Sol e Lua.

May 27, 2010 § 18 Comments

Já escrevi sobre isso antes, mas andei repensando muito sobre o assunto.

Existem dois autores de poesia brasileira que eu gosto bastante.

Na verdade, um é meu favorito, Drummond, enquanto o outro, conquanto eu não goste muito, serve maravilhosamente como contraste: João Cabral de Melo Neto.

Uma vez, muito tempo atrás, li uma reportagem ou uma entrevista (não lembro ao certo), na qual João Cabral de Melo Neto deu uma declaração que seguia mais ou menos pelos seguintes termos: “Drummond fez o maior mal que se pode fazer à literatura: Ele fez as pessoas pensarem que escrever é uma questão de inspiração. E não é. Escrever é trabalho! É duro! É disciplina!”

Okey, sinceramente, não encontrei essa reportagem ou algo para sustentar minha opinião. No entanto, encontrei algo que ilustra, com muito mais precisão, a visão que João Cabral de Melo Neto tinha da Poesia:

“Poesia é conhecimento. Inspiração, encanto, não acredito em nada dessas coisas. Poesia é esforço, é consciência, é cultura. O sujeito não pode ser inteiramente inculto e sair escrevendo poesia, por mais inspirado que ele seja. O leitor procura sempre na poesia o gênero fácil. Quando ele encontra uma poesia que oferece alguma resistência, recua. Escrever para mim é uma coisa dificílima, porque eu não queria fazer esta poesia que todo mundo faz.”

João Cabral de Melo Neto dizia, abertamente, que escrever, para ele, era como lavrar a terra seca de sol do Pernambuco. Ele falava que Poesia era engenharia: as palavras eram como pedras a serem polidas e agrupadas da forma correta.

Ele se considerava um Arquiteto, trabalhava de sol a sol e desprezava o lirismo, a inspiração, o encanto.

Drummond, on the other hand, é partidário da inspiração. Da musa. Deixa a poesia correr solta, livre, leve, sem métrica, sem rima, sem esquadro e compasso.

É um poeta lírico, posto que é um poeta da emoção.

E ele não queria nos dizer… mas aquela lua e aquele conhaque, botam ele comovido como o diabo…

E é isso que Drummond foi: um poeta da lua, do sentimento, da inspiração visceral que bate na hora negra da madrugada quando todos podem ser heróis.

Peguei os dois poetas e os transformei em opostos, quase em arqui-inimigos. Quem assim vê, pensa que os mesmos eram opostos. E eram, mas se admiravam mutuamente. João Cabral chegou a chamar Drummond de “seu mestre”.

Gosto de pensar que ambos seguiam estradas diferentes. Escolas diferentes.

João Cabral de Melo Neto seguia o caminho do Lado Direito do Cérebro. Era racional, disciplinado, duro, calculista. Um engenheiro ou Arquiteto de palavras e sentimentos. Ele era Sol.

Drummond seguia o caminho do Lado Esquerdo do Cérebro. Era inspirado, emotivo, mole, maleável. Um músico. Atingia a poesia pelo conteúdo, não pela forma. Era Lua.

Porém, é razoavelmente claro que essa divisão é meramente arbitrária.

(Até mesmo a divisão do cérebro em hemisférios estanques meio que caiu por terra…)

A Poesia Drummondiana também se valia da forma, posto que é impossível que algo tenha apenas o lado esquerdo.

João Cabral, da mesma forma, certamente sofreu seus momentos de inspiração, posteriormente lapidados à exaustão.

Porque é óbvio que o Lado Direito do Cérebro e o Lado Esquerdo do Cérebro se encontram, ou pelo menos se cruzam.

No mínimo pra alcançar as mãos eles se cruzam, pois o Lado Esquerdo é da Mão Direita e o Lado Direito é da Mão Esquerda.

E nesse ponto vem a grande questão: Inspiração é lindo. É delicioso ter insights. Porém a inspiração demanda disciplina para se tornar confiável. Você precisa aprimorar aquilo que aprende por inspiração para que possa acessá-lo a qualquer momento, sem depender da “sorte”.

E, da mesma forma, disciplina não te ensina coisas novas. Treino te permite dominar o atual Estado da Arte, mas é necessário aquele impulso inicial externo para dar início ao novo. Nada é um sistema isolado.

Eu gosto muito de, nesse aspecto, pensar nas artes marciais: você treina a técnica atual até o domínio. E quando aquela técnica estiver dominada, de alguma forma estranha, desconhecida e sem explicações racionais, algo novo surge.

João Cabral e Drummond foram úteis como paradigmas. Como exemplos. Eles marcaram de forma quase arquetípica os dois lados: sol e lua, direita e esquerda e, como arquétipos, foram extremos.

Extremismo que eventualmente cobrou um preço.

Extremismo que não precisamos aplicar às nossas vidas também.

Mas talvez… com um pouco de sorte… um pouco de inspiração… um pouco de trabalho, seja possível ser sol e lua.

Ao mesmo tempo.

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§ 18 Responses to Sol e Lua.

  • Thaís Vidal says:

    Que lindo, Anarco…
    Deu uma vontade de sair correndo aqui e me entregar para o meu “Sentimento do Mundo”, do Drummond.

    “Tenho apenas duas mãos
    e o sentimento do mundo
    mas estou cheio de escravos
    minhas lembranças escorrem
    e o corpo transige
    na confluência do amor.”(Sentimento do mundo)

    É a história também de inspiração e transpiração.
    “Ser sol e lua ao mesmo tempo”…
    Se entregar. Controlar. Voar. Direcionar.
    Um belo salto no abismo sempre é bom.

    Me identifico mais com o lado Esquerdo, com a lua, com a emoção.
    Mas preciso sim de mais trabalho e talvez um pouco mais de sorte.

    Beijos

    Preciso conhecer mais João Cabral de Melo Neto.
    Lembrei-me também da história de

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  • Karina says:

    Poesia não é isso, não. Poesia é sentimento, essência abstrata da maior parte das formas de arte. Talvez ele tenha querido se referir a “poema”, essa sim uma das possibilidades concretas da poesia.
    Essa diferenciação pode ser tola para alguns, mas acho essencial. Pq a poesia antecede tudo, é uma forma de sentir muito antes de ser uma forma de se expressar. Posso trazer poesia em mim e não ser poeta.

    Mas com poemas, particularmente, implico um bocado. Pq toda sucessão de versos é considerada poema, quando muitas vezes é apenas uma sucessão de versos que poderia estar em prosa sem prejuízo do que se pretende transmitir. Existe um endeusamento dos poemas, que sei lá…
    Gosto, sim, acho fantástico o poema rimado! Pq unir poesia e rima, isso sim, para mim, é uma grande arte! Para a qual, com certeza, só inspiração não basta.
    No final das contas, nós só acreditamos que escrever é uma questão de inspiração pq isso traz uma aura superior à arte escrita, quase desumana. E escrever é humano, como não? Há um autor espanhol, Carlos Luiz Zafón, que resvala nesse tema no livro O Jogo do Anjo, num diálogo bem bacana entre o escritor e uma garota:

    “- O que é verdade emocional?
    – É a sinceridade dentro da ficção.
    – Então é preciso ser honesto e bom para escrever ficção?
    – Não, é preciso perícia. A verdade emocional não é uma qualidade moral, é uma técnica.
    – Está falando como um cientista!
    – A literatura, pelo menos a boa, é uma ciência com sangue de arte. Como a arquitetura ou a música.
    – Pensei que era algo que brotava do artista, assim, sem mais nem menos.
    – A única coisa que brota sem mais nem menos é pêlo e verruga.”

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    • Anarcoplayba says:

      Ahhhhh… eu tenho minhas dúvidas de que eu vá discordar de João Cabral… ;)

      Não que eu concorde com ele… mas PRA ELE a POESIA em si é isso. É Cartesiana.

      É a verdade dele.

      E no fim, ele alcançou, na minha opinião, a mesma coisa que o Drummond: alcançou a Poesia pelo caminho do Lado Direito do Cérebro, algo que é tão possível quanto alcançar a poesia pelo caminho do lado esquerdo do cérebro.

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      • Karina says:

        ah, sim, ele pode ficar com o conceito dele de poesia, imagina se vou discutir com falecido! Fez-se entender, é isso que importa.
        Muita gente n faz essa distinção, mas eu acho que distinguir é uma maneira de destacar a importância, tanto da forma (poema) quanto do conteúdo (poesia).

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    • Nina says:

      Ká, o que vc está chamando de poesia, eu chamo de arte. Eu posso ter, ser, inspirar e expirar arte, sem ser um “artista”, na forma tradicional de compreender o termo.

      Ser poesia é ver o mundo de forma artística, ter um olhar transformador, conseguir perceber além do que se mostra.

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      • Anarcoplayba says:

        Concordo com vc, Nina. A prosa pode ser poética, assim como o poema pode ser poético.

        Gosto de pensar que ambos (Drummond e João Cabral) alcançaram a Poesia. Cada um a seu modo. Um no caminho do sol, outro no caminho da lua.

        Podemos encontrar a Grande Arte, a Poesia, essa capacidade de transmutar o mundo e perceber além do que se mostra por prosa e por poema. Por sol e por lua.

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  • Carolina Devens says:

    É, lado esquerdo e direito devem se encontrar.
    É necessário o equilíbrio.
    Acho que pessoas inspiradas escrevem mais fácil, assim como as treinadas.
    Alguém que treina, mas não tem um pingo de inspiração, escreverá sobre o quê?
    Assim, como quem está inspirado mas não faz a mínima noção da escrita.
    Na intersecção estão os melhores.

    Gostei muito do texto!

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  • Petite Poupée says:

    Anarco, pergunte a 100 poetas: o que é poesia? e terás 100 respostas diferentes e não necessariamente incompatíveis com as dadas por cada um deles rss.
    Poetas! Eu adoro! Agora, vc acha mesmo que alguém que escreveu (…)”Penetra surdamente no reino das palavras/Lá estão os poemas que esperam ser escritos/Estão paralisados,/mas não há desespero,/há calma e frescura na superfície intata./Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário./Convive com teus poemas, antes de escrevê-los./Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam./Espera que cada um se realize e consume/com seu poder de palavra/e seu poder de silêncio(…)” in Procura da Poesia( eu sei essa porra de cor!) era o poeta da inspiração? do impulso visceral? Hmmm, I guess not rss

    Olha, eu acho o Drummond um mestre, bem como Neruda também. Dois Mestres nos sentimentos vazios e em palavras cheias de sentimentos. Digo isso, porque já fui drummonianamente nerudófila. E sempre que estou meio mal eles me consolam como ninguém. Vejo apuro e cuidado com as palavras no texto poético deles: isso é poetar.
    Fazer poesia não é manipular sentimentos, a meu ver. O Poeta é um rebelde. Ele não se curva diante da palavra. Ele a faz curvar.
    Subverte. Corrompe. Recria.
    A palavra, meu caro, é fascista. O poeta, por natureza, anarquista.
    Seu texto em prosa, pra mim, tá cheio de poesia! Gostei bastante. Ser sol e lua…acho que um dia vc ainda vai conseguir fazer a mistura perfeita entre aceite e água…Pra que ser partido, né? ô mundinho ocidental!!!!

    Eu adoraria recitar pra vc O Ovo de Galinha ;)

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  • Petite Poupée says:

    E não é legal que uma única palavra jogue o sentido lá pra putaqueopariu? hauhauha. Eu aceito isso. Eu só não aceito é essa maldita dor de cabeça q foi dormir comigo ontem e levantou comigo hj! O dia vai ser loooongo ^^ Bjo. Bom finde. Saudades

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  • Fy says:

    Eu tenho uma relação completamente desorientada com a poesia.

    se eu quiser falar sobre ela, acho que nem consigo, acho que ela chega antes de mim. – emociona, agita , fere , acende ,ondeia , desliza , delata , mergulha , se oferece toda: sempre inteira como a música, que é o que ela é.

    A poesia, chega.
    Se vem , na carruagem da ternura nua ou na violência sensualizada das rimas , métricas , estilos, – eu , na hora de analisar … chego atrasada .

    Poetar, pra mim , é atravessar.
    É ser o herói vagamundo, sem chaves – sem fronteiras , homem aranha , superman da errância, trovador sem época , clowneando limites , caminhante dançarino das vastidões e do som dos mundos.

    Eu acho que o poeta nasce de uma transada cósmica entre a bruxaria e o tempo. Nasce de um dom. Vem viajando. Cresce brincando, entre amores , paixões , espadas , saias , batalhas , de – repentes , partidas , chegadas , deuses , sangue , ternuras , respirando a cadência das palavras – e , entre elas , as histórias do sem fim.

    Os poetas contam.
    E são os traidores da lógica.

    De Shakespeare à Dylan, de Jagger a Yeats, quem não atravessa o instante e submerge no país dos elfos, seja nas noites de um verão encantado ou nos parques de Manhattan, onde trolls ou emos Tolkienianos rasgam os sons de Sherwood em alucinadas guitarras quânticas, misturando marijuana , tambores, e latim.

    Quem não se torna integridade, quando surpreendido pela lealdade de – Captain ! Oh my Captain!

    E quem não é rei ou rainha , amor e amante , herói e guerreiro , tesão ou perdão – beleza e mar no abraço quente de um poema.
    Eu acho é que o poeta, ou o poema, nos recorda que somos poesia.
    E, claro, Lawyer da anarquia, híbridos de sol e lua.

    Bjs
    Fy

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  • Fy says:

    and you know …, it was e.e. cummings who said :

    “i’d rather learn from one bird how to sing than to teach ten thousand stars how not to dance”.

    bcz the poem always shines in the body.

    bj
    Fy

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  • Petite Poupée says:

    Para Anarco, Karina e Fy

    A junção entre Sol e Lua

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  • Nina says:

    Tão bonito quando a prosa se torna poesia. Lindo texto, Anarco. Fortemente suave.

    Gosto do encontro dos extremos. Compreender o conceito pelo seu oposto. Ser eclipse.

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  • Gustavo says:

    Se não tiver uma capacidade nata, um dom, uma facilidade para a poesia, podemos usar todo esforço do mundo, toda

    disciplina, toda força de vontade que não conseguiremos produzir uma poesia de um artista de verdade.

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