A Mais Pura Verdade…

November 26, 2012 § 20 Comments

É que a Verdade raramente é pura.

Talvez a vida fosse mais fácil se assim o fosse. Mais fácil e mais segura, como seriam drogas feitas por laboratórios multinacionais. Cocaína da Merck, MDMA da Bayer, LSD da Schering.

Mas não é.

E a Verdade, como tantas drogas, é mais impura quanto mais intermediários. Um coloca fermento… outro farinha. Outro mistura ainda alguma outra coisa para potencializar o efeito. O vendedor fala que custou mais caro do que realmente custou. Se você não arranja as sua próprias, você fica na mão de quem te fornece. Nunca dá pra confiar 100% em quem te oferece (já que intenções, como verdades, raramente são puras). E ocasionalmente alguém vai preso por negociar por aí sem tomar os devidos cuidados.

Heh. Tanto as drogas quanto a verdade.

No entanto, a Verdade tem muitas vantagens sobre as drogas.

Não falo sobre o risco para a saúde (acho que a Verdade já matou muito mais gente que overdoses), nem sobre a utilidade (posto que a Verdade precisa de roupas de batalha para sobreviver), mas especialmente que é conveniente que a Verdade não seja pura.

A Pura Verdade é rasa. Simplista e simplificadora. Se fosse um mapa, teria apenas duas cores e não teria escalas nem tons.

Porque Deus é devagar, mas o Príncipe das Mentiras, esse é de repente.

Seria a constatação do óbvio. Sabe por quê tanta gente morre de infarto? Porque o sangue pára de circular.

A Verdade normalmente usa “e” e raramente se vale de “ou”. Tem muitas peças e engrenagens. Faces e articulações. Tantas quanto articuladores. E rebolaria como uma passista, não tivesse fobia dos holofotes. Ela está lá fora.

E é melhor não confiar em ninguém.

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§ 20 Responses to A Mais Pura Verdade…

  • Lívia Ludovico says:

    Entendi a analogia. Ocorre que q a Verdade que vem com fios cabelos, pelo de rato, coliformes fecais, etc, não é verdade. É mentira. Um engodo. Não dá prazer, visto q é só ilusão.

    E o filtro da Verdade é razão.

    Então, eu concordo.

    É preferível rejeitar 99 verdades a aceitar uma mentira.

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  • Lia says:

    E isso não apavora mais ninguém? O passinho-pra-trás desconstrutivo ad infinitum?
    Não entendo nem como relativistas se conformam com o absurdo, muito menos como o povo do racionalismo crítico jura de pé junto que a tal objetividade ecziste.

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    • Nina says:

      Será que não estaríamos falando de graus de objetividade Lia? No pouco período que convivi com o que talvez eu possa classificar como racionalismo crítico, eles já percebem (embora com mimimi) a impossibilidade da neutralidade e as reticências da objetividade..

      Quanto a questão da verdade pura, confesso não ter compreendido muito bem as implicações desse conceito… verdade pura, mista, mentira pura, mentira mista..
      Uma verdade pura seria uma verdade sem nenhuma intenção? Haveria a possibilidade da existência de algo sem intenção? Sem direcionamento? Questionar sobre a verdade pura ou não acaba me levando para o conceito do que é verdade, e confesso que trava o sistema. PAN! (sonzinho da tela azul do windows, rsrs)

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      • Anarcoplayba says:

        A Pura Verdades sobre o texto não é uma verdade pura:

        1) Envolve sim, o conceito da inexistência de objetividade; e
        2) Envolve o conceito de que as causas raramente são puras.

        Raramente você pode falar, em uma causa única, simples e direta. Sempre é uma conjunção de fatores.

        Em resumo, o texto é uma crítica ao platonismo de acreditar que o modelo, por ser belo e coerente em si, é verdadeiro. É muito bonito pensar que os planetas fazem órbitas circulares perfeitas em torno do sol.

        Mas eles não fazem. São elípticas. E com variações diferentes.

        Se o modelo, em sua pureza, precisa de tempero, que se mude o modelo.

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      • Lia says:

        Não sei em que habitat terrestre você se encontra, mas essa espécie de racionalista mais moderado não é lá muito endêmica pelo meu canto, fora uns pingados mais adeptos a Kuhn e Polanyi.

        Mas o que nisso me apavora não é a relatividade objetiva em si, é o que ela oferece e o que essa oferta implica em termos de significância.
        Se a verdade é pessoal em variados níveis e não há um compasso unificador, uma única coisa que todos têm em comum sob todas as camadas de construtos sociais e psicológicos, e o valor de qualquer coisa é criado por um agente e reconhecido ou não por outros, então isso não implica numa certa cisão de realidades, onde sua verdade pessoal precisa ser validada por terceiros a fim de que não seja uma ilusão isolada?

        Creio que o que estou tentando dizer é que toda essa subjetividade é esmagadora. Essa completa e plena liberdade (bom, dentro dos limites dinâmicos da sua fisiologia, ambiente e afins) de auto denominar-se pode ser um mecanismo insensível. Pode esvaziar qualquer coisa de significado, ou preencher qualquer outra.
        E como você decide? Como modera esse poder imenso?

        Acho que isso me incomoda porque tenho esse sentimento constante de estar paralisada no farol.

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      • Anarcoplayba says:

        O chato dessa discussão, Lia, é que é muito difícil entrar nela sem apelar pra clichês… Clichês são meio bregas, sim… mas são clichês porque têm algo de verdade.

        Dianta do subjetivismo extremo, em que nada tem valor em si, mas sim uma interpretação de valor, duas saídas (que obviamente, raramente são tomadas de forma pura – posto que a realidade raramente é pura) se apresentam: Tudo é Belo ou Nada é Belo.

        De certa forma, me lembra o “dilema” do ateísmo: “Como alguém pode ser ético sem acreditar em Deus?”

        R: Porque Deus não existe, eu tenho o DEVER de ser ético.

        Acredito que, de certa forma, reconhecer que as coisas possuem um valor atribuído pelas pessoas seja algo, objetivamente, belo (contradição detected, huh?). Afinal, em meu subjetivismo, eu gosto de pensar em cada pessoa como um Eu dotado de uma personalidadem e Vontade que, por mais reducionista que tentemos ser, nunca vamos ser capazes de compreender pelnamente enquanto humanos.

        Quer pela perspectiva ateísta (como um punhado de elementos químicos, de repente, começou a adquirir isso que se chama consciência e passou a refletir sobre si mesmo? De certa forma, somos o Universo se questionando.), quer pela perspectiva Teísta (o Nascimento de uma alma é coisa demorada, não é partido ou jazz em que se improvise, não é casa moldada, laje que suba fácil, a natureza da gente não tem disse me disse), isso que nós chamamos de Consciência ou Alma é um milagre. Sim, mais de seis bilhões de milagres respirando hoje, mas ainda que cotidianos, milagres.

        E a quem eu estou querendo enganar? Eu NUNCA vou conseguir falar isso de forma tão lidna quanto AQUI:

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  • Gueixa says:

    Ou o que existe são interpretações? Meras interpretações…

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  • Bruna says:

    “Para Nietzsche não há factos ou realidades objectivas mas simplesmente interpretações. A verdade absoluta é uma ficção: a verdade é uma mentira a partir do momento em que se pretende absoluta ou objectiva e não simplesmente um modo de ver, uma perspectiva, uma interpretação desse texto complexo que é o mundo.
    Mas o que é uma interpretação? É um significado que é criado a partir da perspectiva em que se coloca, melhor dizendo, que o intérprete manifesta. O platonismo, o cristianismo, são determinadas interpretações da vida e do mundo, correspondem a uma determinada forma de avaliação, tal como, num plano oposto, a filosofia de Nietzsche. A interpretação enquanto avaliação — juízo de valor — que dá um «sentido» e um «valor» à vida, é uma manifestação da vontade de poder, isto é, dessa força vital que, segundo Nietzsche, constitui a pulsão ou instinto fundamental imanente a tudo o que existe. Todas as formas culturais criadas pelo homem são expressões de uma só coisa: a vontade de poder. Contudo, a vontade de poder não é unívoca, isto é, pode assumir diversas formas. Assim, Nietzsche fala de vontade de poder fraca ou negativa (que se vira contra a própria vida) e de vontade de poder forte ou afirmativa (que diz sim à vida).”

    Acho também que é por aí.

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    • Nina says:

      Que é a descrição exata das bases do modelo da terapia cognitiva. Tudo é interpretação. Tua emoção é reação de uma interpretação (mais ou menos consciente). Teus comportamentos são manifestações das suas interpretações. Níveis e níveis de análise. Amo muito tudo isso.

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