Vamos fazer metáforas ruins. (ou, um post sobre a nostalgia da modernidade)

March 19, 2009 § 8 Comments

Recentemente tive a oportunidade de ver um documentário chamado ” The Mindscape of Alan Moore”.

Eu colocaria o Embedded player aqui, mas no youtube só tem as coisas separadas e e não consegui encontrar o documentário completo.

Bem, o Alan Moore basicamente é um freak. O freak mais genial que eu conheço, yet, um freak. Nessas horas eu posso pagar pau de conhecedor da cultura underground, mas vocês da cultura pop vão reconhecer ele pelas duas obras cinematográficas recentes: V de Vingança e Watchmen.

Mas esse texto não é sobre quadrinhos… é sobre física quântica, relacionamentos afetivos e mulheres gostosas.

No transcorrer do documentário, o Alan Moore passa por um conceito que eu achei interessantíssimo, que é o de um cálculo, uma curva, que demonstra graficamente de quanto em quanto tempo a tecnologia e o conhecimento humano demora pra dobrar.

Era mais ou menos algo do gênero: da pedra lascada pra pedra polida demoramos um 2 milhões de anos. Da Pedra Polida pra idade do bronze, um milhão de anos. Do Bronze pro Ferro, 500 mil anos. Do Ferro pra agricultura, 250 mil anos. E por aí vai.

Obviamente eu dei exemplos imprecisos e errados. E eu fiz isso porque isso é um blog, não a wikipédia, e eu tô cagando e andando pra datas e fatos em comparação com o que eles significam.

Bem, segundo cálculos a média hoje é de que todo o conhecimento humano dobra em cerca de 4 anos. Espera-se que por volta de 2014 todo o conhecimento humano dobre em cerca de 4 meses. E lá pra 2020, talvez dobre a cada hora.

A metáfora que o Alan Moore usa pra isso é: Saímos de uma era de conhecimento sólido e passamos para uma época de conhecimento líquido. Hoje, a cultura está em ebulição, passando para uma cultura gasosa. E, um dia (e isso quem perguntou foi o Rípper), talvez passemos pra Plasma.

A consequência é que o conhecimento humano hoje é incerto. Dou como exemplo idiota ovos. Ovo lá pra 1996 era o grande vilão do colesterol. Lá pra 2003 era bom em pequena quantidade. Hoje já falam que é bom sim, que você pode comer dia sim, dia não!

Isso seria um fato de per si complexo para todos nós, que vivemos em incerteza. Porém, temos que ter em mente que a cultura humana acompanha os avanços científicos: Depois de Einstein, chegamos ao relativismo moral; depois de Darwin, a competitividade recebeu um carimbo de reconhecimento; depois de Freud começamos a falar que “inconscientemente era isso que queríamos”.

Não que não fosse assim antes, mas parece que dar nomes a demônios deixa eles mais fortes.

E como no fundo eu não passo de um romântico frustrado (ou um canalha incompetente), isso me veio à cabeça em termos de relacionamentos afetivos: Os relacionamentos hoje estão em ebulição. As ligações são cada vez mais instáveis e tênues. O mínimo de esforço e <poof!> vc se liberta da molécula que está do seu lado.

Eu sei que muita gente vai falar que estou falando da minha vida, mas na verdade estou falando da vida dos outros (mais especificamente de um brother que se sentiu “traído” por uma ficante). Mas obviamente isso envolve muito da minha vida também.

O fato é que hoje, pra todos os efeitos, existem homens e mulheres infinitos. Ainda que você QUEIRA, você não vai catar todo mundo. E antes que o Capitão Óbvio apareça, não, isso não foi sempre assim, e basta você lembrar que existem cidades no brasil com 5.000 habitantes: nelas você não tem parceiros sexuais infinitos.

E o fato de que temos parceiros potenciais infinitos gera uma instabilidade e inconstância: o conceito de relacionamento contratual está desgastado, vez que o número de pessoas que você conhece te dá duas certezas: que ninguém é único e especial, e que você não vai passar o resto da vida sem sexo ou um relacionamento afetivo.

Ou seja: ter um relacionamento contratual baseado no “valor” do outro, está com os dias contados. Quer uma esposa gostosa? Tem um monte. Um homem romântico? Milhões. Uma mulher companheira? Dúzias no seu bairro. Um cara rico? Procura nos Jardins.

E isso vale pra ida e vale pra volta: você não tem razões concretas de interesse pessoal pra ficar com uma pessoa só. Nem essa pessoa tem razões concretas pra jurar amor pra você pro resto da vida.

Então, diriam os pessimistas, é o fim do relacionamento romântico?

Prefiro e pensar que “it’s the end of the romantic relationships as we know it, but I feel fine”.

Se você tira o foco dos relacionamentos do interesse do eu (o egoísmo do “existe algo que só essa pessoa pode me oferecer e mais ninguém pra eu dar exclusividade pra ela?”) você precisa de uma mudança de paradigma: ou você se torna solitário, frio e inerte, tomando mais do mundo do que você oferece, ou você meramente aceita as interações diárias com as pessoas como uma forma de trocar experiências e bons momentos com alguém.

Não, não estou falando que é fácil e que não existe ciúmes. E, se me permitem, o ciúmes masculino (e eu só posso falar disso porque sou homem, mulheres, manifestem-se se quiserem) é um sentimento de nojo. Eu acho que é uma resposta biológica hard-coded no nosso DNA que busca evitar que a gente “crie o filho dos outros”.

É ruim? É… mas talvez seja hora de criarmos um novo paradigma de amor. Algo que não é uma relação contratual de direitos e obrigações. Ou sair de uma relação afetiva que trabalha com uma ligação molecular iônica (eu compartilho uma parte de mim com você, vice-versa, e isso exclui todos os outros).

E isso porque, se estamos numa cultura em ebulição, logo entraremos em estado gasoso, que não tem forma e nem volume definidos, e cujas moléculas possuem um padrão de movimento caótico e aleatório.

Mas o Plasma, o Plasma não possui nem forma e nem volume definidos… mas interage com o meio e responde a estímulos magnéticos de forma ordenada e harmônica.

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§ 8 Responses to Vamos fazer metáforas ruins. (ou, um post sobre a nostalgia da modernidade)

  • Ruthinha says:

    tá afim de participar de uma brincadeira? passa lá no blog!

    vc está INTIMADO a fazer! =PPP

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  • Ruthinha says:

    vc está INTIMADO a participar de uma brincadeira ali! passa no blog! =)

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  • ficção says:

    1) romântico incompetente E canalha frustrado
    2) algumas coisas nunca mudam, apesar das mudanças. relacionamentos românticos sempre existirão, assim como as músicas bregas e as ruins. AS bregas E AS ruins, afinal, “garçom, aqui, nessa mesa de bar, vc já cansou de escutar centenas de casos de amor” não pode ser comparada com “creeeeeeeeeeeeeeu… creeeeeeu”. relacionamentos românticos sempre existirão apesar da nossa atual “desengonçabilidade” para relacionamentos de qualquer tipo. as pessoas amam, as pessoas se ferem, as pessoas mandam tudo se fuder até o próximo amor à primeira vista. é como perder a chave: ela nunca tá onde vc procura e qdo vc desiste, acha. a carência atrapalha e eu acho q qto mais possibilidades, mais perdido a gente fica. vc abre o guarda roupa e tem q escolher 1 blusa entre 50… é mais difícil do q 1 em 5. então, não quer dizer necessariamente q os relacionamentos estejam “fardados de extinção”, apenas q a gente tem tanto lugar pra olhar q acaba não vendo nada.
    3) ciúme masculino é sentimento de nojo? ciúme feminino é multifacetado: pode ser q vc nunca perceba até o extremo de se sentir sufocado. mas no final não adianta mto… homens mto geralmente são agricultores: têm necessidade de espalhar sementes na vastidão do campo…
    4) apesar de definir e redefinir conceitos, somos (ou deveríamos ser) seres sociáveis… amor é amor, gás é gás e é de muito bom tom vc não misturar as duas coisas… senão vc fica com o gás e sem o amor! ahahahhahahaa porque intimidade é uma merda!!!!

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  • Juremeiro Preto says:

    vc esqueceu do papel das DST´s como controle da promiscuidade.
    Existe uma epidemia de varias delas hoje em dia, muitas incuraveis, nao sabia?

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  • […] Num outro blog, a contabilidade do progresso do conhecimento é apresentada da seguiinte forma: Bem, segundo cálculos a média hoje é de que todo o conhecimento humano dobra em cerca de 4 anos. Espera-se que por volta de 2014 todo o conhecimento humano dobre em cerca de 4 meses. E lá pra 2020, talvez dobre a cada hora. […]

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  • […] quarto autor faz a seguinte contabilidade: dobra a cada quatro anos atualmente, dobra em quatro meses em 2014, e […]

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  • […] tempos de gaseificação da cultura, quando o conteúdo se torna tão virtualizado a ponto da volatilidade de compartilhamento ser […]

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  • […] tempos de gaseificação da cultura, quando o conteúdo se torna tão virtualizado a ponto da volatilidade de compartilhamento ser […]

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