Um Epílogo Sobre Política.

November 3, 2010 § 3 Comments

Ok, o resultado esperado chegou, a Dilma foi eleita, o programa do PT vai continuar, e la nave va.

Sinceramente? O maior resultado dessas eleições foi me fazer ficar puto com o Serra/PSDB.

Sério. Eu cogitei anular meu voto esse domingo.

Eu votei no PSDB por uma proposta de austeridade fiscal e diminuição dos gastos públicos. Vira a ANTA do Vampiro Anêmico e promete aumentar os gastos (e depois vai fazer promessinha pra produtor de tabaco que ele tanto combatia), sério: não dá pra defender ou fazer campanha pra uma ANTA dessas.

“Porra, Serra? Você quer me foder? Então me Beija!”

Fora isso, num nível geral, o país está dividido, virou algo muito próximo de um “Norte Contra Sul”, ou Vermelhos contra Azuis, algo que me incomoda.

Porém, se a alternativa é todo mundo concordar contra a vontade, melhor que exista conflito mesmo.

Ou seja, no fim, um dia depois do outro, as coisas mudam, mas o que realmente importa continua o mesmo: pessoas vão nascer, viver e morrer, e de um fractal de Microcosmos vamos pintando o Macrocosmo.

“Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.”¹

Por outro lado, foi a Eleição de redescobrimento da função do Voto.

O Voto de Protesto não existe mais. Um partido da coligação do PT (que coincidência que não foi o PT, mas foi algum partido que não tem “imagem” a zelar) escolheu a dedo um palhaço pra ocupar o lugar do Enéas. Resultado? cinco deputados a mais para a base aliada (coisa que faz MUITA diferença para as reformas mais difíceis, como as Constitucionais).

Os votos Brancos e Nulos ultrapassaram os 15%, ou seja: 15% dos eleitores desse país se mobilizaram até a urna para falar que não possuem opção. Tá certo, essa falta de opção pode ser tanto ideológica quanto por incapacidade intelectual de coordenar uma escolha racional (“político é tudo igual mêmo”).

Outra descoberta é que, aparentemente, as pessoas perceberam que se abster de votar, com ou sem justificativa, não pega nada. Não é nem R$ 5,00 de multa. Nosso voto é obrigatório, mas nem tanto, pelo visto.

E nisso vem o último tópico, que é o mais importante desse texto, e que me deixou boquiaberto e impressionado, está, basicamente, nesse texto aqui.

Sério, dêem uma lida. Vale à pena.

O texto fala sobre um monte de coisas, mas ele pincela sobre um aspecto que eu achei interessantíssimo e que eu não sabia (não vi durante a faculdade, ou é algo moderno mesmo), e afirma que o fundamento da democracia não é a Vontade, mas o Consentimento.

Ou seja: o Estado não manda em você porque você QUER, mas sim porque você DEIXA.

Não vou me alongar aqui. Leiam o texto, mas é um aspecto interessantíssimo e levanta diversas questões mais ou menos preocupantes: O Estado faz o que QUER, se deixamos, ele está legitimado.

O Presidente (no caso, a Presidenta) não obtém sua legitimidade do recebimento dos votos da maioria, mas sim da omissão da maioria.

Porque quem se omite, consente.

Eu não sei se sou só eu, mas perceber esse aspecto novo para mim, essa nova tese que explica o mundo em que vivemos coloca tudo sob uma nova perspectiva para mim me deixa quase eufórico.

E traz algumas considerações a serem esmiuçadas no próximo post.

(Porque inspiração é assim: numa ora você não sente nem vontade de escrever… na outra os textos se tornam irrefreáveis.)

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§ 3 Responses to Um Epílogo Sobre Política.

  • Karina says:

    Mas onde está a novidade no fato de que o fundamento da democracia seja o consentimento? Se não podemos escolher livremente quem nos representará, é óbvio que não podemos expressar integralmente nossa vontade, certo? Nosso poder é limitado a partir do momento em que tudo que nos cabe é votar em um(ns) dos candidatos disponíveis, sem que necessariamente sejam os candidatos que desejamos. Se não tenho o poder integral de escolha, o que faço é apenas consentir que fulano, que apresenta uma proposta mais palatável, seja meu representante. Ou, numa perspectiva mais ampla, consentir que a maioria escolha meu representante.

    E vc tb diz que o Estado detém o poder por consentimento nosso. Ok. Não concordo é que isso exclua a ideia de que o Estado detém o poder porque isso seja, também, desejável para nós (o Estado não manda pq vc quer, mas pq vc deixa).
    DEIXAMOS o Estado mandar porque QUEREMOS um poder regulador, pq identificamos que essa é a maneira de preservarmos nossas próprias vidas e “liberdades”, como defendem as teorias que o autor tb aborda logo no início.

    E daí pulamos para o outro ponto: “o Estado faz o que quer, se deixamos, está legitimado”.
    Antes de tudo, uma coisa é legitimar a constituição do governo (nas eleições), outra é legitimar o exercício do governo.
    Então vc parte de uma premissa verdadeira (se deixamos o Estado praticar tal ato sem nos opormos, legitimamos) para depois concluir que a legitimidade do presidente eleito tb advém da omissão, não da opção. Não concordo. A legitimidade dos representantes advém dos votos da maioria, sim. Mas é claro que a democracia contém o efeito colateral de que nela sempre vai haver tb uma minoria descontente. São os ônus e bônus.
    No meu entendimento, a omissão quanto ao exercício do poder é que pode ser considerada uma forma de legitimação, mas não a omissão quanto à formação do poder. Apesar disso, concordo que omitir-se numa eleição seja o mesmo que consentir que o candidato escolhido pela maioria seja nosso representante. Até pq não resta outra alternativa à minoria senão consentir com a escolha da maioria. Mas consentir não significa aprovar, gostar de. Quem aprova é quem vota nele.
    Enfim, não entendo legitimação e consentimento como equivalentes.

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    • Karina says:

      hum, sim… 2 horas depois, acabo de captar o que quis dizer com o lance da omissão.
      Mas… assim é a democracia. Com sua ilusões todas.

      Omar Sharif disse numa entrevista que o melhor regime haveria de ser uma ditadura de deus – tomado como bom e justo e sobre cuja bondade e justiça não pairassem dúvidas.
      Não sendo possível… democracia, aqui continuamos nós.

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      • Anarcoplayba says:

        Envelhecer é uma merda… mas a alternativa é pior.

        Democracia é uma merda… mas a alternativa é pior.

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