Pensava na inconstância humana enquanto pedia um sundae.

December 3, 2008 § 2 Comments

Não procurava nada muito elaborado ou complexo. Apenas um Mc Sundae e a paz de espírito.

A maior parte do tempo, vivia sem pensar. Por sorte deixara para trás a fase de pensar sem viver.

Potência não é nada sem controle. E controle, significaria alguma coisa sem potência? O controle excessivo talvez o tornasse um oásis de estabilidade no meio do mundo. Algo como uma âncora sem barco.

Sentia-se uma âncora de cortiça. Uma bóia sinalizadora. Uma estrela do norte que se mantinha no norte para nortear. Pra que serviria um ponto de referência inconstante? Por que o Top Sundae tinha um copo tão profundo?

Sempre se atrapalhava com tais divagações.

Sabia que tudo tinha uma função. O fusilli que comprara para o jantar não era no formato de parafusinho porque achavam bonito, mas sim porque aquele formato segurava melhor o molho.

Quem fez o primeiro fusilli? Quem colocou as pontinhas de plástico nos cadarços? Quem pensa o mundo?

Deve haver alguma explicação. Um modelo que explique tudo. Provavelmente algum comportamento animal, um espírito de manada que fazia com que todos caminhassem na mesma direção.

Uma manada de advogados, uma matilha de publicitários, um cardume de médicos, todos marchando como uma humanidade de lemingues.

O mundo caminha n’alguma direção.

“O mundo faz sentido… ainda que eu não o sinta.”

“Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que eu não a saiba.”

Tanto que ele gostaria de ter dito antes. E não seria isso inveja dos outros? A vontade de escrever algo que não escreveu e, assim, continuar sem escrever algo que valha à pena ser lido?

O que vale à pena ser lido?

“Desconcentre-se”, pensou. “Quem vê a folha não enxerga a árvore. Quem olha a árvore não enxerga a floresta” pensou.

“Quem olha os peitos não vê a bunda” divagou, sentindo-se um pouco feliz por ter traduzido um koan para o mundo moderno. “Deveria fazer isso para viver”, pensou. “Eu viveria feliz até ser linchado quando fizesse alguma piada sobre a utilidade das chagas de Cristo na masturbação”, pensou.

Acabou seu sundae e, como sempre, estava com as mãos meladas. “O amor de um copo fundo com uma colher curta”.

Faculdades de Design Dante Alighieri – aprenda design made in hell.

Tem dias em que você sente o mundo escorrer por entre seus dedos. Dias em que existe uma música de fundo imperceptível. Em que alguém está te observando no canto dos seus olhos. Dias em que alguém está tocando violino dentro do seu armário.

Sentia que essa grande revelação estava lá… logo após a esquina… apressou o passo e se descobriu no futuro: um camelô berrava:

“Olha o photoshop! Olha o photoshop! Adobe Professional na minha mão é mais barato!”

“Então isso é o futuro?” – pensou – “Windows Vista em cada esquina? McDonalds na África? 15 minutos de fama é virar um viral?”

Não sabia se queria viver num mundo desses olhou para o céu e viu a torre de uma igreja se elevar contra o firmamento. Em um instante tudo ficou claro. Correu em direção ao mosteiro São Bento. Abriu caminho em meio à multidão que desordenadamente caminhava para o mesmo lugar.

Pulou do viaduto Santa Ifigênia e teve um pensamento feliz. Quase conseguiu voar.

Mal sabia que se virasse a outra esquina encontraria uma vendedora de rosas.

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§ 2 Responses to Pensava na inconstância humana enquanto pedia um sundae.

  • Guiga says:

    Os caminhos da humanidade como coletividade não são muito fáceis de definir. Na verdade, da forma como enxergo as coisas, eles fogem a qualquer tentativa de recionalização. Verdade seja dita, estamos, enquanto coletivo, muito longe daquele ideal que chamamos de civilização….

    Tenho dificuldades de enxergar esse espírito de manada que vc fala. Na contra mão, acredito que cada um empurra o bolo numa direção, e o somatório desses esforços leva pra algum lugar, dificilmente premeditado.

    Controle pode ser absolutamente irrelevante sem potência. Mas não precisa nem pensar nas paranóias estilo guerra fira pra saber que temos o segundo em excesso, e uma forte carência do primeiro. De certa forma tão assim, que controle virou em si uma potência, uma mercadoria…

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  • isqueiro azul says:

    “Pulou do viaduto Santa Ifigênia e teve um pensamento feliz. Quase conseguiu voar.

    Mal sabia que se virasse a outra esquina encontraria uma vendedora de rosas.”

    quase conseguiu voar, isso me fez pensar durante algum bom tempo.

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