Monólogos Despropositados.

March 31, 2009 § 3 Comments

Houve um tempo em que eu sabia cantar.

Não apenas eu sabia cantar, mas eu cantava bem. Sabia as notas corretas que faziam o mundo dançar.

Nunca foi um dom, mas foi um treino. Um treino longo e doloroso.

Oras, a quem eu quero enganar? Não foi doloroso em momento algum.

Como um Demóstenes, me equilibrava na beirada de ombros para tentar cantar mais alto do que o som do bar. Ou da balada. E elas dançavam. Como elas dançavam. Dançavam como fosse um par, seus corpos e a valsa triste, se rodopiando ao som dos bandolins.

E eu ainda cantaria. Eu cantaria se não estivesse cansado pra caralho, velho pra caralho, decepcionado pra caralho e desinteressado pra caralho.

Sabe o que é triste? A gente passa todos os dias da nossa vida acreditando que a felicidade está num ponto constantemente adiante de nossos narizes. Como cavalos olhando pra uma cenoura. Damos um passo adiante acreditando que nossa felicidade está uma mulher mais gostosa, um emprego melhor, um carro mais caro, um amor mais puro, uma comida mais gostosa ou num pinto maior.

E corremos. Ah como corremos. Cada um pra uma direção, acreditando que o seu norte é melhor que o nor-noroeste do outro. E ainda por cima julgamos! “Olha que idiota… se matando por um emprego. Eu quero é encontrar um amor de verdade!”

Mas todos corremos.

A melhor prisão é uma ilusão de liberdade. Nos obrigam a correr, mas achamos que porque corremos para o lado que queremos não haverá problema.

Temos muito mais arbítrio do que liberdade. Seu livre arbítrio é dez vezes mais arbítrio que liberdade. Você pode fazer ou não o que quer, mas não escolhe o que quer.

Sabia que olhar para um cartão de crédito libera endorfinas?

E antes que você pense que é propaganda capitalista, não é. É por causa das proporções entre os lados.

E inúmeras outras coisas.

A comida que você come, a bebida que você bebe, a música que você ouve, as drogas que você toma, tudo isso influencia no seu arbítrio. Nada é pequeno.

Estou me tornando um paranóico? Um veterano de guerra urbana? Um capitão Willard emo?

Saigon… shit; I’m still only in Saigon… Every time I think I’m gonna wake up back in the jungle. When I was home after my first tour, it was worse. I’d wake up and there’d be nothing. I hardly said a word to my wife, until I said “yes” to a divorce. When I was here, I wanted to be there; when I was there, all I could think of was getting back into the jungle. I’m here a week now… waiting for a mission… getting softer. Every minute I stay in this room, I get weaker, and every minute Charlie squats in the bush, he gets stronger. Each time I looked around the walls moved in a little tighter.

Meu quarto? Merda… ainda estou em meu quarto. Cada segundo eu imagino que vou acordar numa balada.  O primeiro namoro depois da primeira etapa de guerra foi o pior. Eu metia pensando na balada. Quase nunca saía com ela, até sair da vida dela. Fiquei um ano sem dizer “eu te amo” até dizer “acabou”. Quando estava com ela, queria sair pra guerra. Quando saía pra guerra, queria estar com ela. Estou no meu quarto há uma semana agora. Esperando por uma balada. Ficando mole. Cada segundo que fico em meu quarto eu fico mais fraco… mais mole. Cada segundo que uma gostosa fica na balada ela fica mais forte.

Talvez seja hora de envelhecer. Jantar num restaurante japonês, sexo sábado à noite, almoço de domingo na casa dos sogros, presentes de aniversário, apelidos carinhosos, cachorrinhos e gatinhos.

Será que alguém como eu tem esse direito? O direito de envelhecer em paz?

A story: A man fires a rifle for many years, and he goes to war. And afterward he turns the rifle in at the armory, and he believes he’s finished with the rifle. But no matter what else he might do with his hands, love a woman, build a house, change his son’s diaper; his hands remember the rifle.

O horror. O horror.

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