O Corvo.

July 23, 2012 § 13 Comments

Eu costumo dizer que arte é toda a manifestação humana criativa que almeja a transcendência, entendendo-se como transcendência aquilo que atravessa a fronteira do subjetivo.

Nesse sentido, se a obra alcança poucas pessoas, possui pouca transcendência. Se alcança várias, possui muita. Se transcende gerações, bem, é um clássico.

É uma definição simples mas que (talvez por isso) me satisfaz.

***

Há cerca de dez anos entrei em contato com uma das coisas mais tristes que eu já li na minha vida: O Corvo.

Me lembro que na época, li uma edição de 1994, em inglês, emprestada de um amigo, e doeu.

Doeu porque corvo é sobre desespero. Saudades, nostalgia, culpa, dor e vingança. Sobre perda.

***

No prefácio daquela edição, um amigo do Autor explicou que durante anos viu o Autor dando meias-explicações sobre de onde veio a inspiração para “O Corvo”. Desde uma música do Joy Division a uma notícia no jornal em que um casal teria sido morto por viciados.

E cada uma dessas explicações seria apenas e tão somente meia verdade.

A única verdade relevante era que James O’Barr se descobriu morto por dentro, mas ainda respirando.

E “O Corvo” seria seu grito de desespero.

***

Alguns anos depois (próximo de 2006) eu encontrei a edição brasileira do Corvo. Com um prefácio feito pelo Autor especialmente para o Brasil.

Em tal prefácio ele disse que contaria uma história de sua Detroit, e pedia em troca uma história do Brasil. Uma história de mulheres morenas e de quadris largos. Uma história de riso e felicidade.

A tradução para o português, em geral, ficou péssima.

O Corvo segue uma linguagem poética e de video-clipe. Os desenhos se alternam quebrando a continuidade, enquanto a própria história se recorta e mosaiqueia, apresentando versos, cenas e quadros que, de forma cumulativa, carregam o leitor de um desespero e dor que é linda de tão triste.

***

Em 2011 o Autor lançou uma “Edição Especial”, que possuía extras. Comprei essa edição esse sábado.

Nessa edição o Autor explica algumas coisas a respeito da história e porque lançar uma nova edição ou, como ele mesmo disse “mexer em time que está ganhando”.

Pois bem, o primeiro motivo era porque, nos idos da década de 80 (ou seja, quase 30 anos atrás) eles ainda lidavam com gráficas. E gráficas que imprimiam em múltiplos de 16. Ou seja, seu livro poderia ter 16, 32, 48, 64, ou outr número de folhas que fosse múltiplo de 16.

Originalmente “O Corvo” teria 36 folhas, motivo pelo qual cerca de 4 folhas teriam sido cortadas.

Obviamente, as páginas cortadas foram páginas bem secundárias na história, algo que faz todo sentido do mundo (exceto para os fãs de Renato Russo, que não entendem que se ele não colocou as músicas nos CD’s enquanto vivo é porque as músicas eram RUINS).

No entanto, as páginas adicionais que foram recuperadas acrescentam um sabor adicional à história.

***

Mas o motivo para exclusão de páginas não foi apenas esse. Segundo o Autor, dois outros fatores influenciaram.

O primeiro seria competência técnica. Ele não conseguia desenhar o que ele imaginava, portanto, não desenhou. Teoricamente é o mesmo argumento pelo qual o George Lucas decidiu começar Star Wars pelo Episódio IV. Na época, não havia condições técnicas de manifestar a arte.

***

O segundo motivo é porque “O Corvo” nasceu como uma história de vingança, mas era uma história sobre perdão.

E o Autor precisou de cerca de 30 anos para perdoar.

Porque o perdão é para quem perdoa.

***

Vendo isso eu não consigo deixar de olhar para trás, lembrar de amigos ausentes e amores perdidos, e pensar no quanto o tempo coloca as coisas sob perspectiva.

Umas mais… outras menos… umas em 10 anos… outras em 30 anos.

E que talvez as coisas se resolvam naturalmente com o tempo.

***

Ou que com o tempo a gente simplesmente morre por dentro e pára de sentir, mesmo que continue respirando.

 

 

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§ 13 Responses to O Corvo.

  • juca01 says:

    Melhor do que ler seu blog hj, foi ler o “eu dou para idiotas”… e o estado de putrefação interna é um passo para a transformação então …
    Viu só ? nem tudo é tão trágico assim…

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  • Lívia Ludovico says:

    Tanto tempo sem blogar que vc só poderia falar de… tempo!

    Virar zumbi é fácil, Anarco. É só ser indiferente. A indiferença é a morte do sentir! ;)

    Ps. Esperar um mês pra te ler de novo?… ahhhhhhhhh Maldito tempo!

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  • Karina says:

    “Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.”

    O tempo coloca as coisas sob perspectiva.
    As coisas se resolvem naturalmente com o tempo.
    Com o tempo a gente para de sentir.

    acontece tudo isso e uma coisa pode levar à outra, mas nada disso leva ao perdão.
    penso que perdoar é uma superação que n envolve negar, escamotear ou esvaziar os fatos. envolve enfrentar a situação da maneira que se apresenta e ainda assim vc ser capaz de n sentir mais seu peso. ou melhor: n atribuir mais seu peso à pessoa que a provocou. é valorizar mais a pessoa que o acontecimento.
    se o período segue mas resta alguma vírgula, uma pedrinha que n deixa a sua relação com alguém ser estrada plana… se vc precisa lembrar que esqueceu… então n é perdão. é qualquer coisa que n precisa ser rejeitada, mas perdão n é.

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    • Anarcoplayba says:

      E a ironia é que o perdoante se beneficia mais do perdão do que o Perdoado.

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      • Karina says:

        vc acha? eu concordaria se n estivesse falando de perdão.
        o perdão implica aplanar a relação, e sendo a relação uma interação, via de mão dupla, n entendo por que ambos n seriam igualmente beneficiados. não existe hierarquia no perdão, ele reconduz as partes ao mesmo nível. não é uma concessão, n é condescendência, é perdão.

        se a relação tem essa pedrinha no meio, n será inteira. nem para o que n perdoou e tampouco para o que n foi perdoado. n entendo perdoar e n querer mais perto, entende? isso tem outro nome. perdoar é superar e seguir em frente, mas os dois. e os dois têm que querer. então n receber o perdão dói tanto quanto n conseguir oferecê-lo.

        agora, se eu falo de deixar que o tempo aja… se eu falo de pessoas cujos caminhos n se cruzam mais… se eu falo de vidas separadas sem mais envolvimento… então, sim, aquela pedrinha machuca mais em quem foi vítima. e o que vc chama de perdão eu chamo de compreensão que conduz à redenção. é libertador poder virar a página.

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  • Karina says:

    tá, considerei que o perdão implica que o outro queira ser perdoado. não necessariamente. ok. se a pessoa objeto do perdão n tá nem aí… é… o perdão n precisa acontecer só para preservar o que existe.

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    • Anarcoplayba says:

      Mais do que isso: o perdão é individual. Não adianta nada alguém perdoar se o ofensor não se perdoar… E não faz diferença se o ofendido finge que perdoou e o ofensor já superou unilateralmente a ofensa.

      Não questiono que seja relevante a validação externa… mas isso me parece extremamente secundário diante do perdão interno…

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  • Mais uma vez… Obrigada!

    ;**

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