Dourados.

February 13, 2010 § 7 Comments

Dois dias antes do carnaval, fui enviado para Dourados para participar de uma audiência.

Já vim pra cá uma vez: a cidade é estranha: é praticamente uma cobra (ou um peixe) cuja espinha dorsal é a Avenida Principal. Para cidades pequenas, isso é comum, mas em cidades grandes não.

Por que uma cidade cresceria apenas ao longo da Avenida?

***

Neil Gaiman, em Sandman, escreveu uma história sobre um homem que foi sugado pra dentro do sonho de uma cidade. Segundo a mitologia de Sandman, TUDO sonha. As pessoas, os animais, as pedras, os planetas, o sol… Até mesmo a Cidade.

Pessoalmente, eu acho uma mitologia muito legal, os Sete Perpétuos seriam personificações antropomórficas de tudo pelo que tudo o que existe passa: Tudo que nasce, Morre e tem um Destino. Tendo um Destino, Sonha algo diferente, e Sonhando, o Deseja. Desejando, se Desespera. Em Desespero, se Destrói e Delira.

Meio tétrico, no entanto, faz parar pra pensar um pouquinho. Especialmente quando ele fala que os deuses morrem se ninguém acreditar neles, mas tudo o que existe morre, tem um destino, sonha, deseja, se desespera, se destrói e delira.

Quer acredite… quer não.

***

O que leva uma cidade a crescer num sentido só? Numa dimensão só?

O que leva um ser humano a desenvolver apenas um aspecto de todas as suas potencialidades.

***

Embora eu soubesse que isso ia acontecer, não resisti: trouxe para o MS Xógum pra ler.

Um tijolo de quase 1040 páginas. Faltavam 100 páginas pra ler. Terminei no voo de vinda, e agora estou com um tijolo na mala.

O livro é estranho. Ele é um romance, primordialmente descritivo. Não existe nada óbvio que faça você se sentir estranho ou diferente.

Mas… quando terminei… eu me senti estranho e diferente. Literalmente, calmo.

Sim, o final é razoavelmente surpreendente, mas eu n saberia precisar em que aspecto.

O Hipotérmico disse que o livro era sobre  o caminho até a iluminação. Não sei se concordo. Preciso debater um pouco a esse respeito.

***

Sabe, eu realmente gosto de fazer essas viagens.

Tem várias coisas ruins: fode a minha rotina, perco dias de treino, perco dias de estudos…

Mas não sei por que, eu sonho melhor quando estou viajando, quando estou num quarto de hotel, quando estou num lugar estranho e (I grant that) limpo.

Sim, fato: nesse momento eu adoraria estar em São Paulo, com meus amigos bebendo ou com uma namorada, me enrolando em lençóis, mas é um preço pequeno a se pagar pela chance de olhar pra um mundo diferente. Gente de todo o tipo, estilo, forma de agir, pensar, se portar…

Fora que, por mais paranóia minha que seja… eu tô aqui pra defender os interesses de um banco contra uma caralhada de “coroné”.

Eu sou do povo, eu sou um zé ninguém, aqui embaixo as leis são diferentes.

Eu fico noiado sim quando eu vou comer, eu sento de frente pra porta, fico prestando atenção na rua, no movimento de carros e pessoas por perto.

Yet, é nessas horas que eu me sinto mais vivo.

A preocupação de não tomar um tiro e/ou facada de um jagunço me faz bem.

Acho que como eu estou mais atento, o mundo é mais claro.

***

No entanto, admito certa inquietude: faz tempo que não acontece nada na minha vida.

Nenhum breaktrough, nenhuma grande conclusão, nenhum clareamento espiritual…

Dizem que todo o barulho é relativo ao silêncio que o precede.

Veddiamo.

Advertisements

§ 7 Responses to Dourados.

  • Carolina Devens says:

    Achei muito interessante essa mitologia do Sandman, acho que estou precisando de algo do tipo.

    Quando começamos a reclamar que não acontecem coisas, muitas coisas começam a acontecer…

    Até mais!

    Like

  • Gueixa says:

    Nem se atreva a tomar uma facada ou um tiro!
    Ouviu bem o que eu disse? Nem se atreva…
    Fiquei bolda,depois comento seu post.
    Por ora, não se atreva a tomar sequer um soquinho…
    bj

    Like

  • Karina says:

    É o preço a se pagar pela tal felicidade serena da qual vc falou alguns posts atrás.

    Like

  • Mari says:

    Eu morro de inveja das suas viagens. É isso que importa no fim das contas, e é pra isso que eu quero viver: ver diferente(s) todo dia. Beijo =*

    Like

  • Rev.Breno says:

    A mitologia do Sandman é muito foda, principalmento em movimento, cada uma dos personagens tem momentos fenomenais, o fato que cada um vê a Desejo como algo que deseja, por exemplo.

    Shogun é teeeenso de ler

    Like

  • Ruiva says:

    Eu li Xogum anos atrás, depois fizeram um filme, que, como sempre NUNCA se compara com a obra literária.
    Não é um livro pra mocinhos…
    ;0)
    Em tempo: ADOREI `Dizem que todo o barulho é relativo ao silêncio que o precede.`

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading Dourados. at AnarcoBlog.

meta

%d bloggers like this: