Episódio VIII – Uma Nova Esperança.

October 7, 2012 § 31 Comments

Scott Adams escreveu há alguns anos um longo texto, interessantíssimo, no qual ele sustenta que Força de Vontade não existe.

No entender dele, afirmar que existe o conceito de força de vontade é afirmar que o seu cérebro funciona de forma diferente  das leis da química, física e biologia, chegando longe o suficiente a afirmar que ofenderia as leis da causalidade.

No exemplo sugerido, é errado falar, por exemplo, que uma pessoa é gorda porque não tem Força de Vontade para fazer um Regime.

O que existiria é uma recompensa diferente para cada pessoa (o termo que ele usa é Payoff).

Uma modelo tira todas as recompensas da vida dela de ser magra e gostosa. Pra ela, privar-se de comer uma torta de limão é algo que vai agregar muito mais prazer (pois ela vai permanecer magra, ser contratada, etc.) do que comer a dita torta de limão.

Já um Advogado, tira as recompensas da vida dele de outras áreas. Concentração, raciocínio, dedicação ao trabalho. Chega no final do dia ele PODE comer aquela torta de limão porque se ele engordar, bem, foda-se. Não é a recompensa que ele almeja permanecer magro.

***

Obviamente, eu acho que a afirmação de que “não existe força de vontade” é meio exagerada, especialmente se pensarmos a Vontade como algo além do desejo, mas ele tem um ponto.

***

Conversando com o Psicanalista, recentemente, ele afirmou que o ser humano se guia pelo Prazer.

Isso é uma afirmação válida, mas eu não gosto. Notoriamente porque a palavra Prazer traz em si um caráter erótico-sensual, quando isso não necessariamente é verdade.

Um engenheiro que sinta prazer em ver seu projeto funcionando não tem, exatamente, na minha opinião, um prazer sensual. Nem um advogado que vence um caso.

No entanto, admito, não é absurdo admitir tal afirmação se pensarmos que o prazer está relacionado àquela sensação agradável, seja ela qual for (dar um presente de aniversário pro filho, p.ex.).

***

Eu acredito, no entanto, que não estamos falando apenas de Prazer, posto que o prazer, enquanto sensação, é um payoff presente.

Não estamos trocando o prazer de ser gostosa pelo prazer de comer uma torta de limão, uma vez que a torta de limão é um prazer real e presente, enquanto o ser gostosa é uma expectativa futura que pode ou não se realizar (vai que dá um problema de tireóide).

Nesse sentido, a troca que ocorre é uma troca do prazer imediato pela expectativa de um prazer futuro.

Por uma Esperança de prazer futuro.

Por uma Esperança.

Pois sim, nada garante que as expectativas se cumpram. Trata-se de uma esperança que pode ou não se cumprir, mas normalmente é uma profecia auto-realizável.

Eu acredito que é possível ser um advogado fodão, então me abdico de dezenas de coisas por isso. Logo, me torno um advogado fodão.

Eu acredito que é possível ser uma modelo gostosa, então me abdico da torta de limão, logo me mantenho magra e gostosa.

***

Fica claro, portanto, que boa parte das escolhas é uma questão de perspectivas e de ideais.

Se eu acredito que, sim, eu tenho condições de economizar dinheiro por meses para comprar um carro à vista, eu vou e faço. Se eu não acredito nisso, eu financio imediatamente.

Se eu acredito que poderei me graduar faixa-preta, eu treino. Se eu não acredito, desencano.

Se eu acredito que eu posso passar num bom vestibular eu estudo. Se não, eu desencano.

Se o que me parece possível é ser aviãozinho de drogas, é o que tem pra hoje. Tá no inferno, abraça o capeta. Eu vou e faço.

Escolhemos o que, dada uma série de fatores nos parece o melhor.

***

Um Professor falou, nos idos de 1999, que a Crise pela qual o Mundo passa é uma Crise de Esperança.

Não temos perspectivas nem ideais, portanto, vamos vivendo de novo celular em novo celular (essa parte final é minha), consumindo como uma forma de satisfazer uma ânsia por felicidade que temos.

É a Esperança que tem pra hoje: trocar de celular.

***

O problema que surge é que, embora seja perfeitamente válido que cada um escolha os ideais que lhe cabem, não é muito legal exigir ou condenar alguém porque possui os ideais que lhe cabem, não os que você escolheu.

Cada um escolhe aquilo que acha mais belo. Cada um oferece aquilo que tem de melhor.

E não se ofenda se te servem brócolis.

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§ 31 Responses to Episódio VIII – Uma Nova Esperança.

  • Gueixa says:

    Ok. Posso e devo não me ofender.
    Mas também posso e devo recusar, agradecendo se for o caso, a oferenda. Se brócolis for algo que eu não aprecio, não gosto e, principalmente, se me faz mal.

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    • Nina says:

      E na elegância da recusa, quem sabe oferecer outros pratos? Ampliar o cardápio desse menu? (sabendo, claro, que o meu menu pode soar como brócolis para o ouvido alheio?)

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      • Anarcoplayba says:

        That’s exactly the point: muito fácil viver na sua elegância gastronômica e não apresentar novos pratos para os outros.

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  • Gueixa says:

    Há oferenda que vem preparada de forma bem sedutora.
    Dependendo do que lhe oferecem, você já sabe que lhe fará mal e por vezes aceita assim mesmo. Depois toma um Eno.
    Pode até oferecer algo para o outro. Aliás deve.
    Mas a vivência nos ensina que dependendo do que as pessoas estão comendo, sua oferta será mera gentileza. A arte é não se ofender com a, sempre possível, ofensa do outro à sua oferta.

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  • Lívia Ludovico says:

    Anarco, todo prazer é sexual, porque somos seres sexuais, ora bolas! :)

    Talvez os anjos tenham um prazer diferente do sexual… como ainda não virei anjo… =)

    Agora, um advogado aumenta muito as expectativas de prazer se não engordar! Fato. ( eu adoro mandar um fato hahahaha =P!)

    Falando sério: eu acho lindo essa questão do prazer… já pensou se a gente sentisse dor pra transar? pra comer? para estar com os amigos? etc. Tipo: vc está numa roda de amigos feliz da vida e, de repente, começa a sentir dor de cabeça, mal estar, ânsia de vômito. Mas não. É prazeroso estar com os amigos. É prazeroso transar. É prazeroso comer… Um esquema divino.

    Papai do céu é muito bom conosco… né não?

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  • Anarcoplayba says:

    Eu acho impressionante que eu sempre dialogo com esse cara. http://www.scotthyoung.com/blog/2012/10/08/why-you-are-lazy/

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  • Karina says:

    “Trata-se de uma esperança que pode ou não se cumprir, mas normalmente é uma profecia auto-realizável.”

    normalmente é uma profecia autorrealizável em relação ao objetivo, nunca à satisfação, né?

    vê como pode ser ainda pior?

    eu imagino que aquilo vá me proporcionar de fato o prazer que… imagino! mas e se não? não é só questão de o imaginado se concretizar, não é só questão de se esforçar ou não pela realização! é que o que penso que vá me dar prazer talvez não me dê. e se lá na frente eu for gostosa e magra e… e daí? putz, deixei passar as tortas de limão para ter ISSO?!

    prazer só combina com o imediato. é o prazer ou não de comer uma torta, versus a vontade(!) de ser gostosa e magra.

    acho que vai ser sempre muito mais uma questão de atribuir valor ao que há de real no presente, mesmo que ocorra inconscientemente: isto que tenho de real e concreto é mais ou menos do que aquilo que existe ainda no abstrato? e sendo abstrato, algo cujo sabor só imagino mas n posso assegurar… no final das contas a pergunta é: quão importante pra mim é o que tenho? não é sobre o futuro, é sobre o presente.

    o Brócolis sempre me volta, tb gosto muito.

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    • Anarcoplayba says:

      Sim, Ká, auto-realizável do objetivo, não da satisfação…

      E sabe que isso é uma coisa que me volta sempre e que eu acho linda? A gente nunca está satisfeito. A gente sempre quer um algo a mais. Hoje é um carro do ano, mas amanhã, ter uma ferrari, nooooossa… ser gostosa? Ser gostosa, feliz, independente, realizada emocional e financeiramente…

      E as coisas vão indo assim, de desejo em desejo, de objetivo em objetivo, sempre procurando um alento que está sempre uma esquina adiante.

      E o interessante é que essa insatisfação independe de classe social ou econômica ou intelectual: é insatisfeito quem tem dinheiro… é insatisfeito quem não tem (eu me questiono pq o Sr. Deputado não se cotnentou com uma fazenda, mas PRECISOU de um CASTELO…).

      E eu acredito e espero que a gente viva de objetivo em objetivo até perceber que, como vc sugeriu (a menos que eu tenha entendido errado) o prazer é um processo presente.

      Você não será feliz quando for magra. Você é feliz sendo uma pessoa magra. Atingido esse patamar, vem o objetivo seguinte. E bola pra frente.

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      • Karina says:

        sim, mas além da ideia de que devo prezar o presente, digo que o prazer é um processo presente pq só é possível falar em prazer enquanto algo vivido. não posso falar do prazer em ter alguma coisa que ainda não experimentei. confiar que vou ter prazer no que está lá distante é confiar que serei a mesma pessoa, com os mesmos anseios, que satisfação é um fator que n dependa de variáveis. como se pudesse delimitar exatamente o que me satisfaz ou não. não podemos. é um descoberta contínua.

        de vez em quando leio o Alex Castro, e hj curiosamente ele fala sobre algo que indiretamente tem a ver com isso, mas diretamente tem a ver com aquele link do Botton, então taqui, o óbvio mais uma vez:

        “(…)se ele dizia que a universidade não o desafiava, então não deveria aceitar os desafios propostos pela universidade, deveria procurar dentro de si mesmo novos projetos pessoais que de fato o desafiassem.

        nada é mais profundamente establishment do que aceitar os desafios oferecidos pelo sistema, se esforçar para ganhar o jogo dentro das regras estabelecidas, conseguir ganhar apesar de tudo e, pior ainda, se deixar exibir como a prova de que, olha só, o sistema funciona!

        verdadeiros iconoclastas anti-establishment não viram a noite tentando ser summa cum laudae.”

        sempre vai ser um exercício de reflexão.

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  • Nina says:

    Talvez as pessoas estejam insatisfeitas porque não são.

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  • Bruna says:

    Lendo o Texto, lembrei do Espinoza.

    Não acredito nisso “tenha força de vontade, faz o que é certo, faz o que é melhor para vc.

    Os AFETOS é que nos movem, mais nada. Mesmo que esses afetos nos diminua, nos piore…

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    • Anarcoplayba says:

      Eu gosto de pensar que, fazendo uma leitura simplista da astrologia e dos mitos, é quando Marte e sua Disciplina casam com Afrodite e sua Paixão que a mágica acontece.

      Afinal, toda deusa do Amor se engraça com todo Deus da Guerra.

      Agora, eu só discordo de um detalhe: Os afetos não nos pioram nem nos diminuem…

      Se você os reprime, é uma porcaria, pq vc está matando uma parte sua que, talvez, seja o que de mais gostoso vc tem pra viver.

      Se você os vive, vc vai colher os resultados… Os bons resultados, que lhe dão prazer, e os mal resultados, que lhe permitem aprender.

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      • Bruna says:

        Para o Espinoza somos movidos por paixões alegres e paixões tristes; as últimas diminuem nossa potência de agir. Quando Espinoza fala em racionalidade, ele se refere na possibilidade ou não de identificarmos essas paixões tristes e, de uma certa forma, fugirmos delas. O problema é que a priori fica difícil identificá-las. Então vamos vivendo, com nossas dores e alegrias e principalmente SEM CULPA. Como diz Nit “amor fati”,ama o teu destino.

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  • Bruna says:

    “Os bons resultados, que lhe dão prazer, e os mal resultados, que lhe permitem aprender”

    Mas, como fica aquele indíviduo que nunca aprende, insiste em repetir aquilo que lhe faz mal? Como se explica? Burrice??? Não, afetos

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    • Anarcoplayba says:

      Por mais simplista que seja a resposta, aí não é burrice, é vaidade ou platonismo.

      Vaidade pq o ser humano não consegue acreditar que talvez ele esteja se comportando de forma equivocada. “Putes, tranquei o carro com a chave dentro. De novo. É a terceira vez essa semana. E ainda é terça-feira. Que azar.”

      Platonismo, por outro lado, é um problema mais complexo. É quando a pessoa acredita que o modelo de mundo que ela possui explica tudo, mesmo que ele tenha falhas e zonas cinzentas. O Clássico é o bonzinho relegado à friendzone: “Se as mulheres gostam de cara sensíveis, companheiros e carinhosos, pq eu fico na friendzone?”

      Então: talvez o seu modelo de realidade seja por demais simplista.

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      • Bruna says:

        “Vaidade pq o ser humano não consegue acreditar que talvez ele esteja se comportando de forma equivocada”

        Não, estou falando daquele que se culpa, sente remorso por ter feito a merda de novo…
        ´
        Mas é muito simples mesmo. Recorro a Nit: Não adianta fugir da tua natureza. Pára de idealizar um ser humano, seja o que vc é. E o que vc é? Um eterno retorno.

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      • Anarcoplayba says:

        Mas remorso é um bom sinal. É sinal de que você reflete sobre seus atos.

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      • Bruna says:

        Remorso é uma DROGA. Herança da nossa cultura judaica-cristã. Me culpar daquilo que eu não tenho controle????

        Anarco, querido, larga o esoterismo, não serve pra nada. Mergulha na filosofia. É uma viagem assustadora, mas libertadora ;-) Bjs

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      • Anarcoplayba says:

        O grande problema, Srta., é que eu não tenho como largar… Tive minha belíssima cota de histórias de fantasmas, e isso vai me acompanhar pra sempre.

        E de certa forma, vc tem toda razão: Você não tem como se culpar por algo que você não tem controle… se você se culpa, é porque você acredita que tem controle. Então temos um problema: será que vc não tem controle MESMO? Ou será que você se superestima?

        =***

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  • Bruna says:

    Agente se culpa porque ACHA que tem controle, mas não temos. Quando entendermos isso, de fato, a vida fica menos pesada. Chega de carregar essa cruz.

    Histórias de fantasmas??? aiaiaiaia, conta aí.

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    • Anarcoplayba says:

      Nah. Não tem graça. Let’s keep it simple: variou de janelas de carro abrindo sozinhas a tomar porrada sozinho no quarto. ;)

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      • Bruna says:

        Sério??? Sabe o que me aflige? Por que essas coisas só acontecem com que acredita? Ou não? Tu passaste a acreditar nos fantasmas, depois de vê-los?

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      • Anarcoplayba says:

        É difícil colocar uma relação de causalidade. Já passei por ambos os lados. Da descrença à crença. Eu prefiro pensar que eu estava num estado de “não descrença”.

        O problema é que acreditar ativamente pode te dar uma experiência falsa. Uma alucinação. A Descrença te exila desse mundo. Um estado de Aceitação é mais interessante.

        É possível que o vidro do carro estivesse com mal contato e baixasse sozinho de forma “natural”? Sim, é. É possível que tenha sido coincidência que isso tenha acontecido quando eu disse que “queria um sinal de que tudo estava bem com ela”? Sim, é possível.

        Agora, a janela baixar quando eu “pedi um sinal” e depois subir quando eu pedi que fechasse… Coincidência demais. Improvável demais. Não dá pra ignorar. Pra mim, isso e mais algumas coisas são a experiência que eu precisava pra aceitar algo além. São as minhas experiências e elas me satisfazem.

        Não dá pra vc viver das minhas experiências. Tem que buscar as suas. SE você quiser.

        Nada garante que você não vai estar alucinando… nada garante que eu não esteja mentindo aqui. Try to relax.

        Não é sobre acreditar ou não acreditar. É sobre permitir ou não permitir.

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  • Bruna says:

    ” A Descrença te exila desse mundo. ” Lendo essa frase, fiquei pensando: a manifestação ou não dos fantasmas dependem da minha crença? Por que eles fugiriam de quem não acredita?

    Bom, na verdade, se crer nisso tudo, viver essas experiências(interpretadas dessa forma) te faz bem, te deixa feliz, aumenta tua potência de agir, então ótimo.

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    • Anarcoplayba says:

      Não é que “eles fogem de quem não acredita”. As suas percepções dependem da sua interpretação. E isso é algo pretty much inconsciente. As coisas estão acontecendo ao seu redor. O tempo todo. O problema é que você não percebe.

      Já viu “Lie to Me”? É sobre uma empresa de pessoas especializadas em detectar mentiras. E o marido da motherfucker detectora de mentiras mente pra ela descaradamente. E ela não percebe. Porque ela não consegue? Não, porque ela não quer perceber.

      Isso vale pra coisas mais simples. Nossas interações sociais estão lotadas de coisas passam batidas. Aquele oi meio muxoxo da sua colega de trabalho, p.ex.

      Mas 90% do tempo a gente está tão focado em uma coisa que deixa o mundo ao nosso redor passar em branco.

      Quer um exemplo legal?

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      • Bruna says:

        “As suas percepções dependem da sua interpretação.”

        Acho perfeita essa frase. Mas não dá para esquecer que ela vale para os dois lados. Adorei o test. Se eu te disser que vi o mostrinho, tu acredita? Pois eu vi.

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      • Anarcoplayba says:

        Acreditável. ;)

        E essa é a grande questão da percepção: é individual. Alguns percebem de cara… outros precisam se esforçar. C’est la vie. ;)

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