Da Série: Como eu queria ter escrito isso antes.

September 22, 2008 § Leave a comment

UM PREFÁCIO PARA O PRÓXIMO LIVRO

Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Vinicius de Moraes, Soneto de Fidelidade

Um dia, um bom amigo me perguntou se eu fazia Ulisses sofrer por pura perversão. Levei um susto, claro. Porque de início, pensei tratar-se de uma pessoa de verdade, de quem eu sequer lembrava o nome (em minha defesa, posso lhes confessar que eu não lembro de praticamente nada). Mas era o personagem Ulisses, o solitário de A Cabeça é a Ilha, a quem eu fazia sofrer desmedidamente para o meu amigo. Ulisses, o desgraçado que arde de paixão platônica. Aquele que está só no meio da multidão. “Mas Ulisses… Ulisses é de papel!”, disse, em tom de desculpas. “Mas os leitores são de carne e osso, André”, retrucou meu amigo, com a raiva contida dos que estão machucados.

Eu juro que não fiz Ulisses por mal. E muito menos para ter prazer, por favor. Na verdade, acho que fiz Ulisses até por obrigação. Não tenho qualquer vocação para o denuncismo, mas acho que Ulisses é tão somente a denúncia da solidão. Porque a solidão é uma condição humana inalienante, um fantasma que nos assombra por toda a vida e nos beija profundamente na hora da nossa morte. Desse demônio, nasceu e cresceu a Indústria dos Sozinhos, com a TV como carro chefe das vendas e última trincheira dos que já não podem abraçar alguém, contar um segredo, dividir um bom copo ou prato.

Posso dizer que ganhei na loteria da vida. Tenho uma família linda e a sorte de grandes e leais amigos. Amei muitas mulheres maravilhosas que eu nem sequer merecia a companhia (mas elas aprendem rápido e sempre me abandonam). Tenho ainda uma corajosa esposa que não permitirá que eu enlouqueça (a loucura como maior vocação, vocês não fazem idéia do que é isso). Mas ainda assim, e apesar de toda a sorte, sinto-me um sozinho e acho que não conseguirei reverter esse sentimento até o final da festa da vida.

Mas o problema é muito maior e o buraco é mais embaixo, meus amigos: é que sei que não estou só na minha condição de solitário. Por ironia de Deus, nós solitários somos muitos e estamos em todos os lugares. Seguimos morrendo aos poucos nos bares e dentro de nossos quartos, varando as madrugadas sinistras com a ajuda da pornografia em banda larga. Estamos nos cinemas, comendo pipocas sozinhos. E nos escritórios, calados atrás de seus computadores. Despercebidos, quase anônimos aos olhos do outro, os solitários se arrastam pelos labirintos da timidez ou vivem de um sentimento de estranheza de mundo, com toda a razão. É que hoje em dia, o amor é artigo raro e a indiferença é vendida, aos borbotões, como algo moderno e libertário.

Quando se encontram, o que um tímido diz para outro? Nada, diz a piada. Eu, em meus estudos sobre solidão, descobri que os tímidos guardam dentro deles o maior dos universos afetivos. Tentem amar um deles e vocês verão. Aprendi também a reconhecer um solitário pelo jeito de andar e até pela maneira como ele segura um copo de bebida (sempre colado ao peito). E também, claro, pela maneira de olhar para uma mulher bonita passando pela rua. Por isso, recomendo esse álbum para essas pessoas que conversam com terceiros com os olhos mirando o chão. Para os falam sozinhos, bêbados em seus apartamentos. Para os que olham para os edifícios altos como uma saída digna para o sofrimento. Não que Ulisses vá curá-las de toda angústia. Mas rir de Ulisses é uma forma de domesticar nossos monstros e aceitar nossa fragilidade diante do abandono e da indiferença. Por isso, não tomo Ulisses como uma aberração, mas sim como um presente feio que só as pessoas bonitas merecem ganhar.

André Dahmer (autor do http://www.malvados.com.br)

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