Sobre Bardos e Canções.

July 11, 2009 § 1 Comment

Nesses últimos dois meses eu estive trabalhando no centro de São Paulo. Próximo à praça do Patriarca.

Quem convive com o centro tem uma certeza absoluta: o centro de São Paulo é um dos lugares mais bizarros do mundo.

Você tem desde pregadores da Bíblia, em seus quadrados de giz no chão pregando a palavra de Deus da forma mais próxima à que eles conseguiram ouvir, a rodas de capoeira, mágicos com mãos decepadas que se movem quando você joga água, equilibristas, videntes, malabaristas e músicos.

Todos procurando uma forma mais ou menos honesta de ganhar a vida.

A minha sala dá de frente pra praça do patriarca, e todos os dias, ao meio dia, um artista monta um alto-falante, pluga um microfone nele, liga seu violão, e toca para o público, vendendo o cd que ele mesmo gravou.

A música é algo que, na falta de definição melhor, eu vou chamar de brega. Não o adjetivo, mas sim o substantivo. Aquela mistura de forró com samba, com pop, com rock com sei lá mais o quê, que é um sucesso no Norte e da qual Calypso é o maior expoente.

Bom, eu não gosto da música. Diria até que talvez o som me atrapalhe um pouco.

Mas confesso que eu fico ainda impressionado com esse tipo de coisa.

O Alan Moore disse em uma entrevista que os bardos e poetas eram temidos nas cortes porque, se um mago podia colocar uma maldição em você que faria, por exemplo, seu cabelo cair, ou você perder a sua potência sexual, um bardo comporia uma canção que faria todo o respeito que você conquistou ir por água abaixo e que, provavelmente viveria mais do que você.

Se vocês se lembram das aulas de literatura do colegial, com o trovadorismo, provavelmente lembrarão das cantigas de escárnio e maldizer.

E, a despeito de todas as mudanças, de como a sociedade “está diferente de tudo o que já vimos”, eles estão lá: bardos, tocando pelas estradas por um trocado, sem as riquezas e posses da nobreza, mas livres.

E eu fico pensando até mesmo na raiva que eles despertam, pois arte, arte de verdade, não pode ser comprada. Sim, você pode comprar uma estátua, um quadro, os direitos sobre uma música… mas não pode comprar a capacidade de criar uma obra de arte.

E não digo copiar, ou mesmo reler, interpretar. Estou falando de criar mesmo. Todos nós sabemos que existem covers que possuem mais técnica que os originais.

Mas não tem aquela fagulha criativa, aquele toque de mestre que faz você SABER que aquilo é algo único.

Meses atrás me lembro de ter visto um DVD com um show da Amy Winehouse. Ela estava acabada, mas mesmo assim nas mesas todos ficavam olhando, maravilhados pra ela.

Posso estar errado, mas parecia que havia um certo prazer sádico nos olhos da platéia. Algo como a alegria de ver algo belo sob controle. Ela estava lá, drogada, magra, definhando… e todos estavam sorrindo, como se estivessem a incentivando a se consumir.

Como se as pessoas torcessem para que uma estrela caísse, porque “é mais bonito”.

Talvez seja esse o preço por cuspir no mundo. Artistas, artistas de verdade, são únicos. E isso dá certa inveja. Inveja dessa liberdade que só a capacidade criativa nos dá.

E pensando nisso, nos bardos modernos, na arte de verdade, e em tudo o mais, esbarrei com isso:

E eu sinceramente não sei o que dizer.

Advertisements

§ One Response to Sobre Bardos e Canções.

  • Spirit says:

    A arte não se compra, sim. Mas acho que talvez a reflexão vá mais longe… o que não se compra é a capacidade criativa.
    O moonwalker existia antes de MJ, sim. Mas ele o fez de uma forma que ninguém nunca tinha feito antes.
    O futebol existia antes do BR e de Charles Miller? Sim. Mas o brasileiro faz de um jeito que ninguém mais faz.
    O que não se compra é a capacidade criativa, a capacidade de transformar toda essa feiura (sem acento) do mundo em algo belo. Se lembrou de Clube da Luta? Não? Pois assista de novo.

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading Sobre Bardos e Canções. at AnarcoBlog.

meta

%d bloggers like this: