“Ilha do Medo” e “A Caixa” – Contém Spoilers (acho).

June 12, 2010 § 7 Comments

Ilha do Medo (“Shutter Island“) é um trhiller Scorcesiano, estrelado pelo Leonardo Di Caprio, ambientado na Década de 50.

O Investigador Federal Teddy Daniels (Di Caprio) foi designado com seu novo parceiro para investigar o desaparecimento de uma interna em um hospital psiquiátrico situado numa ilha a cerca de cem quilômetros da costa.

Lutando contra seu alcoolismo, seus traumas de guerra, a dor pela recente perda de sua esposa, o Teddy Daniels investiga o hospital, tentando desvendar o mistério que lhe fora proposto e outros que descobriu por conta própria: onde está o assassino de sua esposa e que espécie de experimentos psiquiátricos os diretores do hospital estão fazendo na tentativa de aprender mais sobre o funcionamento da mente humana e como controlar o cérebro.

Scorcese, segundo Ripper, declarou que seu objetivo original era fazer uma homenagem aos filmes noir da década de 50, que, então, não possuíam um gênero específico: eram uma mistura de policiais, suspense, terror e ação.

Na minha opinião, nesse aspecto, Scorcese foi bem sucedido: o filme se revela um bom filme policial, com excelentes cenas de suspense, alcançando, até mesmo, momentos que beiram o terror.

Enquanto assistia, me lembrei muito fortemente de “Twilight Zone” e de seu suspense simples e claro, que não deixa de se resolver de forma elegante e surpreendente.

***

A Caixa (“The Box“), estrelando Cameron Diaz, é uma refilmagem do clássico episódio de “Twilight Zone” (traduzido para o português como “Além da Imaginação”) na qual um casal com um filho pequeno recebe de um homem misterioso uma caixa com um botão dentro.

Segundo o homem, se o casal decidir apertar o botão, eles ganharão um milhão de dólares e uma pessoa que eles não conhecem irá morrer.

O casal reluta por algumas horas e, no final, decide apertar o botão. O homem aparece, entrega uma maleta com o dinheiro, pega a caixa e se despede. Quando inquirido o que ele faria agora, o homem meramente responde: “Agora? Agora eu vou pegar a caixa e entregar a outra pessoa. Uma pessoa que vocês não conhecem.”

O curta original acaba aí, um final, na minha opinião, muito mais elegante e refinado que o final do filme.

É um fato, no entanto, que Hollywood não é famosa por puxar o nível do suspense e do terror pra cima, favorecendo finais felizes a maior parte do tempo.

Recomendo o filme apenas para aqueles que tiverem interesse em comparar a versão da década de 50 com a atual.

***

Em 2007 um site, uma pessoa, um grupo, não importa quem, que se intitula “Cinemassacre” lançou 31 curtas no youtube (um pra cada dia de outubro) em homenagem ao dia das bruxas, contando a história dos filmes de terror.

Cada curta se dedicou a um filme que marcou época, ou a um tipo de filmes:

Vale muito à pena ser assistido.

O que é deixado bem claro no transcurso do filme, é que cada época tem um tipo de filme de terror.

No início do cinema, quando se filmou os clássicos dos filmes de terror, tomou-se como matéria, primeiramente, os monstros clássicos: Drácula e Lobisomem, além de Frankenstein. Deixando de lado os clássicos (que são clássicos porque refletem algo da natureza humana), os temas são quase simples, nessa ordem cronológica: Cientistas Loucos, Monstros e Maldições Secretas, Monstros do Espaço, Epidemias, Assassinos Seriais, etc.

Inicialmente, no começo da década, tinha-se medo da ciência, e dos riscos de “brincar de deus”, depois dos riscos que a curiosidade poderia trazer, dos perigos que viessem do espaço, de doenças que nos transformassem em zumbis, dos monstros que se escondem em nossa vizinhança, etc, etc, etc…

O denominador comum de tudo isso é: o desconhecido. Quando a ciência era desconhecida, tínhamos medo dela. Quando o ESpaço se tornou o desconhecido, tivemos medo dele. Sempre medo do desconhecido.

O Cinemassacre termina dizendo que hoje fazemos apenas refilmagens de filmes antigos, alegando que nossa criatividade acabou.

Discordo. Um tema que temos hoje muito bem desenvolvido é o tema da relativização geral de tudo.

Até a queda do muro de Berlim, era muito fácil identificar o vilão: quem está do lado de lá.

Com o passar dos anos (e de certa forma, com a popularização de Einstein) o vilão deixou de ser simples de se identificar. E qual o grande medo hoje? De não podermos confiar em nada nem em ninguém.

Nem em nós mesmos.

Afinal, não é algo tenso sair do cinema depois de “O Sexto Sentido” pensando “Mas será que eu estou morto?”, ou “Será que isso é real?”, ou “Será que o monstro não sou eu?”.

Como dito pelo Heath Ledger: “Eu quis fazer esse Coringa assustador porque ele é baseado na anarquia e na loucura. E a loucura dá medo.”

Tendência não é regra, tendência é tendência. E os últimos filmes de terror denotam essa tendência: Estamos com medo de nós mesmos porque, finalmente, percebemos que o maior desconhecido está dentro da gente.

E já não era sem tempo.

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§ 7 Responses to “Ilha do Medo” e “A Caixa” – Contém Spoilers (acho).

  • Petite Poupée says:

    Anarco, tira o Frankenstein da sua listinha de filme de terror. Frankenstein é romântico! Repara só. ;)

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  • Karina says:

    Ah, eu assisti a Ilha do Medo!! na semana do O’mallleys, depois daquela divulgação de vcs! Gostei. Mas saí com a impressão de ter perdido alguma coisa. No final das contas, vi que n perdi nada, só fui com excesso de expectativas.

    Legal essa análise. Faz sentido. Mas, pensando agora… “O médico e o Monstro” foge um pouco disso, é meio cá meio lá.

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    • Anarcoplayba says:

      Depende… Cronologicamente tá bem fora da tendência atual… é mais na fase “Os perigos da ciência”.

      Tanto é que, no livro, não se dá muita ênfase ao psicológico…

      Eu escrevi um post sobre a releitura que Moore fez do Médico e o Monstro em A Liga Extraordinária:

      https://anarcoblog.wordpress.com/2008/12/15/dr-jekyll-is-hiding/

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      • Karina says:

        Li. Medo do comentário do Juremeiro rs

        Tem alguma versão mais recente filmada?? só sei dos filmes antigos e do livro, que é no qual me baseio, aliás, pq aos filmes n assisti. E qt ao livro n senti nem um pouco essa falta de ênfase no psicológico. Li faz tempo, mas lembro que mexeu bastante.
        Exatamente por isso falei que é meio lá meio cá… ele aborda cientista louco, monstro, dualidade humana e desconhecido, tudo num pacote só.

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      • Anarcoplayba says:

        Quando eu li.. láááááá atrás… eu n achei tão pesado no psicológico… o que eu lembro era que o Dr. Jekyll estava preocupado é com a poção, que ele não conseguia mais sintetizar e, por isso, ia à forca.

        Vale uma relida, acho.

        Na pior das hipóteses, é um clássico… e o legal dos clássicos é que eles sempre são atuais…

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  • Nina says:

    Os filmes de suspense/terror atualmente estão focados também até onde vai o limite da crueldade humana. Vide jogos mortais.

    E é assustador.

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    • Anarcoplayba says:

      N sei, Nina… tem uma diferençazinha entre horror e terror…

      (http://en.wikipedia.org/wiki/Horror_and_terror)

      Terror é meio que dúbio… indireto. De deixa sem saber. Horror é mais direto. Ilha do medo é terror porque é suspense… Jogos mortais é horror porque causa ojeriza.

      Esse gênero (horror) sempre esteve mais ou menos presente: é só ver os “Faces da Morte”, os “Slasher Movies” da década de 80 (massacre da serra elétrica, sexta feira 13, etc). Enquanto houver gente, enquanto houver medo da dor e da morte, haverá o horror.

      Já o terror é pior: No horror o máximo que pode acontecer é você morrer. No terror você não sabe o máximo que pode acontecer.

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