Canções de Ninar.

August 5, 2008 § 16 Comments

Imagine, por um instante, que você tem um filho.

Se você já tem um filho não leia mais nada, por favor.

Mas não pare por aqui. Dê realismo à essa imagem. Pense na sua esposa ou em você mesma, grávida. Com aquela barriga redonda e linda, com tantas promessas.

Pense em todos os exames pré-natais. Pense na sua apreensão. Pense no resultado desses exames. Todos perfeitos, um atrás do outro, culminando com um nascimento perfeito, com direito a médico jogando a placenta em você pra dar um pouco de risada.

Pense no seu filho, recém nascido, cabendo na palma da sua mão.

Agora imagine que é seu dever educar seu filho ou sua filha, e ensinar tudo o que ela precisa saber pra viver.

Mas não pense apenas que é seu dever. Pense que é sua vontade. Que você não quer, de forma alguma, que ele ou ela sofra na vida.

Agora imagine você tendo que ensinar pra ele a única e derradeira verdade que existe: dali, pra frente, é dor.

Como você explicaria pra esse filho que você ama que ele vai sofrer?

Como você explicaria que as coisas mudam e o mundo roda como um moinho que vai moer seus sonhos tão mesquinhos? Que promessas de amor foram feitas para serem quebradas? Que pessoas deixam de amar as outras de uma hora pra outra, por causa de um suspiro de um desavisado, entre uma valsa e um tango?

“Ciranda, cirandinha vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar. O anel que tu me destes era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.”

Como você explicaria que, não importa o quanto você trabalhe e lute pra conquistar algo, você vai perder por estar no lugar errado na hora errada? Que a vida não liga pra méritos? Que a vida não liga pra nada? Que vem a chuva de verão lavando lágrimas, que vem a demissão levando economias, que vem o pé na bunda levando sonhos, que vem um acidente de carro levando amigos, que vem uma doença levando a alegria e que tudo um dia a vida derrubou?

“A dona aranha subiu pela parede… mas veio a chuva forte e a derrubou.”

Como você explicaria que algumas coisas quando ditas não voltam? Que não inventaram nenhuma forma de re-implantar lágrimas? Que desculpas são uma admissão de culpa, não uma solução? Que não importa se você sinta muito, os outros sentem mais? E que não importa o quanto você chore, grite, berre, peça, implore, soluce, e se despedace, algumas coisas não se consertam?

“Humpty Dumpty sentado no muro. Humpty Dumpty caído do muro. Nem todos os soldados do Rei conseguiram colocar Humpty Dumpty inteiro outra vez.”

Como você explicaria que ela vai amar alguém que não a ama? Como você explicaria que alguém que ela não ama vai a amar e vai fazer de tudo para tê-la, da mesma forma que se tem um objeto? Como você explicaria que talvez os dois se amem, mas acabem se odiando, e queiram machucar um ao outro só porque o outro o machucou antes? Como você explicaria que ninguém nem se lembra quem machucou quem primeiro, mas nenhum dos dois sabe perdoar, mas todo mundo sabe ser cruel quando quer?

“O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada.”

Como você pretende explicar que a vida não é justa? Como você pretende explicar que o amor da sua vida simplesmente não é capaz de corresponder às suas expectativas?

“Pirulito que bate bate, Pirulito que já bateu, Quem gosta de mim é ela, Quem gosta dela sou eu. Pirulito que bate bate, Pirulito que já bateu, A menina que eu gostava, Não gostava como eu.”

Tente explicar que viver é dor e que morrer é trocar uma dor certa por um sofrimento desconhecido. Tente explicar que nada nem ninguém pode proteger você de uma dor que é tão inevitável que já nascemos chorando.

Tente explicar, mas antes me diga: Você já entendeu?

(Texto originalmente publicado no fanzine Álcool com Açúcar #2)

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§ 16 Responses to Canções de Ninar.

  • Sté says:

    Ma-ra-vi-lho-so ! Meus parabéns ! :)
    bjs

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  • Fy says:

    “Há quem diga que todas as noites são de sonhos.

    Mas há também quem garanta que nem todas,

    só as de verão.

    No fundo, isto não tem muita importância.

    O que interessa mesmo não é a noite em si,

    são os sonhos.

    Sonhos que o homem sonha sempre,

    em todos os lugares,

    em todas as épocas do ano,

    dormindo ou acordado.”

    – A Midsummer Night’s Dream
    – Willian Shakespeare

    all these lullabies live in our hearts. Always /
    – who told you we could let them go ? [ we can’t !]

    So,

    – Sir; if you have a litlle time, follow me again, and, – be my guest:

    I know a bank whereon the wild thyme blows,
    Where oxlips and the nodding violet grows
    Quite over-canopied with luscious woodbine,
    With sweet musk-roses, and with eglantine:…

    – A Midsummer Night’s Dream
    – Willian Shakespeare

    Bj

    Fy

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    • Anarcoplayba says:

      Ahhhhh… isso é maldade… Sonho de uma Noite de Verão é meu Shakespeare favorito.

      Por causa dele me apaixonei por Livros da Magia (Neil Gaiman).

      Por causa de Livros da Magia… well… ;)

      Like

  • Fy says:

    little…

    little time

    sorry

    bj

    Fy

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  • […] Canções de ninar. […]

    Like

  • Nicky says:

    Tentar explicar não vai adiantar muita coisa.

    Nossos pais vivem tentando nos explicar coisas e a gente só entende quando quer/tá pronto pra entender…

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    • Anarcoplayba says:

      Esse texto não é sobre filhos. É sobre os pais.

      Não é sobre crianças, é sobre os adultos.

      Saia da perspectiva eu-criança x meus pais-adultos e entre para a perspectiva dos adultos e você vai entender.

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      • Nicky says:

        Qual?

        Aquela perspectiva de quem esqueceu que não adianta explicar e, mesmo assim, vai continuar tentando?

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      • Anarcoplayba says:

        A perspectiva de quem já aprendeu e, por bondade, quer ensinar.

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      • Nicky says:

        Você não pode “ensinar” algo às pessoas; você pode, no máximo, “ajudá-las a aprender.”

        Mas só quando você reconhece o limite entre o que elas já sabem e o que elas não sabem… E vê que no meio está o “quanto estão prontas pra aprender”.

        Pais/adultos (segundo o seu conceito) esquecem dessa premissa básica e querem ir logo dando tudo de bandeija.

        Não funciona.
        Tanto a minha perspectiva eu-criança quanto a minha perspectiva eu-adulta sabemos que não.

        É algo de que todo mundo esquece quando esquece do seu “eu-criança”.

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      • Anarcoplayba says:

        De novo, saia do papel de criança.

        Saia da preocupação com os resultados. Saia do “isso dá, isso não dá”, “isso é possível, isso não é”.

        Não é um texto sobre crianças, por crianças, ou para crianças.

        É um texto sobre saber e querer ensinar.

        Quer dizer, deixa eu me corrigir, é um texto escrito para um fanzine cujo tema era angústia, e escrito com o objetivo de criar no leitor o sentimento tema do fanzine, utilizando imagens, palavras e memórias mais ou menos constantes em uma determinada parcela da humanidade.

        Se formos falar de verdade, eu digo para você que não, a vida não é dor. A vida é doce.

        Ainda que, de fato, as canções de ninar tenham sido escritas por covardes para ensinar crianças a serem covardes, bem, eu não me importo.

        Abandonei o convívio dos covardes por ter antes abandonado a covardia. Abandonei o convívio dos hipócritas por ter abandonado a hipocrisia.

        (Cara, como eu admiro quem disse isso…)

        Se formos falar de ensinar, eu diria que nós (aqueles que querem ajudar) apresentam o pano de fundo, mas a pessoa aprende se quiser.

        E digo mais: nós fazemos tudo o que podemos, apresentamos a razão, o exemplo, o sentimento, a causa e o efeito de algo… Usamos até mesmo as imagens, palavras, sentimentos, cheiros, toques, sons, todos os signos possíveis para falar com “Eus” e não com cérebros, mas a pessoa só aprende se for capaz disso.

        E nesse “capaz”, temos duas possibilidades:

        1) A pessoa realmente não é capaz de aprender porque não é capaz de enxergar que há algo a aprender. O tamanho dela não permite que ela sequer imagine que aquela possibilidade existe e é real. É a pessoa que não consegue imaginar que a Terra gira em torno do sol porque, oras, todo mundo vê que o sol gira em torno da terra; ou

        2) A pessoa vê, imagina, entende, enxerga, mas tem medo de mudar, porque mudar é deixar pra trás o mundo seguro da bicicleta com rodinhas.

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      • Nina says:

        Aprendeu, Nicky?

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  • Gueixa says:

    A vida é doce.
    Anarco, você é doce.
    Lindo texto. Obrigada por partilhar.
    Beijos

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  • L says:

    Concordo, o Anarco é doce e FOFO.

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  • […] Mas efetivamente ela tem essas preocupações. E tudo o que eu tive vontade de fazer foi cantar uma Canção de Ninar e falar que, basicamente, ela entendeu o resumão da vida. Basicamente você vai ter cada vez mais […]

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