Kali.

June 11, 2009 § 3 Comments

A teogonia hindu é uma das mais ricas do mundo.

Não porque eles cultuem algumas centenas de deuses (o que seria uma alegria pras igrejas evangélicas, uma vez que não haveria concorrência), mas porque, por incrível que pareça, eles são monoteístas.

o.O

Pera… eu acabei de falar que os hindus cultuam centenas de deuses, mas são monoteístas? Das duas uma, ou eu sou um advogado e, doravante, não entendo nada de números, ou existe uma razão para essa afirmação.

Ok, eu SOU um advogado e não entendo nda de números (como que dois números somados podem virar um terceiro? Se fosse assim, seriam infinitos números! É bruxaria!), mas de fato existe uma razão por trás disso.

Os hindus afirmam que Deus é uno e único, mas nossa razão e sentidos humanos, uma vez imperfeitos, são incapazes de apreender a totalidade da manifestação divina. Ante essa incapacidade, nossa mente divide Deus em aspectos para facilitar seu entendimento: o Deus Judaico Cristão, Oxalá, Zeus, Hermes, Brahma, Exu, Rá, etc.

Toda a manifestação divina que possui uma qualidade é apenas um lado da manifestação divina, aquele que consegue se apreendido pela sua razão.

Os hindus, entendendo isso, dividem Deus em três faces “menores” Brahma, Shiva e Vishnu, que são, respectivamente as faces do Criador, do Destruidor e do Mantenedor.

Essas são as faces maiores porque, oras, tudo o que existe, foi criado, se mantém e perecerá.

Mas a divindade não se resume a isso, uma vez que nós queremos saber porque pessoas nascem, porque morrem, porque sofremos, porque o sol gira ao redor da terra, etc. E por causa disso as três faces da divindade são ainda mais divididas, até um momento em que você idolatra o Deus Macaco da Floresta, ou o Deus do Trovão, ou o Deus Ser-Humano grandão.

E nesse momento uma crítica aos católicos: Se você acha que “todos os caminhos levam a Deus”, ok… mas se você acha que todos os caminhos levam ao SEU Deus, faz um reality check, por favor.

Mas esse post específico eu gostaria de falr sobre Shiva.

Shiva, o Destruidor, é facilmente mal interpretado pela nossa razão ocidental: Afinal, se pessoas que eu gosto morrem, eu fico triste; eu tenho medo de morrer; se meu carro pega fogo, eu sofro: destruição me faz sofrer, logo: Shiva é mau!

(Eu nunca deixo de me maravilhar com o simplismo quase infantil do funcionamento da nossa “razão”).

Mas o fato é que pessoas morrem. Não apenas pessoas: animais, planetas, sóis, galáxias, sistemas solares. É uma Lei.

Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. A transformação é um tipo de morte, afinal, algo deixa de ser o que era para nascer como outra coisa.

Por sinal, células que não morrem são câncer. Ficam tirando nutrientes do seu corpo, ocupando espaço e se negam a não interferir nos seus arredores.

Sinceramente? Prefiro ter um câncer a me tornar um câncer.

Mas tergiverso novamente. Uma das faces de Shiva é Kali, a Deusa da Morte.

Sempre que falamos em culto à Deusa da Morte nossos pré-conceitos se ativam. Afinal, como alguém pode adorar uma coisa ruim? Só podem ser pessoas ruins!

E as pessoas amam falar que Kali é a Deusa Negra da Morte, que mata seus inimigos, devora sua carne e bebe seu sangue, e isso tem fundamento em uma lenda específica, na qual Kali mata Raktabija, um demônio que tinha uma característica muito importante: cada gota de sangue dele que caía no chão criava um outro clone dele, igual.

Bom, não era muito difícil de se perceber que a cada golpe dado, a batalha ficava ainda maior, até que Kali finalmente teve uma idéia: ei… e se eu BEBER o sangue desse demônio e comer a carne dele e de todos os clones dele?

E foi o que ela fez, comeu a carne e bebeu o sangue do demônio e venceu a luta.

Viveram felizes para sempre e fim.

Aí, a gente chega e pensa que os mitos são literais, e resolve falar que os Hindus são loucos, porque veneram uma deusa que bebeu o sangue e comeu a carne dos nossos inimigos.

Mas a gente convenientemente esquece que faz isso todo domingo, numa coisa chamada comunhão!

E não bastasse isso, a gente continua tentando vencer nossas lutas batendo mais, sendo que quanto mais você bater, maior vai ficar o conflito, sendo que, na verdade, a mera comunhão com o seu adversario costuma ser o suficiente pra você entendê-lo e não sentir mais nenhuma animosidade.

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§ 3 Responses to Kali.

  • alexthomaz says:

    Comunhemos, irmão de sangue e de luta.

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  • capiteo says:

    cara. achei teu texto muito foda. comento, mas não tenho nada a emendar. só isso. já tinha passado por aqui há tempos, e recentemente descobri que me linkaste. abraço grande de afinidades nas idéias.

    ps: vc é advogado, isso me surpreendeu. advogado anarquista é um oxímoro. adorei.

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  • space_monkey says:

    Tantos são os outros lugares onde lemos sobre como o relacionamento entre as partes alimentam ou mitigam o confronto.
    O que mais causa espanto e admiração é o fato de q quem fala/escreve é um artista marcial. Estes, com enorme fequencia, pensam em como resolver um confronto (aqui vai uma conotação) com um arm-lock (enfrentando com robustez e afronte) e pensando no “como” esquecem o “o que”, e sem objetivo, ofuscam sua própria visão do caminho.
    Sentir nosso extinto de sobrevivência e preservar a vida é inteligente e lógico, claro, mas entedo vc, Anarco, qdo diz q pensar em Kali com um olhar negativado seja algo raso de nosso “racional”, pois oq sinto é que tendo esse viés, diminui-se ou inviabiliza-se as possbilidades mais ardilosas e bem sucedidas de caminho.
    Pouco visitei o blog, td que li considero de grande qualidade.

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