A Boca.

September 28, 2010 § 3 Comments

Não me lembro se comentei aqui, mas alguns meses atrás decidi estudar o I-Ching.

Quem normalmente já ouviu falar em I-Ching pensar nas três moedinhas que você faz uma pergunta e “vai jogando” até montar um hexagrama.

Quem ouviu falar um pouco mais deve ter ouvido referências às 50 varetas de caule de milefólio, que é bem mais demorado, complexo e legal pra se consultar o oráculo.

Quem se debruçou um pouco mais já deve ter visto que o I-ching é uma representação binária da qualidade do movimento.

Nesse aspecto, o legal do I-Ching é começar a entender o que significam as “letras” que compõe as “palavras”.

Em um primeiro momento temos os tracinhos: traço cheio e traço vazado, que representam yang e ying, respectivamente. Homem e Mulher, Positivo e Negativo, Ativo e Passivo, Duro e Suave, Pincel e Tela, Lápis e Papel, etc, etc, etc.

Usando esses traços se escrevem os oito trigramas, que são os oito elementos do I-Ching, que são apenas representações de conceitos absolutos. É metafórico.

Combinando os oito trigramas temos os sessenta e quatro hexagramas que são, novamente, representações simbólicas de conceitos abstratos.

***

Há algum tempo atrás eu recortei e colei no blog um texto intitulado “Obesidade Mental”, que foi retirado de um outro blog.

Gostei do texto, estava em um momento de aridez criativa, recortei, colei e coloquei a referência ao post original.

Ironicamente, no entanto, meses depois, por intermédio da Karina-Que-Agora-Tem-Twitter-Mas-Não-Tem-Blog, fui informado que o referido texto era uma piada do autor do blog. Ou uma trollagem. Ou um experimento. Whatever.

O fato é que a despeito da trollagem, eu gostei do texto, por isso eu mantive. Por isso e porque eu já li algo semelhante em um lugar que com certeza o autor do texto também já leu.

***

O Hexagrama nº 27 do I-Ching recebeu como tradução a nomenclatura “A Boca” ou “Nutrição”, simbolizando a idéia da boca como caminho pelo qual passa toda a nutrição.

Num primeiro momento, pensamos imediatamente na comida e bebida que ingerimos, o que obviamente é verdade.

Por outro lado, temos que lembrar que “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Nesse momento, Nutrição não é apenas a comida que comemos, mas tudo o que ingerimos.

As músicas que ouvimos, os livros que lemos, os bares que frequentamos, as amizades que cultivamos, o trabalho que fazemos, os blogs que acompanhamos, as notícias que nos interessam, os filmes que assistimos, etc, etc, etc.

É a nutrição imaterial. Nos alimentamos também dos pensamentos e idéias dos outros.

Nesse aspecto a Nutrição também precisa ser balanceada. E, ironicamente, com certa frequência, se trata meramente de “deixar de lado aquilo que não é essencial”.

Não é confrontar. É deixar de lado.

***

No entanto, num canibalismo autofágico, não nos alimentamos apenas do que os outros pensam e falam, mas também do que nós pensamos e falamos. Nesse aspecto, os assuntos que decidimos debater, as conversas que decidimos ter e os relacionamentos interpessoais que decidimos cultivar se revestem de importância capital.

Não se trata apenas do que ouvimos, mas do que falamos e em que pensamos.

Se pensarmos que nosso cérebro é uma maquininha de automatização de processos, aquilo ao que você se acostuma se torna, comumente, um vício.

Se libertar desse vício, por seu lado, é complicado. É mais ou menos como o alcoólatra com alguns amigos de bar. De fato, algumas vezes, alguns conhecidos ligam te chamando pra uma noitada.

Isso invariavelmente me traz de volta à velha quote de filme:

“The Matrix is a system, Neo. That system is our enemy. But when you’re inside, you look around, what do you see? Businessmen, teachers, lawyers, carpenters. The very minds of the people we are trying to save. But until we do, these people are still a part of that system, and that makes them our enemy. You have to understand, most of these people are not ready to be unplugged. And many of them are so inured, so hopelessly dependent on the system, that they will fight to protect it.”

Ou ainda em tradução livre de Blake: “Preciso criar um sistema para não ser escravizado pelo sistema de outra pessoa.”

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§ 3 Responses to A Boca.

  • Petite Poupée says:

    Tá dizendo que é preciso abrir a boca e esperar? ^^

    Qt a confrontar…Cara, todas às vezes que eu parti para o confronto me dei mal, e muito mal. Sabe por que Anarco? Porque o Sistema é cruel…e talvez deixar de lado seja limitar e limitar-se, não? viajei? é possível…

    Alimentar-se é educar-se.

    Educar é tirar de dentro.

    Vc se esqueceu de uma parada: a gente também se alimenta de sentimentos. Não é raro eu me envenenar com os meus. Eu sei que preciso educar meus sentimentos. Eu estou tentando…

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  • Karina says:

    Da mesma forma que o vício aprisiona o viciado, nossas ideias, qd assumem esse caráter de vício, tb nos aprisionam. o perigo de se aferrar a uma ideia/ideologia/preferência é que o indivíduo acabe se apegando mais à convicção de tê-las do que ao objeto em si.

    então penso que uma alimentação balanceada não signifique deixar de lado certos “alimentos”, mas priorizar aqueles que o corpo e a mente exigem em maior quantidade. Pq até o que imaginamos ruim tem sua função, vide as gorduras. em excesso, fazem mal. na medida certa, trazem equilíbrio ao organismo.

    Tb gostei muito daquele texto, tanto que meses depois voltei a ele. E tb n deixei de gostar, mesmo pq o artifício do cara para corroborar a msg foi bacana. só fiquei meio frustrada.

    Karina-que-agora-tem-twitter-até-não-se-sabe-quando

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  • Nina says:

    Por essas e outras que as vezes é necessário fazer um jejum.
    Silenciar a mente, para poder ouvir.

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