Projeto Ficção.

March 23, 2009 § 2 Comments

Chovia.

Eles discutiam no carro.

Ela mal podia acreditar que se interessara por aquele arremedo de homem. Claro que por alguns meses fora interessante. Um homem mais novo, devidamente apaixonado. Alguém que fazia de tudo para agradá-la.

Suas amigas o achavam um fofo. Ele sempre lhe mandava flores nas datas relevantes. A levava nos seus restaurantes favoritos. E sempre pagava a conta.

Mas não era isso que ela queria. Ela tinha vinte e cinco anos. Ele vinte e um. Entre homens e mulheres, é uma diferença gigantesca. Ele tinha uma vida pela frente. Ela queria uma vida mais estável. Envelhecer em paz. Com calma. Se preparar para ter filhos. Era uma questão de tempo.

E não temos tempo a perder.

E isso era metade do problema. Seu chefe. Interessante. Educado. Vivido. Com uma história profissional invejável.

Ele tinha vinte e nove anos, ela vinte e cinco. Entre homens e mulheres, não é uma diferença tão grande.

Não era uma questão de dar em cima do chefe para progredir na carreira. Era uma questão de dar em cima do chefe para largar a carreira. Seu diploma valeria muito bem um bom marido.

Obviamente ele descobriria a traição. O que não lhe era óbvio, no entanto, era que ele não terminaria o relacionamento, mas sim pediria uma segunda chance. Idiota. Ele não entendia que ele era só metade do problema?

Arremedo de homem.

Palavras frias.

Porta fechando.

Ela sai do carro e vai para seu prédio.

Ele foge.

Chove.

Ela não se recordava de quando vira uma chuva daquelas. Talvez na Tailândia, em sua lua de mel. Obviamente a chuva em um resort na Tailândia era muito mais agradável que a chuva em São Paulo. Embora fosse muito mais cara.

Definitivamente os teatros eram seu programa favorito. Não pela peça. Não que ela não gostasse da peça, pois ela gostava. Diria mais: treinara seu gosto artístico: tornara-se culta por esforço próprio, e tinha orgulho disso. Provavelmente tinha lido mais autores clássicos que muitos atores.

Mas não era esse orgulho que a cativava. Era o ritual envolvido. O vestido. O penteado. A maquiagem. Os sapatos. Podia afirmar categoricamente que ia ao teatro não para ver, mas para ser vista.

E gostava de ser vista, pois os anos foram bons com ela.

Isso e a bolha que se formava ao redor dos teatros do centro. Imaginava uma época em que os prédios fossem novos, não reformados e as pessoas buscassem a região pois era o créme de la créme da modernidade, não da nostalgia.

Obviamente se sentia a única que enxergava as coisas por esse viés.

Seu marido saiu para pegar o carro. Voltaria logo. Mas um frio em seu estômago lhe chamou a atenção. Subindo a calçada… meio manco, ensebado, sujo, fedido, rasgado e ornado com inúmeros outros adjetivos que ela sequer se lembrava, vinha um cobertor, carregando seu ex-namorado.

As pessoas costumam pensar que a palavra “choque” é uma metáfora para a sensação de espanto.

Poucos sabem que espanto é um eufemismo para a verdadeira sensação de choque.

Ele caminhava lentamente subindo a avenida. Olhava para um ponto fixo no chão, como se não merecesse olhar para as pessoas que o cercavam. Onde ele teria perdido o orgulho e a altivez, pensava ela. Talvez seis anos atrás, dentro de um carro numa noite chuvosa.

Ela deu um passo à frente e parou.

Ele, ao subitamente encontrar um obstáculo naquele mar de perfumes e jóias, que se abra para ele passar como um moisés sem cajado parou.

Seus olhos escalaram as pernas que seus beijos escalaram outrora, e encontraram os olhos que um dia se viraram para fora do carro e, subitamente, a vida voltou aos seus olhos.

– Pedro… o que aconteceu?

– Sai da minha frente. – balbuciou ele.

– Por que? Foi por minha causa? Foi porque eu terminei nosso namoro? Por que? Você sempre foi tão altivo… tinha um futuro brilhante pela frente! Não pode ser um fim de namoro que fez isso com você! Você é mais do que isso! Você devia ter superado!

– Sai…

– Por favor… me fala que a culpa não é minha… – sua mão se estendeu em direção ao cobertor em sua frente, como se quisesse atingir o mendigo e talvez até mesmo o passado – Você pode sair dessa situação… olha, pega meu cartão, me liga que você vai retomar a sua vida… vai começar de novo…

– Eu disse… SAI!

Com um movimento rápido ele deixou o cobertor cair e puxou seu braço, derrubando-a em cima daquela massa de tecido tão prenhe de adjetivos, dentre eles, macio.

Com o caminho livre, sacou a 9mm que trazia embaixo do braço e deu três tiros: dois no esterno, um na cabeça, que derrubaram um homem que ninguém conhecia.

A última frase que ela ouviu antes de vê-lo subir em uma moto foram:

– O alvo caiu! Quero evasão vermelha vinte! Repito: O alvo caiu! Evasão vermelha vinte!

Ele foge.

**************************************

O projeto ficção não é nada além de ficção. Contos que eu tinha vontade de transmigrar em outras mídias. Curtas, quadrinhos, peças, livros, mas que, quer por limitações artísticas ou técnicas, permanecem contos.

Caso alguém tenha interesse em adaptar, entre em contato.

E acho que vocês gostariam de saber, mas todo o texto é ficção, exceto a frase em itálico.

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