Rubik.

November 3, 2009 § 7 Comments

Existe um mangá coreano (que provavelmente possui um termo técnico correto do tipo “mangu” ou “hangu”) que eu tive a chance de acompanhar há algum tempo, e que eu achei maravilhoso.

Para os que não sabem, eu sou um fanático por histórias e quadrinhos (todos aqui devem saber) e congêneres. Sou tão fanático, mas tão fanático, que eu parei de colecionar.

Explico: com o passar dos anos, fui vendo que existiam algumas histórias maravilhosas… e outras nem tanto. E cara… não rola engolir um monte de merda “oh-meu-deus-mais-um-X-man-morreu” pra encontrar um V de Vingança. Então eu desisti. Vou atrás de histórias reconhecidas como boas e deixo minha indefectível sorte me guiar.

Mas nesse caso, eu estava na banca e encontrei esse “Mangá”. O título é “Angry”.

O legal dos mangás é que, via de regra (exceto quando vira um sucessinho que nem naruto) eles possuem começo, meio e fim. O Autor tem uma história na cabeça pra contar. E ele sabe o que quer falar. Depois que ele passa a mensagem, tchau. Acabou. Parte pra próxima.

Não interessa se ia vender mais ou não. Os bons autores não deixam as histórias virar “um pão muito grande com pouca manteiga”. As histórias têm sabor.

Esse mangá, “Angry”, tem como história um triângulo amoroso em uma equipe de Judô. Basicamente existe um carinha que começou a treinar judô porque era apaixonado pela capitã da equipe, a Capitã da Equipe que prometeu que se casaria com o homem que a derrubasse e o Suk Dong Min, que é um órfão que prometeu que nunca deixaria o mundo o derrubar.

Basicamente o carinha que começou a treinar judô era apaixonado pela mina, mas era inepto socialmente. A mina é inepta socialmente (ou é femininamente previsível) e quer que surja alguém capaz de a derrubar porque, só assim, ela poderia aceitar algum amor. O órfão é inepto socialmente porque o pai morreu, o irmão se matou e ele decidiu bater no mundo pra garantir que ninguém nunca mais o machucaria.

“Numa briga, quem sangra pelo nariz primeiro perde. Meu pai, meu irmão, minha família, todos foram perdedores que sangraram muito cedo pelo nariz. Eu não vou deixar isso acontecer comigo.”

Cara, eu sou muito contra isso, esse papo de “incompreendido pelo mundo” que é o conceito de inepto socialmente, mas eu admito: Angry é foda. Durante toda a história eles andam e passam por diversos momentos da vida dos protagonistas (a respeito dos quais eu não quero fazer spoilers) e mostram porque cada um vê o mundo como vê.

No meio do Mangá (são seis volumes bem amarrados de história), o carinha apaixonadinho encontra no quarto da menina um cubo rubik (aqueles cubos mágicos), que foi presente do pai da menina pra ela, e ela disse que nunca conseguiu o montar.

Por algum motivo, o carinha decidiu que se ele conseguisse montar o cubo e entregasse pra ela, ela gostaria dele. O título do capítulo é “Um quebra-cabeça sem solução?”.

(Porra, é um mangá falando sobre adolescentes que lutam judô: é verossímil pra caralho esse tipo de coisa).

Toda essa página de texto (estou escrevendo isso no Word, no aeroporto de Berzonte, pra depois postar) é pra falar que eu vi uma pessoa montando um cubo Rubik.

Não, não é novidade, e eu sabia que o cubo Rubik não é aleatório. Existe um algoritmo pra isso, e você encontra razoavelmente fácil no youtube. Aparentemente existe uma sequência de movimentos pra cada casa que você quer corrigir, cada falha que você quer resolver. Pra levar um canto pro outro, são seis movimentos que, quando feitos, dá certo.

Sempre.

Parece mágica.

Tentem entender… eu passei minha tarde em BH bebendo e eu sei que corro o risco de parecer piegas. Ou assustador. Ou louco.

O problema é tudo isso e um pouco mais.

O problema é que umas semanas antes uma amiga disse que queria fazer física porque achava que é mais fácil entender o movimento dos planetas que o dos seres humanos. (E ela está certa).

O problema é que eu encontrei um brinco dentro do meu sapato, e, cara… isso é bizarro, ilógico e não faz sentido aparente. Mas algum sentido faz, mesmo que eu não consiga entender.

O problema é que não existe problema sem solução. Você pode estar cego, olhando pra folha, sem enxergar a árvore, vendo a árvore, mas sem enxergar a floresta. Mas EXISTE uma solução. Todo nó górdio tem um ponto de desate.

Eu ESTOU piegas, a vida é assustadora, e eu estou intencionalmente aplicando minha vontade em tornar minha vida uma espiral ascendente de insanidade gloriosa.

Mas eu estou cagando e andando pros planetas, pra econometria, pra Teoria dos Jogos, pra Neurolinguística, pro xadrez.

Eu quero aprender o algoritmo da vida humana.

Eu quero saber quais os movimentos que fazem com que os cantos errados se consertem. O que faz os seres humanos pensarem o que pensam, sentirem o que sentem, escolher o que escolhem. Por que quando você olha pra Razão Áurea seu cérebro libera mais endorfinas. Por que a nova propaganda da Chivas é tão foda. Por que a Susan Boyle fez tanto sucesso.

Por que eu estou aqui, nesse aeroporto, bebendo e escrevendo um texto que (por amor…) talvez eu, sóbrio, retalhe e plastifique? Por que eu vim pra cá nesse feriadão? Por que eu escolhi o que eu escolhi, escolho o que escolho, penso o que penso e faço o que faço?

Por que eu quero o que quero?

Por que eu sou quem eu sou?

Quem eu sou?

E sim, eu sei. Das pessoas que leem esse blog, talvez o Alex entenda o que eu quero dizer. Talvez Homem Hipotérmico também saiba do que eu estou falando, se o Breno ler, também, mas provavelmente a maioria que cair nesse post, via Google atrás da busca “como resolver o cubo rubik” pense “Emo de merda”, talvez algumas pessoas pensem “iiiiihhhhh… Anarco em crise, de novo”.

Possivelmente eu serei mal interpretado por alguns. Talvez eu seja bem interpretado demais por outros e, nesse aspecto, me negue a enxergar a verdade.

Mas o fato é que, não existe problema sem solução, e muitas vezes, as perguntas que merecem ser feitas não possuem uma resposta verbal, direta, respondível.

Porque o Tao que pode ser dito, não é o verdadeiro Tao. O Nome que pode ser nomeado, não é o nome eterno. O que não tem nome é o começo do céu e da terra. O nomeado é a mãe das dez mil coisas. Mesmo sem desejo, alguém pode ver o mistério. Mesmo desejando alguém pode ver as manifestações. Os dois advêm da mesma fonte, mas diferem no nome. O que aparece como escuridão é a escuridão dentro da escuridão. O portão para todo mistério.

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§ 7 Responses to Rubik.

  • Pati says:

    Todo problema tem solução, mas nem toda solução tem algoritmo, gato. Desencana de tentar descobrir o que não existe ;)

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  • Alex says:

    Porque toda perfeição deve ser imperfeita.
    Eu odeio girar e cair no mesmo lugar, mas não vejo outro modo de fazer isso (e não, não sou um tipo de yin-yang e não quero que você seja um cão correndo atrás do seu rabo). “Don’t think you can, know you can. Free your mind”. “C’mon! Stop trying to hit me and hit me!”.
    E a Trindade disse: Todo mundo cai da primeira vez.
    Você não vai ser diferente, meu amigo. Entenda: a beleza das pessoas está na infinita possibilidade de atitudes que elas podem tomar. Como o guarda do TRF que fingiu não ver que eu entrei com um canivete no fórum e ainda me mandou ir no gabinete do Des. conversar sobre um processo.
    Tente ter uma atitude aleatória por dia, meu amigo. Tente controlar aquilo que não pode controlar. Com que pé você levanta da cama? Com que mão escova os dentes? Quantos passos dá até o trabalho? Quantas pessoas você cumprimenta até sentar na sua mesa?
    O que está no alto é como o que está em baixo. Por isso todas as coisas são e provem do um.

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  • Hipotérmico says:

    No memórias do subsolo (ou notas do subterrâneo, dependendo da tradução), o sujeito personagem dedica algumas páginas a imaginar como seria viver num mundo com a vida humana ‘solucionada’ num grande livro, como tabelas de logaritmo. E sustenta que um desfecho muito provável disso é que em algum tempo depois do entusiasmo incial, já depois do tédio que se seguiria, as pessoas se unissem pra destruir essa peça.

    Temos no cérebro uma estrutura que prediz, se ela está correta o evento predito(como por exemplo uma resposta óbvia) é considerado desimportante e não é memorizado imediatamente. Não quero discutir a utilidade disso, mas acho que uma vida em que toda a interação é previsível, se torna chata e miserável muito rapidamente. Quanto tempo você aguenta jogar um jogo com invecibilidade ou munição infita? Particularmente, eu jogo até acabarem as novidades…

    Num adendo: Estou lendo Fundação, do asimov. Li pouco, mas tem a ver com isso tb, só que lá eles tratam como psico-história a disciplina que pode prever rumos de grandes massas de seres humanos que não conheçam a disciplina…

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  • […] Continuo em minha insana busca incessante pelo Algoritmo da Alma Humana. […]

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  • […] falei anos atrás que eu queria o Algoritmo da Alma Humana. Porque eu queria consertar almas tortas. Deus do céu. E até hoje eu não consegui. Nem a minha. […]

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