Admirável Mundo Novo. (Contém Spoilers!!!)

March 23, 2010 § 9 Comments

Recentemente tive a oportunidade de sanar mais uma falha de caráter na minha vida e ler “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley.

Para quem não sabe, “Admirável Mundo Novo”, junto com “1984” (de George Orwell), é leitura obrigatória para quem gosta da idéia de previsões a respeito de como será o futuro.

O gênero não se esgota nesses dois livros. Temos ainda “A Máquina do Tempo” e “Farenheit 451”, mas “Admirável Mundo Novo” e “1984” são notadamente relevantes e clássicos da literatura mundial.

Fizeram uma comparação já há algum tempo a respeito de qual das duas obras é mais atual. Transcrevo aqui a comparação:

George Orwell escreveu 1984. Aldous Huxley escreve Admirável Mundo Novo.

Orwell temia aqueles que banem os livros.
Huxley temia que não houvesse razão para banir livros, por que ninguém mais se interessaria em ler algum.

Orwell temia a censura das informações.
Huxley temia que nos oferecessem tanta informação que seriamos reduzidos à passividade e ao egoísmo.

Orwell temia que a verdade fosse ocultada de nós.
Huxley temia que a verdade fosse soterrada em um mar de irrelevância.

Orwell temia que nós nos tornassemos uma cultura oprimida (capturada).
Huxley temia que nos tornassemos uma cultura irrelevante, trivial, preocupada com “some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy”.

Em 1984, as pessoas eram controladas pela dor.
Em Admirável Mundo Novo, elas eram controladas por prazer.

No final, Orwell temia que o medo nos arruinasse.
E Huxley temia que o desejo nos arruinasse.

Qual cenário parece ser mais convincente nos dias de hoje?

Correndo o risco de ser alarmista, e correndo ainda o risco de meramente aceitar opiniões alheias, acho que é razoavelmente claro uma coisa: Huxley estava mais certo: estamos mais próximos de Admirável Mundo Novo que de 1984.

Admirável Mundo Novo trata de um futuro no qual todos os esforços do Estado estão voltados à criação e manutenção de uma sociedade plenamente estável e ordenada. Para alcançar esse objetivo, alguns cuidados são tomados:

1) Não existe mais reprodução vivípara: todos nascem em “jarros” que substituem o útero materno. O objetivo disso é acabar com o apego a pessoas específicas.

2) Os fetos são todos gerados com base em um óvulo/espermatozóide e “divididos” em pares de gêmeos. O objetivo disso é permitir grupos de cidadãos com reações padronizadas.

3) As crianças aprendem preconceitos desde a mais tenra idade, de forma a criar reações emocionais igualmente padronizadas.

4) As pessoas são educadas para ter uma função útil na sociedade e se sentir felizes e realizadas no cumprimento dessa função.

5) Criaram uma droga que propicia a fuga ideal da realidade: sem overdoses, sem ressacas, sem efeitos colaterais relevantes.

6) Dividiram o mundo em castas, com graduações, nas quais os Alpha Mais são a elite gerencial, enquanto os trabalhos mais técnicos vão sendo relegados às castas mais baixas.

7) O erotismo é hiper-estimulado como forma de recreação.

8) A juventude é mantida por meio de tratamentos médicos e drogas, de forma que as pessoas não sabem o que é envelhecer: Vivem perfeitamente bem até os 80 anos e então morrem sem grande sofrimento.

9) A morte é considerada natural.

Existem mais fatos relevantes, mas essas partes são as mais relevantes para o enredo, que, após uma breve exposição do cenário, gira em torno de Bernard, Helmholtz e o Selvagem.

Bernard é um membro da classe Alpha Mais que, no entanto, é anormalmente mais baixo que a média. Também é tímido e reservado, coisa que é considerada negativa pela cultura vigente.

Helmholtz, por sua vez, em sentido contrário, é um Alpha Mais definido como “competente demais” por seus pares, o que igualmente o leva a certa reclusão.

O Selvagem, por outro lado, nasceu em uma reserva, tendo sido educado em uma cultura “atrasada”, de religiosidade primordialmente judaico-cristã.

Quando Bernard leva o Selvagem da reserva para a Civilização, surge um choque entre a cultura na qual o Selvagem foi criado e a Cultura Estabelecida, de forma que o Selvagem vira uma atração, Bernard tenta capitalizar em cima disso e Helmholtz acaba se tornando fascinado por todas as diferenças culturais existentes.

Com a morte da mãe do Selvagem, este se descontrola e se revolta contra aquela cultura de amortecimento da alma e de fuga da realidade, gerando um incidente que levam os mesmos ao Administrador, momento no qual o diálogo mais relevante do livro se desenrola.

O Superintendente, expõe de forma clara que aquela Sociedade foi criada e mantida daquela forma para manter a estabilidade social e a felicidade a qualquer custo, sendo que o preço pra isso foi a censura de algumas obras de artes, religiões, filosofias, etc.

Nesse momento o Administrador informa que eles serão exilados para “A Ilha” (que por sinal é o nome de outro romance de Huxley), onde estão todos aqueles que, apesar de tudo, conseguiram afirmar a própria individualidade.

-Dir-se-ia que o vão estrangular – comentou o Administrador, depois de a porta se ter fechado. – Se ele tivesse a mais leve parcela de bom senso, compreenderia que o castigo é, na realidade, uma recompensa. Mandamo-lo para uma ilha. Quer dizer, mandamo-lo para um lugar onde estará em contato com a mais interessante sociedade de homens e mulheres existente em qualquer parte do mundo, todas as pessoas que, por esta ou aquela razão, tomaram individualmente excessiva consciencia do seu eu para poderem adaptar-se à vida em comum, todas as pessoas insatisfeitas com a ortodoxia, que têm ideias independentes, bem pessoais, todos aqueles que, numa palavra, são alguém. Nem sei mesmo a razão porque o não mando para lá, senhor Watson.

O próprio Administrador afirma que a ilha e onde estão os mais maravilhosos homens e mulheres que a humanidade já conheceu, além de manifestar certa tristeza por não poder estar lá, em função de suas responsabilidades para com todos os demais.

Enquanto Helmholtz e Bernard vão para as ilhas que mais lhes agradam, o Selvagem decide viver como eremita, até que inadvertidamente, acaba se envolvendo em uma orgia cerimonial e, se sentindo culpado e sujo, decide se suicidar.

Okey, estabelecido essa pequena resenha do livro, seguem as minhas considerações sobre os detalhes mais relevantes:

1) Admirável Mundo Novo, ao contrário de 1984, não é uma ditadura. É, de fato, uma tecnocracia, mas as pessoas não são forçadas a serem algo que não queiram, ao contrário: a busca pela felicidade é um imperativo, e todos são estimulados a terem todos os seus desejos satisfeitos.

Nesse ponto, vale lembrar que 1984 não deixa claro se falamos de uma ditadura de direita ou de esquerda.

Caso alguém não se sinta feliz e realizado, e acabe escapando da massa geral, essa pessoa poderia i) ser mandada para a ilha que mais lhe aprouvesse (Helmholtz escolheu as malvinas porque queria ser escritor, mas o Caribe era uma opção); ou ii) se tornar um superintendente.

2) De forma literal, o que permeia Admirável Mundo Novo é a busca pelo “Eu Sou”. A afirmação do indivíduo enquanto pessoa.

Na maior parte das culturas religiosas, essa é definida como a busca pela iluminação. O encontrar da resposta para a secular pergunta “Quem Sou Eu?”. Tal fato fica claro quando Moisés pergunta a Deus quem ele é e Deus responde “Eu Sou”.

Ou seja: O Livro, no fim, fala da trajetória de duas pessoas que alcançam o “Eu Sou” e vão para as Ilhas, onde poderão continuar seu desenvolvimento de forma diferenciada, e de uma terceira pessoa, o Selvagem, da qual falarei adiante.

3) Alguém que merece destaque, igualmente, é o Superintendente, que alcançou o “Eu Sou”, mas decidiu não ir para a Ilha, mas tomar conta da Sociedade. Podemos traçar um paralelo com Buda, que alcançou a iluminação e decidiu voltar para nos ensinar.

4) O Selvagem representaria a Religiosidade do Deus Morto. A idolatria ao sofrimento e à privação como única forma de nos “limparmos” do “Pecado Original”, isso para não se mencionar o apego a um dogma de forma fanática.

Nesse aspecto, vale a menção ao diálogo entre o Superintendente e o Selvagem, quando este questiona a necessidade de um Deus, o Aministrador responde:

-Uma das numerosas coisas do Céu e da Terra com que os filósofos não sonharam é isto – e brandiu a mão -, somos nós , é o mundo moderno. “Não se pode prescindi rde Deus, a não ser durante a juventude e aprosperidade.” Pois bem, eis que temos juventude e prosperidade até o último dia de vida. Que resulta daí? É manifesto que não podemos ser independentes de Deus. “O sentimento religioso compensará todas as nossas perdas.” Mas não há, para nós, perdas a serem compensadas; o sentimento religioso é supérfluo. E, por que iríamos nós atrás de um sucedâneo dos desejos juvenis, quando os desejos juvenis nunca nos faltaram? De um sucedâ-neo de distrações, quando continuamos a gozar todas as velhas tolices até o fim? Que necessidade temos nós de repouso, quando o nosso corpo e o nosso espírito continuam a deleitar-se na atividade? De consolação, quando temos a soma? De qualquer coisa imutável, quando há a ordem social?

-Então acredita que não há Deus?

-Não. Acredito que há, muito provavelmente, um.

-Então, porque…?

Mustafá Mond interrompeu-o.

-Mas ele manifesta-se de maneira diferente aos diferentes homens. Nos tempos pré-modernos, manifestava-se como o ser descrito nestes livros. Agora…

Como se manifesta Ele agora? – perguntou o Selvagem.

– Pois bem, manifesta-se como ausência, como se em absoluto não existisse.

5) Vale ainda uma ressalva: Huxley entende que a iluminação independe de capacidade cerebal, o que fica claro ao se perceber que tanto um Mais que Alpha e um Menos que Alpha alcançam o mesmo estado de compreensão da Individualidade.

No fim, ao contrário do ocorrido com 1984, terminei a leitura não com um peso no peito, mas com uma percepção um pouco mais clara: Cada um tem o direito de se comportar como o gado que quiser, mas a iluminação é individual.

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§ 9 Responses to Admirável Mundo Novo. (Contém Spoilers!!!)

  • Nina says:

    Confesso que ri com sua conclusão final. E ela faz todo sentido do mundo.
    Gostaria de comentar alguns pontos.
    a) acredito que Admirável Mundo Novo (AMN) também se trata de uma ditadura. A ditadura do prazer. Da vaidade. Há informações não disponíveis. Há sim formas de punição para aqueles que não se comportam adequadamente: o isolamento social. Porém, essa ditadura de grades invisíveis é mais sutil que a ditadura de 1984.
    b)Superintendente como Buda? Como alguém que atingiu o EU SOU? Tenho minhas sérias dúvidas. Lembro-me quando li achei-o um verdadeiro FDP, rsrrrs… Não sei se mergulhar as pessoas em um contexto favorável ao não desenvolvimento de si é uma forma de propiciar o desenvolvimento de si.
    c) O selvagem é tão fanático quanto a maioria dos moradores do AMN.
    d) queria passar umas férias na Ilha
    e)a meu ver, já vivemos em um Admirável Mundo Novo
    f) não tinha pensado no livro sob esta ótica, da procura do Eu-Sou. E não é que faz sentido?

    Contribuindo com sua conclusão final, trecho do início da peça A Alma Imoral (recomendo): uma cobra que se sabe cobra, não é uma cobra. Um cavalo que se reconhece cavalo, cavalo não é. Um macaco que se sabe macaco, deixa de ser macaco. Um ser humano que se sabe ser humano, é um ser humano. Um ser humano que não se sabe ser humano, é um cavalo. Um macaco, uma cobra.

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    • Anarcoplayba says:

      Só quero que conste em ata que eu ia me abster de comentar o seu comentário, mas fui convidado a tal:

      a) Reitero: Não sei se podemos considerar uma ditadura quando a grande maioria anseia por aquilo e a minoria que “escapa” é premiada com a Ilha.

      b) Releia. Ele trata os três bem o tempo todo, permite que eles escolham, é amante da cultura e até guarda os livros como tesouros. O papel dele é defender a ordem e, de certa forma, proteger os humanos deles mesmo. Será que, nesse futuro, o homem sem esse controle todo não teria há muito se extinguido? Além do mais, não foi isso que aconteceu com os grandes iluminados? Foram, voltaram, ensinaram. A grande maioria entendeu como um conjunto de leis a serem obedecidas, poucos enxergaram como uma possibilidade de uma vida diferente.

      c) Agreed. Eu diria pior, mas é questão de opinião.

      d) Eu quero ser administrador. ;)

      e) Concordo.

      f) Huxley era ocultista. É só saber como ler o que ele disse.

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    • Karina says:

      ain, a peça foi tão elogiada. Li o livro e achei um ó do borogodó =/

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  • Karina says:

    puxa, faz muito tempo que li Admirável Mundo Novo, n me lembrava da metade do que relacionou aqui, então acabei de pegar o livro para dar uma olhada. Vale ressaltar que a-do-rei qd li, e essa é a lembrança mais fresca que tenho dele rs

    Nessa de pegar para dar uma olhada, deparei com um trecho que logo me remeteu a uma observação que o Giannetti faz em Auto-engano (Ainda vai rolar aquela discussão ou o projeto foi abortado? o.O)

    Giannetti fala sobre a importância do autoengano para nossa saúde mental (n com essas palavras), pq só esse mecanismo permite que sigamos adiante e nos lancemos ao risco, de modo que o autoconhecimento absoluto nos mutilaria possibilidades e perspectivas, deixando-nos sós e céticos.

    Huxley, por sua vez, no trecho em que o Administrador explica que teve a oportunidade de ir para a ilha e escolheu ficar mesmo que isso significasse o abandono da ciência à qual ele se dedicava, faz menção ao potencial danoso do conhecimento:

    “Interesso-me pela verdade, gosto da ciência. Mas a verdade é uma ameaça, a ciência é um perigo público. (…) Por isso limitamos com tanto cuidado o círculo das pesquisas (…) A felicidade universal mantém as engrenagens em funcionamento regular; a verdade e a beleza são incapazes de fazê-lo. E, é claro, cada vez que as massas tomavam o poder público, era a felicidade, mais do que a verdade e a beleza, o que importava. (…) Foi então que a ciência começou a ser controlada, depois da Guerra dos Nove Anos. Nesse ponto, as pessoas estavam dispostas a deixar controlar até seus apetites. Qualquer sacrifício em troca de uma vida sossegada. Isso não foi bom para a verdade, sem dúvida. Mas foi excelente para a felicidade. É impossível obter alguma coisa por nada. A felicidade tem de ser paga.”

    Embora um trate do autoconhecimento e o outro do conhecimento acerca de questões externas a nós, o ponto aonde quero chegar é: a felicidade ignorante realmente compensa, como o Administrador nos faz acreditar, e como, de outra forma, tb defende o Giannetti? acreditar nisso é cinismo ou mais uma forma de autoengano?
    Sei que minha comparação é extremada, mas foi uma associação que fiz de imediato.

    Indo um pouco mais além nesse trecho do Huxley e saindo da esfera comparativa, é interessante tb a relevância do papel atribuído à população, conivente com essa extinção do conhecimento e com a outorga ao Estado do controle sobre suas vidas.
    Faz pensar… em busca de um suposto bem maior, somos capazes de muita coisa.

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    • Nina says:

      Lembrei-me da cena onde o traidor da turma de matrix, ao saborear um suculento – e falso – pedaço de carne, exclama: ignorance is a bliss!

      Talvez deixe de ser uma bênção quando essa felicidade se torna rarefeita. Insuficiente. Quase vazia. Esse é o caminho de Helmholtz e Bernard. Cada qual com motivações e rotas diferenciadas. Cada qual querendo algo a mais: talvez a busca de si mesmo.

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      • Karina says:

        hehehe frase emblemática.
        pior(ou melhor) é que eu acredito mesmo nisso. mas qd se trata de uma ignorância genuína, pq pior do que sofrer com o que vc conhece é se privar de conhecer para n sofrer.
        Aí, sim, acho que entra a história do cinismo e do autoengano.

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  • dedos says:

    já te disse isso em outro lugar, mas vou reforçar: leia o 1985 do Anthony Burgess

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