Tédio.

May 12, 2011 § 14 Comments

Tédio: s. m. Sentimento de apatia ou falta de estímulos. Desinteresse. Enfado.


Porque é uma merda falar algo que já falaram antes de você…

E porque como todo texto que vale à pena ser escrito, a relação entre título e texto é nula.

Caro amigo, há muito não conversamos.

Sei que esta missiva, assim encaminhada, pode transmitir uma idéia deveras enganosa, a de que, talvez, esse missivista esteja sendo atacado pelo monstro de monocor pelagem, monotônico rugido e repetitivo movimento.

Nada mais longe da verdade.

Anseio por essa missiva compartilhar convosco o que a ausência que se faz presente me esclareceu a respeito do tema ora lapidado, da natureza humana e dessa força, talvez a mais criativa existente.

Nosso acima destacado amigo escreveu um longo tratado sobre o Tédio que ora me abstenho de citar.

Não perca seu tempo: leia o original. Não permita que meus olhos nublem a sua visão.

De minha parte evitarei citá-lo para não correr o risco de pretender para mim a laura alheia, ou ainda de resumir o que não se resume.

Da mesma forma me furtarei a comentar ou resumir os últimos capítulos da história desconexa e salteada que a mim foi confiada na forma de capítulos de um livro lido dentro de um romance, o que demanda o exercício consistente na leitura de um livro dentro de um livro, tarefa que pede a desconsideração voluntária e arbitrária de palavras em virtude de uma razão que, tal qual uma progressão matemática, só se torna aparente ao se observar o todo ou, ao menos, a relação entre as partes.

Não, meu amigo, não quero relatar as palavras alheias, mas sim as minhas próprias, fato que me põe em uma situação embaraçosa: como posso pretender a autoria de palavras que, com toda a certeza, existiam antes de mim?

Como posso pretender o mérito criativo de enfileirá-las?

De qualquer forma, justa ou injustamente, sou coagido a fazê-lo por essa força irresistível, e, sabendo-se que não sou inamovível, não estamos diante de qualquer paradoxo.

E o que me compele a escrever no presente momento é o Tédio.

Não pense que me contradigo.

Escrevo este texto não porque me encontro entediado agora, mas um dia estive.

E um dia estando entediado, aqui outrora escrevi. E, tendo escrito, e ainda havendo uma linha abstrata a unir os elos, não como uma corrente, mas como um colar que une distintas pérolas, ora continuo.

O Tédio é fruto da ignorância.

Não afirmo que a cura para o Tédio é a cultura ou a informação. Pode ser, mas por via oblíqua.

Afirmo, no entanto, que apenas está entediado quem é ignorante.

E afirmo isso porque o Tédio é uma vontade de algo que não se sabe.

Sabendo-se o algo, transmuta-se o Tédio em Desejo.

Tédio é um desejo de canto de olho.

Perceba que nada advém ex nihil. Nada vem do Nada.

É impossível que o Nada gere o Tédio e que esse Tédio gere movimento.

Tal afirmação seria admitir que a ausência de causa gerasse consequência, paradoxo lógico em si.

E devemos saber que a busca por novas razões não implica no abandono da Lógica: Essa permanece, apenas se mudam as premissas.

Sabendo-se que a ausência de causa não pode gerar consequência, faz-se necessário questionar qual é a causa do Tédio. Qual a causa desse sentimento que advém da ausência de causas?

Se não existe causa ambiental para a dita reação, a causa, por exclusão, encontra-se na cobaia.

Acaso pretendo afirmar que na alma humana existe uma predisposição volitiva para a mudança?

Sim, pretendo.

Pretendo afirmar que nenhum ser humano se satisfaz pela mera repetição indefinida de definidos fatos.

Pretendo afirmar que todos anseiam por algo a mais, por algo novo, pelo próximo passo, qualquer seja esse próximo passo: a próxima trepada, o próximo amor, o próximo salário, o próximo estágio da Vida…

Não afirmo que os homens são iguais, posto que nada do que vejo me sugeriria tal afirmação. Afirmo, porém, que da diversidade vem a igualdade e que os diferentes desejos, embora diferentes, são igualmente desejos.

Pretendo afirmar que esse é o blueprint da alma humana: essa propensão estrutural à busca do próximo passo, esse olhar fixo no degrau à sua frente, essa impossibilidade de olhar pra trás, dificuldade de olhar para os lados e olhar naturalmente paralelo na fronte.

E as retas paralelas se encontram no infinito.

Abraços saudosos,

Anarcoplayba.

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