Fresh.

October 11, 2009 § 1 Comment

Há mais ou menos dez anos atrás, eu tive a sorte de assistir a um filme chamado “Fresh”.

Digo sorte porque foi num dia qualquer, lá pela meia noite, na Bandeirantes, sem qualquer aviso ou intenção.

É um filme desconhecido, que não fez muito sucesso e eu nem esperava muito, pra ser sincero.

E essa série de fatores pôde me proporcionar aquela experiência única que só a falta de expectativa com algo te proporciona. A surpresa embasbacante.

Fresh é sobre um garoto (Michael) que vive num gueto nos EUA e faz uma grana trabalhando de aviãozinho.

Ele tem doze anos, é meio tímido, tem problemas com a família e tem sonhos: sonha com uma vida melhor.

Até aí, todo mundo tem sonhos de uma vida melhor, mas poucos viram realidade, não é?

Bem, o que Fresh tem que os outros meninos da idade dele não têm? Ou muitos adultos que moram em guetos? Ou muitos adultos que não moram em guetos? Ou muita gente no mundo não tem?

Ele tem como pai o Samuel L. Jackson ensinando xadrez.

Ok, eu admito que a piada provavelmente quebrou o tom do post, mas é verdade. O filme é estrelado pelo Samuel “MotherfuckingJediMaster” L. “IWantThisFuckingSnakesOuttaThisMotherFuckingPlane” Jackson no papel do Pai de Fresh.

Eu lembro que quando eu vi esse filme eu achei ele um dos melhores filmes envolvendo Xadrez que eu já tinha visto. Notadamente porque o pai dele dá uns ótimos conselhos pra vida:

“Você joga como se perder cada peça doesse! Isso é xadrez! Eu tenho um Rei, e você tem que capturar essa merda de Rei! As outras peças são apenas meios para um fim!”

“Você tem medo de perder a sua Dama? A Dama é um peão com um monte de movimentos frescos! Se você tem medo de perder a sua Dama, você não joga! Pressione! Ameace roubar a Dama de alguém que a valoriza e essa pessoa não joga!”

“Time ain’t no fucking money! You can recover anything you lose, except for time!”

Isso tudo me lembra da época na faculdade em que eu encabeçava a equipe de xadrez e treinava todos os sábados às 10:00 da manhã com o MI Carlos Alejandro Martinez.

Ele falou várias coisas interessantes.

“O grande problema é que as pessoas não têm planos. Eu vejo jogadores competentíssimos e eles não têm plano de jogo. Eles até sabem responder a aberturas, jogadas ensaiadas, táticas… mas não têm um plano. 90% dos jogadores, hoje, fica se debatendo no tabuleiro até conseguir uma vantagem… e com essa vantagem eles capitalizam pra vitória. Isso pode até funcionar. Mas não é um plano. Não funciona com jogadores realmente bons.”

“Um jogador tem que decidir onde ele vai vencer. Ele tem que escolher um lado do tabuleiro e se dedicar àquilo. O jogo pode estar perdido, mas se ele tiver uma esperança, uma única chance, ele deve jogar naquele sentido.”

“O problema do xadrez é que um lance ruim não é só uma coisa ruim que você fez: também é uma coisa boa que você não fez.”

As pessoas têm a mania de falar que Xadrez é uma metáfora pra vida. De certa forma é. Se você simplificar a vida, você verá muitos elementos dela no Xadrez: escassez de recursos, regras, leis, táticas, etc.

Obviamente a vida é muito mais elástica quanto às regras, fora que as variáveis são muito maiores.

Mas, estranhamente, ainda são mais parecidos que diferentes: você tem um objetivo, meios e leis.

Com esses três fatores em harmonia você vai viver uma vida boa.

“Ah, claro… vai jogar com o Kasparov então pra ver o que é bom pra tosse!”

Prezados, se eu tivesse essa chance ia na mesma hora. Notem, por favor, que não me refiro a vitória ou derrota.

Estou falando que se você tem um plano, você vai viver numa boa.

O problema é que as pessoas em geral não têm objetivos, ou ficam gastando seus recursos de forma aleatória, ou ignoram as leis.

E o que é um plano, senão a alocação de recursos, considerando leis, com a finalidade de alcançar um objetivo?

Se você tem um plano e o segue, você pode até perder… mas vai ter se divertido pra caralho enquanto isso e ter aprendido algo.

Burrice e esquecer o rei e viver em função da rainha.

§ One Response to Fresh.

  • alexthomaz says:

    Infelizmente a gente se perde no meio dos planos e se perde no meio da preparação… quase como se pudessemos entrar em uma loja de armas e perdessemos dias, semanas, anos, testando as armas, atirando em stands, e se auto vangloriando de como sabemos atirar. E como as armas são fantásticas!
    Quando com um .38 e um pouco de coragem qualquer um é herói. Ou vilão.
    O que quero dizer não é isso, entretanto.
    Como você disse, talvez a vida seja um pouco como o xadrez. E no xadrez, a perda de cada peça dói. A perda de cada peça dentro da minha vida também dói, e muitas vezes precisamos nos sacrificar… e por sacrifício, leia: filho, vc vai perder 2 litros de sangue em cima de um altar só para ter uma epifania de 1 segundo. E é isso.
    O que devemos nos perguntar é: valeu à pena? foi divertido pra vc?
    Eu sempre me perguntei isso, mas sem o sentido profundo/filosófico que quero colocar hoje. Já saí à noite e gastei bem mais do que queria/podia. Mas chegava em casa e me perguntava (ou no dia seguinte, quando o som de mil tambores começava): foi divertido? então valeu cada centavo, cada minuto, cada segundo.
    Tudo pode se perder, menos o tempo e o amor das pessoas que se ama. E eu perdi ambos, eu acho.
    É uma frase pronta que não me sai da cabeça, do modo como foi dita, e como era bom dizer. Estou falando de counter strike. Estou falando de “stick together, team!!!”.

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