Obesidade Mental.

March 7, 2010 § 10 Comments

Eu tenho mania de guardar links pra ler/postar/comentar depois no blog.

Seguindo a linha “um monte de post chupinhado”, mais um pra fazer parar pra pensar um pouco…

Obesidade Mental

deldebbio | 26 de fevereiro de 2010

Por João César das Neves

O prof. Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard, publicou em 2001 o seu polêmico livro “Mental Obesity”, que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.
Nessa obra introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna. Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física decorrente de uma alimentação desregrada. É hora de refletir sobre os nossos abusos no campo da informação e do conhecimento, que parecem estar dando origem a problemas tão ou mais sérios do que a barriga proeminente. ”
Segundo o autor, “a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de proteínas; e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de carbono.

As pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos tacanhos e em condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. ”
“Os ‘cozinheiros’ desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas, os articulistas, os editorialistas, os romancistas, os falsos filósofos, os autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros chamados ‘profissionais da informação’”.

“Os telejornais e telenovelas estão se transformando nos hamburgers do espírito. As revistas de variedades e os livros de venda fácil são os “donuts” da imaginação. Os filmes se transformaram na pizza da sensatez.”

“O problema central está na família e na escola. ”

“Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se abusarem dos doces e chocolates. Não se entende, então, como aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, por videojogos que se aperfeiçoam em estimular a violência e por telenovelas que exploram, desmesuradamente, a sexualidade, estimulando, cada vez com maior ênfase, a desagregação familiar, a permissividade e, não raro, a promiscuidade. Com uma ‘alimentação intelectual’ tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é possível supor que esses jovens jamais conseguirão viver uma vida saudável e regular”.

Um dos capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado “Os abutres”, afirma:

“O jornalista alimenta-se, hoje, quase que exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, e de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.”

O texto descreve como os “jornalistas e comunicadores em geral se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polêmico e chocante”.

“Só a parte morta e apodrecida ou distorcida da realidade é que chega aos jornais.”

“O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para quê ela serve. Todos acham mais cômodo acreditar que Saddam é o mau e Mandella é o bom, mas ninguém se preocupa em questionar o que lhes é empurrado goela abaixo como “informação”.

Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um “cateto.”

Prossegue o autor:

“Não admira que, no meio da prosperidade e da abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se e o folclore virou “mico”. A arte é fútil, paradoxal ou doentia. Floresce, entretanto, a pornografia, o cabotinismo (aquele que se elogia), a imitação, a sensaboria (sem sabor) e o egoísmo.
Não se trata nem de uma era em decadência, nem de uma ‘idade das trevas’ e nem do fim da civilização, como tantos apregoam. ”

“Trata-se, na realidade, de uma questão de obesidade que vem sendo induzida, sutilmente, no espírito e na mente humana. O homem moderno está adiposo no raciocínio, nos gostos e nos sentimentos. O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental.”

@MDD – Quando eu fiz especialização em semiótica, um dos meus professores, em uma conversa informal, me contou que, a pedido de alguns produtores, certa vez foi feita uma pesquisa aqui no Brasil que chegou à conclusão que o brasileiro (uma porcentagem alta, do tipo 80-85%) acredita que, quando um apresentador ou ator/atriz recomenda uma marca em um programa de auditório, ele realmente está fazendo uma recomendação e não um merchandising pago e que realmente usa aquele produto! Dê um salto especulativo e pense em como isso foi usado nas Igrejas Pentecostais… As pessoas não sabem mais nem quando estão sendo manipuladas ou como. É a “preguiça mental” que acompanha a “obesidade mental”.

§ 10 Responses to Obesidade Mental.

  • Gueixa says:

    Anarco…Acordei e já um assunto serio assim.
    Realmente a sociedade está obesa mentalmente.
    Os pais não assumem seu papel de educadores sob o argumento de que os jovens (detesto o termo adolescente em minha opinião desqualifica o indivíduo)hoje têm informação à mão. Ora, desde quando informação traz maturidade?
    Somo hoje uma sociedade formada por eternos jovens. Pais frequentando as mesmas baladas dos e com os filhos.
    E as informações que se alega que os jovens têm acesso, são essas aí que vc citou, vazias, meramente engordantes.
    Anarco, onde estão os adultos de nossa sociedade?

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    • Anarcoplayba says:

      Boa pergunta, Gueixa.

      E não, eu não tenho a pretensão de me considerar adulto ainda. Tanto não sou que, olha só o que estou fazendo agora: escrevendo num blog, enquanto muita gente está pensando o mundo e fazendo algo produtivo.

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  • Gueixa says:

    Antes o mundo fosse povoado por “n” Anarquistas…

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  • Karina says:

    O problema é que praticamente toda informação que absorvemos vem de uma fonte secundária. Como ter uma leitura isenta dos fatos, se só temos acesso a eles por meio da leitura de terceiros cuja objetividade está sempre sob suspeita? Complicado, pq precisamos necessariamente passar pelos cozinheiros do fast food. O problema está em quem lê ou em quem escreve?
    Qd me pergunto como alcançar essa capacidade de discernimento, se o material do qual ela se alimenta é dúbio na origem, a resposta única e óbvia que encontro é: diversificando as fontes. Diversificar para buscar extrair, senão uma interpretação absolutamente crua, ao menos uma interpretação individual que conjugue as múltiplas versões.
    Por mais que um determinado jornalista/pensador/estudioso tenha ideias que em princípio sejam conformes com as nossas, se nos atemos a eles estamos minando um mundo de possibilidades. Por isso o radicalismo é tão perverso e obtuso: parte da visão de um universo de verdades absolutas, quando o que temos na realidade são muito mais perguntas do que respostas.

    Muito bom o artigo, Anarco. Busquei por alto, mas o título n deve ter sido publicado aqui no Brasil.

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    • Anarcoplayba says:

      Ka, talvez parte da saída seja misturar cheio e vazio: ler e não ler. Ler e refletir, meditar. Tentar, com os ingredientes que adquirimos criar algo novo.

      Não é fácil, mas a gente anda tentando.

      Bjus,
      Anarco.

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  • Karina says:

    ei! qd vc reproduziu este texto já sabia que era trolagem?

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  • […] algum tempo atrás eu recortei e colei no blog um texto intitulado “Obesidade Mental”, que foi retirado de um outro […]

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