Metalinguagem de Cu é um Sexo Oral muito Nojento.

August 28, 2008 § Leave a comment

“Está acontecendo uma coisa que por um lado é muito positiva e, por outro, discutível. Houve um desbloqueio da noção da literatura, daquela grande literatura do século 19, e isso se deu em função do mercado. Hoje, quase não se fala mais em literatura, mas em produção textual. E essa produção, atualmente, está muito variada, como a que se refere à questão das minorias, por exemplo, onde a transgressão é menos formal e se dá mais no plano do que tradicionalmente se chamava de conteúdo. Exemplo: hoje temos uma literatura negra interessantíssima, uma outra que fala da questão indígena, dos gays, das lésbicas, e assim por diante. Tudo isso é uma literatura com uma vertente popular muito forte, sem que seja necessária aquela outra, com L maiúsculo. Nisso a música popular também se enquadra. Scripts de filmes, que ninguém julgava como literatura, hoje ganham força. Outro dia li o Deus e o Diabo na Terra do Sol, e só então me dei conta de que aquilo é um romance maravilhoso. Existem ainda as peças de teatro e, mais recentemente, os blogs, a literatura infanto-juvenil, e assim por diante. Então, esse desbloqueio da noção de literatura é fascinante.” Carlos Herculano Lopes.

Há algumas semanas um amigo que conheci ainda no meu colegial (uou… cerca de dez anos atrás) disse que ele “colocou o Anarcoblog como um dos representantes da Literatura Menor, porque, para ele, blogs fazem parte da Literatura Menor, sem ofensas”.

Bem, eu não poderia me sentir ofendido de forma alguma, apenas lisonjeado, uma vez que, em certos aspectos, concordo com a afirmação de que blogs são Literatura Menor.

Em primeiríssimo lugar, conforme eu já disse: Blogs não é conteúdo, blog é formato.

Os blogs surgiram há uns bons anos já como uma forma de menininhas de 14 anos escreverem sobre o Bon Jovi, e, apenas há coisa de dois ou três anos se tornaram essa febre até mesmo corporativa. Desde Marketing Pessoal até Marketing Publicitário, passando por Auto-Ajuda, Romance, Terror, Livros Técnicos, Jabá, Livros Comerciais, Científico, Umbiguismo e muita confusão é possível encontrar tantos blogs quanto é possível encontrar autores.

Poderíamos dizer, marxismizando as coisas, que blogs foram a difusão completa dos meios de produção intelectual.

Vide, por exemplo, Mr. Manson que publicou um de seus livros no formato de Blog.

O problema é que a produção intelectual não se confunde com produção inteligente at all.

Pra cada Cocadaboa.com existe um Kibeloco.com, ou, melhor dizendo, pra cada blog de produção existe um blog de “catalogação” (usando o argumento do Kibeloco) ou “cópia” (usando o argumento do Cocadaboa). Na verdade, estou sendo bondoso: 90% das pessoas são intelectualmente passivas, recebendo criações dos outros e não dando nada em troca.

E sim, estou tomando uma postura que eu mesmo não gosto muito: por um lado eu gostaria que todos arriscassem uma aventura criativa em suas vidas, por outro lado eu sei que poucas pessoas vão alcançar alguma qualidade mínima que seja, e também sei que poucos encontrarão essas flores no pântano. E se forem encotnradas, eventualmente serão kibadas ou jaborzadas (respectivamente: “publicadas sem crédito” e “creditadas a algum autor famoso”).

No fim, blogs continuarão sendo uma aventura no desconhecido, da mesma forma que os autores novos, mas numa escala maior: você não pode confiar na crítica especializada em função do jabá, e precisa ter a sorte de esbarrar em alguma coisa que valha à pena ser lida.

Essa anarquia literária no universo dos blogs decorre diretamente da flexibilização da produção cultural: pra iniciar um blog você não precisa nem de quinze minutos. O difícil é sair do umbiguismo auto-referente da blogosfera: você comenta num blog porque quer traffic exchange ou porque  tem algo a oferecer? Qual a linha que separa a metalinguagem bloguística da Literatura (quer seja maior ou menor)? Quando um blog sai da internet e entra na vida real? Qual o valor do Inagaki? Do Fabio Hernandez? Do Dahmer? E eu afirmo categoricamente pra não deixar dúvidas: Eu não sei até que ponto eles são escritores ruins, bons blogueiros ou mesmo que alcançaram a categoria de bons autores.

A literatura de blogs guarda uma semelhança interessantíssima com a linguagem HTML, que não é uma linguagem de programação, mas meramente uma linguagem de hipertexto (que não é nada mais, nada menos que a possibilidade de linkar pedaços do texto a outros textos). Sim, o conceito wikipedia de verbetes que conduzem a verbetes e permitem que você comece estudando sobre Walt Disney e termine com um verbete maravilhoso sobre pederastia de anões.

Blogs se referem a blogs, memes, virais, filmes, músicas, etc. Em geral blogs falam de cultura, não criam cultura.

90% dos blogs são metalinguagem.

Ademais (e eu adoro usar “ademais”), textos da internet permitem que você comente algo que seu leitor ainda não leu, desde que você linke para que ele possa facilmente ler e entender o seu texto.

É o fim do hermetismo e do intertexto.

Eu posso falar que “Um dia Anarco acordou de um sono agitado metamorfoseado numa gigantesca ovelha” e, ao invés de despertar curiosidade entre os que não sabem do que eu estou e falando meios sorrisos dos que identificaram a paráfrase e se sentem especiais por causa disso, apenas despertarei a conclusão de que eu estou parafraseando um texto famoso na tentativa de mostrar o quanto eu sou culto.

Já falaram algum tempo arás que vivemos na cultura do videoclip: a idéia é transmitir uma mensagem no menor tempo possível sem a necessidade de prender a atenção do leitor por horas. Videoclips, comerciais, publicidade, blogs: mensagens rápidas, fáceis e imediatas.

Carlos Herculano Lopes insiste, e o problema “É o da qualidade, que infelizmente não tem sido bem resolvido pelos teóricos. O romance e o conto continuam fortes, mas hoje já não são mais imbatíveis, basta ver que as edições estão cada vez menores. Acho que estamos passando por uma fase em que teremos também de dialogar com as formas canônicas do saber, como a filosofia, a história, a sociologia, pois só assim iremos perceber que a literatura é um diálogo extremamente rico.”

Não pretendo aqui emitir um juízo de valor absoluto sobre a nova vertente da Literatura, essa literatura simplificada: Conhecimento tem sim que ser acessível e popular: quanto mais pessoas tiverem acesso a grandes obras, melhor vai ser a média da humanidade. Contudo, algumas obras não são, de per si, inacessíveis: não se lê “Os Pensadores – Nietzsche” e se acha que leu Nietzsche.

Ou seja, metaforicamente falando: não dá pra comer no Sakamoto todos os dias: um Viena é muito mais acessível e útil pra almoçar numa quarta-feira, o segredo é saber quando você vai precisar de uma comida pra gourmets ou pra gourmands.

A questão é que o intelectuais de boutique vão ter que correr mais atrás. É fácil fingir que você leu Platão: basta dar uma passadinha na wikipedia e procurar citações. Funciona com a maioria das pessoas. O difícil é ler, entender, e criar algo novo ou original com aquilo. Duas pessoas podem jantar no mesmo restaurante todos os dias: se as duas vão engordar ou emagrecer depende da atividade física que os dois praticam e dos metabolismos.

(ahhhhh… que saudades das metáforas ruins)

A baixa literatura, os blogs, são um excelente McDonalds, mas McDonalds demais vai te deixar gordo e preguiçoso.

Minha sugestão? Fecha seu browser e vai aprender a cozinhar. De repente você descobre que cozinha melhor que a sua empregada e que escreve melhor que um blogueiro.

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