“Somos quase livres, isso é pior do que a prisão.”

June 7, 2010 § 6 Comments

Nada de bom pode sair de um post que começa citando Engenheiros do Hawaii.

Algumas vezes, recentemente, eu falei que a maior merda de tudo, em qualquer discussão na qual eu eventualmente apresente uma verdade pessoal que eu considere útil e que possa acarrete em alguma melhoria de qualidade de vida para as pessoas reside no fato de que eu não sou perfeito.

Se eu fosse perfeito, eu apenas exporia os fatos e, por razão, nunca por coerção, as pessoas concordariam. E detalhe: não posso nem falar “concordariam comigo”, porque elas não estariam concordando comigo, mas sim estaríamos, ambos, concordando com algo maior.

Mas, bem, eu não sou perfeito, e isso fode tudo.

Primeiramente, porque, por mais que eu tente emitir opiniões refletidas, coerentes e de algum valor filosófico, eu erro. Então não basta eu emitir minhas opiniões: ante a discordância, eu preciso reavaliá-las. E nesse ponto, entramos no paradoxo da omissão: quem não faz nada não erra.

Por outro lado, não domino (como o Michael Jackson dominava) a arte de me fazer claro: Não é só o que eu falo. É como eu falo.

No entanto, não sou um fato, sou um processo. Um meio para um fim, e acredito, por convicção filosófica, por dogma, que estou caminhando para uma situação melhor, assim como tudo.

É meu dogma central que tudo e todos estão evoluindo, nem que seja na base da tentativa e erro.

O fato de buscar esse aprimoramento de forma consciente possui um único objetivo: me foder menos do que eu me foderia na tentativa e erro.

Ou pelo menos fazer tentativas mais ou menos racionais.

Se eu não consegui atravessar uma porta, talvez eu deva tentar abri-la antes de fazer mais força.

O fato, no entanto, é que tomar ciência desse processo evolutivo faz você ganhar uma consciência maior do caminho já percorrido. Quando essa distância é grande, é algo bom.

Mas o quase é o que nos mata.

Houve um tempo em que eu meramente era retraído. I mean, mais retraído. Tímido mesmo.

Com o tempo as coisas foram melhorando, e eu acabei conseguindo, com graus variáveis de sucesso, interagir de forma mais ou menos razoável com outros seres humanos.

Até aí, ok. Todo mundo passa por isso e, quando começa, costuma partir do pressuposto do toma-lá-dá-cá. Sabe? There’s no free lunch?

Mais ou menos isso. E você vai levando a vida buscando uma relação de vantagem ou equilíbrio. Minimax solutions: Minimize os investimentos, maximize os lucros.

Talvez você aprenda, com o passar do tempo, que pra você maximizar os lucros tenha que aumentar os investimentos. Tipo comprar milho pra galinha dos ovos de ouro.

Os dois casos são egoístas. O segundo só é mais inteligente.

Talvez… Se você tropeçar nas coisas corretas… você mude de paradigmas. Talvez você decida que foda-se o bom-senso. Ou melhor: foda-se o commom sense. Você vai decidir algo diferente, vai pelo senso incomum, vai tentar ser no mundo a mudança que você quer ver.

Notem, por favor, que isso não significa nada. É uma mera mudança de paradigmas. De leis, de objetivos. Falar que você quer ir pro alto da montanha não significa nada se você não sair do lugar.

Isso mesmo: política de resultados. Pega suas boas intenções e enfia no cu.

E o problema é exatamente esse: Quase chegar lá. Estar em caminho. Estar em processo.

Porque um belo dia você decide que quer ser uma pessoa melhor. E, sabe… você até consegue algumas coisas. Alcança alguns resultados. Melhora um pouco e tals.

Mas aí vem um dia de maré baixa e te pega de surpresa. E tudo o que você realmente queria era que alguém fosse com você o que você tenta ser com os outros.

Mas não rola. Nem todo mundo pensa pra falar.

E, subitamente, olha só, você voltou lá pro sopé da montanha, porque não consegue deixar de se sentir incomodado.

Ser quase livre, definitivamente, é pior do que a prisão.

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§ 6 Responses to “Somos quase livres, isso é pior do que a prisão.”

  • Gueixa says:

    Querido Anarco. Sei muito bem do que vc fala.
    O caminho da evolução faz isso conosco. Quando vc acha que ta quase lá, tropeça, cai, levanta, recomeça. A única coisa que não conseguimos fazer é retroagir. Impossivel.
    Meu pai dizia ” um tapa dado, nem o superhomem, mudando como um deus o curso da história, retira.” Assim é com o que falamos, ouvimos, escrevemos…Que coisa não?
    Mas olhe, eu te acho muito claro em suas posturas, naquilo que vc diz, enfim, acho que vc é bem claro no que pretende passar quando o faz.
    Talvez o caminho ainda não esteja claro…Acredito que não esteja mesmo. Se estivesse, BOOOOMMMM! Acabou. Como naquele teste do “Ilusões”…
    Gosto muito de voce viu Gato Nerd!
    Bejos

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  • Karina says:

    E o papo do brócolis, Tarso?

    às vezes n dá pra racionalizar tanto, né? pois é.

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  • Mayara Farah says:

    então..
    que fique claro que eu não sigo nenhuma doutrina religiosa.. maaas eu acredito em algumas coisas..
    e uma das coisas em que, definitivamente, eu acredito é que viemos nesse mundo para evoluirmos, de alguma forma tentar nos melhorar constantemente, sem os aprendizados, a função de estarmos aqui se perde. Pra mim, o processo é o que nos move, e a quebra de paradigmas é o que dá esse movimento.
    No entanto, discordo da parte que vc diz que quem não faz nada, não erra. Pra mim só o fato de não tentar fazer nada já é um erro, afinal qual o sentido de ficar estagnado, girando em torno de si mesmo?
    Há sim as pessoas que não estão evoluindo, para as quais não importa quantos tapas a vida dê, elas simplesmente não aprendem. E o simples fato de vc racionalizar o seu processo, só o fato de ter consciência dele, de reconhecer seus erros, aprender com eles e de tentar fazer as coisas diferentes, te dá uma vantagem em relação à maioria das pessoas: a percepção consciente da sua vida e de sua evolução enquanto ser humano. Nem todo mundo tem essa percepção, e por isso na maioria das vezes nos decepcionamos quando esperamos a mesma consideração/tratamento por parte das pessoas ao nosso redor.
    Afinal, que graça teria se todos nós fossemos detentores de todas as verdades absolutas? Acredito que a vida nada mais é do que uma busca por nossas verdades, individuais, e é uma busca que nunca acaba, pois ao longo do tempo essas verdades mudam, e isso é evolução (e a graça de toda a história)! =)

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  • Fy says:

    Hy man,

    Ah, eu também fico triste, às vezes, bem triste, com a alma meio maluca, chorona, sozinha,perdida.

    Quem não fica?
    Com TPM então, é tristeza pela tristeza.

    Mas, não tenho nada contra ela não; pelo contrário, ela nos faz humanos, vulneráveis à vida; acende tantas luzes qto a alegria; de quem aliás é filha, mãe e neta.

    Mais q tudo: faz parte da viagem. É bagagem e é caminho.

    E ó, mais que qualquer coisa, ela pede um vem cá bem quentinho, um silêncio morno que aconchega e uma resposta que não se precise dar.

    Bad Day, baby, Just a Bad Day,

    beijo

    <>

    Num de seus livros, Osho diz:

    “Para mim, eis a maior compreensão que o ser humano pode ter: tornar-se deus e, ainda assim, ser parte de todas as coisas deste mundo.

    Quando você puder voltar ao mundo com uma garrafa de vinho na mão, o Supremo está alcançado.”

    outro bj

    Fy

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  • Lucas says:

    Me identifico com o post, muito. Estamos no mesmo barco.

    Tentar puxar as pessoas queridas para evoluírem conosco, quando o que elas realmente querem é ficar estagnadas.

    Dizem: Eu sei o que você está fazendo, eu concordo que é certo, concordo contigo, mas “ainda não é minha hora”. Como assim?

    Você sabe que é certo, você sente que é certo, e mesmo assim não quer seguir em frente “porque não é sua hora”?

    Como você disse, “Pega suas boas intenções e enfia no cu”. De boas intenções o inferno está cheio.

    Às vezes, como nestas situações, o melhor mesmo é não fazer nada. Eu não consigo deixar de ficar injuriado com isso, então, realmente o melhor é não tentar nem puxar ninguém.
    Do nothing.
    Minha gastrite agradece.

    Um abraço.

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