Fábulas de Escopo.

September 9, 2008 § 4 Comments

Era uma vez uma mamãe Pato que havia botado dez ovinhos e cuidava deles zelosamente.

No seu devido tempo nove ovinhos racharam e de dentro deles saíram nove patinhos, exceto do último que demorou uma semana a mais para sair.

E do décimo ovo saiu um patinho feio.

Quando seus irmãos o viram pela primeira vez, caíram na gargalhada e começaram a pular e cantar:

“Quem é o patinho feio

Quem é o patinho feio

me diz, me diz quem é!

tem cara de mané!”

O Pobre Patinho feio nem sabia onde se esconder! Se pudesse, colava as casquinhas do ovo e voltava pra dentro!

E todos os dias era a mesma historinha: na hora do lanche roubavam seu lanchinho. Na hora de dormir puxavam seu cobertorzinho. Quando ele queria ficar sozinho ninguém deixava ele em paz.

Quando reclamava com a mamãe pato ela dizia que ele tinha que ter paciência porque ele era especial e seus irmãozinhos não entendiam isso.

As patinhas o achavam tão sensível… mas namoravam seus irmãozinhos.

E era tanta dor, mas tanta dor que o patinho feio decidiu fugir… fugir e nunca mais voltar!

E ele correu! Correu até suas patinhas cansarem, voou até suas asinhas tremerem e nadou até quase não conseguir mais!

E lá… sozinho no meio do nada, no frio e no escuro, ele olhou para o céu e pensou:

“Por quê? Por quê? Os outros patinhos fazem isso comigo? Eu só queria ser eu… só queria ser quietinho…”

E então, de trás dele uma voz forte e calma lhe disse:

“Porque você deixou. Porque respeito não se pede, se toma. Porque quem não é jogador é carta ou ficha!”

“Quem é você?” – perguntou o pequeno patinho feio.

“Se você quiser se tornar o Senhor de seu destino, se você quiser ter poder sobre a vida e a morte de seus inimigos, dê-me sua mão e faça um juramento de sangue de que você nunca mais permitirá que os outros lhe machuquem, e passe a me chamar de Mestre!”

Com os olhos ainda marejados, com as patinhas ainda doendo, com as asinhas ainda tremendo, o pequeno patinho feio se ergueu, ainda cambaleante e disse com a voz firme e decidida, pela primeira vez segura de si: “Por esse sangue que eu ora derrubo – e fez um corte em sua pequena mãozinha – eu juro que nunca mais vou permitir que os outros tomem o controle da minha vida. Mestre, tome-me como seu discípulo!”

No dia seguinte começou seu treinamento.

Todos os dias, mil barras, mil flexões e mil abdominais. O Patinho Feio fortaleceu seu corpo.

Todos os dias: no frio, no calor, com sede, com fome, com dor. O Patinho Feio fortaleceu seu espírito.

Todos os dias, aprendendo todas as artes da morte do engano e da manipulação. O Patinho Feio Fortaleceu sua mente.

O Patinho Feio aprendeu que para ser você mesmo você precisa primeiro ser melhor que seus inimigos.

Ao final de sete anos o Mestre o chamou: “Meu discípulo… Não há nada mais que eu possa lhe ensinar. Você se tornou tudo o que eu ensinei. Eu lhe ensinei o Poder de controlar sua própria vida. Há uma última coisa que eu preciso lhe ensinar.”

“Diga-me, Mestre. Qual será seu último ensinamento?”

“Você sabe usar as artes da morte, do engano e da manipulação contra o alvo do seu ódio. Agora você precisa aprender a utilizá-las contra o alvo de sua afeição. Prepare-se!” – Assumiu a postura de combate.

O Patinho Feio, não entendia! Por que seu mestre lhe atacava? Ele não poderia nunca matar aquele que tudo lhe ensinara!

Um soco no estômago lhe tirou o ar.

“Não pense, sinta!” Gritou-lhe seu mestre!

Um chute no rosto o fez lacrimejar.

“Não aja, Reaja!” Esbravejou o Mestre.

Um giro de quadril o fez perder o equilíbrio.

“Você não é um Pato! Você é uma força da Natureza! Esvazie-se de ego! Torne-se vazio!” Disse seu mestre enquanto pulava no ar, descendo com uma voadora nas costas do Patinho Feio.

“Você SABE quem você é! Você SABE do que é feito! Você SABE para que treinou!” Disse o mestre, com voz de Rambo no seu último filme, enquanto arremessava o discípulo.

O Patinho Feio aterrissou duro no chão, com sangue escorrendo de suas feridas e lágrimas de seus olhos. Por que seu mestre lhe atacava? O Que ele queria?!

Soluçando e chorando o Patinho Feio gritou: “POR QUE?!?!”

“Porque todo mundo morre um dia, meu Discípulo. E faz parte da missão do Discípulo assassinar o Mestre.”

O Patinho feio entendeu. Soergueu-se. Pediu licença a seu mestre e lavou-se no lago.

Retornou para onde caíra, limpo do sangue e das lágrimas que derramou. Pediu desculpas a seu mestre e perguntou-lhe:

“Pronto?”

Seu mestre acenou com a cabeça.

Naquele instante o mundo parou para ver o balé de morte e renascimento que se exibia às margens do rio e sob a luz das estrelas.

Uma coreografia de ataques e bloqueios. Avanços e esquivas. Como se cada movimento estivesse desenhado desde a aurora do tempo, esperando para que aquelas duas forças da natureza os preenchessem.

A Vida e a Morte se regojizavam enquanto assistiam o preenchimento de um vazio há muito criado.

Eles não saberiam quando ou como, mas a luta acabara com o Mestre caído no chão.

O Patinho Feio se ajoelhou ao seu lado enquanto seu mestre lhe pediu para que endireitasse seu corpo.

“Discípulo… Para onde corre esse rio?”

“Para o Mar.”

“E quando as ondas estouram na praia… pra onde elas vão?”

“Elas voltam para o mar.”

“Meu discípulo… quero que você saiba que nossas vidas são como as ondas. Nascemos na calmaria, vivemos em movimento e desaparecemos em espuma e barulho, apenas para retornar para de onde viemos e nascer de novo. Quero que você saiba que… nessa vida… e nas próximas… eu serei sempre ao seu lado. Erga-se agora… e me ajude… com meu… seppukku. Erga sua Katana… Feche seu dedo mínimo… e com ele reconheça que tudo é transitório. Com seu dedo anular… reconheça que tudo nasce, cresce e se transforma. Com seu dedo médio entenda que tudo nasce, morre e alcança o Nirvana. Com o indicador… admita… que a verdadeira paz… só é alcançada abandonando o sofrimento. Com seu polegar, torne-se vazio… e aprenda que todo sofrimento advém do conflito… Namu.”

Enquanto a Wakizashi de seu sensei abria os três cortes da sinceridade em seu abdômem, a Lâmina do Patinho Feio cumpria o Grande Corte do Bambu.

“Esplêndido.” Disse o Cisne Negro antes de cair dividido em dois.

O Patinho Feio preparou o funeral de seu mestre. Cremou seu corpo e jogou as cinzas no rio, para que corressem para o mar. “Estranhamente apropriado, pensou.”

Na noite seguinte, o Patinho Feio voltou para seu lar. Foi recebido com surpresa por todos. Todos diziam que ele estava diferente mas ninguém saberia dizer como.

Seus irmãos envelheceram desordenadamente.

E um a um, todos com intervalos de pelo menos um mês, morreram em estranhos acidentes.

E o Patinho Feio retornou para as montanhas, mas não antes sem falar para a Mamãe Pato: “Se você tem o poder para decidir, e se abstém, você também é culpada. Quanto sofrimento não teria sido evitado se você não tivesse se omitido, não?”

E o Patinho Feio teria vivido para sempre como uma força da Natureza em harmonia com o Caos, se uma noite ele não tivesse sido despertado de sua meditação pelo som de choro de um patinho que se lamentava e choramingava, questionando por que os outros patinhos eram tão cruéis.

E o Patinho Feio entendeu quem ele de fato se tornara. Era hora do Discípulo tomar o Lugar do Mestre.

“Porque você deixou. Porque respeito não se pede, se toma. Porque quem não é jogador é carta ou ficha!” – Disse o Patinho Feio.

“Quem é você?” – Perguntou o Patinho Chorão.

“Eu? – heh – Se você quiser se tornar o Senhor de seu destino, se você quiser ter poder sobre a vida e a morte de seus inimigos, dê-me sua mão e faça um juramento de sangue de que você nunca mais permitirá que os outros lhe machuquem, e passe a me chamar de Mestre!”

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