Projeto Insanidade.

May 7, 2009 § 7 Comments

Eu lembro que ontem eu estava trabalhando. Não que isso seja novidade, não é. Ou de certa forma é, já que eu quero retomar o orgulho que eu tinha quando comecei a advogar e em algum lugar entre televisões de plasma e carros do ano eu perdi.

Mas o trabalho, tá, eu sei que o trabalho é necessário e que não podemos nos esquecer disso. Trabalho é mudar o mundo. É mudar o mundo. Então eu tenho que colocar minha mente na mudança, não no resultado. Parar de pensar no cliente e pensar no juiz. Parar de pensar na parte e só pensar no advogado. Só pensar no cara do outro lado que quer me humilhar e vencer e ganhar mais dinheiro e que vai ser meu inimigo desde sempre por cinco anos.

Mas não é isso. Ontem eu estava trabalhando, e tinha dois recursos pra protocolar no TJ. É perto, não é problema. É rápido. Eram, sei lá… Cinco quilos de papel, mas é perto, então não era nenhum problema.

Então eu estava lá, correndo com cinco quilos de papel nos meus ombros, com pressa e correndo. Correndo, como um estivador de argumentos. Um estivador de idéias. Meu trabalho era levar minhas idéias pra um juiz ler e decidir.

Mas estivadores não dirigem caminhões, não plantam soja, não costuram sacos, mas não, AINDA não é isso.

E eu corri. Corri e protocolei, ou protocolizei. Ou os dois, não sei, por que eu fiz o protocolo, de acordo com o protocolo. E deu certo, meu trabalho foi feito. Deu certo, então está tudo bem.

E as pessoas sorriam pra mim no cartório, o que é estranho, mas é bom. Eram 18:40, mas elas sorriam pra mim, embora sorriso de cartorário seja mais raro que trevo de quatro folhas, além de não dar pra levar na carteira.

Mas elas sorriam, e eu sorri de volta, oras, por que não? E sentia fome, e decidi comer no Mcdonalds. Eu queria, e era caminho. Eu acho que eu nem sentia tanta fome, mas eu queria comer algo que eu gostasse. Satisfazer um desejo. Uma vontade. Sentir algo bom, e fui ao Mcdonalds.

E entrei na fila, afinal, é o que se espera que eu faça, e após fazer o meu pedido, um funcionário do Mcdonalds olhou pra mim e me perguntou se eu era do Largo de São Francisco, e eu disse que sim, e ele disse que tinha trabalhado no Mcdonalds que tinha lá na frente e que se lembrava de mim. E eu sorri e conversei com ele e eu conversei e ele realmente se lembrava de mim e perguntou se eu ainda estudava lá, e era óbvio que não, afinal, aquele Mcdonalds tinha fechado há uns seis anos, mas ele lembrava e perguntou e eu respondi e eu saí.

PÁRA!

Quantas pessoas entravam naquela porra de Mcdonalds por dia? Quantas pessoas pediam um número um, ou um quarteirão, ou qualquer comida pra tentar se manter levemente nutrido, e que não significa nada, e que é tão descartável quanto um beijo de balada?

Eu não sei, mas ele se lembrou de mim, e ele me cumprimentou, e eu não tinha idéia de quem ele era, e eu nem lembrei de olhar no crachá dele pra saber o nome dele, mas ele lembrava de mim.

E eu nem prestava atenção nele, nem em ninguém, e nem imaginava que isso pudesse acontecer, mas aconteceu e agora não consigo pensar em mais nada, exceto no fato de que eu nem sei quem coloca em minhas mãos a comida que eu como.

A gente precisa de sono, mas não tem idéia de onde vêm nossos lençóis. Come e bebe, mas não sabe quem prepara nossa comida. Todos os dias a gente interage com quantas pessoas? Dezenas? E é incapaz de lembrar quem elas são.

Elas são casadas, tem filhos, divorciadas, têm câncer, fazem faculdade, escrevem poesia ruim, poesia ruim que nem as que eu escrevia e que estão escondidas e presas e não vão ser lidas, e essas pessoas estão nos cercando o tempo todo, e a gente não liga.

A GENTE NÃO LIGA.

Não se importa, caga e anda, não pensa, vive no automático.

Se fôssemos um carro, seríamos automáticos. Ou tiptronics, ou qualquer merda, porque a gente não quer colocar a mão nas coisas, colocar a mão nas pessoas, lavar nossa louça, fazer nossa comida, arrumar nossa cama.

A gente não quer ter contato com a nossa vida e depois reclama que o mundo é frio.

Claro que o mundo é frio! A gente não liga! Como você espera que algo que você não toca seja quente? Como que você espera que um mundo no qual você não mexe mexa com você?

Você paga pros outros lavarem a merda do seu banheiro, mas sequer sabe quem eles são! E depois você vai ao seu psicólogo de 150 reais a hora pra reclamar que se sente sozinho! É claro que você é sozinho! Você é sozinho desde que nasceu, porque você não olha pros outros! Você fica pensando só na sua próxima refeição, no seu próximo salário, na sua próxima trepada e na próxima balada e você se separa do mundo, e foge, e vive isolado, sem nem saber, e um dia acorda triste e não sabe porque.

E nunca sabe porque! Tá o tempo todo na nossa frente e a gente não vê! A gente é cego e reclama que apagaram a luz! A gente fecha os olhos e reclama que ninguém acendeu a luz! Mas a luz tá acesa!

Ela tá acesa e ninguém vê!

E depois reclama que ninguém olha quando você passa. Chora porque é um pobre jovem de classe média alta, com três refeições por dia e um teto sobre a sua cabeça, mas tomou um pé na bunda da namorada que você nem amava nem nunca amou!

Você se sente sozinho? Jura? O médico te receitou fluoxetina? Coitadinho de você. Posso te fazer uma pergunta?

Qual foi a primeira pessoa que você viu quando saiu na rua hoje? A primeira pessoa com quem você falou? Você disse bom dia? Você tocou nela? Qual foi o primeiro perfume que você sentiu? Qual foi seu primeiro sentimento para com outro ser humano?

Você se lembra? Não? Então como você espera se sentir bem se você nem se lembra como você se sente?!

§ 7 Responses to Projeto Insanidade.

  • Veronica says:

    Tarso, vc tem 2metros de altura. Qualquer um lembraria de você.

    Ok, falando sério.
    Existe uma barreira entre eu e o outro. Invisível. Se alguém desconhecido se aproxima, o que vc faz? Cruza os braços na frente do corpo para se proteger. Perigo! O desconhecido resolveu invadir minha área pessoal. É instinto de sobrevivência.
    Para interagir com o mundo, primeiro, é preciso eliminar essa desconfiança generalizada de que todos são filhos da puta tentando roubar seu bilhete único.
    O que é maior? O perigo, ou a percepção do perigo? A percepção. Enquanto as pessoas não enxergarem o real, a paranóia continuará sendo refletida em braços cruzados para se proteger. Não só do perigo físico, mas do perigo psicológico.
    2º eliminar a vergonha de fazer algo incomum = interagir com um desconhecido, ou um “excluído” do seu grupinho hype. Sendo algo que a maioria não faz, provavelmente existirá vergonha/preconceito em fazer.
    3ºEliminar a insegurança de se aproximar de uma pessoa que vc pensa ser melhor que vc – mais bonito, inteligente, etc.
    4º depois de desconstruir esse pensamento (percepção), o próximo passo é partir para a conversar, sentir e trocar energia. E, guardar na memória.

    Mas na real. Não é fácil destruir essa percepção do medo, eliminar a vergonha, a insegurança e tirar a bunda do lugar comum. Lembrar do cara que limpa seu banheiro, da moça que vende pão de mel no ponto de ônibus, ou do funcionário que capricha no sundae porque foi com a tua cara é um exercício diário de enxergar as coisas como de fato são. “Ok, posso me aproximar. Não existe perigo. São pessoas como eu.”

    É gostoso experimentar isso. Confesso que sou paranóica e minha percepção do medo ainda é maior rs. É treino.

    No fim, tem sempre alguém interessante andando por aí. Quantas pessoas a gente perde por não ter dado esse passo?
    Sim, é uma delícia quando o mundo reage.

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  • Kamen Rider Black Juremeiro! says:

    ai, que preguiça de ler esses posts gigantescos que a mulherada escreve!

    Se for pegar só a informaçao importante nao da nem 2 linhas.

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  • Kamen Rider Black Juremeiro! says:

    Ok, fiz um esforço para eliminar todo o ruido do texto da nossa colega Veronica.
    Esse é o resultado:

    “É preciso fazer um esforço parar eliminar o medo e a desconfiança que temos dos outros para que possa existir interação.”

    É isso ae, querida. Uma revisão de portugues do ensino fundamental nao iria te fazer mal nenhum.

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  • alexthomaz says:

    Faz alguns anos (ou fazem, né Black Kamen Rider?) eu tinha uma amiga que me contou que não olhava para a cara das pessoas quando andava na rua. Ela se orgulhava disso, e eu sempre achei que isso fosse o razoável. Ora… eu sou uma pessoa do interior, não sei viver de outro jeito. Infelizmente (ou talvez felizmente), eu sorrio mesmo que não sorriam para mim. Eu olho nos olhos daqueles que me servem, sempre que eles permitem que possam ser olhados nos olhos. O que eu vejo? Muitas vezes dor, angústia, medo, incompreensão, mas também felicidade por estar servindo e tendo um oásis em um sorriso em meio a um deserto de “hoje não”.
    Somos animais em clãs bem definidos e uma coisa que eu percebi, depois de tantos anos em São Paulo é que as pessoas se bastam. Eu me considero bom o bastante para estar simplesmente dentro de meu grupo e não precisar de ninguém mais. “Eu não preciso dar bom dia ao faxineiro, porque ele é menos que eu, não vai me trazer nada de útil, e afinal de contas, eu tenho meus amigos, e eles sim são quem importam”. As pessoas se bastam dentro de seu coletivo, e acham que viver é isso.
    De minha parte, o mínimo que eu posso fazer é sorrir.
    “Sorria, e o mundo sorrirá para você. Chore e chorará sozinho” – Oldboy.

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  • Penteado says:

    Acho que isso tem tudo a ver com o conceito de “invisibilidade pública”…

    http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT764232-1664,00.html

    http://www.usp.br/agen/bols/2003/rede1146.htm

    Abs!

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  • […] não plantam soja, não costuram sacos, mas não, AINDA não é isso. … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

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  • Veronica says:

    Querido Kamen Rider Black Juremeiro, meu português realmente pode ser péssimo, mas pelo menos eu tenho noção que essa palavra tem acento.

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