Mr. Kronos, Welcome Back! We Missed You!

January 13, 2011 § 1 Comment

“E aos 29, com o retorno de Saturno, decidi começar a viver.”

Saturno é o mais distante planeta visível ao olho nú, e o mais lento de todos. Os antigos Caldeus classificavam os planetas em ordem crescente de “Poder”, baseado na demora dos planetas para dar uma volta ao redor da Terra. A Ordem era algo como Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Tá, beleza, Sol e Lua não são planetas, são satélite e estrela, mas tentem entender: Pra eles, tudo que anda é planeta.

Só estrelas, que eram os heróis mortos, que ficavam quietas no lugar.

Acho que nunca é demais, né? Só quem morre permanece imutável. O que é vivo muda.

Por ser o planeta mais distante da Terra para os antigos, Saturno era o Guardião dos Limites. Aquele que reinava sobre os términos.

(Não é difícil entender que eles sabiam a distância em razão da demora pra dar uma volta ao “sol”, né? Quer eles fossem heliocentristas ou não, é indiferente: tudo é uma questão de perspectiva.)

Da observação da natureza, derivou tudo o que sabemos sobre Kronos, o Senhor do Tempo e dos Limites. Seu metal é o chumbo.

Está acima mesmo de Júpiter. É aquele que termina. Acaba. A representação clássica da morte (com a foice nas mãos) é Kronos (originalmente era a foice em uma mão e a ampulheta em outra).

Saturno demora cerca de 29 anos para completar uma volta ao redor da Terra. Ou do sol. É irrelevante. Sério.

Entre os 28 e os 30 todo mundo passa pelo dito “retorno de Saturno”. Basicamente é um período no qual o Saturno Objetivo (o que tá no céu) coincide com o seu Saturno Subjetivo (que está no seu mapa astral). É uma fase na qual se espera uma retração, consolidação, término de uma fase da sua vida, e início da uma segunda, sob novas responsabilidades.

Dizem que varia de pessoa para pessoa. Eu gosto de pensar que pessoas que já sejam responsáveis sofram menos. Não sei.

De qualquer forma, não é sobre astrologia que eu quero falar.

Saturno é um planeta meio complicado de se entender. Os astrólogos tradicionais chamavam ele de “Grande Maléfico”, obviamente em razão do seu papel restritor, assim como Marte era o “Pequeno Maléfico”, por representar a agressividade e a sexualidade, coisas que todos sabemos que são pecados e vão nos mandar pro inferno.

Ah, peço desculpas se parece que ainda estou falando de astrologia. Não estou.

Não estou falando do Planeta Saturno. Estou falando da Idéia Saturno.

Os astrólogos medievais que ainda existem mantém a tradição de chamar Saturno de “O Grande Maléfico”, e criticam os astrólogos modernos por terem pasteurizado e relativizado tudo. Pessoalmente, eu devolvo a crítica por dois motivos:

Falar que a casa 6 é a casa do gado pequeno e dos servos. Cara, pelamor, atualiza os seus conceitos. Ninguém tem servos e gado pequeno desde, sei lá, 1600 e perdi meu garfo.

E, mano, vocês tão falando de um PLANETA. Falar que um planeta é malvado ou bonzinho é querer atribuir uma qualidade humana e relativa a algo que não é nem humano e nem relativo.

Mas ainda não é isso.

Saturno é o Senhor dos Limites. Aquele que guarda os finais. Aquele que abençoa o trabalho encerrando-o.

Sim, pois a parte mais importante de algo é o final. O Término. Quando a proposta foi atingida. Quando Intenção e Resultado Coincidiram.

E não, não estou falando em termos humanos de começo, meio e fim. Estou falando que trabalho que não tem fim, não tem fim. Estou falando que tudo o que tem um começo, tem um fim, nem que seja o fim de um ciclo para se iniciar um novo.

E Saturno é o Senhor dos Fins. Dos Términos. Da Colheita Madura (sim, lembra da foice?).

Mas eu ainda não quero falar do Planeta. Percebem que o Planeta aqui é uma metáfora para uma idéia única e exclusivamente porque o nosso cérebro ainda não está apto a entender conceitos abstratos? O Deus Saturno existe. Não significa que você vá encontrá-lo por aí, andando com uma foice na mão. Ele é uma idéia, real porque nos afeta. É um conceito.

Eu gosto de pensar na nossa existência como uma função matemática. Você começa com uma existência constante. Vai ganhando variáveis e complexidade e se tornando funções de primeiro, segundo, terceiro grau. Literalmente como um programa de computador.

Durante um tempo você meramente reage. Depois de um tempo, você adquire algo que é lindo: capacidade de auto-programação: você vai complexificando a sua programação, adicionando variáveis até atingir o que nós entendemos por inteligência. Com sorte, existe uma espécie de consciência adiante, mas não dá pra saber por enquanto.

E quando eu comecei a escrever esse texto eu queria, de alguma forma falar sobre essas mudanças de função. Sobre esse acréscimo de complexidade. Sobre mudança.

Porque toda mudança é uma morte. A morte de quem você era para o nascimento de quem você passou a ser.

E é por isso que as pessoas relutam em abandonar aquilo que são. Porque é um teste. Um salto de fé. É sair de um lugar quentinho onde você tem tudo o que precisa (embora um pouco apertado) pra um lugar que você não sabe o que vai ter. Mano, pode ser até que você tenha que usar umas coisas que até então eram desnecessárias.

Pulmões, por exemplo.

E mano, você nasce chorando. Mudar não é gostoso. Se pá é por isso que as pessoas falam com um sorriso no rosto “Caramba, você não mudou nada!”

O problema do apego (a qualquer coisa, mas especialmente o apego mais nocivo que existe: o apego a si próprio) é que ele é antinatural. Nada foi feito para ser eterno. Tudo é transitório. Tudo nasce, cresce e se transforma. Tudo nasce, morre e alcança o Nirvana. A Verdadeira Paz só é alcançada abandonando-se todo o sofrimento. Todo o sofrimento vem do conflito entre desejo e realidade.

O apego a quem somos procura impedir algo natural e inescapável: A mudança.

É como querer parar a órbita da lua ou do sol. Mas a Lua e o Sol são rápidos. Em 28 dias se repete a Lua. Em 365 dias se repete o Sol. A Mudança Constante torna-se a oposição da própria idéia de mudança: Como pode a mudança ser constante e repetitiva?

Mas Saturno… Saturno é lento. Demorado. Silencioso. Chumbo.

E todo o barulho é relativo ao silêncio que o precede.

E essa é a grande ironia: para alcançar a suprema liberdade de se modificar é necessário, primeiro, se deixar mudar.

Insanidade é acreditar que fazendo as mesmas coisas de sempre algo vai mudar.

Somos funções de existência. Processos. Recebemos estímulos e apresentamos reações.

Nossa dita identidade nada mais é que uma dezena (ou centenas) de pontos em um plano a partir do qual podemos traçar com mais ou menos precisão nossas funções de identidade.

A mudança na função, por mudar o processamento, muda o resultado. Muda os pontos.

Porém, algo me diz que se mudarmos o resultado, à Força, mudamos igualmente a função.

Tô testando. Por enquanto deu certo. E àqueles que eu gosto, recomendo.

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