma passagem no final de Blade Runner, em que o replicante Roy diz: “I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched c-beams glitter in the dark near the Tanhauser Gate. All those … moments will be lost in time, like tears…in rain. Time to die.”

Eu me lembro de quando eu fui comprar minha primeira revista pornô. Eu devia ter sei lá. Quinze anos. Também me lembro de alguns finais de semana jogando vôlei de areia no clube em cruzeiro. também me lembro de noites em que eu saia pra andar, beber e conversar com o Zé, sem destino nem objetivos. Apenas falando besteira e feliz porque a noite era nossa, pra ir pra onde a gente quisesse.

Também me lembro de brigas com minhas namoradas, de vergonhas que passei, de alegrias, de prazeres, e de momentos que vão se perder, como lagrimas na chuva.

E a cada dia que passa, a cada amigo meu que morre, a cada pessoa que parte enquanto eu estou aqui, essas memórias passam a ser responsabilidade apenas minha. Só minha.

Ninguém deveria ser a última pessoa a saber de algo belo. É uma responsabilidade grande demais.

Por isso que devemos sempre seguir em frente. Sempre em frente e sempre alerta. Passo a passo rumo à eternidade. E num passo em falso com a cara no chão.

É impossível viver com a lembrança dos amores perdidos e dos amigos mortos. Por isso que é importante esquecer.

Foco. Olhando pra frente e marchando. Perguntaram pra José pra onde ele ia, mas o poema acabou antes d’ele responder.

Sabe, acho que o momento mais triste da minha vida vai ser quando eu morrer. Não algo do gênero: você está com câncer e tem mais seis meses de vida. Isso acho que dá pra lidar.

O foda vai ser o “caralho, to perdendo sangue pra caralho… acho que essa bala pegou a artéria renal… porra… tem tanta gente que eu amo no mundo e que eu nunca queria abandonar… meus irmãos, meus amigos, meus amores, minha famíla…”.

ESSE vai ser o problema, o dia em que eu não tiver mis como olhar pra frente e marchar e tiver que olhar pra trás… e rever todas aquelas coisas lindas, e belas, e felizes, e alegres, e engraçadas, e tristes, e desesperadoras, e furiosas e… e… e vivas e saber que ninguém mais vai saber de que há anos atrás um casal de namorados sentou naquela calçada só pra passar um tempinho juntos, que há anos aquele terreno era uma escola em que tantas crianças riram, que naquele rio um dia um garoto sentou pra pescar com seu pai que ele nunca chamou de pai porque o pai nunca o chamou de filho e que só depois de muito tempo o filho entendeu o que o pai sentia, embora não saiba se o pai sabia o que o filho sentia. Ninguém vai se lembrar de um grupo de amigos desejando pra todas as estrelas cadentes que os mortos voltem a andar. Ninguém vai se lembrar de uma noite perdida num carro, indeciso de pra onde ir. Ninguém vai se lembrar de uma viagem ouvindo Johnny Cash. Ninguém vai se lembrar de três dias de caminhada embaixo de chuva. Ninguém vai se lembrar de como foi dormir numa rodoviária. Ninguém vai se lembrar de como é BOM beber champagne com os amigos na balada.

Ontem morreu a penúltima sobrevivente do Titanic. A cada dia que passa morrem pessoas lindas de tão velhas e que guardam lembranças que mais ninguém tem e que não podem ser guardadas porque um dia essa porra de estrela que nos ilumina vai queimar o nosso planeta e todos os momentos vão se perder como lágrimas na chuva e as pessoas vão deixar de existir.

Fodam-se as pessoas: as HISTÓRIAS vão se perder! As histórias ESTÃO se perdendo.

O tempo passa, o mundo roda ao redor do sol, a lua roda ao redor do mundo. Não é velhice, é vertigem.

Mas isso não é problema. As pessoas TÊM que morrer porque o mundo PRECISA mudar. A cada dia que passa pessoas deixam o mundo para pessoas que chegam no mundo. A natureza funciona na base da tentativa e erro. Irônico, não? Seleção Natural é só uma forma nerd de falar “Tentativa e Erro”. “Ops, ele pulou de cabeça no rasinho. Ok, esse deu errado, vamos tentar de novo, Humanidade! Vamo lá, ninguém desanima!”

Na base da tentativa e erro a gente vai tentando deixar o mundo um lugar um pouco melhor. Se não der certo, é a vez das baratas. “Vamos lá, baratas! Tentativa e erro! Quero ver! Sem desanimar! Não quero ver nenhuma barata pulando de cabeça no rasinho!”

Mas quer o sol nos queime, quer as baratas herdem a terra, quer os seres humanos evoluam a ponto de garantir que nunca se extingam, uma coisa nunca vai se resolver: momentos sempre vão se perder. E não podemos fazer nada com relação a isso.

Talvez seja essa a aceitação à qual Buda se referia para que atinjamos a paz.

Mas sabe como é. Se fosse fácil, não seria iluminação.

E não, não vou passar corretor ortográfico nisso aqui. Hoje eu tirei a noite pra blogar, não pra escrever.

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§ 7 Responses to Eu hoje Joguei tanta coisa fora…

  • Anonymous says:

    Talvez, só talvez, perder as belas histórias e as belas memórias seja o preço a se pagar para que estas histórias continuem se renovando e se repetindo em novas pessoas, novas situações, muitas vezes do mesmo jeito… Talvez a humanidade pague a graça de viver o seu presente com, de vez em quando, perder alguma memória do seu passado. E será que no fim isso se perde mesmo?

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  • Felipe M. Kalyma says:

    Gostei da tua intensidade escrevendo. Mostra é alguém que se conhece e consegue viver em um constante equilíbrio entre a formalidade e a informalidade da vida. O que é um “foda-se” se depois vem uma frase filosófica por trás dele? Gostei muito.

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  • […] no mundo, sempre, óbvio, tomando o cuidado para não agredir o interlocutor. Como eu disse antes: se me colocassem na frente do Marcelo Rubens Paiva, por educação, eu ficaria de […]

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  • Gueixa says:

    Ah seu coiso lindo!!!

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  • Dois centavos:

    1- Não sei se é o Nirvana, mas é o sentido de Maya que eu tenho… essa é a grande ilusão

    2- Não consigo atrelar progresso com a natureza, a imagem que vem é de um grupo de formigas arqitetando um formigueiro a beira mar

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  • […] Ok, Le maison ces’t tombé, não tem mais o que fazer, vamos sentar na frente do PC colecionando likes nos status que compartilhamos enquanto o mundo queima. A humanidade deu errado, que venham as baratas. […]

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