Contos dos Irmãos Grin.

December 3, 2010 § 9 Comments

Era uma vez, há muito tempo atrás, em um reino muito distante, um Príncipe.

Esse Príncipe era filho de um Rei e de uma Rainha, e era o herdeiro do trono, pois era o primogênito, apesar de possuir um irmão menor.

Este Príncipe, como todos os príncipes de seu tempo, foi educado pelos melhores professores e mestres que o reino possuía e, dentro do devido tempo, crescia em beleza, inteligência e sabedoria.

Talvez o problema fosse toda a inteligência, ou toda a beleza, ou toda a sabedoria, mas o convívio com a côrte e os cortesãos o entediava.

Para ele, não havia qualquer sentido em toda aquela pompa e circunstância: Para quê as caçadas, os bailes, os jogos e o que mais inventassem?

Inicialmente pensou que seu problema fossem os cortesãos, mas posteriormente foi assaltado pela triste certeza de que não se tratava de tédio direcionado aos cortesãos, mas sim à côrte.

“- A vida não pode ser só isso.” – murmurava – “Tem que haver algo mais.”

O Rei e a Rainha, cada vez mais preocupados com seu primogênito, discutiam o que fazer:

“- Ele precisa de Disciplina!” – Urrava o Rei.

“- Ele precisa de um Amor!” – Sugeria a Rainha.

E todas as saídas e remédios e poções eram tentados sem sucesso, até o dia em que chegou a notícia de que um peregrino pelo reino passava.

O Príncipe imediatamente requisitou que o dito peregrino fosse trazido à sua presença, o que, por ser inesperado, assustou o Rei e a Rainha.

O Peregrino, trazido à presença do Príncipe, foi por esse sumariamente questionado:

“- De onde vens?”
“- Venho de uma vida que há muito abandonei.”

“- Para onde vais?”
“- Para o mesmo lugar para o qual todos caminhamos.”

“- Por que abandonaste sua vida e partiste em uma busca sem horizonte?”
“- Abandonei minha vida, ó Príncipe, porque o que eu tinha não me satisfazia, e a vida precisava ser algo maior. Deixei para trás toda minha vida e hoje me dedico a viver como um peregrino: Durmo onde encontro um teto, como onde encontro comida, vejo mundos que sequer imaginava: Já vi um reino onde pássaros com olhos de rubi cantam como violinos, já vi mares em que da espuma das ondas emana o perfume de rosas, já vi pestes que ceifam a terra e pragas que a limpam. E agora vejo um Príncipe que tudo tem, mas nada quer.”

O Príncipe calou ao ouvir aquelas palavras.

Por sete dias e sete noites pensou, e ao final de tal período, chamou o Rei e a Rainha e manifestou a intenção de deixar o castelo e sua vida.

O Rei, sabendo que de nada adiante um herdeiro irresignado, e a Rainha, sabendo que a felicidade raramente é compreensível, acataram o pedido do Príncipe, mas avisaram:

“Para toda a côrte e todo o reino, diremos que você faleceu de doença. Seu irmão será o herdeiro e esta vida estará encerrada para você.”

Sem hesitar, o Príncipe aceitou e, naquela mesma noite,  abandonou o castelo.

O que aconteceu a partir de então, é objeto das mais variadas especulações. Lendas de que ele foi visto nos mais distantes reinos, nos mais profundos bosques e que viajara pelos mais distantes mares surgiam aqui e ali.

O fato é que o Príncipe não carregava mais do que a roupa do corpo, não comia mais do que o que necessitava, e não almejava mais do que pudesse carregar.

Algumas lendas dizem que o jovem Príncipe, já não tão jovem e nem tão príncipe, no final de sua vida, passou a residir em uma caverna, onde os habitantes de uma pequena vila ocasionalmente iam para visitá-lo e oferecer-lhe comida, até o dia em que o Principe, efetivamente, envelheceu e morreu.

***

As lendas terminam aí, embora diga-se que, uma vez, um velho louco ouviu de uma jovem criança que conversava com um bem-te-vi que jurava ter ouvido de um anjo que, no dia de sua morte, o Principe chegou nos portões do céu e pediu sua entrada, que lhe foi negada pelo Guardião que lá estava.

O Príncipe, inconformado, teria argumentado:

“- Como negas minha entrada? Eu fui pio, justo, abnegado, humilde, bom, respeitoso e caridoso! Nunca roubei nem matei! Vivi com parcimônia e sem excessos, nunca fiz mal a ninguém! Louvei a deus todos os dias e apreciei a beleza de sua criação! Dê-me um bom motivo para que eu tenha minha entrada negada!”

“- Oras, meu jovem: Foste um sábio peregrino, mas o que o mundo precisava era de um Rei.”

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