Mérito.

January 21, 2010 § 14 Comments

“Kodak sues Apple and RIM over iPhone and Blackberry.
Camera maker Kodak has said it will sue Apple and Research In Motion (RIM), the makers of the iPhone and Blackberry, over technology used in their handsets. Kodak has filed a complaint with the US International Trade Commission (ITC). It alleges the iPhone and Blackberry use technology for previewing pictures that infringe Kodak patents. It has also filed two separate suits against Apple that claim infringements of patents relating to digital cameras and certain computer processes. Kodak has asked the ITC to bar both firms from shipping the phones and has asked for undisclosed monetary damages.”

In: Migalhas International 18.1.2010.

Dois posts atrás surgiu a discussão a respeito de patentes, que, como sói ocorrer, foi deliciosamente desvirtuada pelo ambiente informal típico dos blogs.

Subitamente entrei no argumento de que não é justo que aguém seja remunerado apenas por descobrir uma nova aplicação das leis naturais.

Karina indicou um vídeo a esse respeito, que, aproveitando a deixa, e pedindo a devida vênia para a descobridora, ora reproduzo:

Sinopse: cena de um filme na qual um advogado (É nóis!) faz uma ceninha a respeito de uma invenção e de como um livro é apenas a coordenação de palavras que já existiam antes, mas ainda assim é algo completamente novo.

Ok, é um bom argumento, no entanto, ele é extremamente sofismático.

Em primeiro lugar, é um filme que mostra uma cena numa corte Norte Americana e, nos EUA, você pode patentear qualquer coisa. Até mesmo proteínas, substâncias químicas, etc., coisa que não acontece no resto do mundo. Se não me engano, no Brasil, e na maior parte do mundo, pra uma invenção ser patenteável, ela precisa ser nova, criativa e não decorrer do estado da técnica.

Ou seja, tem que ser algo que ninguém nunca fez antes, tem que ter demandado atividade intelectual ativa (não mera observação) e não pode ser algo que um técnico dentro do estado da arte conseguiria fazer. Mais restrito, however, mais merecido.

Em segundo lugar, eu sei que é meio bizarro falar isso, mas palavras não existem. Um livro não é feito de palavras, mas sim dos elementos associados àquela palavra. Radan Tolho Tchagui não significa nada pra vocês, mas significa pra um taekwondista. Ou seja, Charles Dickens tinha uma idéia, e ele a traduziu em uma linguagem, tanto é que algumas sensações sequer têm correspondente verbal.

Dando um exemplo simplista, por falta de vontade de empreender trabalho criativo: Amor é um guarda-chuva para inúmeras sensações: você ama seu pai, ama sua mãe, ama pudim de leite condensado, ama seu irmão, ama sua namorada/namorado… mas você ama a todos da mesma forma?

Não estou falando de intensidade, estou falando da forma. Os Gregos falavam em três amores: amor erótico, fraternal e de caridade.

Terceiro ponto: direitos autorais não se confundem com patentes. Patentes são invenções, direitos autoriais se concetram na ala das idéias puras. Músicas, textos, imagens, etc.

E, ainda nesse aspecto, direitos autorais possuem dois elementos primários: o direito de ser remunerado pelo uso econômico da obra, e o direito de ter a obra devidamente atribuida ao autor.

No entanto… entre direitos autorais e patentes existe um “meio termo”: código de software. Código de software não é invenção… mas também não é direito autoral… é uma coisa a mais: são palavras que fazem coisas acontecerem.

Tipo um abracadabra de zero e um.

E isso é o ponto catchy: existem coisas que eu falo aqui que, até onde eu sei, são originais.

Existem coisas que eu falo que são de todo mundo e que eu apenas criei uma metáfora pra falar. Talvez outras pessoas, com muito mais engenho e arte que eu, tenham falado a mesma coisa.

Mas eu ainda me sinto feliz de ter percebido.

No entanto… existe uma terceira categoria de coisas que eu falo… que foram faladas por outros e que eu meramente fiz uma releitura mais ou menos criativa. E nessa última categoria que eu me sinto incomodado.

As idéias estão disponíveis para todos que estiverem no lugar certo, na hora certa e com a configuração cerebral (hardware, software e arquivos) correta pra perceber.

Não é JUSTO que eu publique aqui, assinando embaixo. Tomando para mim um mérito que não é meu.

E não, isso não significa o fim do blog, notadamente porque um email que eu receba falando que o blog foi relevante ou útil em algum aspecto, já fez valer.

Só quer dizer que  há conflito. E todo conflito precisa de uma conclusão.

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§ 14 Responses to Mérito.

  • Karina says:

    Mas ninguém vai achar que vc é o sr. sabichão ou sr. gostosão só pq tem um leque bacana de temas e montou uma pretensa cartilha sexual. O barato não é o que vc escreve, não é isso em si, justamente pq vc só está reunindo conhecimento que está à disposição de todo mundo. O diferencial é o fato de tais e tais assuntos despertarem seu interesse… é o fato de vc dar uma mastigada pra quem o lê reproduzindo de uma forma mais ou menos interessante. O mérito está aí. E mais… se vc tem uma leitura diferente das coisas, tb é um mérito seu. Capisce? Esse conflito é meio paranoia. As pessoas podem eventualmente se dar conta de que estão comprando gato por lebre, mas nesse caso acho que a responsabilidade é menos do vendedor do que do comprador, que se iludiu por conta própria hehe

    Daí esse raciocínio (de reunir o que já existe de uma forma original) é mais ou menos o mesmo que se aplica ao argumento do filme, que n acho nada sofismático (óbvio, senão n teria sugerido).
    Para dar contexto ao trecho:
    O sujeito que faz a defesa (não, ele não é advogado, é o defensor da própria causa) pleiteia o direito de patente sobre o pára-brisas intermitente, cuja ideia teria sido indevidamente apropriada pela Ford. Os advogados da companhia argumentam que ele não inventou nada, uma vez que toda a engrenagem já existia e ele apenas reuniu tudo em uma ideia. Como contra-argumento, ele recorre ao Dickens. ok. voltando…

    Qd vc fala em “elementos” talvez queira dizer “significados”. Óbvio que palavras são apenas símbolos que os traduzem, e óbvio que qd se fala que o livro é uma reunião de palavras estamos indiretamente falando em reunião de significados. Significados que existem, sim, estão por aí, e como vc bem lembrou são muitas vezes impossíveis de serem traduzidos em palavras. Mas não há mérito algum em vc juntar as ideias de uma forma singular? De onde muitas pessoas só enxergam sol, um cara pode tirar uma poesia incrível. Isso é o que vc chama de direito autoral, certo? e quanto a isso vc n faz objeção, pelo que entendi. ok.
    Mas daí, extensivamente, o cara do pára-brisas não tem mérito por ter sido capaz de descobrir (que seja) antes dos demais? Pode ser que um dia aquela ideia aparentemente simples fosse descoberta por outro. Ou não. Ele não merece ser reconhecido por isso?
    Agora, pensando melhor, acho que o argumento do filme pode ter sido sofismático, sim, já que falou de coisas distintas como se fossem iguais. Já entendi que não são. Dickens merece ser louvado pela originalidade. Mas o cara do pára-brisas, no mínimo, merece ser reconhecido pela precedência. Hum?
    E continuo batendo na tecla de que, bem ou mal, tudo acaba sendo uma aplicação das leis naturais.

    ps: a extensão do comentário acompanha a extensão do post, é meio inevitável.

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  • Anarcoplayba says:

    “Mas ninguém vai achar que vc é o sr. sabichão ou sr. gostosão só pq tem um leque bacana de temas e montou uma pretensa cartilha sexual.”

    Não? Não mesmo? Por que diabos eu estou escrevendo aqui então? Deviam ter me avisado que um blog não me faria comer várias mulheres!

    ;)

    Piadas à parte, Nê, duas coisas:

    1) Eu comecei a escrever ontem esse texto pq eu queria escrever faz tempo… mas n tinha “acesso”… e, de repente, surgiu o assunto. Por outro lado, no fim, eu achei meio despiciendo mesmo.

    2) Bem vinda ao seu estado normal, de minha Nêmesis favorita, que me puxa pra realidade quando eu me perco em devaneios!

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  • Karina says:

    pode deixar que vou me(te) preservar de assumir meu estado “anormal” na tua “companhia” =p

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    • Anarcoplayba says:

      Nhoum… é fofinho… mas eu PRECISO de você como minha nêmesis! Você é única e insubstituível nisso! E eu aceito de braços abertos seu estado de anormalidade se você prometer não abandonar seu posto de minha Nêmesis.

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  • Karina says:

    hauhahuahuahauhaua
    apaga essas coisas, faz o favor, vissê? deixa teu espaço bonitinho.

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  • Nina says:

    **sorrisos mil

    Karina linda, adoouro seus comments. Ok, me identifico neles, é algo meio narcísico, mas, whatever..

    Anarco..todo conflito precisa de uma conclusão. Ok. Conclusão essa que gera outro conflito, and life (and blog) goes on.

    Releitura já é acréscimo.. é desenvolvimento…é, como dito em outro post, dar e receber.

    Continue respirando vida.

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  • Admiral Pip says:

    Todo conflito quer conclusão, conclusão é decisão, e decisão é corte. Subsidiado, bem fundado, refletido, “processado”, o corte é um ato de violência, não tem como escapar – dentre todas as soluções razoáveis disponíveis, alguém, autorizada ou autoritariamente (me digam a diferença de fundo…), tem que cortar. Pura civilização! Aliás, esse papo de autoria só começa a ter um sentido conflitivo realmente sério quando o capitalismo está crescido ao ponto de pretender reduzir tudo à dimensão econômica.

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  • Nane says:

    Chega de estar sumida né? Tava na hora de eu voltar. E vou te falar… o post está muuito sincero e apimentado!!!

    Passa lá, dá uma espiadinha. Deixa tua opinião sobre “as mulheres ousarem” um pouquinho.

    Beijinhos,
    Nane

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