Que o Céu Não Caia Nobre Nossas Cabeças!

March 6, 2012 § 4 Comments

Quem conhece a obra de Asterix, o Gaulês, sabe que se existe uma coisa que a pequena aldeia de anabolizados guerreiros que tomam a poção mágica teme é que o céu caia sobre suas cabeças.

Legiões romanas? Bring it on. Vikings? Pfft. Bretões? Um passeio no parque.

Yet, eles têm medo de que o céu caia sobre suas cabeças.

Essa piada criada pelos autores da obra, conquanto eu não saiba se possui relevância histórica precisa, pode ser considerada, no mínimo, uma releitura de um medo real de alguns povos antigos.

Efetivamente, boa parte dos povos ditos atrasados ou primitivos possuíam alguma crença nesse sentido: que o céu caísse sobre suas cabeças, que a Lua derrotasse o Sol num eclipse, que Rá fosse derrotado por Seth durante a Noite, etc, etc, etc.

Obviamente, com o passar dos séculos e do racionalismo, com a descoberta do mecanismo astronômico do sistema solar, esses medos foram invariavelmente suplantados. O Sol não é um falcão de ouro que enfrenta o Deus Serpente da Escuridão. O sol é uma bola de gás incandescente. Period.

A transição de uma mentalidade para a outra foi acompanhada de uma dessacralização: o Sol nascer todos os dias era um milagre e uma vitória da vida sobre a morte que merecia a celebração e a alegria. Hoje é algo um pouco mais relevante do que piscar, sendo levemente jocoso até mesmo a idéia de que as pessoas pudessem comemorar o nascer do sol como o sucesso de algo que era incerto.

O problema é que a dessacralização, nesse exemplo específico, é incoerente com todo o pensamento científico.

Isso porque é a base de todo pensamento lógico que não existe indução em uma série de eventos independentes. Da mesma forma que a chance de uma moeda ideal dar Cara é sempre 50% (independentemente de os 50 lançamentos anteriores serem Coroa), o fato de que até hoje o Sol nasceu não indica que o sol nascerá amanhã.

E não, eu não pretendo falar que o sol não vai nascer, nem nada do gênero.

O ponto, no entanto, é que nossa vida é menos racional do que imaginamos. Oficialmente falando.

Todos sabemos que indução é impossível, mas quando vamos fazer um empréstimo no banco, analisam nosso histórico. Se cometemos um crime, avaliarão se temos “bons antecedentes”. Trabalhamos acreditando que o salário será pago no fim do mês. Deixamos o carro com o manobrista. Depositamos nosso salário no banco porque sabemos que ele vai ser guardado e devolvido.

E quando aparece um Maddof, ficamos chocados.

Isso porque estamos tão acostumados com nossa rotina que acreditamos que temos o controle sobre ela: vamos acordar, trabalhar, comer, dormir. Rinse and repeat. As engrenagens funcionam tão bem que sequer passa pela nossa cabeça que alguém possa jogar uma chave-inglesa no maquinário.

E a grande questão é que esse pensamento, se vivenciado, é suficiente pra garantir a qualquer um uma camisa de manga comprida em um quarto acolchoado: não dá para simplesmente duvidar que o banco vá devolver o seu dinheiro, que o manobrista não vá devolver seu carro ou que o sol não vá nascer.

Mas talvez seja possível agradecer ao Sol por nascer e não ficar tão chocado quando arremessam um bebê pela janela.

§ 4 Responses to Que o Céu Não Caia Nobre Nossas Cabeças!

  • Lívia Ludovico says:

    Nobre Mané, o dia no qual certas atitudes não me chocarem, estarei anestesiada, de mim mesma! ;)

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  • Karina says:

    E diante desse imponderável da vida fica a questão: viver profundamente ou superficialmente, as pessoas, os acontecimentos, os dias…?

    só se desilude quem se deixou iludir.

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  • Bruna says:

    Viver superficialmente é negar a vida. O velho niilismo: não chorar, não sofrer, não ficar triste, não morrer. Permanecer tudo fixo, estático, eternamente feliz.

    A vida é pra ser vivida com toda intensidade do mundo. Lei do eterno retorno de Nieztsche.

    A dor, a desilusão faz parte da vida. Negar a dor, é negar a vida. Assim como há vida na morte, há morte na .vida

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